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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Luiz Sávio de Almeida. Momentos pessoais quanto ao Quebra dos terreiros de Xangô



Texto  publicado em Contexto de 06 de novembro de 2011 em Tribuna Independente. Para este blog, estamos utilizando material digitalizado e com gerenciamento das imagens realizado por Kellyson Ferreira, com a coordenação do Professor Antônio Daniel Marinho.

Um pequeno bilhete sobre o Quebra
Luiz Sávio de Almeida


Durante o mês de novembro, Contexto procurará abordar questões relativas ao mundo afrobrasileiro. Hoje, traz material produzido por um Mestre em Sociologia, retirado de sua dissertação, e que fala sobre o Quebra de 1912, acontecimento fundamental para a história cultural e política do negro alagoano cujo tratamento, como já discutimos, merece extremo cuidado para não reduzir a história negra aos momentos da história branca, devendo ser levado em conta, também, que a fonte para os episódios do Quebra propriamente dito é única e oposicionista: Jornal de Alagoas.

 Momentos pessoais quanto ao Quebra
Luiz Sávio de Almeida 
O trato do Quebra introduziu a figura mítica e mística da Tia Marcelina, deixando-a como emblema das perseguições sofridas pelos cultos em Alagoas. De fato, Tia Marcelina é “recuperada” na década de 60 do século passado, em processo de afirmação dos cultos em parceria com setores intelectuais da classe média, carreado pela Federação dos Cultos Afro-Brasileiros de Alagoas e que gerou o I Semana dos Culto Afro-Brasileiros, realizada no Teatro Deodoro, contando na coordenação com babalorixás como Luiz Marinho (falecido, Nagô), Celestino (falecido, Ijexá), Joca (falecido, trabalhava pelas canhotas, Quimbanda) e o Coronel Belarmino (falecido, filho de
santo), Edinho (falecido, Nagô). Com eles tomei muito xequeté nas saídas de Yaô.
Tenho a grande honra de ter sido, junto com o Bráulio Leite Júnior, membro do grupo que fez a Semana, o anti-quebra no Teatro Deodoro, com os zingomes batendo sem parar desde as seis da tarde e com os terreiros da capital e do interior, assumindo o palco da casa que era da cultura da elite de Alagoas. Nunca vi tanta gente no Teatro Deodoro e aqui e ali o santo irradiava: dá para se imaginar o quase surreal das cenas. Eu acredito que umas 20 mil pessoas andaram pelo Teatro, que estava encantado pela maestria criativa de Bráulio Leite Júnior ao transformá-lo em um imenso terreiro, com sua entrada sendo peji e congá, com a Umbanda, o traçado e o Nagô dominando o cenário por ele belissimamente montado.
Dentro da macumba, havia partidarização. Os não convidados (havia disputa pelo comando da Federação) metiam o pau, dizendo que nunca viram orixá artista para descer o santo em Teatro e que nenhum era cantor de rádio para estar com microfone. Sei apenas que o universo dos terreiros foi mobilizado. Tudo derivou de uma conversa comigo: éramos Marinho, Celestino e mais outro que não lembro.


Diziam que os terreiros estavam sendo perseguidos pela polícia e até falavam em cobrança de um dinheirinho. Precisávamos de um grande evento, capaz de escancarar os terreiros. A festa de Iemanjá não bastava. Seria certo, errado? O fato é que dei a idéia da Semana e toparam na hora. Saí e fui direto falar com o Bráulio - amizade íntima ede imenso carinho - e ainda hoje é um cara destemido. Na hora!
Seu talento deu vida à macumba no Teatro. E viva o Bráulio Leite Júnior! Nossa, houve pressão! O que era aquela doidice no Teatro? Recebi recados. Mas tudo entrava por um orixá e saía pelo outro. Bráulio foi um companheiro brilhante; eu sabia que jamais ficaria sozinho. Quem morreu de trabalhar foi o Marcelo Texeira, pessoa fundamental nisto tudo, segurando a logística do que era um empreendimento gigantesco para a época.
Essa nossa história eu vou procurar no meu diário e publicar.
Disse-me o Klébio que o povo ainda fala disso nos terreiros de hoje em dia e Dona Maria doAcais que baixa no terreiro do Manoel do Xoroqué queé babalorixá no Ilê Axé Legioneré do Xoroqué mandou recado “pro véio Sávio” sobre o assunto, em nome do “povo da macumba”
Saravá, que eu vou de banda! .
Um dia, o Joca me disse que o Zumba havia encontrado uma fotografia da Tia Marcelina. Fui até à casa do Zumba conversar com ele. Estava criada a imagem de uma Tia Marcelina. Nem discuti; se eles desejavam a Tia Marcelina daquela forma, daquela forma ela seria. As verdades também são criadas por atos de fé. E entronizei a Tia Marcelina numa parede, certo de que ela havia renascido pela inteligência e pelo pincel do Zumba, gente fina, que na época morava lá pelos lados do antigo Bar das Ostras. A Tia Marcelina estava na parede em minha casa, a janela entreaberta. Passa um cara e me pergunta: “Era essa a mulher que parava o trem com a mão?” Fiquei maravilhado, espantado e o que eu poderia responder? “É ela mesmo: a Tia Marcelina!”
Vamos ao Quebra.




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