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terça-feira, 3 de junho de 2014

Museu e documentação sobre a Província das Alagoas











 

 

 

 

Estes textos foram publicados em Contexto de 18 de setembro de 2011 em Tribuna Independente. Para este blog, estamos utilizando material digitalizado e com gerenciamento das imagens realizado por Kellyson Ferreira, com a coordenação do Professor Antônio Daniel Marinho.

 

 

 Benedito Barros. Museu do comércio de Alagoas. A realização de um sonho

Quem vê o Palácio do Comércio não pode imaginar que alguma outra entidade tenha ação na história de Alagoas como a Associação Comercial de Maceió que ali reside desde 1928, quando o prédio foi inaugurado, após cinco anos de construção. A existência da Associação remonta a 22 de julho de 1866, quando alguns comerciantes se reuniram, sob a liderança de José Joaquim de Oliveira, no salão da Antiga Sociedade Dramática Particular Maceioense, para planejarem a fundação de uma associação. Três meses depois, em 7 de setembro de 1866 estavam realizando a primeira assembleia, com 100 participantes, sendo que pelo menos 46 eram do ramo algodoeiro.


Restaurado em 1999, o prédio foi aberto ao público em 2000 com a promessa de uma participação também nos destinos culturais de Alagoas. De lá para cá, dois museus foram criados: o de Tecnologia do Século 20 e o Museu do Comércio de Alagoas. Este último estava prometido havia 81 anos, um sonho do presidente Homero Galvão, a quem coube inaugurar o Palácio do Comércio na memorável noite de 16 de junho de 1928.


A promessa de criação do museu do comércio ficou adormecida até 2000 quando a Associação contratou um Coordenador de Ação Cultural e Social, para criar e administrar o espaço que se destinaria ao público visitante. Havia um compromisso neste sentido, com o Banco Interamericano de Desenvolvimento - BID, após a restauração. A biblioteca surgiu primeiro, quando foi renovada com duas doações importantes de acervo: do escritor, advogado, membro da Academia Alagoana de Letras e Instituto Histórico, Paulo de Castro Silveira e do Industrial Maurício Gondim. A formação desta biblioteca com mais de 4 mil volumes e, cerca de 30 mil títulos, sobretudo de autores alagoanos, tem sido acrescida de outras doações importantes, como a do advogado Floriano Ivo Junior e agora, recentemente, do Engenheiro Químico, Luiz de Medeiros Novaes, cuja contribuição ao setor sucroalcooleiro veio preencher uma lacuna na demanda das pesquisas sobre esse tema. A biblioteca de Novaes, após inventariada faz parte, separadamente, das estantes do Museu de Tecnologia do Século 20, juntamente com outras contribuições nesta área.


A vocação do Palácio do Comércio como local de exposições surgiu logo no princípio de 2000 quando abrigou o acervo do Museu Théo Brandão, enquanto o prédio daquele Museu estava sendo restaurado. Outras exposições, inclusive a do acervo da pinacoteca da Caixa Econômica e do Museu Histórico Nacional estiveram no seu salão principal. Mas paralelamente começou a ser feita uma verdadeira campanha no sentido de buscar entre os comerciantes e população um acervo destinado a criação do Museu do Comércio. Não demorou muito e havia uma sala cheia de máquinas e equipamentos, computadores antigos, telefones, rádios e tudo o que podia compor uma bela exposição de tecnologia, mas nada que pudesse inspirar um circuito museológico destinado ao comércio. E foi o que aconteceu. Alguns meses depois estava sendo inaugurada a exposição temporária “Tecnologia do Século 20”, que recebeu a participação da coleção de máquinas fotográficas antigas, do acervo particular do fotógrafo e jornalista José Ronaldo. A mostra terminou e foi criado o Museu do mesmo nome, até por conta da importância que teve o século 20 no desenvolvimento tecnológico que inspirou o terceiro milênio.


Mesmo sem museu o comércio era representado por uma sala contígua à Biblioteca, onde ficavam os móveis administrativos da antiga Associação Comercial de Maceió, com as escrivaninhas altas os livros de estatísticas, mesas de trabalho, estantes e alguns outros retirados do uso ainda hodierno. Era um escritório-museu que bem representava as atividades do início do século na entidade.
 

Outra contribuição importante veio da exposição realizada em 2005 com tema: Jaraguá - História e Urbanidade. Foi nesta ocasião que muitas imagens importantes foram ampliadas e plo- tadas. Algumas ainda hoje fazem parte do Museu do Comércio de Alagoas, como a foto da inauguração do prédio e a reunião que decidiu a sua construção.


A FORMAÇÃO DO MUSEU DO COMÉRCIO
 

Para cumprir o desejo do presidente Homero Galvão, o Museu do Comércio ainda deveria ser criado. No entanto, o tema parecia muito amplo para o desenvolvimento de um circuito num dos pavilhões laterais, composto por quatro salas. Não havia porque abordar o comércio primitivo ou a história dos fenícios. O mundo ocidental, sobretudo as Américas tinham iniciado sua relação com a Europa por conta do comércio. Foi a busca do caminho marítimo para as índias que motivaram as viagens de Vasco da Gama em 1498 e de Pedro Alvares Cabral em 1500. Enfim a busca das especiarias para atender ao mercado europeu seria o mote perfeito para iniciar o circuito da Sala Novo Mundo. Nela o visitante percebe não só a situação política de Portugal, através de suas bandeiras como a trajetória administrativa da colonização, numa cronologia marcada pelas datas dos acontecimentos mais importantes. Dois mapas ampliados da Capitania de Pernambuco mostram Alagoas, já representada pelo seu principal rio - O São Francisco e suas duas lagoas Mundaú e Manguaba. A Capital Santa Maria Magdalena das Alagoas do Sul, juntamente com Porto Calvo e Penedo aparecem nas reproduções das gravuras, assim como na cartografia, de autoria de Franz Post, que acompanhou Maurício de Nassau durante a invasão holandesa.


Continuando o circuito chega-se à Sala Comércio e Desenvolvimento a partir da ação pirata  no contrabando do pau-brasil, H seguindo pelo tráfico de africanos H até a transferência da Família Real H Portuguesa e criação do Reino  Unido do Brasil a Portugal e Algarves. É com a presença de Dom Ramos João VI que o comércio brasileiro começa a ser sistematizado. Até então todas as exportações eram feitas diretamente a Corte Portuguesa e com a abertura dos Portos o Brasil é livre para negociar com outros mercados. E nesta ocasião que são criadas as Juntas de Comércio. Uma coleção de decretos, leis, alvarás, cartas régias e editais faz parte de um acervo disponível ao pesquisador, no próprio museu.
 

A independência do Brasil é marcada pela nova bandeira da nação brasileira e o início do primeiro e segundo império. Uma rica iconografia mostra a família real e o Imperador em tamanho natural. Mais adiante as inovações tecnológicas que transformam o antigo engenho em usina, onde a primeira delas, a Usina Brasileiro é mostrada juntamente com seu fundador o Barão de Vandesmet, juntamente com sua família.
 

De forma muito tímida a indústria têxtil aparece através da imagem da Fábrica União Mercantil, fundada por José Antônio de Mendonça, o Barão de Jaraguá. No entanto, em pesquisa recente, observamos que a participação do algodão na economia de Alagoas tem uma importância vital, a ponto de motivar a própria criação da Associação Comercial de Maceió, razão pela qual, brevemente estaremos corrigindo este favoritismo ao setor açucareiro.

Ainda nesta sala, considerando a cronologia do circuito, aparece a fundação da Associação Comercial de Maceió, cuja ata da primeira assembleia abre a sala seguinte, em letras graúdas, junto ao retrato de seu fundador José Joaquim de Oliveira. Uma pequena vitrine protege a memória da entidade em pequenos objetos, documentação, cartas, pena, mata-borrão e primeiras edições do estatuto da entidade.


A sala seguinte é da Associação Comercial de Maceió, reservada a guardar os móveis de expediente, com suas escrivaninhas, birô, cadeiras e livros de estatística da entidade. Ao entorno uma mostra iconográfica dos acontecimentos que marcaram a vida da Associação, como as fotografias ampliadas, da inauguração do Palácio do Comércio, a reunião de 17 de maio de 1921, que iria defender a construção do edifício, assim como o banquete oferecido a Getúlio. Tem-se, também, a fotografia de Mons. Capitolino de Carvalho, senador da província e que no exercício do governo estadual, sancionou Lei que permitiu a retenção de 100 réis por volume exportado, para fins da construção da sede da Associação. E esteve presente na festa de inauguração do Palácio, onde ocupou lugar de honra, à cabeceira da mesa, junto com Álvaro Paes e Costa Rego, dois outros governadores de Alagoas. Também em imagem original, está o presidente Antônio de Melo Machado que se tornaria deputado da Constituinte no Governo Getúlio Vargas.


Uma coleção de moedas mostra ao visitante as mudanças do padrão monetário de réis para cruzeiro. E ainda uma curiosidade: as moedas utilizadas dentro dos limites dos engenhos ou usinas de açúcar, para compra nos chamados “barracões”.
 

Dois outros retratos marcam o espaço: o primeiro do fundador, num desenho a pastel, realizado pelo artista Rosivaldo Reis e outro do segundo presidente, o comendador Manoel de Vasconcelos, sócio do Barão de Jaraguá, na Fábrica União Mercantil, pintado em Paris no Atelier de Vienot e Morriset, juntamente com dois outros retratos em tamanho natural, do Imperador Pedro II e do Visconde de Sinimbu, os dois últimos colocados na Galeria dos Presidentes no terceiro piso.


É nesta sala, onde ficam guardados os 11 livros de ata da Associação Comercial de Maceió, a partir de 1866. Hoje estes livros estão sendo transcritos, digitados e colocados a disposição do pesquisador, graças a uma parceria entre a Braskem, Associação e Universidade Federal de Alagoas, com a participação de duas estagiárias do curso de história, com conhecimento de paleografia. Esta ação tem permitido a Coordena- doria de Ação Cultural reescrever a história da entidade e conhecer documentos importantes como a coleção de telegramas para Liver- pool, principal praça importadora do algodão alagoano, desde 1874, após a implantação do telegrafo na cidade. Outros documentos importantes são os livros de registro das exportações e importações realizadas, este último com revelações inéditas sobre a vida social, através dos produtos que chegavam aos empórios da capital.
 

A última sala, denominada Jaraguá, representa na sua iconografia a evolução da sociedade e da urbe, profissões ou trabalho junto aos principais trapiches ou ao comércio local. Um quadro plotado em larga escala faz uma cronologia do bairro a partir de 1611. E uma sala destinada a atender pesquisadores. Para isso existe uma mesa monumental cercada por cadeiras antigas, sempre personalizadas com o símbolo da entidade. Uma coleção de Leis e Decretos do Governo Republicano está exposta sobre uma grande escrivaninha, também a disposição do pesquisador.


BIBLIOTECA, PESQUISA E PUBLICAÇÕES
 

Colocar a Associação Comercial de Maceió em sintonia com a Universidade Federal de Alagoas, faculdades e escolas, promovendo e incentivando a pesquisa sobre economia regional, tem sido uma tarefa gratificante. A maioria dos professores e pesquisadores desconhecia o acervo, bibliográfico, documental e iconográfico da entidade. Depois a ausência de formalidades no atendimento, a facilitação do acesso às obras, mesmo as consideradas raras. Para os documentos antigos sempre é oferecido luva de tecido e local apropriado para consulta, assim como a possibilidade do pesquisador agendar sua bibliografia antecipadamente. Enfim o fornecimento de imagens digitalizadas, textos e livros digitais de bibliotecas importantes como: Biblioteca Nacional de Portugal, Biblioteca Nacional, USP, Instituto Camões e outras. Tudo pode ser cedido gratuitamente através de arquivo digital.


No início de 2011 foi lançado o primeiro número do encarte O PALÁCIO, com oito páginas em papel jornal, formato A4, com aparência dos antigos jornais tipográfico da década de 1950. Já na sexta edição, hoje inscrito no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, o encarte tem como linha editorial a publicação de artigos de cunho científico, notadamente na pesquisa histórica, preferencialmente de alunos e professores, privilegiando os temas regionais e o Bairro de Jaraguá. Esta publicação tem o apoio de diversas empresas que garantem com seus anúncios a tiragem mensal de 1500 exemplares, durante o ano inteiro.
 

Alguns trabalhos de pesquisa realizados por alunos da UFAL, no Palácio do Comércio estão publicados, assim como diversas contribuições de intelectuais alagoanos. Com uma distribuição garantida, a partir da remessa dos boletos de pagamentos dos associados, também aos anunciantes que recebem uma cota mensal de 10 exemplares, havendo ainda circulação entre alguns equipamentos culturais como: Casa do Patrimônio (IPHAN), Arquivo Público, Museu Théo Brandão, Fundação Municipal de Ação Cultural, Secretaria Municipal de Turismo, Academia Alagoana de Letras, Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, UFAL e outras entidades. O encarte também pode ser encontrado na recepção do Palácio do Comércio, na Rua Sá e Albuquerque, 467 em Jaraguá.
 

A instituição também admite voluntários, nas áreas de biblioteca, arquivo, pesquisa e paleografia, através de contrato temporário, com a garantia de certificação de sua passagem pelo setor. Hoje a entidade possui cinco funcionários, dois deles na biblioteca e três no setor de pesquisa.

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