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domingo, 27 de julho de 2014

Luiz Sávio de Almeida. Bicas. Minas Gerais: Futebol, Mortes e outros babados

Domingo, 1 de janeiro de 2012

[HISTÓRIA: MEMÓRIA: BICAS: MINAS GERAIS] Luiz Sávio de Almeida. Bicas. Minas Gerais: Futebol, Mortes e outros babados




Perto de minha casa, morava um cara que seria meu melhor amigo em Bicas.  Eram dois irmãos: Jair e Jari, ambos filhos de Seu Edgard Machado,  alfaiate e célebre treinador de futebol do Leopoldina. A alfaiataria era em direção á praça da Matriz,  lado direito e muitas vezes fiquei sentado lá, conversando com o Jaii  que  era um espécie de aprendiz e ajudante do pai. Era gente fina. Jogava bola que não era brincadeira.  E talvez por eu ser seu amigo, é que o velho Edgard me treinava no time. Alias, de jogador daquele tempo, eu  lembro do Jair,  Marcinho e do Azeitona.  O Azeitona era um raio com a bola nos pés,  passava fulminante e ninguém batia pelo fato de ser um menino mesmo; quem sabe Azeitona teria sete anos?  Marcinho era especialista em bicicleta; franzino, mas bom de bola. O outro era o Jair, também franzino. Jogavam na frente. Eu era muito ruim, mas até que dava certo na lateral direita.



A área da primeira casa 

Houve um jogo que não esqueço:  sustentei a parada. Saí satisfeito da vida. Vou ao cinema, era um sábado, dia de ir ao cinema à noite.  Na porta,  um outro menino falou: “Você comeu a bola hoje!”.  Era a sensação agradável de quem cumpriu a missão.  Mas normalmente, eu era o que se chamava de perna de pau. Não tinha velocidade. Nas peladas em campo pequeno, dava para alguma coisa, mas em um campo mesmo, barbaridade,  nada conseguia fazer. E aí ficava aquele lateral recuado, baixo,  correndo pouco, indo  pela linha dos half e pronto. O campo do Leopoldina era tão careca quanto seu Edgar, cujo apelido era Testa de Amolar Machado. A cerca era quase inexistente, mas era olímpico para nós.

Acho que Bicas tinha uma Liga de futebol organizada e promovia campeonato regular. Pelo menos recordo três times: Leopoldina, o seu grande rival, parece que branco e vermelho, Sport, qualquer coisa assim e o Serrano que tinha a camisa do mesmo padrão do Flamengo. Por isso, eu era Serrano. Para ir ao campo do Sport (?), era andar um bocado, ficava para além da Matriz e muito.  O Serrano não tinha campo, e treinava às vezes no Ginásio.


Os grandes times do Rio repercutiam em Bicas. Eu não  recordo dos paulistas e, engraçado, nem mesmo dos grandes mineiros, mas lembro de uma exceção: um torcedor do Madureira.  Naquela época, alguns tinham esmero com suas bicicletas e elas eram enfeitadas com as flâmulas, que saíram de  moda.  O cara, eu encontrava vez em quando, numa lanchonete quase inexistente de tão pequena.  Havia a ladeira da lateral esquerda da Prefeitura.  Era uma porta em frente e, lá, o próprio dono vendia refrigerante, sorvete da Kibon e um fantástico sanduiche de mortadela além de revistas em quadrinhos.  O Madureira (ou será Bomsucesso?) era amigo dele e ficava peruando vez em quando, numa bicicleta com uma flâmula em cada guidon e um selim com o escudo do clube.  Não me lembro, também, de muita paixão por times de Juiz de  Fora e deles guardei apenas o Tupan que foi, inclusive, jogar em Bicas.



heroisdomengao.blogspot.com

Deste negócio de futebol, eu tinha tornozeleira,  colhãozeira, joelheira, chuteira e jogava um nada. Azeitona pegava a bola e dava show: tava-aqui-estava-ali e seguia indo e vindo numas firulas de me deixar doido. Na verdade, eu tinha  medo de seu talento. Não sei nada de sua vida, mas foi uma figura que me ficou ligada ao futebol, como Jair ficou ligado a uma verdadeira amizade.  Aliás, futebol em Bicas leva ao conhecimento de dois grandes ídolos do futebol. Conhecer é um verdadeiro exagero. Um deles foi Dequinha, do Flamengo. Disseram-me na rua que ele estava em um ônibus que seguiria para o  Rio de Janeiro. Corri; ele estava cercado de menino, em pé, na calçada da lanchonete vizinha ao cinema, a mesma do Cremona. Fiquei olhando, vendo o ídolo. O outro, eu não sei se é invenção minha, foi o Barbosa do Vasco; estava com o pé quebrado, qualquer coisa assim.  Bicas era próxima do Rio.

Engraçado, não sei e nunca soube onde ficava o cemitério em Bicas.  Isso significa que nunca acompanhei qualquer morte e elas devem ter acontecido.  Para falar mesmo de morte, recordo de uma, que nem sei se aconteceu de fato em Bicas. Era um funcionário do Banco do Brasil, gente fina, jogava pelo Serrano. Acho que o suicídio foi em Juiz de Fora.  E sei que meu pai gostava dele e foi ao enterro.  Ele costumava  mandar arroz de forno. Meu pai reclamava, mas tinha vergonha de rejeitar. Era gostoso. Acho que papai o protegia;  ele nunca foi de punir. Ouvia o zumzum lá em casa sobre os motivos.  Estava aí, uma ligação especial entre futebol e morte.

Uma vez, fui a um jogo de futebol, no campo que fica depois da Igreja. Eu ia com um amigo  e seguramente era o Jair. Lembro do detalhe de estar usando uma boina, que eu gostava; uma boina preta. Talvez por isso, eu use chapéu até hoje. Pois íamos conversando e de repente passamos na porta de um bar. Gente na calçada e um corpo coberto dentro do salão, com vômitos ao redor. Ele amava, e terminou seu amor, tomando uma dose mortal de formicida. Foi o segundo morto que vi em toda a minha vida. Um no caixão, os pés para a porta. O outro coberto, possivelmente, com tolhas de mesa de bar. A namorada disse adeus  ele encontrou a morte que as formigas têm quando são violentadas.

Uma outra violência que vi, foi no campo do Leopoldina. Eu fico imaginando como tudo poderia ter acontecido na época da inquisição, da Santa Inquisição.  De repente,  era aquela quantidade impressionante de menino correndo para o campo e vinha era de todo lado. Eu aqui embarquei na correria.  Chego lá,  um louco todo amarrado de corda. Impressionante; era o espetáculo a que se costuma chamar de dantesco. Mas amarrado mesmo. Como se fosse improvisada uma camisa de força miserável para um miserável.  Éramos todos miseráveis na mais crassa ignorância.

Houve um jogo que não esqueço:  sustentei a parada. Saí satisfeito da vida. Vou ao cinema, era um sábado, dia de ir ao cinema à noite.  Na porta,  um outro menino falou: “Você comeu a bola!”.  Era a sensação agradável de quem cumpriu a missão.  Mas normalmente, eu era o que se chamava de perna de pau. Não tinha velocidade. Nas peladas em campo pequeno, dava para alguma coisa, mas em um campo mesmo, barbaridade, eu nada conseguia fazer. E aí ficava aquele lateral recuado, baixo,  correndo pouco, indo ali pela linha dos half e pronto. O campo do Leopoldina era tão careca quanto seu Edgar cujo apelido era Testa de Amolar Machado. A cerca era quase inexistente, mas era olímpico para nós.


Nessa época, nós havíamos saído da rua que ficava à mercê do córrego. Vivemos uma amarga  cheia, a casa invadida de uma hora para outra, acho que mais de metro dentro de casa. Meu pai com receio de cobras que sempre aparecem nessas ocasiões, a perda de muita coisa, eu em cima da mesa... Sairmos para pernoitar na casa do alto da colina...  Imagino, como não estava nas casas da frente, lá nos lados onde era a residência de seu Elcio Muniz, ligado a meu pai, também funcionário do Banco, casado com Dona Alice, pai de Elcinho e de Rosaly. Seu Élcio tinha uma irmã, que vez em quando passava uma temporada em Bicas;  e vivia na Itália e era cantora lírica. Tinha uma filha belíssima.   Nunca mais os vi, apesar de terem sido absolutamente familiares em nossa vida biquense.


Ele morava no fim da rua e acho que o terreno chegava a ir próximo ao que penso ser uma praça na frente do Francisco Peres. O córrego era estreito e logo as águas subiam. Eu não me lembro para onde ele seguia. Eu o conhecia bem melhor para cima. Se eu não me engano, eu pegava à esquerda do Ginásio e andava um bom pedaço, até a um ponto do córrego em que foi feita uma pequena barragem e ali a gente tomava banho. Nadava.  Se também não me engano, era o caminho para o sítio de um senhor, talvez Victor Cúgola, que tinha um filho colega de classe no grupo. Uma vez nossa turma foi passar o dia no sítio e é daí que vem a lembrança.



Foi por conta das enchentes, que nós saímos da casa.  E fomos morar em outra, bem maior, que dava os fundos para a Leopoldina, tinha um grande quintal, uns cinco a seis imensos pés de Eugênia como se chamava o jambo. Eram árvores enormes e suponho que ainda existam. Os fundos  davam para a  região da oficina da Leopoldina. Ficava em frente ao Forum que ainda estava em construção. Quem sabe o nome da rua era Baeta Neves? Sei que tinha um pé de pêssego e uma pequena mangueira.

Nada mais sei da rua, mas fiz amizade com os meninos de uma casa assobradada, vizinha ao Forum, um deles parece que chamado Bertoldo. A casa foi importante, por quanto era o lugar de campeonato de futebol de botão.  No fim da rua, havia um cafezal com uma casa grande e me lembro da pessoa mas não sei o nome.  Antes de chegar até à casa e ao cafezal, havia qualquer coisa assim como uma beneficiadora de mica, malacacheta.


Uma das cenas inesquecíveis nas andadas e em termos de violência, presenciei na rua central de Bicas. Bicas tinha um valentão oficial: esqueci o nome. Era também ligado a jogo de azar e parece que morava em algum povoado. Perto do Hotel, escuto "Lá vem Fulano".  Olhei, vinha pelo meio da rua, sangrando e diziam que tinha um canivete enfiado na cabeça.

Um grupo escolar e a pedagogia da opressão.


Segunda-feira, 26 de dezembro de 2011



Amiga Eneida
Continuo minhas lembranças de Bicas e desta feita são pesadas. Exitei se deveria escrevê-las, mas lembrei-me de algo singular. Bicas não seria um campo isolado e deveria, neste particular da educação, repetir-se por este pais. Bom, quem sabe exagerei, quem sabe minimizei? Somente pode existir uma certeza: na certa lembrei-me.

Não poderia existir outra solução: os Almeidas deveriam sair do quarto, a família ter espaço. Meu pai deveria saber disto mais do que ninguém e conhecia o temperamento de minha mãe, que era uma leoa na defesa das crias. Minha mãe havia herdado o temperamento da velha Dondon, mulher destemida como se chamava no Nordeste, tendo chegado a andar com revolver na cintura quando foi necessário. Papai quando desejava falar grosso, usava de muito cuidado. Um dia ele se aborreceu comigo e falou ríspido. Minha mãe não gostou e a pergunta foi disparada de modo certeiro: O que você quer de nós? O que você quer desse menino? Trancado, sem nada a fazer? O velho caiu em si; murchou como se diz. 


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Depois desta praça, poucas vezes fui;  meu limite ficava  em uma reta imaginária que ía da alfaiataria do  Seu  Edgar,  à casa de um amigo talvez chamado Marcinho
E vai que finalmente a casa aparece. Era modesta, simples e até acanhada, mas dava para a gente e muito bem.  Uma varadinha, uma saleta que eu vejo perfeitamente neste momento. Ela servia de sala de visita e de jantar e era, também, onde eu estudava Os quartos pequenos, banheiro modesto, a cozinha e o quintal. Era branca com as portas e janelas no marrom.  O rádio ficava em cima de um móvel. Era o tempo da índia com os cabelos nos ombros caídos, era do tempo do primeiro amor que logo acabou e só a dor deixou neste peito meu...  Sucessos de Cascatinha e Inhana, o senhor Francisco dos Santos e Ana Eufrosina da Silva. 

Não me lembro da marca do rádio. O que vendemos em Penedo era um Zenith com olho mágico, ondas largas, médias e curtas. A rádio deveria ser de Juiz de Fora ou mesmo do Rio de Janeiro, que não era tão longe assim.  Além do mais, uma imensa antena passava por cima do telhado. Era nova e o dono era nosso vizinho, Seu Mário, que, se não me engano, era organizador de um anárquico bloco de carnaval chamado de Sapolândia.  A concentração era em sua casa. Depois, ele mudou e foi para uma rua no correr do Francisco Peres.
Não sei o nome da rua, ela era sem calçamento e a poeira corria com o vento.   Tenho a certeza de que havia uma boa área sem construção, pelo menos é o que se dava em frente à nossa casa. Não tínhamos vizinhos pela direita, pelo menos próximos.  Bem afastada, estava uma bela casa de uma senhora que parecia ser viúva e tinha dois filhos: um deles era Hugo e o outro era Roney. A casa ficava em um alto e tinha um belo e bem cuidado jardim.
                                                                                                                                            ivie-mistureba.blogspot.com

Para as dimensões que conservei na cabeça, a rua era muito comprida. Ela saia da margem do córrego e ia até à Cooperativa.  Muitas vezes, peguei um carro de boi que passava com o  leiteiro e fui  bater na Cooperativa.  Penso que se descia uma ladeira, onde eu costumava levar minha irmã para passear, a mando de minha mãe, pois a menina precisava tomar sol.  Ali era também onde eu soltava pipa;  não era uma área densamente povoada, casas salpicadas  em um espaço que tinha árvores, talvez mangueiras. A massa verde permaneceu na minha cabeça. 
Eu mesmo fazia as pipas em casa e a briga entre elas era engraçada; um pedaço de gilete no arco. É possível manobrar uma pipa e daí a necessidade de exatidão do cabresto e a proporcionalidade entre peso, forma e tamanho do rabo.  Eu achava que em Bicas havia um avanço na arte.  E era na manivela a que chamavam estrela. Muito mais inteligente,  inclusive pela impossibilidade da linha embolar-se facilmente. A única coisa a discutir, era o atrito que a linha recebia por passar em uma guia de arame. Um pequeno amassado, sem dúvida, provocava o aparecimento de um ângulo. Não sei se ainda fazem aquele inteligente apetrecho em Bicas: um retângulo ao qual se prende internamente um carretel e sofre a ação de uma manivela no momento de  recolher a linha que foi solta.
O caminho regular para minha casa era pegar o oitão do Grupo, seguir em uma reta e tomar a  esquerda. No fundo do quarteirão do grupo tinha uma bodega ou quitanda como se dizia em Bicas. Era muito pobre e quase nada a vender.   Do que viveria aquele pessoal? Dez réis de banana vendida? Em frente à quitanda que se localizava na esquina, a casa em cima de uma colina.

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Se é o Grupo, então...
Na lateral do Grupo, uma pequena casa amarela ficava do outro lado da rua. Um muro baixo, e um pequeno portão. Lembro muito bem, pois havia um aquário e o rapaz que morava lá, era considerado um dos melhores jogadores de sinuca de Bicas. Eu o vi jogando no salão, onde, vez em quando eu peruava. Havia uma platéia grande e em silêncio. Eu ouvia dizer que a aposta era alta. Ficou na minha cabeça, que ele era irmão de uma moça chamada Inês. O aquário ficava perto da janela e deve ter influenciado a minha mania de criar peixe. Parece que a casa era mais baixa do que o nível da rua e realmente não me lembro de qualquer outra construção no seu correr.  Era o Grupo de um lado e um semi-vazio do outro? Acho que sim.

A rua era boa para soltar canoa de papel, quando chovia.  Eu colocava lá perto do Grupo e ficava acompanhando a descida, sinal  evidente de que em algum ponto se teria uma grota, e ela estava por onde eu soltava pipa.  No mais das vezes, o navio era um pequeno pedaço de pau, um graveto que o imaginário transformava em potente embarcação. Do lado do Grupo,  mas dando para a rua de frente, havia uma oficina que concertava bicicleta, e que alugava por hora. Eu era um cliente constante. Na minha geografia sentimental de Bicas, aquele trecho fala muito, até pelo fato de ser um anúncio de chegar em casa e de chegar na escola, um local onde tive grandes das piores experiências de minha vida, nas mãos de uma professora. 



Ela devia ter uns vinte e cinco potes de raiva guardados em casa. Aquela imagem  de uma educação passional permaneceu,  e possivelmente fez com que, bem depois, eu assumisse uma educação diferente, tendo trabalhado em grandes experiências como a do Movimento de Educação de Base e Paulo Freire lá no Rio Grande do Norte. Esqueci  o nome dela. Foi o contrário de uma parenta da Dona Manu, chamada Talma (?), Telma (?).  Ela foi legal, compreensiva, incentivadora. Aquela outra poderia me ter destruído, pelas vergonhas públicas que me fez passar. Eu conheci de perto o que a sala de aula pode representar como local de repressão. Por conta disso, sem dúvida, sempre me agradou o tom anárquico do Ivan Illicht que, aliás, caiu de moda, deixou de ser lido. Parece que era jesuíta e, se foi, era um jesuíta muito do esquisito.

A gente formava, fazia fila e entrava na sala de aula marchando e cantando hinos patrióticos, solenidade que  imagino derivava de um resultado estadonovista.  Estudantes do Brasil sua lição é a maior... Avante camaradas... Qual cisne Branco... Já podeis da Pátria  filhos... Recebe o afeto que se encerra...  E por aí segue e acho mesmo que ainda utilizei o velho caderno Avante e, também, o lápis Faber e a pasta, pois não se usava mochila. Não era gente da alta que estudava comigo. Eu me lembro bem de uma menina que minhas lembranças batizaram como Luíza.  

Fomos uma vez estudar em sua casa, o pai deveria ser ferroviário, morava na beira da linha e na minha cabeça ficou que era de madeira. Casa muito pobre, mas havia um verdadeiro orgulho na mãe que tudo fez para acomodar  no melhor de sua mesa, no melhor de suas cadeiras,  três ou quatro de nós,, tudo limpo.  Pobre é sempre assim:  acha que a limpeza supre a evidência das faltas, da carência. Talvez por isso que minha mãe fosse tão esmerada dona de casa; ela era filha da Dondon, a pobre costureira e mulher do velho Fausto que nunca teve sorte em nada.

Minha mãe, até mesmo vendou  jogo de bicho para ganhar um dinheirinho.  E tanto era a marca de pobre que ao sabê-la namorando meu pai, a minha avó a chamou e disse: “Mas minha filha, você vai casar com um homem mais pobre do que você?”.  Pois casaram na Matriz de Nossa Senhora da Conceição na Capela, onde fui batizado. Tiveram cinco filhos e três morreram, restando uma  que é médica no Recife e este que vos escreve. E viva meu pai, e viva a minha mãe! E viva meus irmãos que estão defuntos e dos quais sinto imensa falta, mesmo não tendo convivido com dois deles.



Este modernoso desvirtua minhas lembranças.  Reputo como uma péssima solução arquitetônica.  Isto aqui era belíssimo. Andei muito pelo oitão da Prefeitura, subindo para casa que ficava frente ao Forum. Nossa segunda casa. A Bicas que eu vivi jamais poderia ser tão feia. Era linda. A Praça nos fundos da Prefeitura, tinha velhas árvores a darem sombra e eu gostava de subir nelas.
Mas voltando à Bicas, o Grupo não era muito grande.  Sei lá, uns 80 metros de fundo. Penso que a gente entrava, passava por um saguão por onde ficava, inclusive, a secretaria, adentrava por uma porta, havia um corredor e as salas que eram poucas, a meu lembrar eram  em torno de cinco a seis. A minha era do lado esquerdo, do lado que dava para a casa do aquário.  Acho que havia um desnível e se descia por uma escada para ter-se acesso ao pátio acanhado, onde ficava, também, um galpão. Na parte de cima e em um canto, ficava o local fatídico da merenda, uma gororoba de pífia categoria.

Era uma sala lotada de crianças, espremidas. Eu me sentava na frente, encostado numa parede e com a cadeira em posição diferente das demais da sala.  Eu estou vendo a professora e seu rosto ficou-me tremendamente feio; ela estava com  meu texto e eu havia cometido um mero engano. Ela pega o pedaço de papel, balança na frente de todo mundo, olha para mim e com um sorriso debochado grita “Nacioná!”. Eu havia simplesmente esquecido o l no final.  Mas ela balançava o papel com uma ira, que não poderia ser normal.  E gritou: “Só pode ser coisa de nordestino! Vá se sentar lá atrás agora! Não pode ficar aqui na frente!”. 



Aqui ficava cheio de carroças e camionetas
                                                                                                                                
Eu me levantei e calado fui. Eu não disse nada e quem sabe me curvei à opressão. Eu não tinha ideia do que era nordestino, mas se eu merecia uma reprimenda daquele tipo, era simples: nordestino não prestava e, por conseqüência, eu não prestava. Saí de cabeça baixa, os meninos se afastaram e eu fui para o meu primeiro lugar social indicado pela repressão. Terminada a aula, curiosamente, ninguém mexeu comigo. Peguei a direção de casa; era coisa de meio dia, panela no fogo e barriga vazia, como a minha mãe brincava. Ela notou que alguma coisa havia acontecido. 

Eu disse que não  iria mais para a escola e chorei. Ela me perguntou a razão. Contei. Minha mãe não disse nada, apenas me puxou para o colo. Fui para o quintal. Com pouco chega meu pai.  Conversam. Ele vem, passa a mão na minha cabeça e não diz nada. Á tarde, eu não peguei nos livros para estudar, fazer o dever.  Minha mãe me chama. Diz que ela e papai estão tristes, mas  que eu deveria superar aquilo tudo.

Segundo minha mãe, era uma lição que eu recebia da professora, muito mais importante do que as aulas que ministrava.  Ela havia me ensinado que existiam pessoas assim e que eu iria lidar com este tipo de gente durante toda minha vida. E me pedia para não desistir, que fosse enfrentar;  se eu desistisse, ela venceria. O carinho de minha mãe foi o que me deu segurança. Eu aprendo a lição. Detesto, ainda hoje, todo comportamento opressor. 

Mas ela continuou. Ela tinha muito pote guardado em casa, o seu estoque era uma coisa impressionante.   Não venceu; pelo contrário. Construiu a minha inclinação natural contra a escola como o lugar privilegiado da educação e isto me fez realizar-me em formas como o Movimento de Educação de Base, o Movimento Paulo Freira, de Pé no Chão também se aprende a ler e mesmo a forma como trato meus alunos que eram do bacharelado e trato os do Mestrado  Dinâmica do Espaço Habitado. Ela me serviu para estabelecer a diferença. 

Outra feita foi na merenda. Sempre me acostumei a andar com uma merendeira. Minha mãe preparava.  E eu levava. Um dia, sem qualquer razão, ela perdeu a compostura na frente dos outros e na sala da merenda. Gritou dizendo que aquilo era um absurdo, que era coisa de rico,  que eu tinha que comer igual aos pobres. Talvez ela tivesse razão na proposição e não na forma. Os outros comiam o mingau sem olhar. Novamente aquilo bateu em mim, mas segundo Maria José de Almeida, eu tinha que aprender a lidar com este povo.  Disse em casa. Desta feita, Maria José de Almeida já estava pelos lados de Bagdá e disse: “Acho que é preciso ter uma conversa com essa mulher!”.

Nordestino sabe o peso desta expressão. Ter uma conversa é algo muito sério, é para resolver a questão.  E não  adianta ir e não resolver. Naquela época, o comportamento social de um gerente do Banco do Brasil tinha que ser exemplar. Ele não podia dar vexame público. Meu pai me ensinou muita coisa.  Eram estratégias de sobrevivência. Nunca acosse demais um rato; ele não terá alternativa e voará em você. Se você que matar uma cobra, arranque a cabeça. E por aí seguia  o rol  de estratégias aprendidas com gerações nordestinas. O anúncio de uma possível conversa era uma coisa meio forte. Passa tempo, parece que todo mês uma sala se apresentava no intervalo, lá no galpão coberto. Fui escalado para dizer uma poesia.  Ela reclama tanto que eu esqueci e foi outro vexame. Eu não disse mais nada em casa. Mas a coisa pega. 

Como sempre, aluguei uma bicicleta. Havia chovido, a rua de barro estava cheia de poças. Uma delas era funda.  Eu andava com as mãos soltas e os pés no quadro. Embalava e dava o espetáculo. Tinha uma menina e fui me mostrar. Bati numa pedra, caí feio. A bicicleta sobe e cai sobre meu fígado. Uma pancada sem tamanho.  Não sei se disso ou de alguma contaminação, eu tive uma hepatite e fico todo inchado.  Imagine uma doença grave em Bicas àquela época. Foi coisa pesada e praticamente devo a vida a um médico que existia, chamado Dr. Milton, acho que casado com uma senhora cujo nome era Maria Baião,  diretora do Ginásio e uma mulher por quem guardo imensa simpatia e respeito.  

Falavam dela, diziam que era metida a coisa, chata, ríspida. Nada disso, um doce de pessoa que tinha todo o direito de não andar rindo a toa.  Eu gostava demais dela, inclusive a sua gentileza era imensa com os amigos do filho.  Frequentei  a sua casa, perto da telefônica,  pois era amigo do seu filho que se chamava Miltinho.  Ela era uma pessoa delicadíssima e agüentava uma tropa a brincar,  inclusive a jogar futebol sem parar, nas peladas  diárias que chegavam a perto das seis da tarde.  Se o Miltinho for vivo – e espero que sim –,  não deve se lembrar de mim.  Mas fomos bons amigos, andamos muito juntos. Era gente muito fina. A última imagem que guardo dele é de uma noite friorenta em Bicas; nós dois descíamos a ladeira das vizinhanças de sua casa e íamos ao cinema. Nós nos afastamos quando ele foi estudar no Granbery em Juiz de Fora e eu saí de Bicas. Ele e o mais das gentes não  devem  se lembrar de mim,  pois fui episódico. Eu sumi da convivência e seria difícil ser mantido na lembrança.  

Eu fiquei inchado mesmo, deitado numa cama, sem me movimentar.  Dr. Milton cuidou e fiquei bom, mas me liberou cuidadosamente e fui depois de mês, recuperando devagar a rotina da vida. A instrução era que ficasse sem me movimentar no recreio. E a dita cuja encrencou, dizendo que eu deveria sair. Aí, a coisa não ficou boa. Meu pai  disse: “Eu vou sair para ter uma conversa!”.  O nordestino de antigamente sabe perfeitamente o que isto quer dizer. Minha mãe pediu e ele não foi. Mas por milagre tudo cessou. Ela até me chamou para cantar na festa de nossa formatura. Foi no cinema, mas isto é outra história.

Na próxima vez, eu vou falar da melhor pessoa em Bicas para mim, uma das poucas  que fiz questão de me despedir quando saí. Um homem extraordinário e a quem, ainda hoje,  guardo no coração. Penso que era Dr. Bianco.  Era Vicente Bianco; homem decente e bom. Fui lá me despedir com os olhos cheios d’água. Sentamos na varandinha da casa, onde vez em quando  conversávamos. Era como se fosse a substituição de um avô. Eu tinha um respeito imenso.

Luiz Sávio de Almeida. A saga bancária de Manoel Almeida e a agência do Banco do Brasil de Bicas em Minas Gerais





Um beijo carinhoso em Eneida Padula, uma menina do meu tempo e que era muito bonita. E outro em sua filha Monalisa, uma bela amiga. As duas passaram a simbolizar a Bicas que recordo. Nada consultei para escrever o texto que irei apresentando. Nomes de locais e pessoas podem estar errados, embora estejam da forma como guardei na lembrança.

Minha cara Eneida


Segue a cartinha que prometi sobre nosso tempo em Bicas. Virou um cartão. Espero que tenha paciência e vá lendo devagar. Quando  estiver no tempo de recordar, eu vou escrevendo.
Um abraço
Sávio

A saga bancária de Manoel Almeida

  

 Eneida, eu não tenho uma imagem clara de quando cheguei em Bicas.  Sei que desci em uma estação  ferroviária;  vinha da cidade de Penedo, na beira do São Francisco, nas Alagoas. E suponho ter ido em um DC3 para o Rio de Janeiro. Meu pai tinha pressa em chegar; era sua primeira gerência e ele sempre foi fissurado em sua carreira.  Ele havia pleiteado a gerência de Penedo, não conseguiu; apareceu a chance de Bicas e ele não perdeu tempo. Era um desafio, um desastre de agência, com um imenso rol de dívidas em carteira, um verdadeiro abacaxi, mas do tipo que ele gostava de descascar e,  descascando bem, na certa ganharia relevo em sua vida de satélite, quando o Banco do Brasil era um gerador de emprego e transformador de uma pequena classe média em bons maridos,  partidos  a casarem com moças de bom viver.



O incrível São Francisco em  Pirapora

Penedo:   a cidade que me restou
                                                                                                                        capela-alagoas.com.br
Capela e o rio Paraíba
                



O Banco pagava bem e passar em seu concurso não era mesmo fácil. Estava Manoel de Almeida saído da agência de Maceió para a de Pirapora onde seria Contador. Voltou para Penedo na mesma posição, com a única vantagem tendo sido a de ter ficado perto da família na Capela e em Arapiraca. Na verdade, era o ramo de minha mãe cuja cabeça e vida repousavam nas histórias da Capela, mais chegada ao lado dos Albuquerques, embora filha de um Almeida. Caetana Maria de Albuquerque – conhecida por Dondon – era casada com o velho Fausto de Almeida, meu querido avô e a quem por ironia do destino,  nunca conheci. Eu já era casado quando a minha avô morreu e ela está enterrada em Arapiraca. Meu avô quando morreu, mamãe era recém casada, morava em Quebrangulo, onde meu pai tinha uma escola chamada Ateneu Quebrangulense e era secretário da Prefeitura do Município, depois de ter sido na Capela.
                                                                                                                                       en.wikipedia.org
Bicas, Minas Gerais
Seguir para enfrentar o desastre da agência de Bicas era um incentivo para meu pai, que  chegou a passar uma temporada precisando, aqui ali, da caridade pública para viver. Foi o vexame de não ter o que comer, Eneida,  que, em grande parte, deu-lhe a força necessária para não ter medo de enfrentar qualquer tipo de problema.  Ele iria para ser gerente de uma agência de baixa classe com um problema interno imenso, e estava determinado a vencer e certo de que receberia uma melhor comissão. Foi por isto que largamos tudo em Penedo e pela primeira vez na vida,  eu iria me afastar da maravilha das águas do Rio de São Francisco.

                O caminho levava ao Rio de Janeiro e ao Hotel Ambassador, onde meu pai sempre teimava em se hospedar, bem ali na Cinelândia, na Rua do Passeio. Eu não me lembro de nada desta bendita viagem. Nem mesmo de quando saí de Penedo, arrancado de minha vida e tão móvel quanto era a carreira de meu pai. Sei lá quantos anos eu tinha... Minha mãe fazia pouco, tinha saído de um parto.  Eu me lembro dela num quarto do Hospital de Penedo, lá no Cajueiro Grande. Não sei se tive medo de perdê-la. Parece que nada me passaram de temor, a não ser a incômoda sensação de ouvir dizer que eu iria ficar no canto, o que minha mãe rebatia e me dava segurança. Ela foi uma mulher fantástica, Eneida.

                Minha irmã pequenininha, quase um nada, seguia conosco. Veja como é a vida: ela vai morrer assassinada em São Paulo. Pois bem, embarcamos na Estação Leopoldina e deveria ser de madrugada. Não sei quanto durava a viagem do Rio para Bicas. O tempo para Penedo não mais existia. Meu umbigo havia sido cortado. Existia um tempo novo que eu não podia dimensionar. Mas fico com o vagão na cabeça e devo ter criado... Não sei, mas havia um  determinado trecho, subida de uma serra, que uma locomotiva especial puxava, tendo engrenagens  em cremalheira. Volto a dizer: será que criei? Sei apenas que obrigatoriamente teria que saltar na estação e que uma procissão de esposa, filho, filhas  e carregador seguiria meu pai para o Bicas Hotel ou Hotel Bicas, onde, na certa, tudo estaria reservado.




A foto não é boa, mas dá a ideia do hotel.

                Pouco me lembro do Hotel. Sei que havia uma escadaria que levava para o primeiro piso, e penso que abria em duas laterais.  Na entrada, do lado direito, ficava uma bombomnière; não  me lembro do lado esquerdo. O Hotel foi pensado simetricamente: os lados eram univitelinos.  E ele era longo, bem mais comprido do que largo.  Era uma frente que se tentava imponente, mas que jamais poderia ser pela pobreza da concepção:  uma tentativa de fazer um grande em um pequeno.  Após a entrada, pelo que guardei na lembrança, ficava o restaurante e depois dele, a cozinha.
Frequentei muito a cozinha, pois ia buscar água para o banho de minha irmã que dormia com minha mãe em seu quarto. Parece que a água era esquentada com uma resistência e eu subia e descia a toda hora que a higiene de minha irmã precisava.  Na cozinha, depondo contra a higiene, circulava uma boa quantidade de porquinho da Índia e que parece ter sido a vara indu,  do que imagino ter sido o filho do dono do hotel: suponho que o seu nome era Wagner. Dono, arrendatário, gerente, não sei.
Eu não tinha o que fazer e imagine o sofrimento de minha mãe, trancada em um quarto de hotel,  agüentando o choro de minha irmã mais nova e minhas encrencas com minha irmã mais velha. Minha irmã mais velha sempre teve educação refinada; quando vivíamos em Pirapora,  era interna no Sacré Couer de Marie, onde se rezava a Ave-Maria, falava-se francês e os talheres eram de prata.  Ela iria continuar no Stela Matutina em Juiz de Fora e eu seguiria para um grupo escolar de Bicas.
O que fazíamos os quatro alagoanos na terra mineira? Ver o trem chegar era um divertimento.  Ler revista em quadrinho,  era outro.  Papai tinha que nos tirar de dentro do quarto de hotel ou iríamos estourar.  Normalmente, ele nos levava para passear e terminávamos numa lanchonete que ficava logo após o cinema. Ele comprava algum refrigerante e, invariavelmente, um chocolate. De tanto ouvir o pedido, guardei a palavra Cremona. Era pequeno e muito crocante. Acho que foi nesse tempo que conheci duas outras coisas importantes: Grapette e Chica Bom. Refrigerante e picolé de chocolate. Quem bebe Grapette, repete.
Para me divertir, deram-me o meu primeiro brinquedo de corda; era um  jeep de  guerra comprado se não me engano, na loja do seu pai. Vivia com o jeep para cima e para baixo. Uma novidade para quem fazia seus próprios brinquedos com carretel, na vetusta,  gloriosa e mui leal vila do Penedo.  Eu ficava com ele no quarto, companheiro das horas sem fazer nada e para não abusar a minha mãe, coitada, carregando a lapada da vida que foi novamente deixar os seus, para meu pai confirmar-se como um grande homem do Banco do Brasil, como de fato terminou tendo uma carreira brilhante.
A solução seria alugar uma casa.  Dificuldade. Onde conseguir uma casa em Bicas com urgência e capaz de dar uma satisfação mínima?  Além do mais, os teréns não haviam chegado. Comprar tudo novamente? Quem vive para cima e para baixo carrega o mínimo de coisas; as principais, as de maior estima, o que é menos pesado. Tínhamos espécies de baús e parte vinha encaixotado, como os cristais de minha mãe que ela embalava com um cuidado impressionante, tanto que viajaram e viajaram e a coleção encontra-se em sua cristaleira que guardo em casa.  Imagina  o que era transportar uma quase casa para outro hemisfério; tudo sair quase da foz do São Francisco e ir bater na zona da mata mineira. Os cristais já haviam seguido de Quebrangulo para Maceió, de Maceió para Pirapora, voltado para Penedo e tomavam o de Bicas.
Não tínhamos nada e de certa forma éramos indigentes, com a necessidade de roupas de frio, desde que a nossa era feita para o calor úmido da velha Penedo, a declamada Princesa do São Francisco. Como dizia minha mãe, o frio em Bicas era tão pesado, que saía fumaça da boca.  Então,  era agüentar o rojão de não ter para onde ir, adaptar-se à comida como se fosse um outro pequeno país.  Feijão, modo de cozinhar o arroz, a gordura, tudo isto mexia conosco e  comida do hotel ia cansando, tanto quanto cansava a correria neurastênica dos porquinhos da Índia nas bandas da cozinha.  Éramos uma família de poucos metros quadrados, longe de casa e sentindo-se um pouco sem eira e nem beira. Éramos uma espera de trem e a degustação de um Cremona numa pequena lanchonete de interior,  onde um dia eu vi o famoso Dequinha do Flamengo, mas é outra história.
Eu não tenho dúvida, que havia um pequeno drama familiar se desenvolvendo. Relendo as memórias do meu pai publicadas em livro, o seu esforço para acertar-se com a vida colocava a carreira em primeiro plano e a família ía se ajustando e ele gerenciando os novos cenários que se abriam. Minha mãe unia e sustentava tudo, mas ela sentia uma imensa saudade da família nas Alagoas. Na verdade, ela trazia Alagoas dentro de si e a revivia contando interminavelmente as histórias da família.  Fui criado dentro do universo maravilhoso da Capela, tantas vezes contado e recontado  por minha mãe. Há uma geografia refeita na cabeça migrante. Alagoas resistia em Bicas. Era como se fosse dito: meu filho,  você está aqui mas é de lá.
A nossa noção de família era muito forte; tia Lurdes  largou-se de Alagoas com o marido e vieram a Bicas; em torno de um nada que havíamos saído  de Penedo,  tia Lurdes e tio Waldomiro bicaram. Como o tio Joel, irmão de meu pai, que veio ficar uma temporada conosco .  Ainda tenho foto do Waldomiro e da tia Lurdes em Maripá  e Guarará,  Juiz de Fora. Era o cuminho da família, aquele mesmo grude que havia feito com que meu pai aceitasse comissão menor, para sair de Pirapora e ir para Penedo.  E era aquele batalhão  de gente na casa de minha avó na Capela, naqueles tempos de festa. Minha mãe e mesmo meu pai, traziam isto para Bicas; por mais que se pudesse gostar do lugar, ele não era o nosso e tudo se indicava pela falta do cuscuz. Os detalhes se maximizam em explicações, quando estamos fora e sentimos que estamos. Ali mesmo em Minas, pelos lados de Barbacena, construíram uma pergunta fantástica:  Como pode o peixe vivo viver fora da água fria? Minha mãe era um peixe vivo criada nas beiras do Paraíba e vivida no meio da cana de açúcar  dos engenhos como Caborje que pertenceu ao meu avô Fausto, das canas de açúcar do Minhus que foi do meu bisavô, o Dindinho Néo, casado com a Dindinha Marquinhas, sendo ele Albuquerque Pontes e ela Sampaio.
Minha mãe tinha, o que antigamente se chamava de costados no rio Paraíba, no Paraibinha, no antigo e sumido Riacho Lavapés. Meu pai vinha do Monte Verde do meu bisavô José Francisco de Almeida, do Mumbaça do seu Manezinho, pai de meu pai. O Monte Verde nas vizinhanças do Riachão do Cipó, com esse Riachão do Cipó ficando na frente do Pitimiju, no caminho  para os encantados do Arrasto de Santa Efigênia. Meu pai nunca esteve em Bicas: meu pai sempre esteve na agência do Banco do Brasil; minha mãe nunca esteve em Bicas: sempre esteve na sua velha Capela onde me batizei.  E assim, todos nós chegamos onde nunca estivemos, mas vivemos. Bicas sempre foi tida como um provisório. Era uma passagem no roteiro de Manoel de Almeida.
Isso não significa que a cidade não nos interessou. Pelo contrário, foi uma boa experiência de vida, mas nós não estávamos preocupados em fazer o sul; estávamos interessados em fazer o Banco do Brasil. Vencer, era uma forma que meu pai encontrava para dar à família, aquilo que ele nunca teve. Ele foi um homem sem dúvida brilhante e profundamente ligado à família, dando-nos tudo de tudo. Ele também nunca havia saído de Alagoas. Toda sua vida consistia em voltar à Capela, onde o velho Seu Manezinho perdeu tudo o que tinha em uma das crises do açúcar banguezeiro.  Manoel de Almeida, o meu pai, chegou a pedir dinheiro e comida para viver, apesar do irmão ser  dono de uma usina de açúcar e considerado um dos homens mais ricos de Alagoas naqueles tempos. 
Tanto Bicas me marcou, Eneida, que, faz pouco tempo,  ao receber o título de Professor Emérito de minha Universidade, os lambaris do córrego que passava nas vizinhanças de nossa  casa,  surgiram claramente na minha cabeça. E eu vi que era também e humildemente, um pedaço daquele córrego que me parece era chamado de São Não Sei o Quê, ou talvez São João.
Qualquer dia, mando a segunda cartinha para você.

Manoel de Almeida. A agência do Banco do Brasil em Bicas (MG) os primeiros anos da década de cinquenta do século XX

Sexta-feira, 23 de dezembro de 2011














Esta é uma pequena parte do diário do meu pai falando sobre seus tempos em Bicas, Minas Gerais. Ele tinha a mania de registrar o que acontecia e, como era sistemático, deixou uma imensa pilha de anotações. Sobre Bicas, utilizou umas poucas e escreveu duas páginas de seu livro cuja referência encontra-se abaixo. 




ALMEIDA, Manoel. Mémórias de um homem comum. Maceió: Instituto Arnon de Mello/Sindicato da Indústria do Açúcar do Estado de Alagoas/ Cooperativa Regional dos Produtores de Açúcar e de Álcool de Alagoas/ Associação dos Produtores Independentes de Açúcar e Álcool, 1992, p. 168/169.



Capa do livro do meu pai

Bicas era uma cidadezinha da Zona da Mata do Estado de Mina Gerais, com cerca de seis mil habitantes, a quarenta e poucos quilômetros de Juiz de Fora, cidade centro da região. Atividade econômica pouco expressiva, comércio pouco desenvolvido [...] Não havia estabelecimento industrial de maior porte [...[, as oficinas da Estrada de Ferro Leopoldina  [...] davam emprego a uns quinhentos operários. A agricultura era inexpressiva, destacando-se, apenas,  algumas plantações de café de baixa produtividade.  O que representava alguma coisa na economia era a criação de gado leiteiro, cuja produção era [...] despachada para o Rio de Janeiro.

Embora eu houvesse concordado em ir para lá como gerente, não posso dizer que a escolha tenha sido espontânea. É que não mais me interessava ficar em Penedo como contador mas não  queria afastar-me muito do Recife, onde minha filha Sávia desejava prosseguir no colegial e depois no de medicina, não me sendo possível, assim, voltar a trabalhar em Minas. Mas ao fim de 1951 eu estava ansioso por voltar ao Nordeste.

Já tinha então três filhos, dos quais Sávia era a mais velha, Luiz Sávio com 9 anos e Rita Maria, a mais nova, com seis meses de idade.  Sávia teve de ser internada novamente, daquela vez em Juiz de Fora, no Stela Matutina. O menino concluiria o primário lá mesmo em Bicas, no Ginásio Francisco Peres.

A agência acompanhando  a situação da Zona,  era de porte modesto e pequeno em tudo.  Em número de funcionários, em depósitos, no número de operações e no montante das aplicações, vindo, de muito tempo, apresentando resultados deficitários.


                                                                                                                     bicasturismo.blogspot.com
O Banco do Brasil ficava neste trecho, um pouco mais à esquerda, pelo que me lembro. Vizinho, uma loja de fazendas de um libanês, pai de um menino que foi um grande amigo meu: Kamal.  Ele migrou para Volta Redonda. Tinha um irmão mais novo chamado Hassid.  Tentei aprender árabe com o pai deles. Não saí da primeira letra do alfabeto ( LSA)

Eu não pretendia demorar-me muito no cargo, mas, nem por isso, me conformaria em deixar as coisas como estavam. Eram escassas as oportunidades da economia local, mas, mesmo assim, não estavam aproveitadas sequer pela décima parte. O trabalho foi árduo e cansativo mas contei com a cooperação irrestrita das classes produtoras e do funcionalismo da agência, merecendo destaque especial o sub-gerente Wilson Mendes de Freitas, que muito me auxiliou em tudo.

O êxito que alcancei nos dois anos e meio que permaneci na gerência da filial não atingiu, sob alguns  aspectos, o que eu desejava.  Não consegui eliminar o crônico defict operacional, mas reduzi à décima parte do que encontrei.  Porém isto, olhado por alguns ângulos, era muito além do que se poderia esperar pois o movimento das aplicações  multiplicou-se por dez e o número de rurícolas atendidos subiu a cerca de cinquenta vezes mais, mediante créditos normais e adequados. Face ao pessimismo que vigorava antes de minha gestão, o que aconteceu foi verdadeiro milagre e eu estava satisfeito com o trabalho realizado. 

Mas cada dia se acentuava a necessidade de voltar ao Nordeste e assim candidatei-me à remoção para diversas agências. Do ponto de vista funcional, muita coisa eu teria a dizer sobre  aquela fase, se me fosse cabível estender-me mais. [...] Certo dia  recebi aviso telefônico de minha remoção para Palmares-PE, com a condição de desligar-me imediatamente. E cinco dias  depois eu havia resolvido, vendido por qualquer preço os poucos móveis que possuia, estando pronto para a viagem.
                                                                                                                      
Até as nove ou dez horas tomei as providências  finais junto à agência e viajei  de ônibus a Juiz de Fora, tomando ali novo transporte ao meio-dia para chegar ao Rio às três horas da tarde.  Tive tempo de ir ainda à Direção Geral do Banco, lá recendo a documentação e instruções necessárias e, de volta ao hotel, comprei as passagens, de modo que à meia-noite estava tomando o avião com a família.

Estação Ferroviária  do Recife
As seis da manhã  estávamos na estação da estrada de ferro, no Recife, e tomamos o trem com destino a Palmares, onde chegamos antes das dez horas, houve tempo para almoço no hotel e, ao meio dia, início do expediente bancário, eu estava me apresentando para tomar posse.  Praticara a façanha de, mudando-me com a família, trabalhar um dia em Bicas, no interior de Minas Gerais e, já no dia seguinte, na hora certa, estar ativo em Palmares, no interior de Pernambuco, tendo viajado com volumosa bagagem, em dois percursos de ônibus, hospedagem em hotel no Rio, um percurso de avião e mais um percurso de trem, sem contar com o tempo gasto em transportes locais.