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quinta-feira, 19 de julho de 2018

O jogo do bicho vem do alto capital: sua história em Alagoas (I)


As inicias do jogo do bicho
Luiz Sávio de Almeida

As preliminares
Iremos começar este ensaio, defendendo uma posição que nos parece interessante sobre as origens do jogo de bicho: ele nasceu do alto capital especulativo, operado especialmente do Rio de Janeiro, na transição que se fazia entre o Império, a República e na busca da consolidação urbana que atingia a Capital Federal republicana, o mesmo Município da Corte Imperial.  O primeiro bicheiro assenta-se na lista dos Barões do Império, no rol da nobreza inferior. Não seria um título de alta pompa, mas o suficiente para diferenciar o seu titular,  do comum dos homens de grosso capital.
O jogo do bicho vem de 1892 e com o Barão de Drummond –  João Baptista Vianna Drummond – que falece a 7 de Agosto de 1897, tendo nascido em 1825 em Itabira, Minas Gerais. Em nota sobre sua morte, o Almanack Laemmert[i]  poucas informações sobre Viana Drummond, mas elas são de extremo valor situarmos um dos principais personagens do rol persona dramatis no seio da história do jogo do bicho. 
Ele primeiro foi um negociante que fundou fortuna na área agrícola, depois um criador de empresas, como, por exemplo, a Companhia Ferro Carril Vila Izabel, o bairro de Vila Izabel e isto em terras da antiga Fazenda Macaco, terra adquiridas da Princesa Izabel; criou o Jardim Zoológico e nada é dito, na nota fúnebre, sobre o famoso jogo de bicho que em pouco tempo avassalou a cidade continuando uma  jornada republicana.  O Barão falece aos 72 anos, tendo perdido a esposa em 1882,  que, por consequência, viu apenas o marido ser Comendador.
É este homem – foi um dos nobres do capital no país e que manteve interesses em jogos de azar como área de investimento –, quem cria o jogo do bicho e que o entendeu como excelente negócio; ele não se desgarra do jogo do bicho, mas o jogo desgarra-se dele e vai construir uma rota própria por todo o país. Vale a pena sumariar um pouco das atividades do Barão de Drummond e verificar como o jogo do bicho não nasce apenas para dinamizar a vida de um Zoológico rústico, mas como, propriamente, um negócio no campo do azar e que rapidamente – a bem dizer de modo imediato – saiu das mãos de que o criou. 
Não vamos traçar uma biografia do Barão, mas apenas trazer elementos capazes de demonstrarem o verdadeiro labirinto de investimentos e participações na vida econômica do Império, indo da mineração ao têxtil, à hotelaria. Sua primeira grande expressão de negociante parece-nos ter sido em Drummond, Valle e Companhia, da qual foi apenas, posteriormente, fornecedor de fundos, conforme era comunicado à praça em 1858 pelo Diário do Rio de Janeiro[ii]; em 1856 estava envolvido com seguros: Companhia Seguros Marítimos e Terrestres, da qual foi diretor[iii] e na mesma época dirigia a Estrada de Ferro Pedro II. No ano de 1858, aparecia como interessado em mineração, sendo diretor da Companhia Mineração Maranhense[iv]. Estava indicado por um grupo de acionistas para a direção no Banco do Brasil no ano de 1859[v]. Em 1867, ele girava como João Baptista Vianna Drummond e Comp.[vi].
Um pouco sobre o Zoológico
A criação do Jardim foi aprovada pelo governo imperial no ano de 1883, com a ressalva de que não impediria a construção de outro que fosse do interesse do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura. O Jardim Zoológico foi constituindo seu acervo através, inclusive, de doações que eram mencionadas na imprensa, como a que aconteceu em Julho de 1889, com o jornal Cidade do Rio[vii], dirigido por José do Patrocínio informando que o Barão de Capanema havia doado um peixe elétrico e o próprio Vianna Drumonnd tendo feito a de um sóco branco. A Companhia do Jardim Zoológico é instalada em 1886 e é dela de onde partirá o lançamento em massa do jogo de azar no Império[viii]. Devemos entender o que o Barão teria de procurar:  a) valorizar a área, b) maximizar o montante a ser transportado tanto em carga quanto em passageiro, c) gerar demanda de outros setores de população da cidade para a área e, daí surgiram, os zoológicos dos animais e da sorte.
A implantação de um atrativo seria fundamental para dinamizar a vendagem do empreendimento e é o que o Barão realiza, chamando atenção para as terras da Vila Izabel e, ao mesmo tempo, aumentando o fluxo de transporte para a região. Nisto não se poderia deixar de ver que seria uma inovação na cidade, um fator “civilizatório”, devendo ser levado em consideração, que nos finais dos anos oitenta tem-se os esboços da belle époque no Brasil.  É de chamar atenção para o fato de que a criação e expansão do jogo de bicho acontecerão em vigência desta época que trazia também uma aspiração europeizante.
Ao que nos parece, o Jardim Zoológico rapidamente se fará conhecido no Rio de Janeiro. Tanto é assim que em semanário dedicado às mulheres, intitulado O Querubim, um articulista com o pseudônimo de Joãozinho[ix],  aconselha um amigo a convidar esposa e sogra para um passeio por lá e arranjar uma forma de deixa-las em uma das jaulas. Um marco para humor deveria estar revelando um marco para o urbano. Era lugar de manifestações, comemorações como a que se deu capitaneada pelo Barão de Guahy[x]; voltando a considerar que Barão era sinônimo de capital é de se ver que o Zoológico era utilizado por diversos níveis de renda, e que bem poderia ser considerado como um parque localizado em área de integração à cidade.
O fato é que ele estava demarcado como se pode verificar em matéria jocosa publicada pelo  periódico República Brasileira em 1889. Ele estava posto entre atrações como a visita ao Bendengó, sorvete no Pascoal, coisa que deveriam ser de intimidade da cidade, pelo menos, via, no mínimo,  classe média[xi].  A demanda deve ter aumentado, tanto que se teve, desde 1888, a área aberta das seis às 18 horas diariamente[xii].
O Jardim receberá estímulos, como a isenção de imposto de importação, da décima urbana e de pena d’água, sinal de aproximação ao Estado, como seria uma doação rompida na República. Ele estaria fazendo parte, inclusive, da abertura de um boulevard intentado pelo Barão, onde inclusive, nas áreas de interesse do empreendimento, seria construído um Palácio de Exposição Permanente, o que é comentado no Jornal dos Economistas; a construção seria em terreno devoluto.  A matéria era laudatória e o Barão era enaltecido por suas qualidades de benfeitor público[xiii].
Piadas armavam-se como pode ser lido em A Época, sinal, sem dúvida da popularização; como se pode ver, também em O Mequetrefe ao dizer que haviam sido nomeados para direção: Sá Pinho e K. Brito[xiv]. Esta marcha do Jardim Zoológico nos interessa apenas quando desejamos ver o modo como se deslanchava o empreendimento que receberá o jogo do bicho, aparentemente com a finalidade de ajudar a sustentar o Zoológico, forma de receita, mas ele mesmo um novo experimento.
Um pouco de jogo de azar
O empreendedorismo do Barão fez com que combinasse iniciativas: gerou um  bairro,  um sistema de transporte e dois atrativos: jogo de azar e um parque a que chamou de Jardim Zoológico.  Ao contrário do que muitos afirmam, o jogo do bicho não surge para apoiar um empreendimento imobiliário; ele entra na regra da acumulação através da exploração do azar. Quem sabe isto não se encontrava embutido em atividade hoteleira pois, de certa forma, cassino poderia fazer parte de investimento no azar dentro do escopo da modernização, tal seria a evidência europeia do Cassino de Monte Carlo pelo mundo do jogo: talvez ele o estivesse pensando, também,  dentro das famosas águas de Minas: Caxambu e estava associado a um hotel.
Vianna  Drummond estava interessado em  hotelaria em Caxambu e neste caminho de acercar-se do azar, o grande empreendedor se transformará no primeiro grande bicheiro que se conhece e sem querer, pois não poderia estar aspirando a tanto, tomará o Brasil e inaugurará a nossa primeira contravenção em massa. A Companhia Grande Hotel e Cassino estava em incorporação, com chamadas para a realização de capital, na mesma oportunidade em que ele estava impulsionando a valorização da área da Vila Izabel, sem qualquer dúvida, nome que vem em homenagem à Princesa. Na oportunidade de 1892 era Diretor Tesoureiro e em 1895 ocupava a presidência. Desde 1860 tem-se notícia de envolvimento com cassino e esta palavra leva direto a um jogo como está em antigo manual de jogo de cartas, publicado na Inglaterra em 1870[xv]. Em Portugal ele estará descrito em um manual elaborado por A. T. da Cruz contendo uma série de jogos e o livro era de 1861[xvi]
Ele lidava com a acumulação em termos oficiais, dentro dos parâmetros ditados pelo poder e, por outro lado, interessava-se em lucrar com o azar e desfazer aura de contravenção sobre este tipo de atividade. Ele era parceiro do grande capital, mas tomaria parte na massificação do que seria considerado como grande palco de pesares para o moralismo reinante em setores da sociedade. Neste mesma época de 1892, ele estará com cassino e bicho dentre de seu campo de empreendimentos e era Vice Provedor da Irmandade de São José e de Nossa Senhora das Dores em Andaraí, homem de pia posição.

Vida social e econômica
Na sua vida social, ocupava posições de destaque em algumas organizações, como no Grêmio do Andaraí, criada em 1896 e para o qual foi eleito Vice Presidente[xvii].  Era eleito para a Mesa da Santa Casa de Misericórdia conforme era informado pelo Diário do Brasil em 1885[xviii]
Para que se note o tamanho da organização financeira da qual brotou o Jogo de Bicho, em 1882 e portanto a dez anos do aparecimento daquele jogo, o capital da Ferro Carril era informado em 2.000:000$000[xix]. Estava, portanto, na ponta social e e econômica: em 1887 a sua Companhia Ferro-Carril Vila Izabel estava operando sistematicamente seus carros e já aumentava preço de passagem, segundo um aviso publicado na imprensa em 30 de novembro daquele ano[xx].  Há uma acentuada polêmica com o Ministério da Agricultura que o acusava em 1844 de aumentar preço da passagem abusivamente. Não seria fácil enfrentar o Ministério sem lastro no poder, o Vianna Drummond rebate de modo contunde os avisos ministeriais e lança uma pesada nota, acusando o Ministério de procurar lançar o povo contra a Companhia[xxi].
Pessoa de tão alto envolvimento com a vida empresarial, jamais poderia deixar de ter relações íntimas no mundo político. Ele estará dando apoio a u novo Ministro do Império, isto no ano de 1888; em comemoração na residência do Ministro, Vianna Drummonnd, o Comendador, foi o orador, discursando em nome de Vila Izabel[xxii]. 1888 era noticiado que ele se transformava em Barão, conforme noticiou a Gazeta de Notícias[xxiii].
Em 1885, ele estava na presidência da Ferro Carril, aumentando seus negócios, integrando-a à sistemática dos transportes[xxiv] (L’Italia, 1886) e no começo da década, estava no Conselho Fiscal da Companhia União e Indústria[xxv], onde desde 1868 era Secretário da mesma empresa cujo interesse, inclusive, passava pela articulação de parte de Minas gerais ao mar. O Vianna Drummond estava em um alto empreendimento capitalista, inclusive com interesses de interligação com a Pedro II.
Em 1881 e ligado a União e Indústria, ele se encontrava ligado aos negócios de colonização em Valença, na Província de Minas Gerais, conforme nota publicada em Brazil[xxvi]. O Comendador em 1882 estava em negócios de uma Companhia para a construção de ferrovia pelos territórios de Bahia e Minas Gerais; entre os diretores estavam dois Barões e um Conde, conforme se lia no The Rio News[xxvii]. É quando aparece a Companhia Estrada de Ferro Jequitinhonha cujo Presidente seria o Barão de Mesquita, conforme anotou a Revista de Engenharia[xxviii]. Aliás, ele estava interessado, também, na montagem de uma companhia para importação de chins, novamente interessado na colonização, tendo chegado a pedir favores ao Império para que se procedesse a cinda de trabalhadores chineses, segundo a mesma revista informava, desta feita em 1883[xxix]. Havia da sua parte, forte investimento em Valença, através da empresa Drumonnd & Filhos: trata-se de fazenda onde desejavam introduzir colonos italianos, cerca de 20 famílias[xxx].  Os trabalhadores chineses faziam parte das operações da Companhia Comércio e Emigração Chinesa[xxxi]
 A marcha da Ferro Carril foi de abertura de caminhos no Rio de Janeiro, como estava em 1882 a operar linha para a Aldeia Campista, conforme comentava o Jornal dos Economistas[xxxii]. É neste mesmo ano de 1882 que teve seus Estatutos alterados[xxxiii]. No ano de 1884 estava com seu acervo sendo negociado – segundo era dito, em face de pedido de inúmeros acionistas – com a Companhia de São Cristovão, de acordo com aviso assinado por Vianna Drummond, falando sobre a documentação de cessão e venda.  A empresa servia as linhas para Engenho Novo, Vila Izabel, Aldeia Campista, Andarai Grande e Matoso, indicações de 1884.
A Ferro Carril estava sendo fundida à outra empresa do ramo[xxxiv]. Nesta área de estrada de ferro, chega a propor o arrendamento da Estrada de Ferro Pedro II, o que realiza com firmas inglesas, inclusive com Hugh Wilson & Son, empresa que terá alta participação na engenha e economia da Província das Alagoas, assunto tratado pela Revista de Engenharia em 1883[xxxv]; esta matéria é longamente tratada em editorial pelo Gazeta da Tarde[xxxvi]. E fusão das empresas de bitola larga dos ferro-carris urbanos estava sendo arquitetada com a presença do governo imperial: mencionava-se a de São Cristovão, Vila Izabel e a do Jardim Botânico, ainda conforme a mesma revista em 1884[xxxvii].
Um outra empresa à qual este ligado era a Companhia Arquitetônica, com sede no mesmo local da Ferro Carril; era Diretor Gerente e o capitak registrado da empresa estava na ordem 1,800:000$000, conforme se tem informado no Almanaque Administrativo,  Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro em 1883. Por outro lado era  Presidente da Companhia Fábrica de Tecidos São Lázaro[xxxviii], o que demonstra, novamente, a diversidade de seus interesses.





[i] BARÃO de Drummond. Almanaque Laemmert Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro e Indicador para 1898. Ano 55. Rio de Janeiro: Companhia Tipográfica do Brasil, 1898, p. 46.
[ii] JOÃO Batista. Diário do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 16 Janh. 1858, p. 3,
[iii]  TEVE lugar. Correio da Tarde. Rio de Janeiro, 6 mar. 1858, p. 2.
[iv] REUNIU-SE ontem. O Correio da Tarde. Rio de Janeiro, 10 Nov. 1859, p. 3.
[v] LEMBRAMOS ao. Correio Mercantil. Rio de Janeiro, 1 Agt, 1859, p. 3.
[vi] PRORROGAÇÃO de contratos. Correio Mercantil. Rio de Janeiro, 16 Mai. 1867, p. 2.
[vii] NO bairro. Cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 25 Jan. 1896, p. 3.
[viii] REUNIU-SE. Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 9 Jan. 1886, p. 2
[ix] JOÃOZINHO.  As molas. O Querubim. Rio de Janeiro, 28 Agt. 1887, p. 2.

[x] ESTÁ marcado. O Petiz Jornal. Rio de Janeiro, 20 Set. 1888, p. 2.
[xi] PALESTYRINHA. República Brasileira. Rio de Janeiro, 5 Nov. 1889, p. 1
[xii] DO dia. A Época. Rio de Janeiro, 4 Jan. 1888, p. 1.
[xiii] BOULEVARD Vila Izabel, Jornal dos Economistas. Rio de Janeiro, 23 Nov. 1882, p. 1.
[xiv] ESTÃO nomeados. O Mequetrefe. Rio de Janeiro, Fev. 1889, p. 8
[xv] “TRUMPS”. Cassino, Vingt-Um, Brag, and All-fours. London: Milder and Sowerby.
[xvi] CRUZ. A. T. da. Manual de jogos,  ou coleção dos jogos mais usados na boa sociedade, tanto de cartas quanto de dados.  Lisboa, 1861.
[xvii] AO Jardim. Cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 26 Jun. 1889, p. 2.
[xviii] NA apuração. Diário do Brazil. Rio de Janeiro, 5 Set.
[xix] CARDOSO, José Antônio dos Santos (org.). Guia das cidades do Rio de Janeiro e Niterói.   Rio de Janeiro: Typographia Perseverança, 1882, p. 270.
[xx] VILA-Izabel. Novidade, Rio de Janeiro, 3 Dez. 1887, p. 3.
[xxi] DRUMOND, João Baptista Vianna. Protesto. Brazil. Rio de Janeiro, 18 Abr. 1884, p. 3,
[xxii] O Sr. Ministro do Império. O Paíz. Rio de Janeiro, 25 Mar. 188, p. 1.
[xxiii] FOI agraciado. Gazeta de Not[ícias. Rio de Janeiro, 21 Agt. 1888, p. 1.
[xxiv] COMPANHIA FERRO-CARRIL VILA-IZABEL. L’Italia, Rio de Janeiro, 1 Set. 1886, p. 3.
[xxv] COMPANHIA UNIÃO E INDÚSTRIA. Relatório apresentado à Assembleia Geral dos Acionistas da Companhia União e Indústria em 3 de fevereiro de 1868 pela Diretoria da mesma. Rio de Janeiro: Typ. do Correio Mercantil, 1868.
______ Relatório apresentado à Assembleia Geral dos Acionistas da Companhia União e Indústria em 4 de Março pela Diretoria da mesma. Rio de Janeiro: Typ e Lyt. Moreira, Maximino & C.
[xxvi] O SR. Comendador. Brazil. Rio de Janeiro, 30 Out. 1881, p. 14.
[xxvii] RAILROAD notes. The Rio News. Rio de Janeiro, 14 Jun. 1882, p. 4.
[xxviii] COMPANHIA Estrada de Ferro de Jequitinhonha. Revista de Engenharia. V. IV. Rio de Janeiro, 1882, p. 127.
[xxix]ATOS Oficiais. Revista de Engenharia. V. V. Rio de Janeiro, 1882, p. 127.

[xxx] ATOS oficiais. Revista de Engenharia. V. VII. Rio de Janeiro, 1887, p. 8.

[xxxi] ESTA organizada. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 29 jul. 1883, p. 1
[xxxii] MELHORAMENTO, Importante. Jornal dos Economistas. Rio de Janeiro, 4 Nov. 1882, p. 6.
[xxxiii] COMPANHIA Ferro Carril. O Globo. Rio de Janeiro, 2 Jul. 1882, p. 1.
[xxxiv] COMPANHIA Ferro-Carril. Diário do Brazil. Rio de Janeiro, 2 Jul. 1885, p. 3.
[xxxv] A conversão do papel moeda. Revista de Engenharia. V. V. Rio de Janeiro, 1883, p. 162.

[xxxvi] SEMANA POLÍTICA. Gazeta da Tarde. Rio de Janeiro, 18 Jun. 1883, p. 1.
[xxxvii] VIAÇÃO urbana. Revista de Engenharia. V. VI. Rio de Janeiro, 1887, p. 162.

[xxxviii] COMPANHIA Fábrica de Tecidos São Lázaro. Gazeta da Tarde. Rio de Janeiro, 19 jul. 1888, p. 3.





































domingo, 3 de junho de 2018

Memória: o bairro, gentes e família


RONALD CABRAL DE MENDONÇA nasceu em 17/01/1948. É o terceiro de uma família de onze filhos. Filho de José Lopes de Mendonça e de Rosa Cabral de Mendonça. Estudou no Colégio Diocesano (1954 -1965). Graduação em Medicina em 1971. Resid. Médica em Neurocirurgia no Hosp. do Serv. Público Estadual de SP; Pós-Grad. no Inst. C. Chagas, RJ. Prof. de Neurologia da Ufal e Neurologista do MS; integra o corpo clínico da Santa Casa de Maceió. Membro da Soc. Bras. de Neurocirurgia,  sócio da Sobrames-Al, da Acad. Maceioense de Letras, da Acad. Alag. de Medicina e da Acad. Alag. de Letras (cadeira 15). Semanalmente, publica matéria na G. de Alagoas. Dois livros de Antologia, com contos e crônicas. Autor de dois livros: Latim Aos Sábados e Janela de Vidro, com crônicas, contos e ensaios. É casado com Nadja Oliveira de Mendonça. Tem um filho, Carlos Eduardo Mendonça, e dois netos: Caio e Maria Clara.

REVELAÇÕES DE UM SUBURBANO
RONALD MENDONÇA
MÉDICO.  MEMBRO DA AAL


A Ladeira do Calmon está muito diferente daquela que minhas “cansadas retinas” guardaram. Naqueles tempos, um extenso e profundo sulco marcava o barro vermelho da ladeira. Nos períodos de chuva os carros tinham dificuldade de transitar.  Logo abaixo, à direita de quem desce, havia uma mata rala com escassas jurubebas e algumas plantas enfezadas que serviam de esconderijo para nossas brincadeiras de “mocinho e bandido”. Na verdade, não era um frequentador assíduo daquelas plagas.  Meu irmão Robson e eu, no entanto, por conta de um amigo que morava  vizinho a este matagal, de vez em quando íamos lá brincar
Lembro do momento em que ali eu enfiei o calcanhar na roda traseira da bicicleta do Val (Florival). Havíamos saído em grupo, de bicicleta, para o Catolé. Um tio materno, Manuel Góis, fazia parte. O Robson estava na garupa de sua Monark. Eu era mais leve e fiquei na garupa do  Val. Ele montava uma bicicleta Mercury, de mulher,  da irmã dele, Yara Barreiros.  Alguns anos mais velho, padecia de um membro inferior com sequela de paralisia infantil. Brigão, possuía braços fortes e um tronco avantajado e havia algo de radical na sua conduta. Comigo  ele era legal.  Chamava-me até por um apelido, “Nonda”, que eu havia adquirido numa escolinha para crianças.
Naquela  tarde o pessoal resolveu voltar pelo Tabuleiro. Era uma aventura.  O arrodeio  era desnecessário, posto que do Catolé alcançava-se Bebedouro facilmente, sem malabarismos geográficos. O fato é que, ao chegarmos no topo da descida, O Val gritou que eu devia me segurar e pedalou ladeira abaixo. Apostava velocidade. Sua deficiência, certamente, o compelia a competir de todas as formas. Tentei me segurar como podia. Foi nessa que enfiei o pé na roda. Ferida feíssima que demoraria a cicatrizar...
Mais acima do ponto onde eu estacionara, em direção ao Sanatório, havia  um “terreiro” onde se dançava xangô. Muitas noites despertei sob o batuque desses rituais. Já estava taludinho quando fui assistir a uma dessas “sessões”. Os amigos, um pouco mais velhos, experimentaram do xequeté, uma mistura alcoólica, comum nos terreiros de macumba. Com relutância, o Pai de Santo, permitiu que acompanhássemos o ritual. Nunca me detive muito nessas lembranças. O que restou foram mulheres de saias longas dançando em roda. De vez em quando uma delas era “Incorporada” por alguma entidade, ficava estranha, rodava sobre si mesma e era amparada pelas companheiras. O cabelo era solto e ela sumia do salão de danças. Os comentários dos amigos seriam no sentido de uma suposta visita a um altar instalado em um cômodo contíguo, sob a supervisão do Babalorixá.

Mas agora está mudado. Um asfalto substituiu o barro. O sítio do meu amigo transformou-se num conjunto residencial. O que ainda não mudou foi a visão da lagoa e a bonita fachada do “Asylo das Órfãs”.
Enquanto descia a Ladeira do Calmon, busquei mais retalhos da minha convivência no bairro. Atravessei a linha férrea e vislumbrei, à esquerda, a Igreja Batista. Logo veio a figura do pastor Plácido, um bigodudo e carrancudo cidadão, cuja simpática filha Nancy era amiga das minhas irmãs. Mas foi ali, sacrossanto sítio onde pastor Plácido pregava o evangelho, que o Major Bonifácio, anos antes, associar-se-ia a amigos intelectuais e amantes das profanas tragédias gregas (seu Teles, seu Anísio Costa e outros) para fundar um teatro, segundo consta no livro da escritora Ilza Porto sobre o avô Bonifácio.
A Rua Bruno Ferrari, que na minha infância e adolescência denominava-se 25 de Dezembro, é o traço de união entre a Rua Passos de Miranda e a Praça B. Silveira. Sua continuidade no sentido oeste terminava  na casa construída pelo  industrial Jacintho Nunes Leite,  anterior e lateral à Matriz. Com o redesenho para ampliação da praça, o tráfego  em frente à igreja foi interrompido. A Praça tornou-se um prolongamento externo da igreja. Com essas mudanças, os veículos que descem pela Ladeira do Calmon com destino a Maceió não podem seguir em frente até  à R. Cônego Costa, a rua principal do bairro.
Houve um tempo  em que o bonde elétrico era um dos meios de transporte mais ativos do bairro. Sem que atentasse para o fato, testemunhei os estertores desses veículos. Em Bebedouro, o bonde morreu aos poucos. Primeiro, deixou de circular na Praça Bonifácio Silveira. Depois passaria a parar cada vez mais distante da Matriz de Santo Antonio. Seus últimos terminais ocorreriam nas “Mangueiras”, em frente à Vila Lilota,  na época mansão da família Leão.
Os bondes tiveram seu apogeu.  Há relatos assegurando que durante as principais festas do ano, sobretudo no Natal, os bondes de Bebedouro tiveram singular importância. Com efeito, as festas promovidas pelo lendário Major Bonifácio Silveira eram o que de melhor havia de festejos na capital e no interior. Descrevia-se a presença de caravanas até de outros Estados, atraídas pela criatividade e animação nos folguedos.
Quando eu me entendi de gente, havia no ar uma nostalgia, uma orfandade do Major Bonifácio Silveira. Não faz muito tempo busquei conhecer melhor o mítico festeiro. Ao debruçar-me na sua história, deparei-me com outra figura que é pouco lembrada: Jacintho Nunes Leite. De fato, Nunes Leite foi um imigrante português que por aqui aportou em 1860. Apaixonar-se-ia pelo arrabalde, por suas águas correntes claras e abundantes, como as do Rio Silva. O braço da lagoa parecia um manancial  inesgotável de alimentos, sobretudo do sururu. Aliás, ainda alcancei uma pesca abundante, ali mesmo nas margens da lagoa, perto da ponte. Como queria dizer, Bebedouro era um sítio de muitas fruteiras, de clima agradabilíssimo, refrescado por brisas suaves vindas do sul.
JNL era um empreendedor atento. Graças a isso, o bairro se transformaria. A começar pela transferência do cemitério, primitivamente localizado na praça onde se situa a Matriz. Não é fácil mudar esse equipamento. Afinal, restos humanos  não podem ser tratados de qualquer jeito. Mas o fato é que o ousado imigrante promoveria a mudança. Idealizador da primeira fundição do Estado, garantiria os portões de ferro da nova necrópole.
Sob a influência de Nunes Leite, a Matriz de Santo Antonio teria nova roupagem. As paredes internas foram revestidas de azulejos de Portugal. Os velhos sinos seriam substituídos por novíssimos, confeccionados na fundição do benemérito. Com loja na R. do Comércio, colocou em Bebedouro uma fábrica de vidros e em Fernão Velho instalaria o que viria a ser a Fábrica Carmen, de tecidos. Várias picadas seriam abertas, desde a Cambona, para permitir a circulação de bondes por tração animal, cuja concessão adquirira. Foi de sua iniciativa botar água encanada em Bebedouro e no centro da cidade.
Politicamente, JNL era influenciado pelos ideais abolicionistas que causavam incômodo aos industriais da cana de açúcar. O fato de possuir uma fundição à altura das necessidades do mercado, não era admoestado de forma aberta A casa mais emblemática do bairro foi construída por ele. Ainda de pé, habitada por um dos descendentes, na Praça Bonifácio Silveira.
Com a morte de JNL, no segundo decênio do século XX, a figura de outro abolicionista reluziria: Bonifácio Magalhães da Silveira. Pernambucano de nascimento, cedo transferiu-se com a família para Alagoas. Funcionário público, major da Guarda Nacional, político, escritor, memorialista, ator, era, sobretudo, um “agitador cultural”. Tratava-se de um festeiro nato. Na minha infância e adolescência conheci pessoas que conviveram intimamente com o Major, como era chamado. Entre os parentes de Bonifácio Silveira cabe destacar seus irmãos Luiz, fundador da Gazeta de Alagoas e Faustino, professor de matemática e pai da psiquiatra Nise da Silveira.
 A fama de  Bebedouro como um bairro de elite vem dessa época. Ainda não havia o hábito da beira mar. Depois da arrumação promovida por Nunes Leite, o arrabalde passaria a chamar a atenção, justamente quando o Major decidiu retirar o bairro do “marasmo. Bebedouro sairia da condição de simples “corredor rodoviário” em direção ao interior e passaria a ser visto como um polo de festejos, onde as pessoas podiam divertir-se de forma sadia, com a comodidade de transportes por trilhos (bonde e trem) e rodoviário. Não obstante, a via principal de acesso não ser calçada. Ainda havia a opção fluvial, lacustre, desde o Porto das Balsas, na Levada.
Havia grandes dificuldades em se conseguir alugar uma casa para  esses períodos. Datam do segundo decênio do século XX as construções das mansões no Mutange, quando famílias mais abastadas ou erguiam esses casarões para morar definitivamente ou, simplesmente, para veranear. O carro-chefe dos festejos de Bebedouro era o Natal. O São João também era animadíssimo. Tudo leva a crer que os folguedos carnavalescos eram partilhados com o centro da cidade. Havia os corsos, os clubes sociais, os desfiles de escolas e os banhos de mar à fantasia. Era difícil mesmo competir com tanta pluralidade.
Nasci na Rua Cônego Costa, 3863, tendo o meu pai como parteiro. Alguns anos depois, fomos morar vizinho ao Asilo Bom Conselho, no número 3703 da mesma rua,  numa casa antiga do começo do século. Ficava numa calçada alta. Três casas ocupavam essa elevação. Era uma espécie de cartão postal do bairro. Havia também uma calçada alta em frente. Com essa disposição topográfica ficava evidente  que o morro havia sido cortado para permitir a continuidade da via.
São poucas lembranças da casa onde  nasci. Das raras - é possível estar enganado- quero crer que uma babá, Sra. A., generosamente, oferecia os fartos seios para um trabalho de treinamento muscular oral do futuro neurocirurgião. Anos mais tarde, A. seria minha paciente no Hospital Universitário. Ela era um tanto boquirrota  e terminava contando para os meus alunos que havia sido minha babá. Aguçava a curiosidade da estudantada ao relatar que eu era muito danado... Quero crer que nunca tenha entrado em  pormenores “sórdidos”.
Na minha visão de criança, a nova casa, vizinha ao Asilo,  era grande. Mais espaçosa que a anterior. Mais iluminada por janelas laterais que davam para o jardim. Tinha quatro quartos e uma varanda/jardim lateral delimitada pelo paredão  do Asilo. Havia um coqueiro central e um pé de jasmim colado no muro da frente. Causava admiração de uma árvore tão ressequida brotarem flores tão cheirosas... Minha mãe cultivava roseiras, mas as inclementes saúvas faziam grande estrago. O imóvel era alugado ao Asilo e tinha sido moradia do Monsenhor Tobias, um educador muito influente. Capelão do colégio, era gago e um emérito contador de anedotas nem sempre piedosas.
Meu pai criava galinhas e patos, no pequeno quintal, consumidos pela família que aumentava a cada ano. Criar galinhas não era à toa. Naqueles dias, as mulheres no puerpério faziam uma quarentena tendo o caldo de galinha como pièce de résistance. Alguns passarinhos gorjeavam  na nossa varanda. Eram poucos, mas exigiam cuidados. Certo dia, a empregada descuidou-se e o sofreu de estimação nunca mais foi visto. Mesmo destino tiveram dois galos de campina. Desta vez, o pai resolveu abrir as gaiolas. Com toda certeza, passarinhos em cativeiro não eram o seu forte. Gatos também não faziam sua cabeça. Um vira-lata, Rex, seria criado entre nós desde a mais tenra idade. Era um policial miscigenado, de abundante penugem negra e muito desobediente. Latia com estranhos, o que parecia ser uma característica aceitável. Nas brigas entre os irmãos, Rex se agitava, latia, rosnava e, finalmente, tentava interferir na contenda. Mordia a mim. Rex não era tão valente nas disputas com outros cães. Certa ocasião, cobrir-nos-ia  de particular vergonha: o cão do jornalista e político JA, com quem meu pai mantinha insalubre distanciamento, deu uma decepcionante montada por trás no Rex. Por tudo,  ele não nos orgulhava. Talvez essa seja uma das razões que me fazem manter distância de tudo que rosna, late e às vezes morde.
N
ossa avó paterna, Docinha, morava conosco. O marido, meu avô, Francisco Cavalcante de Mendonça (“Chico do Brejo”), falecera aos cinquenta anos. O irmão mais novo do meu pai, Breno, era uma espécie de nosso irmão mais velho. Habitávamos o mesmo quarto, nosso tio, o meu irmão Robson, mais velho um ano e meio, e eu. Nessa época, 1953-1954, já éramos sete filhos. Desses, cinco eram meninas.
O Asilo Bom Conselho tinha sido fundamental na vida da minha mãe, Rosinha. Nascida em Atalaia, ficou órfã do pai, Francisco Aureliano de Medeiros Cabral (um espirituoso rábula), aos quatro anos. A apertada situação financeira da viúva a impeliria a internar duas filhas no Bom Conselho. D. Rosinha passaria nove anos no Colégio. Foi a oradora da turma. Provavelmente, pela primeira vez, sairia do Asilo Bom Conselho uma turma com o título de “professora rural”. Até então, as meninas estudavam português, matemática, história, geografia, francês... Aprendiam a costurar, a bordar, cozinhar, lavar chão e jardinagem. Ao saírem não tinham onde trabalhar a não ser como domésticas. A opção B seria tornarem-se amantes de algum nababo até que a velhice as transformassem em peças descartáveis. O paraninfo da turma da minha mãe foi o Dr. Ib Gatto Falcão.  Uma maneira que as alunas tiveram para demonstrar a gratidão pelo seu empenho em formalizar o curso do Asilo.
Minha mãe pouco exerceu o magistério. Faltava-lhe uma certa dose de malícia. Breve foi sua passagem como professora na Usina Brasileiro. Contou-me que numa ocasião os alunos foram queixar-se que um deles havia lhes “dado dedos”. Eram  gestos desconhecidos, digamos, num mundo do qual ela não tinha a exata dimensão do funcionamento. A aplicação como aluna do Asilo, contudo, não fora em vão. Aprovada em um concurso para a LBA, livrar-se-ia das pequenas pornografias infantis. Ao casar, a LBA seria página virada.
O que teria levado meu pai a morar em Bebedouro é uma pergunta que amigos me fazem. Certamente não foi atraído pelo dinheiro das “elites”. O bairro estava em decadência. Nascido em Pilar, de tradicional família ligada aos engenhos de açúcar,  o menino José Lopes passaria cinco anos interno no Colégio Diocesano. Concluído o curso secundário, foi para Recife, onde faria dois anos de complementar e o vestibular. O foco era a medicina. Ao pegar o trem, o pai o advertira: “Cuidado com o chapéu novo. Quando botar a cabeça fora da janela, segure com as mãos!” Doze horas de viagem. As expectativas de uma nova realidade fariam o adolescente Juquinha, como era chamado, esquecer as recomendações. Aos anúncios da chegada a Recife dentro de poucos minutos, a curiosidade o impeliria a vislumbrar a nova cidade. Adeus, chapéu. Morando numa pensão para estudantes, economizar qualquer tostão para voltar para casa com um chapéu, era uma questão de honra. Ao regressar em junho, sequer ousou arriscar colocar o apetrecho na cabeça. O pai, meio desconfiado, enquanto batia suposto pó, comentaria: “Está novinho. Não usou?” Juquinha teria replicado: “É que em Recife o pessoal está abandonando esse costume”.
Em Recife, alguns fatos foram marcantes para meu pai: 1) Convocação para servir o Exército em plena guerra, onde chegaria ao posto de cabo “padioleiro”; 2) A venda do engenho, uma ferida narcísica que nunca chegou a cicatrizar completamente; 3) A doença do pai, que ele adorava, culminando com sua morte; 4) O casamento com minha mãe.
 Estava cursando o quarto ano de medicina e gozava férias, aqui em Maceió, quando o pai dele, meu avô, passou mal. Ele diagnosticou que seu pai estava tendo um “Edema Agudo de Pulmão”. Em casa, sem qualquer recurso, tentou uma “medida heroica”: a sangria. Cortou uma das veias do braço do pai e salvou-lhe a vida. Meses depois, novo Edema Agudo se instalaria. A morte do pai ensejaria sua baixa no Exército. O fantasma de ir para o front na Itália estava afugentado.
 Formado, a decisão de morar em Bebedouro teria sido influenciada pelo fato da sogra, minha avó, casada em segundas núpcias com um fiscal de renda, morar no bairro. Além disso, não havia médicos na região. A circunstância do meu pai ter passado boa parte do curso como interno na Maternidade de Olinda foi fundamental. Mesmo levando-se em conta que os médicos eram mais bem preparados, fixar-se numa cidade de interior (Bebedouro era quase isso) sem prática em obstetrícia, aterrorizava o recém-formado.
E foi justamente isso que aconteceu. Clínico Geral, médico da Casa de Saúde Miguel Couto, chefe do Serviço de Verificação de Óbitos, meu pai era convocado com certa frequência para fazer partos em residências. Geralmente para casos mais complicados que as parteiras não conseguiam resolver. Alguns eram remunerados. A maioria, Deus os pagava. De qualquer forma, foi uma vida muito rica do ponto de vista humanitário. De manhã cedo, meu pai tinha o hábito de abrir a janela e dar uma olhada na rua. Aquela salutar mania de deixar o ar da manhã entrar na casa... Não há como afirmar que ele ficava surpreendido com a fila que havia se formado. Pessoas de todas as idades, sobretudo mães com crianças nos braços. Minha mãe contava que ele a chamava e dizia: ”Rosinha, veja isso! Que quantidade de gente é essa? O que essas pessoas estão fazendo na minha porta a essa hora?”. Todos sabiam o que elas queriam. Aí, o meu pai, mais uma vez, “surpreendia” minha mãe. Depois de tomar um rápido café com dois ovos à la coque e de fumar um Continental sem filtro, sentava no bureau que ficava no corredor da casa, estetoscópio ao pescoço, e ia atendendo. Abria a gaveta de amostras, explicava como fazer e recomendava: “Se não melhorar, volte amanhã”. Ninguém saía de mãos vazias. O melhor da festa: tudo de graça.