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segunda-feira, 27 de abril de 2015

NERI, Gustavo. A DISCIPLINA DOS CAMISAS-VERDE: entre o credo, a hierarquia e os desejos carnais

 

Gustavo Neri: Licenciado em História pela Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Mestre em História pela Universidade Federal de Alagoas- UFAL, Professor de História e História da Arte do Ensino Médio, atualmente lecionando no Colégio Rosalvo Ribeiro dos Santos, Autor do Artigo: A Indústria Têxtil, O Decreto Nº. 19.739 e a Legislação Trabalhista, in. A Indústria Têxtil, a classe operária e o PCB em Alagoas. Org.; Alberto Saldanha.   

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Este trabalho foi publicado originalmente em Campus, suplemento cultural do jornal O Dia, que circula em Maceió, Alagoas,  26 de abril a 2 de maio,   ano 03,  nº 0113,  2015.  E-mail redacao@odia-al.com.br 

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Dois dedos de prosa

Alagoas vem se beneficiando do aparecimento de uma nova geração de pesquisadores que merece todo  o nosso respeito; são pessoas sérias, meticulosas, inteligentes e procuram contribuir com a discussão de nosso processo histórico. Muitos revisitam tema antigos; muitos procuraram temas novos como Gustavo Neri, que resolveu escrever sua dissertação de mestrado sobre o integralismo em Alagoas, um tema a bem dizer virgem.

Ao que me consta, sobre o tema, apareceram apenas dois artigos meus, publicados na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas resultado de meras notas por mim coletadas quando discutia comigo mesmo, qual o tema que deveria ser aproveitado em meu doutoramento. Terminei indo para o século XIX.

Gustavo Neri trouxe um belo texto, uma excelente discussão sobre a vida alagoana na década de trinta e é uma honra para Campus, poder publicar parte do material que ele produziu; trata-se de uma adaptação que sairá em quatro números de Campus.

Tomara  que alguém prossiga com esta história, produzindo sobre os reagrupamentos  que os integralistas tiveram  em Alagoas.

Campus agradece o favor que o autor nos fez.
Jatiúca, janeiro de 2015
Luiz Sávio de Almeida



A DISCIPLINA DOS CAMISAS-VERDE: entre o credo, a hierarquia e os desejos carnais
            
 A disciplina integralista era algo muito valorizado entre seus militantes, pois um homem deveria estar pronto para servir a Deus, à Família e à Pátria. O homem deve manter a moralidade e a ética cristãs, pois suas ações servirão de exemplo na construção de uma sociedade harmoniosa, onde os homens se respeitam e ajam por um bem comum. O integralista tinha de ser um propagador da felicidade social, e sua conduta tinha de ser inquestionável diante da comunidade. O homem que se vestia com o uniforme integralista passava a representar o partido; suas atitudes não seriam mais vistas como ações de um indivíduo, mas como atos do movimento. Desse modo, aqueles que não se adaptavam a essa realidade eram excluídos do partido.
            As exclusões dentro do movimento integralista não eram novidade para ninguém; elas ocorriam por diversas formas, mas alguns casos de indisciplina chamaram a atenção entre os integralistas alagoanos. Um dos casos de indisciplina ocorreu na cidade de Maceió com o integralista de nome Cícero Jackson, acusado de infringir os artigos de números 19 e 20(Art. 19 − É considerada indevida a ingerência de qualquer integralista em assuntos da competência exclusiva do chefe provincial, bem como dos respectivos secretários. Art. 20 − Toda atividade integralista, nos municípios, será controlada e dirigida por um chefe municipal, nomeado livremente pelo chefe provincial.) do Estatuto dos Camisas-Verdes . A afronta à hierarquia integralista era uma falta grave, e essas atitudes precisavam ser averiguadas por um inquérito, para avaliar a culpabilidade do acusado.
         
Era 22 de setembro de 1937, na capital alagoana, quando a solicitação do inquérito para avaliar a conduta de Jackson foi deferida pelo chefe do Departamento Técnico Provincial (DTP) dos integralistas. Os trabalhos iniciais foram realizados pelo chefe do DTP, Armando Montenegro, junto com os integralistas João Jovelino, Manuel Epifânio do Carmo e José Lourenço Filho, que serviriam como testemunhas no caso. Nesse inquérito o acusado teve direito a um advogado de defesa. Passados seis dias, estava tudo pronto para a oitiva das testemunhas. Assim, em 28 de setembro de 1937, na Secretaria Provincial de Propaganda (SPP) da Ação Integralista Brasileira, dava-se início aos trabalhos deste inquérito.
          
  Presentes nesse momento estavam os integralistas Francisco Firmo Cavalcante Moura e Jorge da Silva Garcia; este último, por ordem do chefe do DTP, funcionou como escrevente do inquérito e exerceu a presidência. A primeira testemunha a ser ouvida foi Manuel Epifânio do Carmo, que quando perguntado o que sabia sobre o caso, respondeu que ouviu do companheiro Jackson criticas ao movimento integralista de Alagoas e fez questionamentos sobre a capacidade da chefia estadual em coordenar o movimento.
            A comissão que ouvia a testemunha tinha outra preocupação, pois era preciso saber se mais alguém tinha ouvido as “injúrias” proclamadas pelo acusado; para a inquietação de todos, o Senhor Jackson havia discursado para uma plateia. O integralista rebelde teria realizado esse bombardeio de acusações no saguão da sede provincial, onde se encontrava um grupo de integralistas que participavam de uma palestra no momento. Essas foram as últimas informações prestadas pela primeira testemunha aos inquiridores. As ações do acusado provavelmente preocupavam a diretoria do partido, pois além de representar uma fragmentação no movimento, que falava em integração social, mostrava uma afronta à hierarquia do integralismo, e isso não poderia ser tolerado. É que todo bom camisa-verde deveria manter obediência às chefias, já que a harmonia social depende da obediência aos superiores. 
            No mesmo dia foi ouvida a segunda testemunha, José Lourenço Filho, que, quando questionado sobre o que sabia do caso em questão, respondeu de forma muito enfática e disse saber da indisciplina do acusado e que ele vivia disparando acusações contra os chefes integralistas e não obedecia à ordem de seus superiores, mesmo quando essas lhe eram dadas diretamente. Quando perguntado sobre o fato ocorrido no saguão da sede integralista, Lourenço Filho afirmou não ter presenciado o fato. Mas apresentou uma nova acusação ao processo, pois afirmou que o acusado tinha o habito de pernoitar na sede, após voltar de noitadas.
           
Usar a sede para pernoitar era uma falta muito grave em face da moralidade integralista, pois provavelmente não se tratava de passar a noite na sede após um dia de trabalho pelo partido, mas sim após uma noite da qual não se orgulharia nenhum integralista. A fala da segunda testemunha realça a indisciplina do acusado diante da autoridade dos chefes, pois mesmo não presenciando a ocorrência no saguão da sede, a testemunha acrescentou ao inquérito outros acontecimentos que reforçavam a ausência do respeito à hierarquia pelo acusado. Os chefes na AIB tinham seus poderes indivisíveis e deveriam governar seus núcleos de forma total, respondendo apenas à hierarquia integralista, sem questionamentos por parte de seus inferiores. O Estatuto Integralista coloca a pessoa do chefe como perpétuo e, por isso, não se deve comentar nada sobre os atos das Chefias Provinciais. Assim, os atos do integralista acusado feriam o estatuto dos camisas-verdes e manchavam o nome do movimento.
           
Após o depoimento da segunda testemunha, fez-se uma pausa no inquérito. Os trabalhos só foram retomados no dia 29 de setembro de 1937, quando foi ouvida a terceira testemunha do caso, João Jovelino da Silva. Essa terceira testemunha parecia ser a mais próxima do acusado, pois Jackson foi visto com ele a forçar o portão dos fundos da sede para tentar pernoitar; também foi ele o único dos companheiros integralistas a visitar o amigo radical na prisão. Essa testemunha também era importante para o inquérito, porque assim como o seu companheiro de partido José Lourenço, havia presenciado o acusado fazer as acusações contra a chefia integralista. Quando perguntado sobre o que sabia do acontecido no saguão da sede provincial, o depoente confirmou as acusações contra o amigo integralista e disse que o companheiro usou como justificativa sua insatisfação com o movimento o fato de ter sido abandonado na prisão pelos integralistas.
            O interrogador acrescentou ao seu depoimento o fato ocorrido no dia em que ele e o acusado foram vistos forçando o portão dos fundos da sede provincial. Jovelino não negou o fato; quando perguntado se realmente estava na companhia do acusado, não só respondeu positivamente como também deu detalhes do ocorrido. Afirmou que em uma noite de sábado ambos vinham caminhando pelos fundos do prédio da sede provincial, quando o companheiro Jackson resolveu entrar no prédio com o intuito de pernoitar, mas como era de se esperar, encontraram o portão fechado. Isso não foi obstáculo para o acusado, que com um punhal forçou o ferrolho do portão e o abriu, e lá passaram a noite.
           
Outra questão que chama a atenção no depoimento de Jovelino é a ausência de visitas ao acusado, enquanto se encontrava preso. As ações do integralista já vinham sendo observadas há algum tempo, e como foi dito nos depoimentos, sua indisciplina era algo presente e que já se identificava; assim, manter relações com esse homem seria um risco para a imagem dos seus companheiros integralistas. A melhor forma de não ser interpretado como um cúmplice do rebelde era mantendo-se distante dele.
           
Faltava ainda a fala da defesa. Após um intervalo de mais de cinco dias, as atividades foram retomadas. Em 5 de outubro de 1937, na Secretaria Provincial de Propaganda (SPP) da AIB, na cidade de Maceió, na presença dos integralistas Francisco Firmino Cavalcante e Gastão Carvalho de Souza, acompanhados do presidente e escrevente do inquérito, ouviu-se o acusado. Este não negou que há algum tempo vinha comentando com alguns companheiros as suas insatisfações com o movimento e com as suas chefias, mas deixou bem claro que aquele não era um ato isolado de sua pessoa, pois, assim como ele, outros colegas do partido também se queixavam dos rumos que o integralismo estava tomando naquela capital.                             
               O acusado não poupou nomes em seu depoimento e citou peças fundamentais no interrogatório, a saber, duas testemunhas e o escrivão e presidente do inquérito como seus cúmplices de acusações contra a AIB. Com isso o acusado tentava enfraquecer a imagem de seus acusadores e desacreditá-los perante os inquiridores. Sua estratégia era mostrar que apesar de todos os seus atos de indignação, aquilo não eram atos isolados, pois muitos outros já questionavam as atitudes das chefias naquela província.
         
Mas essa era apenas a primeira das acusações feitas contra o acusado, pois ele ainda precisava justificar à comissão a desobediência às ordens de seus superiores. Quando perguntado sobre tais atos de indisciplina, o acusado respondeu negativamente e acusou José Lourenço Filho e outros companheiros de planejar se afastar da AIB e terrem negociado seu ingresso na UDB.
           
Agora o acusado apontava sua fala contra os companheiros integralistas, acusando-os de conchavo com os rivais dos camisas-verdes. Tentou mostrar que apesar das acusações contra ele, mantinha-se fiel ao movimento, enquanto aqueles que o acusavam estavam tramando um desligamento em massa da AIB para uma filiação com os adversários. O depoimento do integralista investigado alertava indiretamente que era preciso a chefia abrir bem os olhos, já que seus militantes estavam insatisfeitos com suas atuações e talvez fosse hora de adotarem uma nova postura, embora isso não coubesse no movimento integralista, pois seus chefes eram absolutos e só se reportavam a seus superiores. Ressaltou que aqueles que pretendiam continuar no movimento deveriam aceitar essas diretrizes, como também abdicar de alguns interesses pessoais, ou não estariam aptos a usar uma camisa verde, além de ferirem o estatuto integralista.
            Faltava ainda Jackson Silva responder a uma acusação, pois no depoimento do integralista José Lourenço Filho foi relatado que o acusado, acompanhado por João Jovelino, teria sido visto, tarde da noite, a forçar a fechadura do portão dos fundos da sede provincial. Sobre isso o depoente afirmou que o fato realimente tinha ocorrido, mas que a ideia de usar a sede para pernoitar tinha sido de seu companheiro Jovelino e que o mesmo afirmou fazer isso com frequência e nunca ter sido repreendido.     
          
  Dando sequência à sua estratégia, o acusado não desmente os fatos pelos quais é acusado, mas faz questão de acrescentar que não esteve sozinho em nenhum dos atos e que nem sempre a ideia de determinadas ações partiu dele. A ação de pernoitar na sede, algo que já havia sido proibido pela chefia, ficou claro na fala do depoente ser um hábito, mas não dele, e sim de um de seus acusadores. O inquérito se estendia, pois faltava saber do depoente se realmente ele teria falado palavras de baixo calão e feito gestos indecorosos contra o movimento integralista. Sobre essa acusação Jackson Silva, negou totalmente sua culpa.
           
O depoimento do acusado levantou uma série de acusações que provavelmente geraria a necessidade da abertura de um novo inquérito que incluísse todos os nomes citados pelo depoente, mas apenas suas palavras não seriam suficientes para provar qualquer coisa diante daquela tribuna. Assim lhe foi perguntado se ele teria como provar tais acusações, se teria testemunhas que confirmassem tudo aquilo que foi dito por ele. O acusado afirmou que se lhe fosse permitido ele traria um ou mais colegas para confirmar tudo o que foi dito em seu depoimento. 
            Sem mais nada a declarar, foi finalizado seu depoimento para que a comissão pudesse avaliar suas acusações. No dia 28 de outubro de 1937 foi publicada uma nota pelo DTP, arquivando o processo contra o Sr. Cícero Jackson da Silva e ressaltando que ele sofreria as penas que constavam no regulamento integralista. O documento ainda liberava os integralistas acusados por Jackson, considerando suas declarações como falsas e infundadas.   
             
   Esse inquérito mostra a relevância da manutenção da disciplina e da hierarquia integralista. Assim, a figura dos chefes era de fundamental importância na condução da sociedade e na formação do Estado Integral. O próprio chefe nacional, Dr. Plínio Salgado, enxergava o papel do chefe como um doutrinador, e como fundamental a fidelidade dos militantes, devendo o integralista, respeitar a doutrina do movimento.
            Mas esse não foi um caso isolado de indisciplina entre os integralistas. Parece que alguns camisas-verdes se deixavam levar pelas tentações mundanas e caíram no abismo da jogatina, da bebedeira e da formicação. Atitudes como essas levariam um integralista a ser advertido, e caso não mudasse suas ações, possivelmente seria expulso do movimento. O uniforme integralista não era apenas um pedaço de pano usado para cobrir o corpo; o homem que vestisse a camisa verde deveria ser a representação da honra, do amor à pátria, do temor a Deus, do respeito à família e nunca ter sua moral questionada.
             Outro exemplo de indisciplina desse tipo foi encontrado nos registros do Departamento Provincial de Polícia (DPP) dos integralistas. Neste caso o infrator se chamava Salustiano Eusébio de Barros, integralista do núcleo de Maceió. A infração desse sujeito se resumiu ao ambiente no qual foi avistado, e não seria de tamanha gravidade se não estivesse vestido em seu uniforme integralista.
             
No dia 19 de julho de 1935, esse camisa-verde foi visto no cassino Antártida, na capital alagoana. A situação do homem se agravou, pois aquela não era a primeira nem a segunda vez que fora flagrado no mesmo cassino, mas se tratava da terceira vez que o chefe do Departamento de Provincial de Polícia (DPP) o encontrava naquele local. Cumprindo o protocolo integralista, Milton Ramires, chefe do DPP, enviou um telegrama para o chefe provincial de Alagoas, Dr. Afrânio Lages, informando sobre o infortúnio.
           
Ações como essa preocupavam a direção do partido, já que o cassino não era o melhor lugar para um integralista, pois feria o conceito de moralidade cristã do movimento. Ambientes como esse deveriam ser evitados, e jamais frequentados por integralistas uniformizados. Mas a disciplina de alguns de seus militantes era superada por impulsos incontroláveis de uma noite na imoralidade do homem comum. Essa era uma questão tão forte para os integralistas que os seus rivais comunistas usavam como estratégia para tentar atingir a “integridade” dos seguidores do Sigma, vestirem-se com uniformes integralistas e saírem pelos cassinos e cabarés noitadas afora, bebendo, arrumando confusão e cometendo atos de vandalismo. “Tendo chegado ao conhecimento da Chefia Nacional que elementos comunistas estão adquirindo e mandando fabricar camisas verdes e distintivos integralistas, com os quais pretendem, não só provocar desordem, como tentar contra o regime” (INFORMATIVO DO DTP AOS NÚCLEOS MUNICIPAIS, Maceió, 27 de agosto de 1937, p. 1).
            As desavenças entre os integralistas também eram interpretadas como uma atitude de indisciplina, e discussões que levassem a ofensas ou agressão física deveriam ser investigadas pelo Departamento Técnico Provincial (DTP). Os registros mostram que problemas similares já foram enfrentados por esse departamento, pois no dia 27 de outubro de 1937, na oficina do Jornal A Província, na cidade de Maceió, dois camisas-verdes colocaram à prova suas diferenças e, por muito pouco, essa discussão não terminou em agressão física.
           
Os envolvidos foram os integralistas Álvaro Carneiro e Sebastião Miranda Rego; o motivo da confusão é desconhecido, porém se sabe que, na manhã do dia citado, era mais um dia comum de trabalho no jornal integralista, quando em algum momento foram ouvidos berros de fúria. Segundo alguns relatos, quando os outros integralistas presentes no local rumaram em direção ao vozerio, presenciaram Álvaro soltando palavras de ofensas injuriosas e partindo para agredir seu companheiro de legenda, Miranda Rego. A ação de alguns colegas dos brigões foi partir para separá-los, pois aquela atitude era inadmissível para um integralista. Em depoimento ao inquérito de averiguação desse fato, o integralista Moacir José da Cunha afirmou haver presenciado esse fato.     
           
Segundo os depoimentos, Miranda Rego manteve uma postura pacífica, mesmo quase sendo agredido. Outra testemunha desse acontecimento foi o integralista e chefe da quarta secção do DPP, Luiz Teixeira de Barros. Quando perguntado sobre o que tinha visto com relação à atitude do companheiro, respondeu que “O queixoso limitava-se a dizer apenas que retribuía” (INQUÉRITO CONTRA ÁLVARO CARNEIRO, 29 de outubro de 1937, p. 2).       
     O resultado desse inquérito é desconhecido, pois a documentação não revela a conclusão dos fatos, porém evidencia preocupação com a ação dos integralistas. O partido pretendia manter seus militantes sob seu controle, tanto dentro como fora dos espaços integralistas; seus hábitos, sua conduta e seu discurso deveriam ser focados no modelo de um “verdadeiro” camisa-verde.

terça-feira, 21 de abril de 2015

NERI, Gustavo. O INIMIGO DO SIGMA: atrás dos rastros comunistas nas terras alagoanas

Nosso objetivo é contribuir para uma boa discussão sobre Alagoas. A administração pode discordar, no todo ou em parte,  do que é dito no texto. O importante é que a posição do autor seja discutida.

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Dois dedos de prosa

Luiz Sávio de Almeida 

Alagoas vem se beneficiando do aparecimento de uma nova geração de pesquisadores que merece todo  o nosso respeito; são pessoas sérias, meticulosas, inteligentes e procuram contribuir com a discussão de nosso processo histórico. Muitos revisitam tema antigos; muitos procuraram temas novos como Gustavo Neri, que resolveu escrever sua dissertação de mestrado sobre o integralismo em Alagoas, um tema a bem dizer virgem.

Ao que me consta, sobre o tema, apareceram apenas dois artigos meus, publicados na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas resultado de meras notas por mim coletadas quando discutia comigo mesmo, qual o tema que deveria ser aproveitado em meu doutoramento. Terminei indo para o século XIX.

Gustavo Neri trouxe um belo texto, uma excelente discussão sobre a vida alagoana na década de trinta e é uma honra para Campus, poder publicar parte do material que ele produziu; trata-se de uma adaptação que sairá em quatro números de Campus.

Tomara  que alguém prossiga com esta história, produzindo sobre os reagrupamentos  que os integralistas tiveram  em Alagoas.
Campus agradece o favor que o autor nos fez.

Jatiúca, janeiro de 2015
 
 
Gustavo Neri: Licenciado em História pela Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Mestre em História pela Universidade Federal de Alagoas- UFAL, Professor de História e História da Arte do Ensino Médio, atualmente lecionando no Colégio Rosalvo Ribeiro dos Santos, Autor do Artigo: A Indústria Têxtil, O Decreto Nº. 19.739 e a Legislação Trabalhista, in. A Indústria Têxtil, a classe operária e o PCB em Alagoas. Org.; Alberto Saldanha.   
 
 
 

 O INIMIGO DO SIGMA: atrás dos rastros comunistas nas terras alagoanas 
  
  
            



 Entre os inimigos dos integralistas estavam o liberalismo, o semitismo e o comunismo. Desses, o terceiro provavelmente foi o mais agredido, ao menos no estado de Alagoas, já que segundo os ideais do “credo verde” ele representava para a sociedade a Escravidão Moral, a Escravidão Política e a Escravidão Econômica. O bolchevismo era um risco que não poderia ser tolerado nas fronteiras brasileiras, muito menos nas terras conservadoras de Alagoas. Visando debater as operações de combate ao comunismo é que abordaremos esse tema nas linhas seguintes. 

            Os integralistas acreditavam que o comunismo era o reducionismo do homem ao âmbito econômico e que suas bases materialistas afastavam o sujeito de uma concepção espiritual, assim como o Estado Liberal era uma visão limitadora do ser ao civismo. Segundo o discurso integralista, ao homem no comunismo não é agregado nenhum sentido humano, pois não passa de um ser econômico, sendo o mundo uma arena onde se trava uma guerra constante entre capital e trabalho.

      A superação disso, segundo os integralistas, estava no Estado Integral, que era a junção do civismo com o econômico, acrescentados ao espiritual, e qualquer ideia que representasse a fragmentação desses ideais deveria ser combatida. O caráter internacionalista do comunismo era tido como uma ideia apátrida. Para os defensores do Sigma, o comunismo representava o fim da soberania política e econômica das nações. Ou seja, o comunismo, assim como o liberalismo, pretendia estabelecer um regime completamente avesso aos ideais integralistas, que prezavam pela religião, pela família e pela pátria, como se pode constatar em seu lema “Deus, Pátria e Família”.  

            Hélgio Trindade divide o anticomunismo integralista em três fases. Na primeira, o socialismo e o liberalismo fazem parte de uma mesma concepção filosófica, o materialismo. Já na segunda, os teóricos integralistas afirmam que o socialismo e sua estrutura socioeconômica estavam ligados às doutrinas fragmentárias do século passado e seria o fascismo integral a representação da superação desse socialismo. A terceira e última fase consistia em disseminar o medo ao comunismo entre os militantes integralistas, já que geralmente se combate o que se teme. É essa terceira expressão de anticomunismo que está mais presente nos discursos de jornais e panfletos do movimento, e até mesmo da grande imprensa na década de 1930. A ideia era aterrorizar para manter a sociedade longe dos ideais subversivos do comunismo. 

           
 Existiu uma tática usada pelos integralistas que foi muito efetiva no combate ao comunismo: o serviço de espionagem realizado pelo Departamento de Policia Integralista. Em 1933, após um decreto de reestruturação da Polícia Civil, é criada a Delegacia Especial de Segurança Política e Social (DESPS). Esta dispunha de alguns agentes, porém poderia ampliar o seu quadro e contratar tantos homens quanto o chefe de polícia achasse necessário. É nesse campo que se enquadra a atuação do combate ao comunismo dos camisas-verdes de Alagoas. Essa não é uma característica exclusiva dos integralistas alagoanos, pois o trabalho de identificação e investigação das sedes comunistas foi uma atribuição nacional da AIB. Assim, os integralistas da Terra dos Marechais tiveram a sua participação na perseguição aos bolchevistas. O seguidor do “credo verde” deveria investigar, e ao identificar a presença dos comunistas em alguma região, informar ao Chefe de Polícia para que este tomasse as medidas cabíveis. 

           
Para manter essa atividade com maior efetividade foi criado o Departamento Nacional de Polícia (DNP), que se dividia em Departamento Provincial de Polícia (DPP) e Departamento Municipal de Polícia (DMP). Cabia a essas secretarias o trabalho de investigar e combater os ideais subversivos que “ameaçassem o bem” do Brasil. Para isso foram estabelecidas as seguintes diretrizes: cumprir e vigiar todos os militantes comunistas, enviando ao DPN a ficha respectiva, bem como avisar qualquer ausência, quer por fuga, quer por motivo de viagem. Procurar localizar todas as células comunistas da província, estar sempre a par de suas atitudes, bem como descobrir os chefes. Sempre que for aconselhável, deveis entrar em contato com as autoridades  policiais, a fim de serem tomadas as providencias necessárias, desde que essas ultrapassem a nossa capacidade de agir, como nos casos de prisão, etc.


            
] Essas seriam as atitudes que deveriam tomar os integralistas diante da ameaça comunista. Para além de uma mera ação investigativa, exigia-se a disciplina, o espírito patriótico e a crença nos ideais do Sigma, para que cada camisa-verde agisse conforme suas atribuições. O DPPA tinha uma funcionalidade tão ativa que contava com um número de mais de quarenta funcionários espalhados pelos bairros de Maceió; os bairros eram divididos em zonas e cada área ficava sob a fiscalização de um grupo integralista. O DPPA contava ainda com a ajuda de mais de trinta membros auxiliares nessa secretaria. 

            Em 1935 a chefia do DPPA ficou nas mãos do Sr. Milton Ramires e tinha como funcionários: José Mendonça de Vasconcellos, no cargo de chefe de gabinete do DPP, Fernando Regis do Amaral como oficial de gabinete do DPP, Ismael Lisboa era o chefe da 1ª Divisão, a 2ª Divisão era comandada por Renato Bonfim Tavares, Jalk Cabral era o chefe da 3ª Divisão e José Antônio dos Santos era o chefe da 4ª Divisão do DPP. Porém o departamento de polícia integralista não se limitava apenas aos cargos de gabinete, usando a força dos grupos auxiliares para atuar no combate à subversão.


            A eficiência desse departamento estava garantida pelo número de funcionários e auxiliares desse setor, mas só isso não bastava: a Secretaria tinha de agir no combate ao comunismo. Exercendo a função investigativa, em 1935 o DPP envia um telegrama ao comissário de polícia da Zona do Poço para investigar o Sr. Francisco José de Barros. Sobre esse sujeito queriam saber: sua orientação política, residência e rotina. 

      A investigação sobre o Francisco José de Barros originou-se de uma denúncia feita a Carloman, na qual o investigado era acusado de esconder comunistas procurados em sua residência, bem como de ser defensor de ideias subversivos e extremados. A denúncia partiu de Osvaldo Veloso e veio do bairro da Saúde. Foi solicitada certa emergência no resultado dessa investigação. A busca para identificar os comunistas era intensa. Assim, em 25 de julho de 1935, os resultados desse trabalho começavam a aparecer. 

            Na capital alagoana, no bairro da Ponta Grossa, foi identificado como comunista Antídio de Souza. Esse indivíduo, além de ser comunista, era acusado de manter e chefiar em sua casa uma célula dos seguidores de Moscou. O telegrama de investigação dizia: “Antídio de Souza é comunista e chefe de uma célula em sua residência, na rua Tupinambás nº 128, carroceiro e proprietário de duas carroças, sendo condutor de uma, e uma seu companheiro de nome Antônio Ferreira era condutor” (TELEGRAMA ENVIADO AO CHEFE DO DPP, 21 de julho de 1935, p. 1). 

            Perseguir os rastros dos comunistas era uma forma que os integralistas encontravam para diminuir as forças de seus adversários políticos, que se espalhavam pela capital alagoana. Mas esses não eram os únicos alvos dos integralistas alagoanos, pois outras organizações eram vistas como perigosas aos ideais verdes, sendo também a Aliança Nacional Libertadora (ANL) colocada nas fileiras inimigas. As perseguições contra a ANL se confundiram com as perseguições aos comunistas, já que os integralistas tratavam essa organização como uma extensão do PCB. Defendiam que a presença de sujeitos como Carlos Prestes na Aliança já era suficiente para comprovar sua teoria. Alegavam ainda que esse movimento constituía um novo partido em combate ao integralismo e por isso deveria ser destruído. 

            Desta maneira, os olhos dos espiões integralistas estavam fixados na ANL, fazendo-se necessário identificar os chefes, seus membros, suas sedes e as atividades de cada um do movimento. Tudo isso foi solicitado pelo Chefe do DPP em uma circular remetida em 24 de julho de 1935. Dispondo de pouco mais de cinco dias, os membros desse departamento tiveram de trabalhar rápido. A resposta veio do comissário da região do Trapiche da Barra, que ficava sob a responsabilidade do comissário Atolino de Oliveira Lima. Este investigador obteve resultados que levaram aos nomes de dois sujeitos que atuavam em sua região: Olívio e Aristides Téa. Em seu relatório afirma que esses homens, além de propagandistas da ANL eram também opositores dos ideais integralistas. Ambos residentes no bairro do Trapiche da Barra, atuavam em conjunto naquela região, um suprindo a ausência do outro. 


           
A presença dos inimigos da AIB não era um privilégio da capital alagoana, pois esses grupos se espalhavam pelos municípios do estado. Em São Miguel dos Campos deu-se um caso curioso: o inquérito instaurado para saber se o indigitado extremista José Laurindo de Lima poderia ser aceito pelo Núcleo Municipal de São Miguel dos Campos. A investigação constava de uma avaliação dos antecedentes desse sujeito para avaliar a possibilidade de seu ingresso nas fileiras integralistas. Assim, no dia 9 de junho de 1936, na sede do núcleo municipal integralista de São Miguel dos Campos, perante os camisas-verdes Afrânio Moreira de Oliveira (SMOP), José Emídio Filho (SME), Miguel Frederico da Silva (SMSF) e o chefe municipal, Sr. José de Medeiros Aprato, foi iniciado o inquérito para decidir os rumos de Laurindo de Lima. O investigado tinha 28 anos de idade, casado, se declarou agricultor, era natural da cidade de Alagoas, mas residia em São Miguel dos Campos; sabia ler e escrever.

            Durante o interrogatório perguntaram ao agricultor se ele professou ou professava o credo comunista. Sua resposta foi que sim, já tinha prestado serviços para o antigo partido da capital alagoana. O investigado afirmou ainda haver ingressado nas fileiras comunistas por livre e espontânea vontade, que nunca foi obrigado a nada e que obedecia tão só à sua consciência. O ex-militante comunista mostrou-se muito determinado em não esconder seu passado entre os seguidores dos ideais soviéticos. Contou também que enquanto esteve na cidade de Coruripe, onde realizava trabalhos como vendedor ambulante de miçangas, atuava em paralelo fazendo propaganda para o PCB, e foi lá que sua sorte começou a mudar. Pois, acabou sendo preso e levado até a penitenciaria de Maceió onde passou 19 dias acusado de subversão.

            Foi após essa intervenção policial que o antigo vendedor ambulante decidiu mudar de vida. Assim, depois de ser liberado, mudou-se para São Miguel dos Campos, onde fixou residência e passou a trabalhar como agricultor. Até a data do inquérito, Laurindo se dizia afastado de toda e qualquer atividade comunista, bem como arrependido por ter se deixado levar por essas atividades subversivas e antipatrióticas. No entanto, aquele não era um inquérito apenas para averiguar se aquele homem era ou não comunista, pois isso já estava provado no próprio depoimento dele. Aquela era uma entrevista com o intuito de avaliar se o investigado se mostrava decidido a ingressar no movimento integralista.


            Como um grande pai que jamais se nega a dar outra chance para seus filhos, o movimento integralista passou a avaliar a possibilidade de ter esse novo integrante no seu quadro. Mas não bastavam apenas as palavras do entrevistado, pois os chefes integralistas queriam ouvir a comunidade que era mais próxima do investigado. Assim, a investigação contou com o depoimento de duas testemunhas, Antônio Teles dos Santos e José Petronilo de Lima. O primeiro a depor foi o Antônio Teles dos Santos, de 31 anos de idade, casado, operário, natural de Campos, estado de Sergipe, residente em São Miguel dos Campos. O depoente começou dizendo que ouviu rumores de uma prisão em Coruripe de um sujeito que respondia por nome de José Laurindo, mas que jamais pensou que fosse o seu amigo, pois nunca ouviu dizer que ele estivesse envolvido com grupos subversivos. No entanto, após os rumores e a confirmação de sua prisão, a testemunha pôde ter certeza que o Laurindo dos fuxicos do povo era mesmo o seu amigo.

          
  A segunda testemunha nesse inquérito foi José Petronilo de Lima. Tinha 36 anos de idade, era casado, operário e residente em São Miguel dos Campos. Assim como a outra testemunha ouvida, dizia desconhecer as atividades comunistas do acusado, pois o conhecia como o vendedor ambulante de miçangas. Afirmou que só ficara sabendo de suas atividades quando Laurindo foi preso em Coruripe. Foi-lhe perguntado como o acusado conseguia se manter oculto diante da comunidade. A testemunha acrescenta que se as atividades do acusado fossem realizadas na cidade, eram feitas num horário desconhecido, para evitar que ele fosse pego. O próprio depoente afirmou que se presenciasse o Sr. Laurindo a realizar esse tipo de atividade teria feito a denúncia.

            As falas das duas testemunhas ouvidas não confirmavam a participação efetiva do indivíduo nos grupos comunistas, mas o próprio acusado assumia sua participação entre os comunistas. Restava agora a avaliação final para saber se José Laurindo era realmente “digno” de usar a camisa verde e se realmente desejava redimir-se de todas as suas atividades subversivas cometidas no passado. Foi-lhe concedido um período de estágio probatório de um mês, em que o ex-militante vermelho teria de provar que estava pronto para se tornar um integralista.


            Era chegada uma das horas decisivas do inquérito: era o momento da decisão de uma das chefias sobre o ingresso ou não do Senhor Laurindo. Isso competia ao chefe municipal do núcleo de São Luís do Quitunde, José Medeiros Aprato. Este levava em conta os depoimentos das testemunhas e do acusado, e fazia uma avaliação do comportamento do sujeito durante o período de estágio probatório. Esse foi o “calcanhar de Aquiles” do candidato, pois, segundo o parecer do chefe, o investigado não correspondia ao perfil de um integralista. A falta de compromisso com as obrigações do movimento, a postura indisciplinada dentro e fora do núcleo, a irresponsabilidade com a família, tudo isso e mais alguns adendos fizeram com que Aprato considerasse o ex-militante vermelho indigno de se tornar um integralista. 

            Toda essa resistência e combate ao comunismo não passava despercebida aos olhos dos seguidores de Moscou; contra a ação do Governo e dos integralistas, os comunistas brasileiros já preparavam uma reação. Não era possível manter-se passivo com tudo o que estava acontecendo; era hora de agir para não se tornarem “presas” tão fáceis de ser capturadas.
           
As forças opositoras eram a polícia, o governo varguista e as forças imperialistas do capitalismo liberal, que passavam a atuar com um serviço de espionagem bem mais sofisticado, diferenciando-se das atuações truculentas da polícia da República Velha. O objetivo agora não era capturar apenas um indivíduo, mas sim investigar um suspeito por um, dois ou até três meses, para assim, por meio daquele indivíduo, capturar uma organização inteira. Era nesse momento que entrava a atuação dos integralistas, pois muitos deles eram contratados para os serviços auxiliares da polícia, atuando no serviço de investigação de um suspeito e como informantes das forças militares.     

            A carta comunista distribuída entre as células do partido apresentava sete pontos que pretendiam prevenir seus partidários dos atos de perseguição dos seus opositores. As medidas tomadas deveriam ser transmitidas pelos secretários aos correligionários. Foi esta a determinação: “Todos aqueles camaradas que moram em casas conhecidas da polícia devem fazer a mudança, pois mesmo que nunca tenham sido presos, isso não lhes garante segurança”. Essa mudança deve ser realizada com extremos cuidados, “sem deixar rastros, transportando primeiro a uma estação de bondes, despachando para outra e, ao chegar ao destino, deve sair em carro diferente, ou então levar a mudança primeiro para a casa de um conhecido, e de lá mudando em outro carro e dentro de poucas horas” (CARTA DISTRIBUÍDA ÀS CÉLULAS COMUNISTAS, sem data, p. 1). Essa era uma forma de despistar as investigações da polícia. 

            Num segundo ponto, a carta esclarecia os caminhos que deveriam percorrer os companheiros comunistas: as ruas nunca deveriam ser repetidas; não se deveria cumprimentar nem falar com amigos partidários na rua, pois um dos dois poderia estar sendo seguido; as esquinas mortas deveriam ser ponto de encontro para no máximo dois camaradas; usar a casa de simpatizantes ou amigos para conversar com os correligionários e transmitir informações da diretoria.

          No terceiro item era feita a ressalva de que com a participação dos integralistas nos serviços de espionagem, devia-se ter mais cautela. “Agora que os espiões da polícia são muito mais numerosos porque aumentados por todos os integralistas, temos que tomar cuidado de não falarmos em locais públicos, trens, bares, ônibus, cafés, etc.” (CARTA DISTRIBUÍDA ÀS CÉLULAS COMUNISTAS, sem data, p. 1). É que uma ação impensada daria pistas que levariam a polícia até os comunistas. 

            O quarto item apontava justamente para a questão das medidas que tinham de ser tomadas para não serem surpreendidos pelos inimigos. Assim, os pontos centrais das cidades deveriam ser evitados pelos companheiros conhecidos da polícia, que deveriam evitar passar a pé por esses locais. Caso isso não fosse possível, a diretoria do Partido dava outra opção: “sempre que possível, ficar dentro de conduções onde viajam muitos outros passageiros e passar por esses lugares lendo jornal, de cabeça baixa, sempre o mais discretamente possível, portando-se como todo mundo, e não gesticular, não falar alto” (CARTA DISTRIBUÍDA ÀS CÉLULAS COMUNISTAS, sem data, p. 2).
          
  O quinto item da carta alertava para que os militantes comunistas observassem se estavam sendo perseguidos; para isso, deveriam deixar cair o jornal, parar em uma vitrine de loja, olhar uma mulher bonita, entrar em uma loja para comprar fósforo, dobrar a esquina sempre que chegassem perto de um local, para constatar se estão sendo seguidos. Tudo isso deveria ser feito sem alarde, para não chamar atenção de outras pessoas.  O sexto item aconselhava os partidários vermelhos a não manter em casa nenhum tipo de material do partido, e a evitar ser pego com qualquer tipo de propaganda do partido. Era preciso distribuir todos os boletins e panfletos assim que os recebessem.      
            O sétimo item adverte as células comunistas sobre os horários das reuniões que não deveriam durar mais do que até 22h:00min, reuniões com um numero limitado de membros e com durações de no máximo 2 horas.   Assim, o temor da vigilância fazia os inimigos do integralismo ficarem mais atentos e cometerem menos erros, pois sabiam que aqueles eram tempos em que não se podia confiar no vizinho. Essa situação reforçou a importância dos camisas-verdes nesse sistema de espionagem, já que, quanto mais inimigos os vermelhos encontrassem pela frente, melhor para as forças do Estado.