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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Antônio Daniel Marinho Ribeiro. O processo de satanizaçao ao Xangô, Maceió - Alagoas -1901 - 191Z



Texto  publicado em Contexto de 06 de novembro de 2011 em Tribuna Independente. Para este blog, estamos utilizando material digitalizado e com gerenciamento das imagens realizado por Kellyson Ferreira, com a coordenação do Professor Antônio Daniel Marinho.

 

Antônio Daniel Marinho Ribeiro

  O processo de satanizaçao ao Xangô, Maceió - Alagoas -1901 - 191Z

Vamos evidenciar a conjuntura que desembocou na série de acontecimentos conhecida como “O Quebra de 1912”. Pretendemos observar como se constituiu o discurso que co-fundamentava a perseguição sobre os grupos de religiosidade de matriz africana em Maceió, durante os primeiros anos do século XX, cidade que oscilava entre o provincianismo dos pequenos povoados e passando por reformas e melhoramentos em sua estrutura física. É importante, para contextualizar a realidade de Maceió, entender a crise econômica que passava o Estado. O governo afirmava que não havia sido dada solução por causa da conjuntura federal desfavorável; o discurso oposicionista mesclava falas a respeito de denúncias de corrupção e inércia do governo, e também associava os termos: Crise - Euclides - Xangô. 

Os impasses políticos e o Xangô 

O período anterior ao movimento de violência se demonstrava propício para a liberação dos cultos africanos. A primeira justificativa para isso é dada quando tratamos do processo sincrético, que, até certo ponto, se configurou como elemento que fermentou esse processo de “aceitação” das religiosidades africanas Naquele momento - a transição republicana -, o catolicismo necessitou traçar o mínimo diálogo entre as instâncias do oficial e do popular. O resultado disso? Aceitação estratégica de alguns elementos dessa cultura popular, que estava impregnada do imaginário do Candomblé. A questão era permitir a religiosidade popular, até que não ferisse elementos primordiais da doutrina oficial. 

A montagem dos Maltas e da oposição 

Pela parte do processo de oposição à Oligarquia de Euclides Malta e de seu irmão, montava-se verdadeiro aparelho para-estatalque consideramos uma antecipação da organização do movimento integralista no Brasil. A famosa “Liga dos Republicanos Combatentes em Homenagem a Miguel Omena” encaixava-se nos pré-requisitos de uma instituição para-militar que urgia por sentimentos como a ordem e principalmente a limpeza étnica. Em nota do “Jornal de Alagoas” de 13 de Fevereiro de 1912 podemos observar algumas características desse grupo. 

 Mesmo cometendo atos ilícitos contra a liberdade de culto, infligindo dessa forma a Constituição, a Liga se coloca a favor desses princípios legais - denominando-se como o “lado do bem”, ao mesmo tempo em que denunciam as calúnias que estavam sofrendo dos “adeptos de Chango” - agora, o “lado do mal”. Na Liga dos Republicanos e só existiam “homens dignos e amantes do Direito e da Liberdade...” Em suas ações, distribuíam folhetins, fechavam repartições públicas, vaiavam cidadãos e invadiam residências, e inclusive em momento posterior, o próprio Palácio dos Martírios forçando a fuga de Euclides para o Recife (NEVES, 2004, p. 203).


Ainda na nota de 13 de Fevereiro de 1912 são ditas, de forma muito garbosa, a aceitação, comoção e disponibilidade em ajudar que os integrantes da associação, considerada com ocarbonária” por Abelardo Duarte recebiam da população. “Em nossa sede temos recebido diversos objectos pertencentes à Bruxarialevados pela massa popular.”Nesse período, com a divulgação dessa nota, se efetivava o maior número de ocorrências de quebras de terreiros pela cidade. “Aonda de populares que tem dissolvido mais de setenta ninhos debruxaria...” (Jornal de Alagoas, 13de Fevereiro de 1912). E a própria Liga também possuía um jornal onde era efetivada a campanha contra a Oligarquia Maltina e o Xangô - “O Combatente”. 

 Malta e o xangô

Os “próceres do fanatismo” colocados nas noticias do dia 20 de Fevereiro de 1912, são as “bugigangas dos santos” que remetiam a figuras como “Ogum Taiô, Tia, Macuca e Leba” Essa última era a expressão de Exu feita naqueles cultos - Exu-Legba, que em muitos deles era a associação ao Diabo, como nos conta Bastide, e que, em parte das propagandas anti-governistas era imediatamente direcionado a figura de Euclides Malta e seus correligionários (que eram apelidados especificamente dessa forma - “os Lebas!”). Inclusive com acusações de que, rituais próprios como estupro de garotas virgens seriam realizados em uma câmara secreta nos fundos do Palácio dos Martírios, em homenagem e oferenda a Exu-Legba e outra divindade, Inclusive, uma das tiradas  mais ácidas na satanização do Euclides Malta, assim como dos  cultos a Xangô é a da história  posta em nota do primeiro dia de  Carnaval (20/2/1912). Tratava- se de reclamação de alguém assinado “chorona inconsolável” e que reclamava com os editores do Jornal de Alagoas”: o famigerado “Ogum-Euclides-Taiô” teria roubado o seu marido. Nesse caso, o marido era o próprio Rei Momo, "a alegria do povo". Como ponto final diz: "Console-se Moma, tenha paciência, ele um dia chorará também no inferno  e seu marido pode voltar para o ano.".

Em muitos momentos na seção “REFLEXÕES” do “Jornal de Alagoas” era realizada a associação entre o governo de Euclides e “a negra tirania de Xangô”. Como se a pureza sacralizada do poder secular estaria rompida e estuprada por poderes satânicos próprios do culto a Xangô. Nessas “REFLEXÕES” feitas nos dias 20 e 21 de Fevereiro de 1912, os cultos a Xangô são nomeados como “simplórios processos de porca magia” e que agora, com a saída a miúda do Sr. Euclides Malta do Estado os seus “feiticeiros tinham perdido o prestigio”. Nelas se encontra a alusão a uma tirania que escravizava o povo alagoano, e uma das causas do seu poder era, justamente, “a negra tirania de Xangô” que atormentava com os seus tambores e seus batuques, tanto quanto os desmandos do governador. Era a limpeza étnica cultural se realizando em uma sociedade heterogênea em sua raiz. Quando da fuga do Sr. Euclides, dizia-se que " (...) partiram, todos os males que nos afligiam e torturavam (...)" E deste modo se representou  o caráter muito próprio das sociedades cristãs e sua relação com o mal e suas personificações.No noticiário do dia 4 de Fevereiro de 1912 no “Jornal de Alagoas”, o fato mais enfático desse processo, aparece na notícia da noite do “Quebra”. De todas as notas essa é a mais incisiva e ferina, onde a relação da seqüência de interdependência que mencionamos é externada em todas as suas possibilidades. Sua manchete é bastante incisiva, como se pode verificar na figura 1.No noticiário do dia 4 de Fevereiro de 1912 no “Jornal de Alagoas”, o fato mais enfático desse processo, aparece na notícia da noite do “Quebra”. De todas as notas essa é a mais incisiva e ferina, onde a relação da seqüência de interdependência que mencionamos é externada em todas as suas possibilidades. Sua manchete é bastante incisiva, como se pode verificar na figura 1.
Na mensagem fica clara a intenção de relacionar o processo de manutenção do poder secular de Euclides com elementos exóticos, próprios dos cultos de Xangô. Termos e informações como: “Bruxaria” (como manchete estampada em caixa alta na primeira página), “Exposição de ídolos e bugigangas” e principalmente “Um bode sacrificado” eram destacados sobremaneira. Outra passagem importante da nota deste dia é que, a própria oposição, propagadora da violência praticada pela Liga dos Republicanos Combatentes aos terreiros em Maceió, anuncia que para falar a verdade, parte desta violência contra os terreiros foi o próprio Euclides, que quando saíra fugido do estado “ordenára maior força na pilha da bruxaria”.
A ligação entre a política euclidiana, as casas de Xangô e o Demônio, cerne mais específico do nosso trabalho, é externada por termos como “antros endemoniados” e era conveniente relacionar as ditas casas como lugares de ameaça para a estabilidade social. As Casas de Xangô eram vistas e tidas como “focos de indolência e prostituição”.
Para a efetivação das práticas de exorcismo, o jornal oposicionista sempre se refere à atitudes dos populares. Tática conveniente aos seus propósitos que, no discurso, pousa como a instância que observara a justiça sendo feita pelo gosto e desejo popular. Inclusive, é salientada a responsabilidade popular com muita propriedade, “O povo quiz isto fazer, e fel-o”. Para o momento do saque, que o “Jornal de Alagoas” publicou como sendo de responsabilidade popular, o texto praticamente fala por si: “Erauma pequena sala, cheia de pinturas grosseiras, de hyerogliphos de ídolos, de adufos, bancos im- mundos e porcarias, onde o suor dos negros, coagulado pelo pó em constante suspensão impregnava a acanhada atmosphera, envenenando os assistentes; e foi isso, que antehontem se acabou pelas mãos de quase duas mil pessoas, entre sorrisos e gargalhadas.” (Jornal de Alagoas, 04 de Fevereiro de 1912).
As notícias complementares revelavam que, existiria um plano, na dimensão irreconhecível da Bruxaria, para tratar da morte do Coronel Clodoaldo da Fonseca e do Sr. Fernandes Lima, os maiores opositores da Oligarquia, e prova é que teriam encontrado bonecos que tinham a forma desses indivíduos e que perto deles “ardiam velas” para que o trabalho fosse realizado, e mais, segundo a notícia, existia uma foto do Coronel por debaixo das vestes do Leba, para que seu futuro assim estivesse trancado e amarrado ao pescoço de um bode preto sacrificado, que deveria ser enterrado na praia.


O “povo” (as aspas são nossas) teria sido ajudado por algumas guarnições policiais, que após terem quebrado literalmente tudo, ainda mandaram prender os pais-de-santo mais famosos da cidade.
O ponto fundamental do discurso era promover o desmantelamento da Oligarquia Malta. As matérias dos jornais oposicionistas da época, principalmente o “Jornal de Alagoas”, são oportunas para que possamos colher esse tipo de discurso. Existiam fundamentalmente três tipos de associações elementares e constitutivas da lógica desses argumentos. A primeira era conceber uma culpabilidade pelos atrasos e pela miséria a qual passava o Estado diretamente aos desmandos da Oligarquia Malta. Segundo, tornou-se necessário tecer a relação do Sr. Euclides Malta com os cultos a Xangô.
A terceira, era manipular as obviedades do imaginário cristão católico a respeito do Xangô que, certamente já existiam no linguajar popularesco à identificação com o mal. Nesse sentido o mo-
Figura 1
saico se fechava e a associação era construída. Essa ligação é explicitada, por exemplo, pela nota que se encontra na Figura 2.
A raiz do problema não era apenas a figura do governador, mas também o elemento fundador dos males, ou seja, a bruxaria vinda do Xangô. O caráter desse problema era imprevisível, o que certamente acarretava mais ansiedade e medo nas pessoas. Por exemplo, no Jornal de Alagoas de 13 de Fevereiro de 1912, estampava-se uma nota que dizia: “Os mysterios de “Xangô”. O mal era representado como algo palpável, ou seja, reconhecido em figuras concretas (nesta ocasião, Tio Salú), e, ao mesmo tempo era considerado como um mistério. Os grupos ou s indivíduos responsáveis pela disseminação do mal eram figurados e mostrados, mas para que houvesse mais inquietação - e revolta contra essas figuras - a forma daquele mal que viria deles era infindável, irreconhecível, inesperada.
Uma das questões mais importantes é observar em quais momentos, a perseguição contra os terreiros de Xangô em Maceió extrapolou questões políticas e acabou se configurando como uma real representação de uma Modernidade tardia que pretendia se impor ideologicamente. Nesse sentido, era necessário fundamentar falas que radicalizassem a visão já distorcida das pessoas. Em nota tirada do “Jornal de Alagoas” de 13 de Fevereiro de 1912, observamos elementos bastante próprios destas associações. (Ver figura 3)

Conclusão

Primeiramente indagamos à forma pela qual foi processuali- zada toda a violência aos terreiros de Xangô da cidade. Isso por que, tanto nas falácias jornalísticas, quanto na efetivação prática desse processo no dia 2 de Fevereiro de 1912, o resultado final das agressões tinha uma objetividade implícita, mas que para nós possuiu um efeito ideológico muito próprio. Era necessário expor os despojos da “guerra santa” (as aspas são nossas). Demonstrar, portanto, que a vitória sobre a bruxaria e o satanismo foi efetuada, assim como para representar a inferioridade daquela cultura e a supremacia dos valores da civilização sobre a religião animista. Era necessário expor o “Xangô” em “photographia” e nesse sentido, cremos que os termos são próprios para ratificar a idéia anunciada.
O momento que comprova isso se realiza quando, na tarde do dia 3 de Fevereiro, dois homens levam os despojos de mais de trinta quebras de terreiros para a redação do Jornal de Alagoas. Um é o de Leba, “o espírito do mal”, que juntamente com o de Ogum e de Baluaiê foram habilmente arrastados por toda a cidade para que todos

A '1/iga dos Republicanos Co» batestes» oííeceu knteo ao Jor* nai m Alagoas saa pbotogra- pbii de parte dos idolo» e ilfsus de que se atiüsivaa os mim do tticiiíãdos sesta capital para ator* meatar.cofflhtuqsea e cantorias, os habitastes da cidaie. Nesta pbotographia hw tambets um te* trato do dr. Üsciidts Vieira Mal* ta, encontrado estre as feitiçarias dl tia Marcellisa.
A pbotograpbia i qiw aos reíe* rimos esti expotti so Jomt,.
Figura 3
vissem. Finalmente todos os despojos ficaram em exposição. Outro ponto importante era ratificar elementos que eram pré-requisitos da religiosidade que estava sendo exorcizada e associá-los a outras formas de vida impróprias à civilidade. Os cultos de Xangô se utilizavam das batidas nos tambores assim como de cantorias, e o texto refere-se ao incômodo que isso provocava, o tormento que provocava. Suas práticas eram irremediavelmente associadas às modos de vida próprios da vagabundagem, da prostituição e etc.
As noticias são representativas não só pela necessidade de se expor a alteridade a uma posição de inferioridade, mas também de que sejam naturalizadas as atitudes exorcistas. Óbvio, um dos elementos que mais nos chamou a atenção para a produção do trabalho foi a contradição inerente a uma sociedade dita como republicana que se esboçava como moderna, mas que tratava de forma violenta um traço cultural que já existia em seu cerne - o Candomblé. Ou seja, era a atitude de se naturalizar a violência e respaldá-la em nome de um processo civilizatório que, contrariava a configuração secular desta mesma sociedade, que era a mestiçagem não só da cor, mas dos costumes, das referências ontológicas para a vida e etc.
BIBLIOGRAFIA posta no original
Na mensagem fica clara a intenção de relacionar o processo de manutenção do poder secular de Euclides com elementos exóticos, próprios dos cultos de Xangô. Termos e informações como: “Bruxaria” (como manchete estampada em caixa alta na primeira página), “Exposição de ídolos e bugigangas” e principalmente “Um bode sacrificado” eram destacados sobremaneira. Outra passagem importante da nota deste dia é que, a própria oposição, propagadora da violência praticada pela Liga dos Republicanos Combatentes aos terreiros em Maceió, anuncia que para falar a verdade, parte desta violência contra os terreiros foi o próprio Euclides, que quando saíra fugido do estado “ordenára maior força na pilha da bruxaria”.
A ligação entre a política euclidiana, as casas de Xangô e o Demônio, cerne mais específico do nosso trabalho, é externada por termos como “antros endemoniados” e era conveniente relacionar as ditas casas como lugares de ameaça para a estabilidade social. As Casas de Xangô eram vistas e tidas como “focos de indolência e prostituição”.
Para a efetivação das práticas de exorcismo, o jornal oposicionista sempre se refere à atitudes dos populares. Tática conveniente aos seus propósitos que, no discurso, pousa como a instância que observara a justiça sendo feita pelo gosto e desejo popular. Inclusive, é salientada a responsabilidade popular com muita propriedade, “O povo quiz isto fazer, e fel-o”. Para o momento do saque, que o “Jornal de Alagoas” publicou como sendo de responsabilidade popular, o texto praticamente fala por si: “Era
uma pequena sala, cheia de pinturas grosseiras, de hyerogliphos de ídolos, de adufos, bancos im- mundos e porcarias, onde o suor dos negros, coagulado pelo pó em constante suspensão impregnava a acanhada atmosphera, envenenando os assistentes; e foi isso, que antehontem se acabou pelas mãos de quase duas mil pessoas, entre sorrisos e gargalhadas.” (Jornal de Alagoas, 04 de Fevereiro de 1912).
As notícias complementares revelavam que, existiria um plano, na dimensão irreconhecível da Bruxaria, para tratar da morte do Coronel Clodoaldo da Fonseca e do Sr. Fernandes Lima, os maiores opositores da Oligarquia, e prova é que teriam encontrado bonecos que tinham a forma desses indivíduos e que perto deles “ardiam velas” para que o trabalho fosse realizado, e mais, segundo a notícia, existia uma foto do Coronel por debaixo das vestes do Leba, para que seu futuro assim estivesse trancado e amarrado ao pescoço de um bode preto sacrificado, que deveria ser enterrado na praia.
O “povo” (as aspas são nossas) teria sido ajudado por algumas guarnições policiais, que após terem quebrado literalmente tudo, ainda mandaram prender os pais-de-santo mais famosos da cidade.
O ponto fundamental do discurso era promover o desmantelamento da Oligarquia Malta. As matérias dos jornais oposicionistas da época, principalmente o “Jornal de Alagoas”, são oportunas para que possamos colher esse tipo de discurso. Existiam fundamentalmente três tipos de associações elementares e constitutivas da lógica desses argumentos. A primeira era conceber uma culpabilidade pelos atrasos e pela miséria a qual passava o Estado diretamente aos desmandos da Oligarquia Malta. Segundo, tornou-se necessário tecer a relação do Sr. Euclides Malta com os cultos a Xangô.
A terceira, era manipular as obviedades do imaginário cristão católico a respeito do Xangô que, certamente já existiam no linguajar popularesco à identificação com o mal. Nesse sentido o mo-
Figura 1
saico se fechava e a associação era construída. Essa ligação é explicitada, por exemplo, pela nota que se encontra na Figura 2.
A raiz do problema não era apenas a figura do governador, mas também o elemento fundador dos males, ou seja, a bruxaria vinda do Xangô. O caráter desse problema era imprevisível, o que certamente acarretava mais ansiedade e medo nas pessoas. Por exemplo, no Jornal de Alagoas de 13 de Fevereiro de 1912, estampava-se uma nota que dizia: “Os mysterios de “Xangô”. O mal era representado como algo palpável, ou seja, reconhecido em figuras concretas (nesta ocasião, Tio Salú), e, ao mesmo tempo era considerado como um mistério. Os grupos ou s indivíduos responsáveis pela disseminação do mal eram figurados e mostrados, mas para que houvesse mais inquietação - e revolta contra essas figuras - a forma daquele mal que viria deles era infindável, irreconhecível, inesperada.
Uma das questões mais importantes é observar em quais momentos, a perseguição contra os terreiros de Xangô em Maceió extrapolou questões políticas e acabou se configurando como uma real representação de uma Modernidade tardia que pretendia se impor ideologicamente. Nesse sentido, era necessário fundamentar falas que radicalizassem a visão já distorcida
Figura 2
das pessoas. Em nota tirada do “Jornal de Alagoas” de 13 de Fevereiro de 1912, observamos elementos bastante próprios destas associações. (Ver figura 3)
Conclusão
Primeiramente indagamos à forma pela qual foi processuali- zada toda a violência aos terreiros de Xangô da cidade. Isso por que, tanto nas falácias jornalísticas, quanto na efetivação prática desse processo no dia 2 de Fevereiro de 1912, o resultado final das agressões tinha uma objetividade implícita, mas que para nós possuiu um efeito ideológico muito próprio. Era necessário expor os despojos da “guerra santa” (as aspas são nossas). Demonstrar, portanto, que a vitória sobre a bruxaria e o satanismo foi efetuada, assim como para representar a inferioridade daquela cultura e a supremacia dos valores da civilização sobre a religião animista. Era necessário expor o “Xangô” em “photographia” e nesse sentido, cremos que os termos são próprios para ratificar a idéia anunciada.
O momento que comprova isso se realiza quando, na tarde do dia 3 de Fevereiro, dois homens levam os despojos de mais de trinta quebras de terreiros para a redação do Jornal de Alagoas. Um é o de Leba, “o espírito do mal”, que juntamente com o de Ogum e de Baluaiê foram habilmente arrastados por toda a cidade para que todos
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A '1/iga dos Republicanos Co» batestes» oííeceu knteo ao Jor* nai m Alagoas saa pbotogra- pbii de parte dos idolo» e ilfsus de que se atiüsivaa os mim do tticiiíãdos sesta capital para ator* meatar.cofflhtuqsea e cantorias, os habitastes da cidaie. Nesta pbotographia hw tambets um te* trato do dr. Üsciidts Vieira Mal* ta, encontrado estre as feitiçarias dl tia Marcellisa.

Figura 3
vissem. Finalmente todos os despojos ficaram em exposição. Outro ponto importante era ratificar elementos que eram pré-requisitos da religiosidade que estava sendo exorcizada e associá-los a outras formas de vida impróprias à civilidade. Os cultos de Xangô se utilizavam das batidas nos tambores assim como de cantorias, e o texto refere-se ao incômodo que isso provocava, o tormento que provocava. Suas práticas eram irremediavelmente associadas às modos de vida próprios da vagabundagem, da prostituição e etc.
As noticias são representativas não só pela necessidade de se expor a alteridade a uma posição de inferioridade, mas também de que sejam naturalizadas as atitudes exorcistas. Óbvio, um dos elementos que mais nos chamou a atenção para a produção do trabalho foi a contradição inerente a uma sociedade dita como republicana que se esboçava como moderna, mas que tratava de forma violenta um traço cultural que já existia em seu cerne - o Candomblé. Ou seja, era a atitude de se naturalizar a violência e respaldá-la em nome de um processo civilizatório que, contrariava a configuração secular desta mesma sociedade, que era a mestiçagem não só da cor, mas dos costumes, das referências ontológicas para a vida e etc.
BIBLIOGRAFIA posta no original

Todo o mal que viria cair sobre a população alagoana possuía, agora, sua válvula de escape, seu bode expiatório. Como no Messianismo Político, a origem das dificuldades e das tragédias é refletida em uma figura especial e necessariamente identificada. Naquela ocasião, a apatia da população alagoana, a má índole dos políticos representantes de oligarquias seculares, a situação externa que desvalorizava mais e mais o preço do açúcar e etc. convergiam para que o Estado permanecesse em crise por mais de uma década. Contudo, a responsabilidade deveria recair sobre alguém, ou sobre um determinado grupo. Nesse sentido, a seqüência de interdependência Crise - Euclides Malta - Xangô era oportuna para o movimento oposicionista que se generalizou e se efetivou das formas mais violentas.

Os começos do Quebra 

 No noticiário do dia 4 de Fevereiro de 1912 no “Jornal de Alagoas”, o fato mais enfático desse processo, aparece na notícia da noite do “Quebra”. De todas as notas essa é a mais incisiva e ferina, onde a relação da seqüência de interdependência que mencionamos é externada em todas as suas possibilidades. Sua manchete é bastante incisiva, como se pode verificar na figura 1.


Na mensagem fica clara a intenção de relacionar o processo de manutenção do poder secular de Euclides com elementos exóticos, próprios dos cultos de Xangô. Termos e informações como: “Bruxaria” (como manchete estampada em caixa alta na primeira página), “Exposição de ídolos e bugigangas” e principalmente “Um bode sacrificado” eram destacados sobremaneira. Outra passagem importante da nota deste dia é que, a própria oposição, propagadora da violência praticada pela Liga dos Republicanos Combatentes aos terreiros em Maceió, anuncia que para falar a verdade, parte desta violência contra os terreiros foi o próprio Euclides, que quando saíra fugido do estado “ordenára maior força na pilha da bruxaria”.
 

A ligação entre a política euclidiana, as casas de Xangô e o Demônio, cerne mais específico do nosso trabalho, é externada por termos como “antros endemoniados” e era conveniente relacionar as ditas casas como lugares de ameaça para a estabilidade social. As Casas de Xangô eram vistas e tidas como “focos de indolência e prostituição”.
 

Para a efetivação das práticas de exorcismo, o jornal oposicionista sempre se refere à atitudes dos populares. Tática conveniente aos seus propósitos que, no discurso, pousa como a instância que observara a justiça sendo feita pelo gosto e desejo popular. Inclusive, é salientada a responsabilidade popular com muita propriedade, “O povo quiz isto fazer, e fel-o”. Para o momento do saque, que o “Jornal de Alagoas” publicou como sendo de responsabilidade popular, o texto praticamente fala por si: “Era uma pequena sala, cheia de pinturas grosseiras, de hyerogliphos de ídolos, de adufos, bancos im- mundos e porcarias, onde o suor dos negros, coagulado pelo pó em constante suspensão impregnava a acanhada atmosphera, envenenando os assistentes; e foi isso, que antehontem se acabou pelas mãos de quase duas mil pessoas, entre sorrisos e gargalhadas.” (Jornal de Alagoas, 04 de Fevereiro de 1912).
As notícias complementares revelavam que, existiria um plano, na dimensão irreconhecível da Bruxaria, para tratar da morte do Coronel Clodoaldo da Fonseca e do Sr. Fernandes Lima, os maiores opositores da Oligarquia, e prova é que teriam encontrado bonecos que tinham a forma desses indivíduos e que perto deles “ardiam velas” para que o trabalho fosse realizado, e mais, segundo a notícia, existia uma foto do Coronel por debaixo das vestes do Leba, para que seu futuro assim estivesse trancado e amarrado ao pescoço de um bode preto sacrificado, que deveria ser enterrado na praia.
 

O “povo” (as aspas são nossas) teria sido ajudado por algumas guarnições policiais, que após terem quebrado literalmente tudo, ainda mandaram prender os pais-de-santo mais famosos da cidade.
 

O ponto fundamental do discurso era promover o desmantelamento da Oligarquia Malta. As matérias dos jornais oposicionistas da época, principalmente o “Jornal de Alagoas”, são oportunas para que possamos colher esse tipo de discurso. Existiam fundamentalmente três tipos de associações elementares e constitutivas da lógica desses argumentos. A primeira era conceber uma culpabilidade pelos atrasos e pela miséria a qual passava o Estado diretamente aos desmandos da Oligarquia Malta. Segundo, tornou-se necessário tecer a relação do Sr. Euclides Malta com os cultos a Xangô.
 

A terceira, era manipular as obviedades do imaginário cristão católico a respeito do Xangô que, certamente já existiam no linguajar popularesco à identificação com o mal. Nesse sentido o mosaico se fechava e a associação era construída. Essa ligação é explicitada, por exemplo, pela nota que se encontra na Figura 2.
 

A raiz do problema não era apenas a figura do governador, mas também o elemento fundador dos males, ou seja, a bruxaria vinda do Xangô. O caráter desse problema era imprevisível, o que certamente acarretava mais ansiedade e medo nas pessoas. Por exemplo, no Jornal de Alagoas de 13 de Fevereiro de 1912, estampava-se uma nota que dizia: “Os mysterios de “Xangô”. O mal era representado como algo palpável, ou seja, reconhecido em figuras concretas (nesta ocasião, Tio Salú), e, ao mesmo tempo era considerado como um mistério. Os grupos ou s indivíduos responsáveis pela disseminação do mal eram figurados e mostrados, mas para que houvesse mais inquietação - e revolta contra essas figuras - a forma daquele mal que viria deles era infindável, irreconhecível, inesperada.
 

Uma das questões mais importantes é observar em quais momentos, a perseguição contra os terreiros de Xangô em Maceió extrapolou questões políticas e acabou se configurando como uma real representação de uma Modernidade tardia que pretendia se impor ideologicamente. Nesse sentido, era necessário fundamentar falas que radicalizassem a visão já distorcida das pessoas. Em nota tirada do “Jornal de Alagoas” de 13 de Fevereiro de 1912, observamos elementos bastante próprios destas associações. (Ver figura 3)

Conclusão

Primeiramente indagamos à forma pela qual foi processualizada toda a violência aos terreiros de Xangô da cidade. Isso por que, tanto nas falácias jornalísticas, quanto na efetivação prática desse processo no dia 2 de Fevereiro de 1912, o resultado final das agressões tinha uma objetividade implícita, mas que para nós possuiu um efeito ideológico muito próprio. Era necessário expor os despojos da “guerra santa” (as aspas são nossas). Demonstrar, portanto, que a vitória sobre a bruxaria e o satanismo foi efetuada, assim como para representar a inferioridade daquela cultura e a supremacia dos valores da civilização sobre a religião animista. Era necessário expor o “Xangô” em “photographia” e nesse sentido, cremos que os termos são próprios para ratificar a idéia anunciada.
 

O momento que comprova isso se realiza quando, na tarde do dia 3 de Fevereiro, dois homens levam os despojos de mais de trinta quebras de terreiros para a redação do Jornal de Alagoas. Um é o de Leba, “o espírito do mal”, que juntamente com o de Ogum e de Baluaiê foram habilmente arrastados por toda a cidade para que todos vissem. Finalmente todos os despojos ficaram em exposição. Outro ponto importante era ratificar elementos que eram pré-requisitos da religiosidade que estava sendo exorcizada e associá-los a outras formas de vida impróprias à civilidade. Os cultos de Xangô se utilizavam das batidas nos tambores assim como de cantorias, e o texto refere-se ao incômodo que isso provocava, o tormento que provocava. Suas práticas eram irremediavelmente associadas às modos de vida próprios da vagabundagem, da prostituição e etc.
 

As noticias são representativas não só pela necessidade de se expor a alteridade a uma posição de inferioridade, mas também de que sejam naturalizadas as atitudes exorcistas. Óbvio, um dos elementos que mais nos chamou a atenção para a produção do trabalho foi a contradição inerente a uma sociedade dita como republicana que se esboçava como moderna, mas que tratava de forma violenta um traço cultural que já existia em seu cerne - o Candomblé. Ou seja, era a atitude de se naturalizar a violência e respaldá-la em nome de um processo civilizatório que, contrariava a configuração secular desta mesma sociedade, que era a mestiçagem não só da cor, mas dos costumes, das referências ontológicas para a vida e etc.
 

BIBLIOGRAFIA posta no original

 





 

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