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sábado, 24 de maio de 2014

Uma velha igreja nas margess do Rio de São Francisco

Rio São Francisco. People. Landscape. Everyday life.
A place made with dreams




 Um papo de mesa de bar (I)


          Um dos sonhos da minha vida era visitar esta ilha que eu já conhecia do longe do meio do rio e de fotografia da década de sessenta do século XIX. Eu sempre me senti fascinado e me dizia: um dia chego lá. Vai que faz algum tempo, na companhia do Mário Aloísio e de Sandro Gama, larguei-me de Maceió para ver o paraíso.
          Desci na ilha: à minha frente, o colossal Sergipe, à direita, a Foz do Panema. Eu estava em meu sonho; eu nunca desejei Oropa, França e Bahia. Desejava a Foz do Panema com sua igreja misteriosa e preguiçosa. Desci na ilha e comecei a sonhar: viajei solitário para muito longe, para um mundo que andava escondido dentro de mim e somente a ilha poderia retirar. Era a maravilha da espera. 

         
        É bom saber esperar, ter paciência para conseguir. A beleza quando se junta à esperança realizada, transforma a vida do vivente, daquele que se arrasta, levando o vale de lágrimas da Salve Rainha para as masmorras do tempo em que apareceu: os finados da Idade Média. Eu sempre soube que a esperança traz a beleza  dentro de si. Quem escava a esperança e chega lá, somente encontra o outro lado do mundo. A lua não, mas a terra tem sua face oculta.

Deixa eu colocar mais um pouco de cerveja!

         
 Pouco importa se a gente não fica na face oculta da terra, sozinho, escondido, ouvindo o vento trazer, de vez em quando,  o som do Ivon Curi cantando o Miudinho. 

          Estar no outro lado da terra, no real que a vida lhe nega, é uma ciência de importância e quem sabe são peixes como traíras e jundiás, pássaros como o xexéu, concrizes, gente como eu e mais tantos que viajam pelo tempo com a alma limpa de desventuras e sabendo a ternura dos segundos que se pode ter. Como é bom mergulhar na felicidade das ilhas do tempo, viver sem cobrar, sem pedir, apenas navegar como eu estava navegando na hora em que descobria a minha Ilha. Ilha do Nada, pensei ao saltar em terra e depois Ilha Onde Sou depois que me sentei na terra d'areia que sufragava a praia.
               Acho que toda ilha tem a terra virgem e que sempre vive para ser descoberta centenas de vezes, mas a descoberta é apenas uma e nunca mais se repetirá. Encontrar a ilha, mesmo que a vegetação seja fugidia e rasteira, mesmo que seja uma ilhota, ilhinha, um quase nada de tripa de terra no meio d'água é um estado de pureza d'alma, como pediriam os antigos e novos poetas.

          O que eu desejava ver naquela Ilha que era a minha terra da promissão? Eu não tinha desejo, não queria ver, apenas ficar e então fui andando de olhos fechados e fui abrindo lentamente ao tocar em uma rocha. E estavam a rocha, um caminho, um rio e o céu cheio de nuvens. A minha Ilha existia.


              A rocha era cheia de detalhes e eu poderia passar a vida descobrindo os segredos pois nem toda ela é, como se pensa, uma fortaleza. Aquela dava seus encantos para mim, não se trancava e nem pedia para ser escalada: apenas estava lá. Aquela rocha ficava e sabia falar e foi conversando e me contando os segredos e sabia de tudo aquilo que o rio escondia.
 Mostrou-me as plantas no chão e me pediu para ter cuidado com elas; foi quando me abaixei para a terra e as vi, secas:



          




Eu nunca da ilha e nem desejo sair. Quero ficar aqui, onde olho para plantas secas e converso com rochas de fino trato, onde vejo a areia e a água do rio. Aqui não falta horizonte para indicar que existe algo bem mais além. Eu não quero chegar mais além; quero estar aqui, enquanto estou aqui, Na realidade, encontro uma estranha relação entre distância e tempo. Tudo se anula nesta ilha onde vivi e vivo e viveria, mesmo estando a conversar nesta mesa de bar.
 

Um comentário:

  1. Consegui ver sem nunca ter ido...obrigada pela viagem professor. Texto lindo e inspirador.

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