Translation

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

BASTOS, Eduardo. A cidade em aquarela

Este material foi publicado originalmente em Campus, suplemento do jornal O Dia,  semanário editado em  Maceió, Alagoas.

la ciudad de Maceió: Acuarelas,
la città di Maceió: Acquerelli
la ville de Maceió: Aquarelles
the city of maceió: Watercolors 



Eduardo Henrique Omena Bastos, 1961. Arquiteto e Urbanista pela UFAL. Pós-graduação em Design Estratégico e professor do curso de Design de Interiores do IFAL.








Dois dedos de prosa

Existem diversas formas de demonstrar o amor por determinado lugar e um deles, sem sombra de dúvida, é retratá-lo, e ter  a sensibilidade de ver seus pedaços, reproduzir e (re)anunciar a vida que existe.
É deste modo, que Eduardo se fez um cronista de Maceió e lega, para o futuro, a beleza do que consegue ver e reproduzir.
Hoje, você verá dez pedaços de Maceió que valem por uma Alagoas inteira.
Vamos ver o que Eduardo produziu.
Agradecemos a gentileza que ele  teve para conosco.
Um  abraço
Sávio


TRAÇANDO MEMÓRIAS



Eduardo Henrique Omena Bastos
Igreja dos Martírios

O desenho é uma paixão antiga. Comecei a desenhar muito cedo, como toda criança. Tudo servia de suporte: papéis livros, revistas até o chão e as paredes de casa - para o desespero de minha avó! Lembro que quando frequentava à escola primária no saudoso Colégio Sagrada Família, havia dois irmãos gêmeos, que estudavam comigo, cujo pai era desenhista profissional e fazia cartazes para divulgação de filmes de faroeste. Ficava fascinado com a habilidade dos irmãos desenhando e tentava imitá-los, mas sempre que comparava meus desenhos com os deles, me frustrava, mas, também havia a esperança que poderia melhorar meus rabiscos se continuasse praticando.



Edf. da Perverança, Rua do Sol
 Minha mãe foi minha grande incentivadora, quando terminava um desenho, ela fazia uma cara de espanto, logo após abria um sorriso e saía sempre com um elogio: ”Esse menino é um artista!” Colecionava tudo que fazia numa pasta e muita vez desenhava só pra ver o seu sorriso e a sua felicidade. Ela realmente era muito prendada: desenhava, fazia crochê, flores, tocava acordeom e tinha uma caligrafia maravilhosa. Cresci acreditando nisso, que era realmente um artista e tempos depois comecei minha incursão nas cores, ela havia me presenteado com tela, pinceis e tintas. Estava sempre rabiscando e minha fonte de inspiração era a enciclopédia “CONHECER”, que minha mãe colecionava em fascículos vendidos na banca do sr. Ronaldo na praça D. Pedro II (Catedral), além de personagens de faroeste e gibis.
Igreja do Rosário, Rua do Sol
 Foi o desenho que me aproximou da Arquitetura. Antes sonhava em ser engenheiro, achava que tinha o perfil por gostar de matemática e desenho. Então, numa dessas reviravoltas da vida, às vésperas do vestibular, chegou a Maceió um irmão que é engenheiro e trabalhava em Manaus. Em uma bela manhã de domingo, na praia de Ipioca, conversando e caminhando a beira mar, ele me questionou por que não fazia o curso de Arquitetura, já que gostava tanto de desenhar? Nunca havia passado pela cabeça essa possibilidade, até porque não sabia direito o que era. Comecei a ficar curioso e no outro dia, lá estava eu visitando o Centro de Tecnologia da UFAL, onde funcionava o curso de Arquitetura e Urbanismo.
Residência no Farol
 Foi amor à primeira vista! Quando adentrei as salas do curso, fiquei encantado com tantas pranchetas verdes. Pensei: “Arquiteto só desenha, é aqui que quero ficar!” Entrei no curso em março de 1982 e a partir daí, o desenho tomou outras proporções na minha vida além de aumentar meu fascínio pelo ofício de arquiteto. Percebi quanto somos importantes para o mundo e nosso compromisso social com a cidade e o país, vai muito além da prancheta.


A Arte de desenhar não é privilégio de alguns poucos seres humanos iluminados por uma deidade. O desenho, para o arquiteto e o designer é a sua segunda língua. A comunicação verbal, muitas vezes torna-se imprecisa quando desassociada da comunicação gráfica. No livro:” Caminhos da Arquitetura”, o grande arquiteto Vilanova Artigas em um capítulo que aborda o Desenho, diz:” Para desenhar é preciso ter talento, ter imaginação, ter vocação. Nada mais falso. Desenho é linguagem também e enquanto linguagem é acessível a todos.” A popularização das mídias digitais no início dos anos 80 chegou com o conceito que a tecnologia poderia substituir o traço. Não é bem assim! Mas, não é minha intenção polemizar nesse texto. No processo de criação de um projeto arquitetônico, há várias etapas. Os programas midiáticos que auxiliam nessa elaboração, são indispensáveis, visto que as novas tecnologias estão cada vez mais presentes no nosso cotidiano, além de viabilizar tempo e esforços. 

Igrejinha de São Gonçalo
 Vejo o desenho manual como a ferramenta primeira do processo criativo, tornando-se um método partícipe na formulação, restruturação e desencadeamento de ideias. O traço é mais rápido, acompanha o pensamento e não exige suportes especiais... Quantas ideias geniais surgiram num guardanapo? Digo, me apoiando em Stroeter: “...o arquiteto pensa desenhando, sente desenhando, desenha sentindo, descobre desenhando, desenha descobrindo, constrói desenhando. Molda as ideias no papel. O desenho é, em essência a linguagem que usa consigo próprio ao projetar.” A inspiração, ou “insight” quando “chega”, na maioria das vezes, é fruto de um processo racional angustiante e é muito volátil. A ideia, se não registrada, vai embora e aí, nesse momento que o analógico entra em cena, até porque não é todo instante que temos um computador ao nosso lado, já plugado e acessível. Penso que o desenho jamais será substituído pelo computador e será sempre indispensável. Grandes estrelas do cenário da Arquitetura mundial: Norman Foster, Santiago Calatrava, Frank Gehry, entre outros, se apropriam do desenho na fase conceptiva do projeto. As renderizações, por mais fotográficas que pareçam, não substituirão o prazer de riscar e traquinar com o lápis e o papel. Quero dizer algo que considero muito importante, na Arquitetura o desenho não é um fim em si mesmo – pode até ser quando meramente decorativo, seja ele manual ou digital – ambos se complementam. O desenho é uma forma de representação, não é Arquitetura!  É o meio pelo qual a Arquitetura se manifesta, como a música através da partitura. Não se vivencia o espaço (espacialidade) através do desenho, mas ele tem sua serventia como representação de ideias, objetivando fazer uma boa Arquitetura, mais humana e sustentável.

Museu Theo Brandão
 Quando terminei o curso de Arquitetura em 1986, comecei a trabalhar com projetos e construções. Envolvi-me em trabalhos (projetos) onde várias atividades humanas eram desenvolvidas: residencial, comercial, clinicas, laboratórios, escolas, igrejas, institucionais, praças e mobiliário urbano. Nos tempos de “vacas magras”, ganhava a vida como “perspectiveiro” nos escritórios de arquitetura. Mas, não me limitei apenas aos desenhos de prancheta, gostava de desenhar ao ar livre (plein air). Havia um desejo antigo, que remontava ao início do curso de Arquitetura, quando a professora da disciplina “Desenho I”, levou toda turma desenhar a Igrejinha de São Gonçalo no bairro do farol. Esse desejo (desígnio) de desenhar os edifícios antigos de Maceió ficou durante muito tempo “hibernando”. 
 
Museu Pierre Chalita
Até que em certo momento, através das redes sociais, fiz contato com diversos grupos de “Sketchcrawl” - eventos promovidos por desenhistas urbanos em todo o mundo, que saem às ruas a desenhar a cidade e seus monumentos, pessoas, árvores ou qualquer coisa que faça parte do contexto urbano.Aqui no Brasil, esse movimento é muito forte nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. Outro grupo que despertou ainda mais meu interesse pelos prédios históricos – não poderia deixar de citá-lo, para não incorrer numa injustiça, foi o “Maceió Antigo”, através dos comentários, postagens e curiosidades publicadas, comecei a me entusiasmar mais pela história da minha cidade.

Movido pelo interesse de desenhar os edifícios históricos, comecei a perambular pelo centro de Maceió, normalmente aos domingos à tarde, quando há menos movimento na cidade. Atentei para as fachadas de prédios antigos, maculadas por marquises metálicas e uma profusão de letreiros e cores ali colocados sem nenhum  cuidado ou compromisso com a sua história e o seu estilo arquitetônico. Edifícios que foram vítimas da desinformação dos comerciantes e descaso dos órgãos públicos durante décadas. 

Capela do Cemitério de São José

Vi um centro histórico depauperado e fétido, muito diferente daquele que ia com meus pais passear quando criança. Imaginei que poderia registrar o descaso através do desenho. Alguns edifícios parece que pediam para serem notados, poderia ser uma maneira de denunciar os maus tratos. O grande dramaturgo poeta Oscar Wilde, disse certa vez que: “Não havia neblina em Londres antes de Whistler começar a pintá-la.” Talvez quisesse dizer que a Arte tem esse poder de tornar as coisas mais estimulantes. 
Casa da Palavra
  A observação direta e consciente de cada edifício que me propunha desenhar, me desperta para a beleza e exuberância dos belíssimos detalhes arquitetônicos de suas fachadas. Maceió ainda é uma cidade muito rica em edificações de valor histórico e alguns exemplares podem ainda ser muito bem restaurados. Temo que um dia toda essa beleza possa desaparecer, são poucos prédios que conservam suas perspectivas originais, beneficiados pelas leis de preservação. Meu trabalho busca resgatar essa memória que aos poucos estamos perdendo, alguns edifícios belíssimos, em Jaraguá, por exemplo, estão agonizando com lixo acumulando em seu interior e entorno e ponto de encontro de miseráveis. É um grito de socorro contra a mutilação, desprezo, desrespeito e demolição de um patrimônio que ainda resiste para contar a nossa história. 
Igreja do Livramento


Nenhum comentário:

Postar um comentário