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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Memória: a história familiar




Minha irmã, covardemente assassinada
Se eu recordo, qualquer caminho para o Juazeiro era longe. Os romeiros costumam cantar dolentemente,  o quanto de estrada falta para chegar, muitas vezes o sol nasce e torna a nascer, e o Juazeiro parece perdido na fumaça da terra. Fui de carro; imagine nos tempos de Tio Lourencinho e dos irmãos Dondon e Dionísio.
Minha caderneta de lembranças e pendências com a vida (II)
Luiz Sávio de Almeida

Sumário 

Onde se fala sobre o que se pretende
Onde se fala sobre como Fausto voltou para Capela 
Onde se fala um pouco sobre Fausto
Onde se fala sobre as andanças do Tio Cícero



Onde se fala sobre o que se pretende

Talvez este trecho deveria ter sido escrito no primeiro grupo de lembranças que publiquei. Não fiz e há tempo agora. São anos juntando informações e lembranças. Decidi  começar a publicá-las, como se eu fosse buscar o passado e conta-lo, seguindo uma linha que foi aberta pelo primo e brilhante historiador que foi o Wenceslau de Almeida. Ele publicou alguns artigos, inclusive, que passam pela história da família, na revista do Instituto Histórico. Wenceslau era um erudito sobre a história do vale do Paraíba e, em particular, da área da antiga Atalaia, da qual, até finais do século XIX, Capela era um povoado.
Foi da década de vinte do XX, que Wenceslau começou um levantamento da genealogia da família, coletando dados de cartório, ouvindo fontes em conversa e disto gerou o que conheci como Caderneta do Wenceslau, uma pequena caderneta de anotar compras em bodega, tipo conta corrente. O meio onde escrevia deu nome à escrita. Ainda vi este material, certo dia em que fui com Eustáquio Moreira à casa do Coronel José Otávio para uma conversa. Não sei com quem anda o rico acervo fotográfico que existia na João de Deus, a usina que comandava a economia da Capela, Cajueiro e parte de Atalaia.
O Eustáquio Moreira copiou a parte referente à família dele e tembém vi e copiei o que ele montou. Era a caderneta do Eustáquio, primo, irmão da Áurea,  casada com o Pedro Macário do Metro de Ouro, loja de tecidos na Moreira e Silva em Maceió. Da tia Terezinha conheci o Aberal e o Zé Augusto. Ele era – salvo engano – pracista e nos visitava em Penedo. Parece que ambos foram para o Rio de Janeiro. Acho que a Antônia, prima,  copiou parte do trabalho do Eustáquio e acrescentou informações. Quem tem os cadernos dela é o filho: o Hélio da Gameleira. Falavam que o Efigênio escreveu também uma caderneta, mas o filho me confirmou que não.
O Cícero da Capela deve ter anotado muita coisa; faleceu. O Soriano também: ambos faleceram.  Talvez o registro que tenha ficado e de alta importância é o chamado livro do véio Pedro, irmão do Wenceslau que o ofereceu ao coronel Zé Otávio. Quando o coronel morreu, o livro escafedeu-se, mas estava guardado com o Tonho Moreira.  O Duda Moreira recuperou, mandou datilografar e repassou para nós; recebi uma cópia dada ao Sérgio Moreira.
Tudo isto faz parte de um grande conjunto de informações, mas privilegia Almeidas, pouco existindo sobre os Albuquerque Pontes. Sei que há um trabalho recente e que foi feito pelo pessoal do Clóvis, segundo me disse a Solange, filha dele e minha prima em segundo grau. No entanto, conheço livros de Ieda, prima, filha da Tia Lurdes, trabalhos do Rosival e do Roberval, filhos de Tio Lourenço. Há também um outro  importante trabalho da prima Sonia Xavier de Araujo-Ulrich.
Papai escreveu um livro sobre sua vida e assim fez o Aloísio Costa Melo, primo dele e filho de Tio Pedrinho. Tio Pedrinho também escreveu suas memórias. Faz tempo, meu pai adoentado, eu sempre estive com ele em torno de duas horas por dia e muitas vezes eram todo o sábado e todo o domingo. Haja histórias e mais histórias da Capela e de outros cantos.  Um dia ele me pediu para escrever a história da Capela. Disse que faria e comecei a tomar notas e, além do mais, tenho mania de pegar dados sobre curiosidades que me aparecem.
Assim foi brotando a ideia de escrever esta caderneta de lembranças, deixando os assunto chegarem sem consultar a esquemas e  sem ter preocupações acadêmicas; deveriam ser notas que fossem escritas a pedido do momento e que muitas das observações e anotações guardadas sobre o contexto do tema fossem aproveitadas. Cheira um pouco ao modo narrativo que Tio Pedrinho ensinou para fazer folheto de feira. Tio Pedrinho ensinou a meu pai  que me ensinou a arte do folheto de feira. Minha primeira publicação foi um deles e intitulado voto não se vende e consciência não se compra, publicado pelo Serviço de Assistência Rural da Arquidiocese de Natal.  O segundo foi um folheto intitulado As dores do gigante ou a fachada do Brasil, escrito em parceria com meu Compadre Chico Traira,  já falecido. Vendíamos nas feiras do Rio Grande do Norte.
Dele, não ficou qualquer registro; do primeiro, tem-se, mas o segundo ficou enterrado nas feiras do Rio Grande do Norte. Dos folhetos, ficou a mania de querer brincar com a narrativa;  ter um objetivo, mas andar por desvios e desvios e sempre voltando ao tema. Acho que isto, esta forma de escrever define este relato de lembranças e, nele, por opção, jamais ter como base uma escrita acadêmica. No fundo, estarão as lembranças a mim repassadas e as minhas próprias recordações de vida, vez em quando entrando na história a que vou chamar do prosaico,  com informações que foram anotadas sobre objetos e situações de nosso dia a dia.

Onde se fala sobre como Fausto voltou para Capela
              
Fausto de Almeida
 Imprensado em Maceió, na pobreza da Rua do Cisco, cinco filhos nas costas –  Dondon tinha menino encarrilhado – Fausto vai ter de voltar para Capela, baixar a cabeça, contar com a ajuda que será dada pela Vidinha e pelo Major, irmão da Dondon. Montam outra bodega e a casa ainda hoje existe, perto do Major que era onde está o Clube.  Haviam descoberto, mais uma vez, a repetição do caminho para Fausto Vieira de Almeida: ele teria de ser bodegueiro e agora, esperar pelos bons dias de feira, longe do mercado, quase em frente ao Torquato Cabral, o belíssimo grupo da admirável Capela.
               Era pelos lados do grupo, que vivia a Dindinha Belmina, linda, cabelão descendo pela cintura, oitão do grupo e passagem para a beira do rio. Andava cega, quando a vi.  Casinha, acho de porta e janela, caso me recorde direito.  Se não fosse cega, era abrir a janela e ver o rio ou a pracinha em frente ao grupo. Pois bem, Fausto volta para a Capela e o que fazer da vida? Ser domesticado mesmo como bodegueiro; do que ele poderia viver numa cidade como Capela naquele tempo? Se hoje é difícil, imagine como era.
               Sei que vai vender jogo de bicho, ser cambista.  Minha mãe ajuda o pai e andava preenchendo pule. Sei que vai ser fiscal municipal da feira, espécie de sinecura de baixo ganho e sei, também, que vai ser porteiro do Cine Ceci da Capela, onde Carlito e o Boca Larga faziam dezenas de risos, com a música saltitante do Maestro Chico Caetano. Passar fome, não passaria que Vidinha estava ali, na primeira fila. 

Onde se fala um pouco sobre Fausto

               E pouco se vai falar da vida do velho Fausto Vieira de Almeida, salvo que não ligava para nada, apesar de ser um homem muito bom. Então, dos defeitos, somente o roubar e o beber não existiam. Rabo de saia era seu maior encanto: passava uma e dando a ordem, o velho Fausto correspondia e tudo isto, enquanto tinha uma mulher honesta, pudica e guardada em casa à sua espera. Dondon sofria com Fausto; e lá vinha a obrigação de dar de comer aos filhos e tudo escorado em uma máquina de costura, que muitas vezes era apenas uma imagem para dizer que o irmão ajudava.
               A velha Dondon pegava fogo igual a busca-pé, com extrema facilidade e acho até que Fausto matava com delicadeza, ou na unha como se costuma dizer. Tinha dia que ela começava a gritar e ele dizia baixinho: “Peste!”. Aí é que a Dondon desembestava: ”Fale alto! Tenha coragem! O povo vai pensar que sou doida!”. Aperreios, talvez, de um  amor aos gritos. Separar? Loucura naqueles tempos; era virar uma mulher a um passo da difamação e aí os dois seguiam as ruas da Capela com suas tristes ou alegres afirmações de vida.
               Fausto era calado e Dondon era de arranco. Pavio curto ou vida sofrida? Quem sabe? Não exitava em colocar cinturão com cartucheira nos quartos  e sair procurando uma conversa sincera  com lobisomem. Tinha um bicho sem vergonha que estava correndo e era até de dia, luz do sol acesa. É que um danado inventou de vir andar na Capela e ficar espiando as meninas, as moças tomarem banho no Poço do Pai Pedro. É muita safadeza... E parece que tudo foi no tempo do Juca Malta como delegado, homem duro, sem moleza, não aguentava prosa viesse de onde. Papai trabalhou com ele e contava histórias interessantes.  Pois o lobisomem sumiu para ninguém mais dar notícia, desapareceu assim, misterioso como chegou. 
               Contam que vovô teve uma amizade até de botar casa;  Dondon soube, levantou e foi lá e tocou fogo na casa da mulher que nunca mais viu sombra do Fausto, pois rumou para o oriente médio, numa saída de rabo de foguete. Destemida, sem dúvida, aguentava tranco e talvez fosse bem mais aguerrida de que Fausto. Uma vez, salvou a vida da filha de morte certa na mão de um ladrão.  Não fosse Dondon, a querida tia estaria morta. O ladrão amarrou um arame na porta e por dentro: fechou.  Dondon escuta os gritos e arromba a porta com arame e tudo. O ladrão corre e imagine o que passou no coração da Dondon ao ver a filha ensanguentada por conta das facadas que levou. Ladrão deu ás de Villa Diego e fugiu para a rua. Tio Lourenço ouviu os gritos e veio correndo    e pegou o ladrão, dando-se uma história que é melhor parar por aqui.
 Tio Lourenço era magrinho, mas brabo que nem um siri na lata e somente tinha um canivete no bolso; assim mesmo, era de apontar lápis. Havia um tipo de canivete, onde se usava as lâminas de barbear que já haviam passado no rosto: cega. Quebrava a metade, encaixava em um suporte e isto deu para vadear no ladrão. A Gillete azul deve ter ficado vermelha. Veja que da barba, a Gillete passou para outro uso, ela que foi criada por volta de 1900, vivia junto com um pequeno pote e um pincel de fazer barba, substituindo a navalha que se amolava numa correia, e tirando dinheiro dos barbeiros, numa popularização que deve ter começado a se fazer depois da I Guerra Mundial.
É claro que se usava a navalha em casa. Mas a Gillete era bem mais prática; meu pai tinha um estojo bonito e logo pela manhã, após banhar-se, colocava o creme do rosto e passava a lâmina; não era tarefa difícil, mas havia a necessidade de tomar cuidado para não arrancar os tamboques; tarefa mais delicada era escanhoar, a mão esticando a pele e a outra passando a lâmina, examinando-se sempre por onde ficava pelo e ele era cortado na contra mão. Chato era quando a barba tinha redemoinho. Tinha tempo de menino tirar a barba; era quando os fiapos já ficavam incomodando e estava pelos fins da mudança de voz.
               Pouco vou saber a mais sobre meu avô. Mamãe, que era louca por ele, dizia que era o homem mais bonito do mundo e falava de peito cheio sobre ele; sentia uma verdadeira adoração, mas sempre tinha a ressalva no comportamento, o não ligar para a casa. Seria verdade? Sei que até a notícia de sua morte passa pelo inverossímil: meio dia, tomou um caldo cana picado, mergulhou no Pai Pedro e já saiu roxo, tal o ramo do estupor. Na verdade. Pelo que sei, foi um baita câncer, aquela doença que mata aleijando. Sumiu Fausto Vieira do mundo dos vivos. Nem mesmo a catacumba achei no cemitério da Capela. Disseram-me que se enterrou na cova de um parente. Mostraram. Será? Pois este era Fausto, um grande mistério na vida e na morte.

Onde se fala sobre o casamento de Maria José

Maria José de Almeida
Dondon, se teve outros amores, eu não sei. Apenas, na rua, andava de luto fechado, toda vestida de um preto forte; em casa, roupa mais à vontade, meio cinza, meio viúva já descansada. E assim foi por anos, até morrer, indo à Igreja, missal na mão, curvada para o tempo.  Minha mãe casou de surpresa e quando disse à vovó que iria sentar praça ao lado do  Manué, a velha rebateu: “Mas minha filha, você tem coragem de casar com um homem mais pobre do que você?”. Casar de surpresa era bom.  Não se gastava dinheiro, opção de pobre, casava e depois comunicava aos amigos; era diferente do casar fugida. Pois foi assim que se deu o casamento da Maria José do Fausto mais Dondon com Manué. Mamãe arrastou o padrinho Zé com ela, foram à Igreja e casaram: ela e Manué.
Manué  tinha comido uma tremenda poeira de vida; agora, a Igreja o abraçava, mas já não era tão pobre assim, já havia colocado as asas de fora e poderia sustentar a mulher.  Tomaria o rumo do Quebrangulo e já deveria ser Secretário da Prefeitura da Capela. Era um exagero chamá-lo pobretão. Nem sei para onde foram depois que casaram. Pai morava na Rua de Cima, conhecido lugar de pobreza; acho que morava com a Donana, sua irmã por parte de pai, que depois rumaria para o Rio de Janeiro por onde criaria os filhos. Pouco sei da Donana, minha tia, mas sei que era uma pessoa notável, abandonando tudo na Capela e correndo para o Rio a fazer, bem dizer, uma nova família nas bandas de Niterói. Era a mãe do Heitor, primo e grande amigo de meu pai. Nesta época, seu irmão José de Almeida era dos ricos das Alagoas e ela nem psiu deu: foi embora.

Onde se fala sobre as andanças do Tio Cícero

Os filhos de Dondon iam encontrando seus próprios caminhos; o primeiro morreu e se chamava Bartolomeu; o segundo, Cícero Romão Batista, viveu bangolando na Capela e tomou o destino do Rio de Janeiro, com o primo Dário que o levou com a autorização da Dondon e o ingressou no Partido Comunista sem a autorização dela, para imenso desgosto da velha minha avó. Tia Nini já havia casado com o Tio Isaís;  Maria José tomou seu rumo com o Manué, Lurdes vai ser Mestra Rural e vai viver em Limoeiro de Anadia, com Dondon e Lourenço que, acho, era o caçula, o ponta de rama. Maria José de Almeida também era Mestra Rural, curso tirado no Torquato Cabral.
Conheci o Tio Cícero ainda no Rio de Janeiro. Diz a Jurema minha prima e filha dele que estou errado, mas acho que foi numa loja de vender meias e chamada Olga. Meu pai foi resolver uns negócios e me levou com ele. Tudo terminado, fomos conversar com Tio Cícero, que nesta altura já era casado com a Tia Antônia, pessoa de raiz familiar na Serra Talhada do sertão de Pernambuco. Os dois estão enterrados aqui em Maceió.
Chegamos lá, perguntamos por ele, e ninguém respondia e passa tempo, até que papai diz ser cunhado dele e dá mais uns toques;  então, como seria no cinema, Tio Cícero abre a cortina, sai e dá um espanto: “Manoel!”. Depois me abraçou e tudo ficou assim na minha cansada cabeça. A Dondon e sua filha Lurdes conseguem trazê-lo de volta para o aconchego do lar alagoano e vem com a metade dos filhos e o resto faz aqui mesmo, dentre eles a minha primíssima Jurema.
Eu gostava dele e muito. Fui ao enterro. Ele me chamava de Comandante e, quando bem velhinho, quase se arrastava pelo meio do mundo. Era baixinho, meio peralta, bigode, a cara da Dondon, se minha avó  usasse bigode. Sempre foi muito bom comigo e vezes filei a boia de sua casa. Ele tinha uma estante, onde guardava seus livros da Editorial Progresso, publicados com o ouro de Moscou. Herdei a sua coleção das obras de Lenine. Acho que ele tinha, também, as de Stalin. Tio Cícero foi em cana; não sei se levou umas pitombadas. Dondon morria de agonia e rezava para o menino ter juízo; acho que esteve preso no tempo em que o Zé Maria, primo, estava também, para as amarguras da mãe que chorava suas desventuras.
Nem preciso dizer que estamos diante do Santo Padre do Juazeiro e que o nome do tio era resultado da fé que Dondon vivia, espécie de catolicismo que não acreditava nas loucuras que se diziam com meu padrinho. Dondon foi ao Juazeiro; saiu da Capela, montada em um cavalo e rumou para o Cariri; acho que foi com Salvador, pessoa de confiança e fogueteiro na Capela. Na mesma oportunidade e não sei se foram juntos, viajou o Major Dionísio com destino à Meca. Dizem que o Padrinho pegou na beca do Major, deu-lhe uns sopapos e ninguém soube como o Santo adivinhou a traição que doía na Tia Vidinha. O Padrinho quando pegava bela beca, era como se excomungasse e ele tinha a força no sangue vertido na boca da beata Maria Araújo.
Fazia tempo, que morava no Juazeiro um santo homem de nossa família: Tio Lourencinho. Eu o conheci quando ele voltou para Alagoas; vestia caqui, um lenço vermelho no pescoço e passava o dia lendo livros sagrados. Vendeu tudo o que tinha e foi para o Juazeiro onde montou uma casa de santos e se fez da intimidade do Padrinho. Casou com a Tia Mocinha e tiveram um filho: Paulo.  Paulo morreu quando andava com os burros pelo sertão, a chuva caiu num de repente, a água do rio engrossou e ele não teve tempo de sair do caminho que antes estava seco e esturricado. Tio Lourenço morreu, parece, em Viçosa, refém da marrada de uma vaca braba que pegou nos quartos lá dele.
Quem o trouxe de volta foi a bondade do Clóvis, filho do Antônio Toledo de Albuquerque. Clóvis era primo de minha mãe e ele sabendo das dificuldades de vida do tio, mandou chama-lo e foi assim que ele terminou se findando por aqui. Parece que a Tia Mocinha enterrou-se para onde parte da família mudou.

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