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segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

O governo das Alagoas e o trânsito para a chamada era Bolsanaro


 


Em torno da comenda 

Viventes das Alagoas (I)

Luiz Sávio de Almeida











I – Uma pequena introdução

               Minha intenção neste texto, tem duplo aspecto. Em primeiro lugar, agradecer a lembrança que se teve de meu nome para  receber a comenda Vivente das Alagoas. Sinceramente fiquei lisonjeado pela recomendação e, de certa forma, emocionado em face  de uma série de motivos entre os quais ressalto o de sempre ter entendido que Alagoas deveria contar com uma editora oficial, tê-la como elemento  capaz de dinamizar com material de alta qualidade,  a produção de pessoas de nosso Estado e sobre nosso Estado.  Participei ativamente da criação da Editora Graciliano Ramos, coisa feita na época em que o Sérgio Moreira era Secretário de Planejamento. Infelizmente, não houve muito ajustamento na cúpula  e terminei saindo para nunca mais voltar: nem tenho saudades e nem tenho maldades.


O sonho era que a Editora tivesse como uma das finalidades essenciais, abastecer a nossa rede escolar. Talvez seja importante pensar que  nossos alunos pesquisam, quando podem, no “mínimo” – é uma aproximação – 30 anos passados em nossa rede de bibliotecas. Por mais dedicação e capacidade que a direção da Biblioteca Pública de Alagoas tenha, por exemplo, sempre será de acervo desfasado na qualidade do material de pesquisa, agora “suprimido” pela facilidade, inclusive, de se ler tolices em sites de internet.  Era este o meu objetivo ao querer estruturar a Editora e a tê-la proposto ao Sérgio Moreira: coloca-la a serviço da ciência, da pesquisa e fundamentalmente do próprio Estado e foi por isto e para isto que, inclusive,  foi fundada a revista Graciliano que teria por finalidade um grande público leitor (tamanho alagoano) e apoiar as escolas.
Aliás, diga-se de passagem que, não havendo engano de minha parte,  o nome da revista foi por mim sugerido e apoiado pelo Presidente da Cepal à época e pelo grande companheiro de viagem que foi o Rizotto, depois saído e depois voltado.  Então, passamos tempo testando a revista, Rizotto e eu, sem encontrar um modelo satisfatório, aceitando apenas que deveria ter um dossiê temático e que deveria ser  buscada excelência em seus autores, o fino, sendo possível,  de áreas científicas em alguns textos, pois a revista aportaria nas escolas e deveria ajudar a romper o atraso da bibliografia nelas disponível.  Depois disto, a própria Editora iria se capacitar para entrar no mundo da internet, lançando textos que subsidiariam o primeiro e o segundo graus, além de suprir o interesse universitário e sempre buscando, como foi dito, nível de excelência: juntar a produção de mestres e doutores e produzir com eles, em linguagem apropriada, textos de  cobertura à defasagem de informações.       
Faz tempo que argumento e incentivo a produção de ensaio, dissertação ou tese, sobre a vida cultural de Alagoas.  E isto é especialmente necessário, para entendermos uma série de circunstâncias que cobre a nossa produção cultural em forma, inclusive, livresca. Seria necessário alguém interessado em fazer uma espécie de sociologia histórica do livro em Alagoas e da própria “administração” que o Estado realiza do que alguns chamam de vida cultural, algo absolutamente difícil de caracterizar e, somente, pela prática se pode começar a entender o que efetivamente ela significa e a que campo se alude ao usar-se o termo, sem dúvida, absolutamente esvaziado de seu senso antropológico.
O fato é que o livro tem uma trajetória histórica em Alagoas e aparece, em grande parte, associado à montagem do parque gráfico que sempre foi presente em Alagoas, desde os tempos do Iris Alagoense.  É, aliás, um parque quer nasce pela necessidade política e pela efervescência que se dava em face da circulação acelerada de ideias naquele recanto do Século XIX,  época em que se inicia com maior peso a saída do partidismo pela montagem de estruturas de sustentação política, como foi a famosa Sociedade Federal, uma força à esquerda em torno da Abdicação. Por aí se começa a notar que a histórica das gráficas, da imprensa e do próprio      livro se confundem no andamento político da vida alagoana, juntando-se as livrarias, como seria de esperar devendo ser dito algo talvez trivial: e se havia produção e livraria, havia quem consumisse. E hoje?  Esta colocação é viável, é possível?

II – Das pessoas homenageadas, da comendadoria e do futuro
               Claro que a comenda não foi somente para mim, pois pouco ou nada efetivamente represento: foram nomes que  merecem destaque. Deles eu quero ressaltar, de imediato,  dois: Dirceu Lindoso e Renata Calheiros. Dirceu pela nobreza de sua vida dedicada a pensar o Brasil e Renata Calheiros pela sua postura simples,. inteligente e agradável e pelo que pode fazer. Ela é uma pessoa a quem apresento meus respeitos. Dirceu é uma obra consagrada; Renata o começo, e que pode ser – Alagoas – de grande valia pelo que tem condições de  fazer e fomentar. Não preciso falar em Primeira Dama e aqueles que me conhecem sabem que eu não faria este elogio, se não tivesse razão para tanto. Não sou, não pertenço e nem quero ser de qualquer sociedade de corte ou palaciana. Mas não é por isto, que negarei as pessoas, e não é por isso que eu deixaria de agradecer a quem esteve ao derredor das homenagens, dentre eles, a moça simples e discreta que é a senhora Renata e que tomará se engaje em nossa vida cultural. Foi gratificante sentir duas missões presentes: a de bem findar-se – que era a minha e a do Dirceu – e a de bem fazer-se, que era a da cidadã mencionada.
              
Durante todo o cerimonial, eu pensei que importância aquilo teria. E cheguei a uma conclusão:  a importância era a circunstância, e uma série de flashs históricos começaram a pesar em minha cabeça e daí este artiguinho, em que se pode nota-la perfeitamente.  Pensei inicialmente em escrever cartas abertas, mas preferi ficar em singelas anotações, numa espécie de viagem circular sobre o que se passa e pode acontecer com a chamada cultura em Alagoas. No entanto, pesava mais em minha cabeça, o que aconteceria em futuro próximo, onde as proposições do governo federal parecem ser diametralmente opostas às do Estado.
               É uma situação que me parece inusitada para a história política de Alagoas: um governo foi eleito e contra as posições do Presidente que também foi eleito, e elas me parecem marcadas por um salvacionismo e por um forte conteúdo ideológico que confronta com a experiência da Vivente das Alagoas.   Não posso deixar de perguntar-me sobre como serão as relações, especialmente, diante das distorções do federalismo brasileiro. A imagem que construímos com o fazer-se e o findar-se ajudam a ressaltar a expectativa. A Vivente das  Alagoas vem de um programa editorial que consagra minorias e trabalha diferenças. Como será isto no futuro? Um exemplo é claro: o Presidente eleito considera o movimento dos semterra como terrorismo. O governo, pelo que sei, sempre tratou bem e deu seus ouvidos ao movimento e, aliás,  cheguei a ouvir elogios ao modo como o governador discutia a questão.
Como será o encontro destas duas situações? Os semterra – que eu não considero terrorismo,  mas expressão das contradições agrárias no Brasil que nunca fez a famosa reforma    ilustram os pontos de encontro que se darão. Os negros, os índios, os quilombolas, as minorias que se fazem neste país, foram e estão no programa editorial que se realizou, na verdade, em decorrência de uma vasta posição universitária que produziu e produz dezenas de textos, marxistas ou não. Como a FAPEAL irá pronunciar-se e estar com o que o governo federal pensará e intentará quanto à Universidade? Alguns poderão dizer que estou a inventar um futuro e não teria dúvida em responder que o futuro já está inventado. No entanto, sei apenas, que tudo se delineará, mas não tenho qualquer ideia do que será. Talvez eu esteja querendo ajudar aos que farão a sociologia histórica deste momento, pois são eles que analisarão e responderão a estas perguntas.
A Viventes das Alagoas está em um limiar histórico. Acredito que até ela, temos um momento político e depois dela teremos outro para a vida científica e cultural das Alagoas. E duas contradições são ilustrativas: a) semterra como terrorista e b) o diabólico dos culto afro-brasileiros. Aduzo: como será a expressão de uma história e de uma ciência social? Posso estar errado, mas deixo este depoimento para o futuro, ficando a dica de examinar o ponto de transição que enuncio.  Em meu modo de ver a história, é fundamental encontrar os pontos de transição, onde as contradições exemplarmente aparecem.
              
O que iria caracterizar um marco de transição?  Eu sempre fui motivado pela forma como Mannheim – anda fora de moda – estabeleceu sua teoria do trânsito e, sobretudo, quando ele argumenta sobre valores no trânsito e do trânsito. O marco é o significado da ruptura entendida como a quebra do andamento. É por isto que coloco a Vivente das Alagoas como historicamente situada em um limite que possivelmente não existiria, caso não existisse o momento eleitoral a que nos referimos. Parece um apelo orteguiano, mas nem tanto: não é ela somente, pois não existe só: sempre se é algo e suas circunstâncias.
               Neste trânsito das Alagoas, o que acontecerá? O que se dará com a composição à esquerda que se encontra com o Governador? Será mantida e como será mantida? Não sei se serão tempos difíceis; sei apenas que serão tempos diferentes. E que a expectativa é grande para saber como ficarão nossas políticas culturais e científicas, havendo o pressuposto de que aceitar as práticas não seria aceitar as teses? Sinceramente, não tenho resposta e ela não será dada por mim. Talvez o melhor modo de colocar a pergunta será: qual a estratégia que o governo do Estado de Alagoas utilizará para trato com o governo federal?

III – O programa editorial

               O PROGRAMA de edições foi um marco na vida cultural e científica das Alagoas e eu até poderia entendê-lo como um dos momento civilizadores para Alagoas. Por mais que eu discorde de uma série de pontos,  é orgulho ter tomado parte deste capítulo da vida alagoana e dizer que tudo que aconteceu de problemas, grandes ou pequenos,  fica na linha do aprendizado que devemos ter para sermos coletivos.
A nossa história cultural – no seu viés de produção acadêmica – tem na Editora da Universidade Federal de Alagoas um de seus principais marcos no século XXI, semelhante ao que se desenhou na década de trinta do século XX, a partir do trabalho de um editor inovador e corajoso que foi o Professor Joaquim Ramalho; dentre outros pontos a merecer relevo,  a famosa Casa Ramalho inaugurou uma coleção intitulada  Autores Alagoanos,  iniciando-a com o texto de Humberto Bastos que, ainda nos tempos do Estado Novo reforçou a produção historiográfica nas Alagoas,  ao colocar o econômico no seio das discussões. Não se trata de um clássico no sentido de livro essencial para a discussão do que fomos e do que somos, mas, sem dúvida, era diferente e isto era de extrema importância ao mostrar que a história louvatória poderia ser substituída por outra e que fosse capaz de discutir e ampliar o conhecimento sobre nossa formação, fosse  qual fosse o matizamento teórico.
               Este o sentido do livro do Humberto Bastos e  ele veio das mãos do Professor Joaquim Ramalho que, aliás, já  deveria ter recebido  homenagem de gratidão por parte de nossos governos; e isto, pelo que seu trabalho significou para todos nós, ele mesmo herdeiro da tradição da Casa Ramalho, vinda do século XIX: ela foi fundada em 1893. Foram anos de uma tipografia e uma livraria seculares.  Imagine, no efêmero de Alagoas, secular é arqueológico.  Aliás, deve ser visto, que o trabalho de Bastos foi recebido como estudo sócio-econômico e ele saudado na categoria de sociólogo.
               Na mesma oportunidade em que se falava do livro de Humberto Bastos, mencionava-se um outro a ser incluído na coleção Autores Alagoanos e era da lavra de Rocha Filho: Loucos e delinquentes.  Em 1938, o nº 2 da fantástica revista Alagoas dava uma lista de publicações que haviam sido lançadas pela Casa Ramalho e sobre a direção do Professor Joaquim Ramalho, ele mesmo sendo geógrafo e autor: um livro de poesia de Aristeu de Andrade intitulado Noivado; Açúcar e algodão do Humberto Bastos;  do próprio Joaquim Ramalho aparecia Geografia de Alagoas; e de Jaime de Altavilla  era mencionado Estudos de literatura brasileira. Era matéria recente: havia uma listagem anterior e grande. O próprio Jayme de Altavilla havia publicado um livro pela casa e intitulado Da vida e do Sonho, conforme de pode ler no  Diário do Povo, edição de 4 de Fevereiro de 1917.
Mas tudo, em termos de  Autores Alagoanos começa com Humberto Bastos que esteve implicado na vida política contra a ditadura, nos embates da Aliança que era uma frente contra a ditadura de Getúlio Vargas.  Os anos trinta de Alagoas ainda não foram efetivamente estudados e são vitais para a nossa vida cultural; naquela ambiência, Joaquim Ramalho encontra – e deve ter amadurecido nas suas conversas – que existia a possibilidade de iniciar sistematicamente a produção de autores que fossem ou estivessem nas Alagoas.  E a comemoração do sucesso do livro e do mensário Alagoas foi devidamente realizada com a presença de diversos intelectuais da praça, em uma confeitaria que devia ser altamente conceituada:  Três Coroas.
O que levava à uma síntese das Alagoas nos salões daquela confeitaria? E no que se louvava Joaquim Ramalho para encontrar produção e mercado para o que ele chamava de autores alagoanos?  A resposta pode ser extremamente simples:  um punhado de pessoas pode ser suficientemente expressivo para inaugurar um tempo. Joaquim Ramalho era, como dissemos, um audacioso e liberal editor em plena institucionalização do Estado Novo. Juntou-se a nomes como Afrânio Melo tido e havido como comunista;  juntou-se a André Papini, outro de militância direta na esquerda, com o  Rui Palmeira de ligações com o Partido, expressivo liberal que era; e as páginas de Alagoas, a revista fantástica,  estavam  abertas para nomes e temas diferentes da pauta intelectual de direita ou conservadora, em uma época em que Alagoas ainda vivia a eleição de uma nobreza intelectual,  com o Príncipe disto e daquilo e baronatos subsequentes.
Era um tempo onde pessoas como Afrânio Melo feriam profundamente a arquitetura do intelectual cultuado como assumidade, palavra doirada nas homenagens cotidianas das Alagoas, cuja sociedade era pródiga em solenização de confirmação de elites.  Era de bom grado os rompantes de citações em grego mal decorado, em latim forjado às pressas, e tudo isto era consagrador, como era a figura do tribuno  penalista a chamar o réu de palavras que ele, o réu, jamais poderia entender: energúmeno. Era uma sociedade que precisava ficar de boca aberta, magistral forma de calar-se e, assim, Alagoas sucedia-se na bolinação da mesmice. Era assim, mas isto não quer dizer que jamais tivemos excelência: pelo contrário.
Tivemos homens notáveis, como o extraordinário Francisco Dias Cabral de quem sou fan de carteirinha e acho que merece muito mais de reverência alagoana. Sou absolutamente fan da história dos umbrais senhoriais d’Alagoas escrita pelo Caroatá, fanzoca do Oiticica no seu Memorial Biográfico do Comendador José Rodrigues Leite Pitanga, fanzoca do Moreno Brandão, do Abelardo Duarte, babão pelo Diégues,  fan de carteirinha do meu imenso amigo Theo Brandão, a quem sempre louvo a memória.
Todo este povo merece bem mais do que uma hom
enagem, agradecendo a eles pelo que fizeram. Discordo, humildemente,  deste povo todo que citei, mas admiro, respeito o modo como contribuiu para discutir nossas tais e quais Alagoas.  Sem eles, eu não teria aprontado as minhas parcas contribuições e nem pessoas como Lindoso poderiam enfrentar a grande obra. É muito bom, que exista gente honesta diferente de nós.  As obras principais destes intelectuais deveriam ser reeditadas, com textos inicias orientadores de leitura, escritos por especialistas de alta envergadura acadêmica. Talvez fosse interessante que a CEPAL ao definir suas posições editoriais, tomasse o assunto como prioritário. Eu não sei se a CEPAL antes de lançar seus Editais, definiu sua linha editorial, os princípios que informam o andamento de sua programação. Na certa sim e na certa esta temática está incluída, mas vale a pena insistir.


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