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sábado, 7 de junho de 2014
Luiz Sávio de Almeida. Meu velho diário e a macumba nas Alagoas
Algumas singelas recordações ajudam a situar este texto, que não pode ser pensado além de simples depoimento, espécie de testemunho. O tema das “religiões afro-brasileiras” sempre me foi caro, embora o tivesse deixado, na medida em que fui passando de interesse centrado na antropologia para formação acadêmica em história, retornando a uma espécie de vocação descoberta pelos idos dos 14 anos de idade e, de certa forma, ajudado por Félix Lima Júnior. O Rio Una sabe da minha história, conhece o fascínio que me despertavam os livros sobre folclore, história e como eu andava pela Biblioteca Pública Municipal de Palmares, cidade pernambucana onde vivi parte da adolescência e onde existiu a famosa Biblioteca do Clube Lítero-Recreativo.
Na medida em que sondava sobre o que iria dar o depoimento sobre o mundo negro, entendi que não podia ficar em mera evocação, pois tocava em algumas veleidades de natureza “científica”, palavra grifada para acentuar certa antipatia que me desperta, da mesma forma como grifei “religiões afro- -brasileiras” expressão que possivelmente nem de longe raspa a densidade do que se chama Xangô em Alagoas, também conhecido como seita por muitos dos velhos amigos com quem convivi pelos terreiros de Maceió durante uns dois densos e consecutivos anos, lá pelos tempos dos sessenta, inclusive na companhia de Marcelo Texeira, Bráulio Leite Júnior que ainda estão mais vivos do que eu, que já me considero excelente candidato a fantasma.
A ANDANÇA PESSOAL.
Na verdade, quase todos os dias em que conversávamos batíamos na história do afro- -brasileiro, várias vezes com a presença do Carlos Moliterno, que não se interessava pelo assunto. Formava-se, como se dizia, uma chacrinha. E na verdade o Theo encontrava uma pequena platéia para escutá-lo. Em virtude da grande influência que o Theo tinha sobre mim, fui pouco a pouco me aproximando dos terreiros, mormente através de um amigo: o finado Celestino. Celestino era da Secretaria de Educação, muito ligado à turma da Igreja de São Benedito. Celestino, Belarmino, Joca e Luiz Marinho (todos da seita, da lei, da religião) foram companheiros de muitas andadas por Maceió. Celestino era Babalo- rixa Ijexá, Luiz Marinho era Nagô; Joca (falecido) era pedreiro e Belarmino era coronel da polícia. Ele e eu somos os únicos vivos do quarteto. Não perdiámos uma saída de Iaô, sempre maravilhosa noite de festa.
Foi através do Celestino que me aproximei da Federação dos Cultos Afro-Brasileiros de Alagoas, entidade que tinha sede na Ponta Grossa. Não me lembro da rua, mas sei que era perto do terreiro do Luiz Marinho. Além de Babalorixá, Luiz Marinho tinha uma banca de vender sapatos no mercado, lados da Feira do Passarinho, perto de um outro Luiz que me vendia folheto de feira e revista velha. Os dois já foram desta para melhor.
O fato é que passei uns dois anos coletando material sobre inúmeros terreiros que existiam em Maceió, gravei, entrevistei, fotografei, filmei... Era um trabalho constante, enquanto lia a bibliografia aconselhada pelo Theo Brandão, num improviso de leitura que Maceió obrigava. Não se ia muito além de Edson Carneiro, Roger Bastide, Arthur Ramos...
Discutir a temática é instigante e chego a pensar que, neste contexto, a discussão tem peso bem maior do que a própria conclusão. Para mim e tratarei disto em outros depoimentos, em grande parte tem-se o privilegiamento ibérico do folclorismo alagoano: o senhorial sempre foi ibérico e o folclorismo alagoano não ia ao povo, mas ao velho reduto ibérico, salvo desvios acontecidos nessa rota. Seria muito difícil encontrar guarida para este iberismo nos terreiros de xangô, pois mesmo a composição santo/orixá era decretada pelo lado negro da identidade ou, melhor dizendo, da similaridade construída e difundida.
A MATRIZ DO POLICIALESCO
E dentro desse espaço aberto de discussão sobre o tema, que entedemos não ser possível deixar de levar em conta o papel da formalização do mando desde os tempos coloniais. Esse é um dado óbvio, sendo tão lugar comum quanto é considerar o império do católico, determinado, oficialmente, como a ligação preferencial entre o sagrado e o profano. Para a discussão, seria interessante trabalhar a mudança do perfil do controle e de ajustamento, que se vai processando - embora lentamente - e que emerge de modo claro nos finais do século XIX e princípios do século XX nas Alagoas. Seria inevitável pela própria natureza do escravismo, que fosse sendo construída uma malha negra de relações urbana, pois o negro estava e fazia-se dentro da Capital da Província. A manutenção do escravo enquanto base da força de trabalho de uma economia fundamentalmente agro- -exportadora, em nada evitava o estar e fazer-se dentro do urbano. Talvez quem sabe, a montagem dos cultos jamais poderia ser rural, embora o orixá estivesse nas senzalas e na cabroeira que se formava.
Nesse itinerário, o escravo - pardo ou negro - estava ligado ao preto livre, aos africanos livres e insinuam-se e encontram lugares típicos na formação urbana de Maceió para estarem e construírem um modo de ser urbano. Inclusive, pontos da cidade foram sendo demarcados por densidade de presença negra, como Jaraguá, por onde se tem o papel da enseada do mesmo nome, funcionando como fundeadouro e articulação entre os mercados interno e externo.
Algumas singelas recordações ajudam a situar este texto, que não pode ser pensado além de simples depoimento, espécie de testemunho. O tema das “religiões afro-brasileiras” sempre me foi caro, embora o tivesse deixado, na medida em que fui passando de interesse centrado na antropologia para formação acadêmica em história, retornando a uma espécie de vocação descoberta pelos idos dos 14 anos de idade e, de certa forma, ajudado por Félix Lima Júnior. O Rio Una sabe da minha história, conhece o fascínio que me despertavam os livros sobre folclore, história e como eu andava pela Biblioteca Pública Municipal de Palmares, cidade pernambucana onde vivi parte da adolescência e onde existiu a famosa Biblioteca do Clube Lítero-Recreativo.
Na medida em que sondava sobre o que iria dar o depoimento sobre o mundo negro, entendi que não podia ficar em mera evocação, pois tocava em algumas veleidades de natureza “científica”, palavra grifada para acentuar certa antipatia que me desperta, da mesma forma como grifei “religiões afro- -brasileiras” expressão que possivelmente nem de longe raspa a densidade do que se chama Xangô em Alagoas, também conhecido como seita por muitos dos velhos amigos com quem convivi pelos terreiros de Maceió durante uns dois densos e consecutivos anos, lá pelos tempos dos sessenta, inclusive na companhia de Marcelo Texeira, Bráulio Leite Júnior que ainda estão mais vivos do que eu, que já me considero excelente candidato a fantasma.
A ANDANÇA PESSOAL.
Na verdade, quase todos os dias em que conversávamos batíamos na história do afro- -brasileiro, várias vezes com a presença do Carlos Moliterno, que não se interessava pelo assunto. Formava-se, como se dizia, uma chacrinha. E na verdade o Theo encontrava uma pequena platéia para escutá-lo. Em virtude da grande influência que o Theo tinha sobre mim, fui pouco a pouco me aproximando dos terreiros, mormente através de um amigo: o finado Celestino. Celestino era da Secretaria de Educação, muito ligado à turma da Igreja de São Benedito. Celestino, Belarmino, Joca e Luiz Marinho (todos da seita, da lei, da religião) foram companheiros de muitas andadas por Maceió. Celestino era Babalo- rixa Ijexá, Luiz Marinho era Nagô; Joca (falecido) era pedreiro e Belarmino era coronel da polícia. Ele e eu somos os únicos vivos do quarteto. Não perdiámos uma saída de Iaô, sempre maravilhosa noite de festa.
Foi através do Celestino que me aproximei da Federação dos Cultos Afro-Brasileiros de Alagoas, entidade que tinha sede na Ponta Grossa. Não me lembro da rua, mas sei que era perto do terreiro do Luiz Marinho. Além de Babalorixá, Luiz Marinho tinha uma banca de vender sapatos no mercado, lados da Feira do Passarinho, perto de um outro Luiz que me vendia folheto de feira e revista velha. Os dois já foram desta para melhor.
O fato é que passei uns dois anos coletando material sobre inúmeros terreiros que existiam em Maceió, gravei, entrevistei, fotografei, filmei... Era um trabalho constante, enquanto lia a bibliografia aconselhada pelo Theo Brandão, num improviso de leitura que Maceió obrigava. Não se ia muito além de Edson Carneiro, Roger Bastide, Arthur Ramos...
Discutir a temática é instigante e chego a pensar que, neste contexto, a discussão tem peso bem maior do que a própria conclusão. Para mim e tratarei disto em outros depoimentos, em grande parte tem-se o privilegiamento ibérico do folclorismo alagoano: o senhorial sempre foi ibérico e o folclorismo alagoano não ia ao povo, mas ao velho reduto ibérico, salvo desvios acontecidos nessa rota. Seria muito difícil encontrar guarida para este iberismo nos terreiros de xangô, pois mesmo a composição santo/orixá era decretada pelo lado negro da identidade ou, melhor dizendo, da similaridade construída e difundida.
A MATRIZ DO POLICIALESCO
E dentro desse espaço aberto de discussão sobre o tema, que entedemos não ser possível deixar de levar em conta o papel da formalização do mando desde os tempos coloniais. Esse é um dado óbvio, sendo tão lugar comum quanto é considerar o império do católico, determinado, oficialmente, como a ligação preferencial entre o sagrado e o profano. Para a discussão, seria interessante trabalhar a mudança do perfil do controle e de ajustamento, que se vai processando - embora lentamente - e que emerge de modo claro nos finais do século XIX e princípios do século XX nas Alagoas. Seria inevitável pela própria natureza do escravismo, que fosse sendo construída uma malha negra de relações urbana, pois o negro estava e fazia-se dentro da Capital da Província. A manutenção do escravo enquanto base da força de trabalho de uma economia fundamentalmente agro- -exportadora, em nada evitava o estar e fazer-se dentro do urbano. Talvez quem sabe, a montagem dos cultos jamais poderia ser rural, embora o orixá estivesse nas senzalas e na cabroeira que se formava.
Nesse itinerário, o escravo - pardo ou negro - estava ligado ao preto livre, aos africanos livres e insinuam-se e encontram lugares típicos na formação urbana de Maceió para estarem e construírem um modo de ser urbano. Inclusive, pontos da cidade foram sendo demarcados por densidade de presença negra, como Jaraguá, por onde se tem o papel da enseada do mesmo nome, funcionando como fundeadouro e articulação entre os mercados interno e externo.
Há uma diferença radical entre Lebas e Leba; um é o contexto senhorial e outro é o contexto afro. A história que apreende o negro, é a história do Quebra visto pelo Leba. Na verdade haveria um choque entre Lebas/Soberania e Leba. E preciso separar o Leba do conjunto das frações dominantes, deixar isso claro; o choque entre Lebas e Soberania era conjuntura; o choque com o Leba era de feição estrutural.Lebas seriam os partidismos maltistas e instalar a macumba dentro do Palácio do Governo; equivalia à retirada da civilização e a introdução do diabólico segundo a própria ótica branca.
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