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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Rio São Francisco: lembranças dos lados de Pão de Açúcar

Maria Goretti Brandão


Jornalista, Assessora de Comunicação. Foi editora do blog, Ensaio Geral no Portal CadaMinuto, tem publicação no Caderno B do Jornal Gazeta de Alagoas. É autora dos contos, Para Comer, Beber e Dormir Comigo, O Conto das Alagoas, Recife: Ed. Bagaço, 2007, Carlito Lima, Edilma Bomfim, (orgs.). Coisa de Homem, Agosto, À Sombra do Umbuzeiro, Casos e Loas, São Paulo, Gráfica Epitaciana, 2006. Só Para Contar, Zilma e Eu Meio às Penas, À Sombra do Juazeiro, São Paulo, Gráfica Epitaciana, 2008. Buraco de Entulhos, Entre a Vida e o Tempo, À Sombra da Quixabeira, São Paulo, Editora Epitaciana, 2010.

Dois dedos de prosa

           

Este é mais um trabalho da jornalista Goretti Brandão. Campus/O Dia espera que ela nos ajude sempre a manter o sertão em nossas  páginas. Há neste seu texto, uma bela junção entre memória, cotidiano a expressão da sensibilidade sobre um vida e um lugar.


            Gortetti sempre nos trará as cores e os modos do sertão, andando por sua vida e pelo lugar, alinhando sua circunstância com os tempos vividos junto a seu povo.

            Campus/O Dia agradece e convida a todos a ver a vida feita sobre o terreno do encantamento com o tempo e a circunstância no espaço.
Vamos ler!

Parceira, muito obrigado!

Sávio

O rio de São Francisco e o seu Pão de Açúcar
Goretti Brandão.


Rua da Frente

Venho do litoral rumo ao sertão alagoano. Após uma comprida e demorada viagem, cheia de estradas de barro e solavancos e descendo uma longa ladeira que serpenteia a serra, avisto o Cristo Redentor sobre o Morro do Cavalete e as águas azuis do Rio São Francisco que o festejam. Na quentura das três horas da tarde, contemplo o mundo até onde meus olhos alcançam.

A rua principal é uma imensa linha reta, larga e plana e possui um corpo de onde outras linhas, perpendiculares e paralelas, enchem-na de braços e pernas e saem a distribuir casas e gentes. É a Avenida Bráulio Cavalcante, que se estende desde o Grupo Escolar que leva o mesmo nome, até a Cadeia Pública Municipal.

Veste-se majestosa com centenárias e frondosas árvores, que fazem sombra sobre os bancos de suas praças. É a Cidade Branca com sua alma sertaneja, cercada de xique-xiques e mandacarus. Cheguei. Estou à porta de casa. Eis-me aqui em minha pequena pátria, a Terra do Sol, Espelho da Lua, Pão de Açúcar. É assim que começo, abrindo o meu portal de memórias e deixando que elas criem asas.  

A morada da minha infância tem fachada com porta e grade, uma alta, maciça, a outra menor, detalhada e dividida em duas, com postigos e duas janelas. Retorno à visão da casa e nela adentro. Ando pelos seus quartos e salas, seu quintal, seu beco que acompanha em paralelo um corredor estreito, onde um tanque de cimento testemunha nossa vida em movimento.

Ela é grande, simples, iluminada, antiga e de muitos anos antes de mim. Tem cumeeira com telhado bem alto que declina abruptamente, e no corredor quase tocamos os seus caibros e ripas. Duas janelas e uma porta lateral com portais de madeira tosca dispostas neste vão emolduram avencas penduradas e no chão, vasos com antúrios viçosos estão sob o céu azul ensolarado, onde pequenas porções de luz brilham sobre as sombras das folhagens.

Brinquedo espalhado pelo chão, vozes, e eu seguindo a caminho da cozinha, que tem fogão à lenha cuspindo fuligem por todos os lados e realiza em si a alquimia dos nossos afetos. Minha mãe está de costas, voltada para ele e tem um abanador de palha em uma das mãos. Na outra um mexedor de brasas, que ela atiça e estrelinhas douradas saem voando de dentro do fogo.

Sento-me. A velha cadeira de balanço feita de bambus e cordas provoca-me desconforto, que só a saudade o torna, agora, desejável. Aqui, os mais variados aromas penetram em mim. Os doces, as comidas, as frutas e todas as presenças que transitam pela cozinha, tatuam-se nos meus sentidos através dos seus cheiros que os chamarei para mim mais tarde e eles ressuscitarão.

O tempo muda de uma hora para outra. Fecha-se. No inverno as sombras descem sobre esse mesmo lugar e as cores, cinzas, diversos tons enegrecidos e azuis desbotados, constroem um cenário melancólico. É neste canto aqui da casa que vivem o nosso papagaio e uma parreira ocupa-se em esparramar-se e enfeitar minha vista, com pequenos e novos cachos de uva.

Essa imagem dá-me a sensação de estar contida, estática, em memória fotográfica, que quando evocada, aparece da mesma forma e que por essa razão vence o tempo. A chuva vai se anunciando aos poucos. Primeiro a ventania que varre a poeira das telhas e em seguida o pó que cai sobre nossas cabeças.

Vai chover dona Demantina’. Raulina corre para o quintal e tira às pressas as roupas que secam no varal. Volta depressa pela porta dos fundos, derrubando algumas peças entre o quintal e o último aposento da casa. É março e um chover com trovoadas e relâmpagos enche a tarde de sons estrondosos. Tudo parece parar de repente. O barulho rítmico dos pingos d’água principia.

O cheiro de terra molhada invade meu olfato e expira através da minha respiração, uma espécie de magia que constela a presença de outros sentires dentro e fora de mim e algo me desperta para o desejo de que esse instante sobreviva ao tempo, acrescentando-se às páginas de todas as recordações do mundo, para que a beleza dessa vivência nunca se perca e que seja eterna.

Acompanho a música da água sobre o telhado. A mãe da minha mãe, uma grande contadora de estórias e histórias, anuncia que a abóboda celeste está sendo lavada. Descreve com riqueza de detalhes a cena lá em cima, onde Nossa Senhora, dona de casa, celestial, agora de carne e osso e que eu a imagino com lenço na cabeça, igualzinha à minha mãe e a todas as mulheres da vizinhança, determina com sua voz pura e suave, que a limpeza seja feita.

Aos montes os anjos trazem nas mãos suas vassouras, acendem e apagam luzes, arrastam os móveis divinos e despejam sobre a Terra as águas do céu. Os pingos engrossam e as goteiras aparecem. ‘Chega Raulina!’ grita diligente a minha avó, que some e volta às pressas com panelas velhas, baldes e bacias, espalhando-as pela casa quase toda.

Mãe e avó da autora
Nova estação. É um dia de segunda-feira, a claridade do sol chega à janela do meu quarto. Acordo ouvindo o homem que vende vassouras de palha gritando um pregão. Barulho de cascos de animais, rumor de carros de bois, de metal batendo um no outro, um cheiro forte de fumo e o burburinho da feira livre abrem as cortinas desde outro momento que descrevo.

Matutos em idas e vindas para lá e para cá, as duas anãzinhas que sentadas bem próximas uma da outra em seus banquinhos, dispõem à venda suas bonecas de pano em um grande balaio. O colorido de suas roupas me deixa maravilhada e se não é minha avó que me chama, não saio mais de onde estou.

Bêbados trôpegos saem dos botecos, atrapalham-se e à marcha dos transeuntes. Caminho por entre as barracas atravessando a avenida até chegar onde minhas quatro tias-avós, Amélia, Sinhá, Dora e Prazerinha, muito afetivas, vendem cocada, broa, sonho e modinha, sobre uma mesa improvisada com o encosto do banco da praça e algumas tábuas.

Atrapalho-me neste turbilhão de tantas lembranças que se evocam a si mesmas e perco ao tempo sua linearidade. Procuro buscar-me entre os anos como se em mim tivesse guardado pedacinhos de memórias escritas em rodapés de textos ou presas na parte superior das páginas deste caderno empoeirado, onde a vida já escreveu tantos capítulos.


Fecho os olhos e as lembranças inauguram outra cena. Acordamos muito cedo, eu e meu irmão, e estamos vestidos em pijamas de flanela, sentados no batente, e com a porta principal entreaberta. É uma manhãzinha fria de agosto e a rua está coberta por uma espessa neblina. Ficamos em silêncio mergulhados na opacidade que esconde de tudo os seus limites e formas, vendo vultos saírem de dentro dela, como fantasmas vindos do nada. 

De súbito consigo ter a noção materializada do mistério. Ficaremos assim, contidos entre a perplexidade e a fantasia, e estaremos calados vivenciando a sacralidade despejar-se sobre as coisas, até a névoa se dissipar e a avenida revelar-se novamente, longa e definida. Acode-me outra lembrança de um dia de domingo ensolarado.

Estamos em frente ao portão da casa dos meus avós paternos, meus pais, eu e meus irmãos. Do lado direito estende-se um jardim que vai até o quintal, e de lá avança até os pés de um morro cheio de pedregulhos. Duas goiabeiras frondosas, uma com frutos vermelhos e a outra brancos, uma pitangueira e talvez outras que me escapam à memória, ali brilham sob a luz da manhã.

Na sala um comprido banco de madeira está próximo à porta de entrada e compõe um simples e quase harmônico conjunto com o restante dos móveis. Há retratos antigos na parede. Do lado oposto, onde elas formam um vértice, uma rede liga os pontos e cria um ângulo reto. Minha avó tem nela o seu lugar preferido. Izaura Brandão, a mãe do meu pai, é franzina, com feições graves, cabelos grisalhos sempre presos por trás da nuca.

Em ser tão miúda, contrasta com a sua personalidade forte. É uma mulher de curtas, firmes e diretas palavras, que soam sempre como ordens. Ela costuma usar uma saia inteiriça e uma blusa leve. Sobre ela, um casaco vermelho de lã. O seu balançar é bem proporcionado.  Vai e vem, em um ritmo quase perfeito e que não sobra, senão bate-lhe a parede nas costas. A nossa visita é conveniente e sempre se faz breve.

Sobre o meu avô paterno. Todas as tardes ele vem nos visitar. Descansado, atravessa toda a extensão da avenida a passos lentos. Usa costumeiramente chapéu, bermuda e sandálias de couro.  Antes dele, Turco, o seu cão, anuncia-se entrando casa adentro, seguro e tranquilo - um território fora do seu, incorporado aos próprios domínios -, e vai deitar-se aos pés da cadeira onde ele costuma ficar. 

Vovô que tem preferência em estar entre as mulheres da casa, o que o faz muito à vontade, é sempre bem vindo. Sua conversa é descansada e cheia de pausas. Fala sempre sobre coisas passadas ou sobre aquelas as quais os anos tornaram-nas mornas. Sua antiga canoa rio acima, rio abaixo, o calor sufocante do verão, os tempos do plantio e da cultura do arroz ao longo das margens ribeirinhas.

O gosto do café quente. Reclama do suor que lhe desce à testa, e que o enxuga com um lenço que traz no bolso e sobre os parentes vivos e mortos, deles e da minha avó Izaura. Alonga-se nas histórias e conta-as com riqueza de detalhes, personagens, nomes e sobrenomes, sem errar nenhum deles ‘Lembra dona Fulana de Tal, dona Diamantina?’

‘Não estou bem lembrada, Seu Antônio Hilário’ Minha avó recorre à memória, passa a mão no rosto, inclina um pouco a cabeça, ergue a sobrancelha direita e espera. Ele quase se angustia. Ambos esperam. Se falha a lembrança, não há como a prosa andar. O silêncio estabelece-se. Ela, beirando a aflição, entorta a boca, fecha o punho e dá pancadas leves em uma das têmporas e depois cruza os braços bem abaixo dos seios.

E de súbito, lembra. A tensão se desfaz. Meu avô restabelece-se da expectativa e da possibilidade da sua narrativa esfiapar-se e a conversa entre eles prossegue animada, até que outro breve hiato aconteça. É assim todas às vezes. O maior de todos os meus amores e que me ensinou sobre muito do pouco que sei é minha avó materna, que acima contracena com o pai do meu pai.

Nesse momento, cálida e serena, ela está sentada à máquina de costura. É professora de música e por isso fica atenta quando qualquer um de nós aventura-se a cantar. Quando falta à gente, voz, para chegar ao final das melodias, ela antecipa-se e recomenda que façamos um falsete. Encostada à parede, Maria Emília, uma rapariga velha e aposentada do ofício.

No dizer dela, quer despejar em seus ouvidos, todas as novidades que colheu na rua. ‘Quero saber não, mulher. Estou correndo de coisas que me acrescentem mais pecados. Conte a outra. Isso é tentação do inimigo’ e ela desanimada, senta-se em uma das extremidades da mesa, deita a cabeça sobre um dos braços e aceita o café com pão, que a minha mãe vem trazer como consolo.

À memória da minha infância, ainda nela estou, aprendendo encantos para fazer a vida ser do jeito mesmo que será. Das minhas lembranças surge nítido o timbre vocal da minha avó, que sem enxergar direito, mobiliza todo mundo para procurar seus óculos que se esconderam dela e da gente, meninos, nus da cintura para cima.

Temos muitas brotoejas e as costas cobertas de uma mistura de goma e cachaça para aliviar as coceiras que elas provocam. Somos assistentes às agonias de minha mãe que se vexa por qualquer coisa e uma vez ficamos sabendo sobre o meu pai, que saiu a serviço e voltou acidentado, duma viagem inexplicável na companhia de amigos e uma meia dúzia de mulheres alegres.

E que como era previsível, a minha mãe ficou sabendo, entristeceu-se e encheu-se de lágrimas. Outra vez, uma festa de Ano Novo, cuja alegria foi interrompida com a notícia do suicídio do meu primo Zezinho. Eu não entendia como aquilo veio comprometer a beleza do meu vestido de cassa azul com gola branca, incompleto, sem o belo laço vermelho. Minha mãe, brusca, o arrancou sem nenhuma justificativa. Que tem ele a ver com a morte?

Passa-se algum tempo. Estou viajando no banco de trás de um automóvel que faz a curva estrada de barro afora. Em meio à secura da vegetação, o clima hostil, olho dois meninos barrigudos sentados no chão, e que à minha passagem, também me olham. Parecem dois anjos sujos e sem asas, protegendo um cachorro vira-lata, que se passa por protetor deles.

A visão traz-se à memória outra memória, anterior, de uma espetacular paisagem, onde há na imensidão da terra nua e ocre, a única árvore florida. Toda amarelinha, sem uma folha sequer. Só flores. Uma craibeira. A sua beleza entra pelos meus olhos e deixa a minha alma agitada de tanto amarelo. Meu coração enche-se de água e derrama-se pelos olhos.

Emoção em ver meninos, cachorro e aquele amarelão, todos misturados. É um sertão que sei de cor. Outro dia que já amanhece dado às surpresas. Jipes e Pick-ups verdes chegam a Pão de Açúcar e distribuem, ao longo das praças, soldados do Exército em Campanha Para a Erradicação da Varíola Estamos não sei ao certo, em 1967.

Todos serão vacinados. Um dia medonho às crianças. Uns se escondem, enquanto outros choram. Estou com sete anos e tenho medo. Choromingo. Dou sinais de que cairei no berreiro. A minha mãe segura firme a minha mão e explica ‘não dói. Será como picada de formiga’. Confio nela e entrego o braço ao soldado.

É por essa época que passam em frente à minha casa, cortejos fúnebres de crianças vindas de uma desses locais esquecidos, chamados de pontas de rua. Corremos a vê-los. Mortas, as criancinhas parecem enceradas, pintadas de azul, de olhinhos fechados, mãozinhas cruzadas sobre o peito. Tudo indo ser anjo no céu.

É o que me diz a minha avó, para alívio à minha tristeza. A vida me aturde mudando apressada os cenários e um carro de boi passa com rodas que rangem cheio de moringas e esteiras. Os bois vão-se aguentando, um encostado no outro. Mas, aquela história da minha mãe sobre que agulhada de vacina, era igual à picada de formiga, é tudo mentira.

É como saudade. Ainda hoje quando lembro ela dói. É tempo de quaresma. Em casa entramos em clima de seriedade e somos chamados à contrição e às orações. Voltamo-nos à penitência. Um ar quase sombrio, exalando sacralidade paira sobre nós. Mergulhamos na prática católica exigida. Tenho a estranha sensação de estar sendo vasculhada.

Tendo que tomar uma espécie de óleo de rícino santo ou algo especial para purificação da alma. Chega a Semana Santa. A música é banida e o silêncio é pontuado pelos gestos comedidos e a expressão grave com a qual somos policiados. Minha avó nos observa pelo canto do olho. Às vezes algum de nós esquece-se da tristeza imposta e diz ou faz algo engraçado.

O riso é reprovado Voltamos todos à representação da tristeza. Somos oito irmãos e dentre eles, os maiores, mesmo crianças estamos comprometidos com os sofrimentos do Cristo, submetidos em uma espécie de vigília à dor sagrada, vivendo mesmo sem qualquer jeito, o luto santo e querendo sofrer, o mistério, sem sabermos como vivê-lo.

Agora mesmo o lugar onde me acomodo chama-se mãe. Nele a presença forte dela invade todos os espaços de quem sou, cantando cantigas de notas tristes, depois alegres, que se intercalam e abastecem-na quando retraída. Alguma vez destempera-se reclamando de tudo ao mesmo tempo, às vezes cheia de mágoas.

Outras vezes por coisas tolas, explode em sonoras gargalhadas de intensidades variadas, que repercutem no humor da casa. Suas disposições emocionais trafegam ondulantes entre dois opostos em frações de minutos. Ela é alva, de aparência agradável e de boa estatura. Tem cabelos curtos, veste-se com discreta elegância, embora não ostente vaidades.

Vejo-a bonita, fisionomia cotidiana, de uma beleza comum que se confunde entre outras sem destaques. É amante da leitura, bem educada, sensível e ocasionalmente suave... Minha mãe tem atitudes infantis algumas vezes, e agora eu a entendo melhor. Dona de uma constante ansiedade, não admite que opinião nenhuma seja diferente da sua, portando-se como a palmatória do mundo.

Quando contrariada irrita-se com facilidade e perde toda suavidade. Vive colhendo dos livros, as estórias todas de amor e entre um capítulo e outro, deixa-se estar por um tempo com os olhos entre tristonhos e perdidos. Consterna-se, fica meio desiludida e encosta-se à poltrona, imaginando com certeza, que a sua vida está distante de incorporar elementos que configurem os romances lidos.

Suspira. Lê mais algumas páginas, abandona o livro sobre o colo e volta a suspirar. Eu a observo com certa angústia, sentada no chão de cimento frio, enquanto decoro a tabuada. Em outras ocasiões é dada a pieguices, dramatizando situações vistas por onde anda o que me arranca tanta lágrima e soluços, que ela acaba se aborrecendo comigo.

Meu pai é um homem taciturno, de pouquíssimas palavras e de olhos graves. Tem a testa vasta, cabelos sedosos, dentes alvos e um sorriso que até agora não sei definir, pois nem sempre é de satisfação ou aprovação, o que para descobrir é preciso se arriscar muito. Com enorme talento para o desenho, retrata de memória, belas canoas que margeiam as areias do rio.

O que faz cuidando em retratar-lhes toda a beleza nos mínimos detalhes e de maneira realista. Também desenha cavalos maravilhosos. Às vezes me coloca no colo, me beija no rosto e anda de mãos dadas comigo, quando vamos buscar mamãe no trabalho dela. Mas esconde-se sempre no silêncio durante todo o trajeto.

Boêmio, amigo das farras quase intermináveis, ele canta divinamente bem e faz-me de vez em quando, ler em voz alta, para que ele e eu escutemos a poesia de Catulo da Paixão Cearense. Entre um verso e outro, levanta sereno uma das mãos. Faço uma pausa. Ele quer saber de mim o que entendi e quase ordena ‘ Minha filha, sinta a beleza do que ler’.

Descanso temores nas cantigas que ambulantes circulam pela casa. Inauguro todas as novas certezas, ciente de que, as boas lembranças são como um antídoto às coisas ruins. A felicidade instala-se, soberana e mágica. Contamina o ontem e o agora, solicitando da simplicidade, a razão da vida lá no futuro, onde me encontro. Tudo é simbólico e profundo. Recolho à memória o que me sustém e ao meu próprio universo de saudades, incandescentes como as estrelas.     

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