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sexta-feira, 25 de julho de 2014

Lautheney Perdigão. DEPOIMENTOS PARA A HISTÓRIA: Alfredo Ramires Bastos

HISTÓRIA: FUTEBOL:ALAGOAS] PERDIGÃO, Lautheney. DEPOIMENTOS PARA A HISTÓRIA: Alfredo Ramires Bastos


 
Esta matéria foi publicada no tablóide Contexto do jornal Tribuna Independente, Maceió, na edição de  4 de Setembro de 2011

Um bilhete sobre  futebol em Alagoas
Luiz Sávio de Almeida


  
     
Lautheney Perdigão é um sujeito notável. Entende de futebol, entende de sua história nas Alagoas, e conta desde os primeiro jogos na Rua do Arame. Sua vida foi juntar coisas e peças, escrever aqui e ali, publicar seus livros e deixar um copioso registro, além de ter participado do divertidíssimo Ora Bolas, um programa de humor sobre o esporte e que faz parte da melhor fatia da história das emissoras de Alagoas. Ele será um assíduo colaborador, pela parceria que  Contexto, manterá com O Museu do Esporte que Lautheney criou e teima em manter vivo. É uma honra  contar com sua colaboração.

Hoje, estreando sua participação na equipe que existe por detrás do nome ContextoLautheney nos recorda a participação do Dr. Alfredo Ramires na vida esportiva de Alagoas;  Dr. Alfredo é um dos nomes que a torcida do Centro Sportivo Alagoano jamais poderá esquecer. Eu mesmo, como legítimo torcedor do quase-ex-CRB, baixo a cabeça e aproveito a oportunidade para dar um grande abraço no Dr. Alfredo. Por outro lado, aproveito para novamente dizer da minha admiração pelo Lautheney e, também, que espero o milagre de sua conversão, pois um dia será torcedor do Galo de Campina, o fantástico time do jogo da Sofia que o jogo do Xaxado nem de leve arranhou.

Fico pensando nas tardes de domingo, no Mutange e na Pajuçara, bem antes de existir o Trapichão. Qual teria sido a principal transformação vivida pelo pé na bola alagoano? Para mim, o registro é fácil: a queda do CRB e do CSA como os representantes de nosso poderio futebolístico. O capital decidiu sustentá-lo em outros locais, como Arapiraca, Porto Calvo... Talvez por isso mesmo, o texto do Lauthenay pareça estar tão distante, inclusive, pela revelação que faz sobre um tipo de futebol que deve ter desaparecido.
                               Alfredo Ramires e voleibol: técnico da Fênix
Hino do CSA

        

Pela pátria, na vida esportiva
É que vamos sempre conquistar
Nossa glória da luta deriva
É o campeão dos campeões CSA

Azulinos impávidos e fortes
Enfrentemos os nossos rivais
Nosso time não tem adversários
Não seremos vencidos jamais

Centro Sportivo Alagoano
No Mutange eterno vencedor
Se tremulas a tua bandeira
Alvi-celeste é com amor


Centro Sportivo Alagoano
No Mutange eterno vencedor
Se tremulas a tua bandeira
Alvi-celeste é com amor

Centro Sportivo Alagoano
No Mutange eterno vencedor
Se tremulas a tua bandeira
Alvi-celeste é com amor

Nesse anseio infinito de glória
Esse Centro Sportivo não tem
A vaidade que é sempre ilusória
E que nunca elevou à ninguém

Vamos todos em busca das vitórias
Com o coração na ponta das chuteiras
União e Força CSA
Azul e Branco a vida inteira

Centro Sportivo Alagoano
No Mutange eterno vencedor
Se tremulas a tua bandeira
Alvi-celeste é com amor
 
              



DEPOIMENTOS PARA A HISTÓRIA: Alfredo Ramires Bastos
Lautheney Perdigão
Lautheney Perdigão, o azulino


          Alfredo Ramiro Bastos nasceu no dia 25 de fevereiro de 1923. Formou-se em Medicina em 1948, na Universidade de Recife e se especializou em cardiologia. Também fez curso de especialização em Medicina do Trabalho. Foi professor atuante de Medicina na UFAL, Chefe do Departamento Médico da Clínica Médica do Hospital Universitário e do Serviço Médico da Salgema. Foi treinador do Centro Sportivo Alagoano e médico da Seleção Alagoana. Foi campeão pelo clube azulino no ano de 1952 e no tetracampeonato de 1955 a 1958. Também treinou as equipes de voleibol do Bonfim, CSA e Fênix. Foi campeão pela Fênix e, pelo CSA, conquistou I Jogos Abertos de Voleibol da FADA.
          Existem treinadores que a torcida e o dirigente acreditam que dão sorte. Talvez este seja o caso do Dr. Alfredo Ramiro Bastos. Sempre foi um técnico vencedor, um homem capaz de levar seus comandados a vitórias sensacionais e seu clube a títulos memoráveis. Um desportista que aliava seus conhecimentos técnicos à liderança e à amizade que tinha com os jogadores. Seu grande trunfo era ser um comandante único. Ele treinava, orientava, escalava e comandava seu time sem ajuda de ninguém. Dr. Alfredo era um treinador diferente, um homem enérgico, líder, corajoso, leal e com muita moral. Um técnico que deixou seu nome gravado na história do Centro Sportivo Alagoano.

A formação profissional
          Alfredo Ramiro Bastos é de família tradicionalmente azulina. Seu irmão, Dr. Carlos Ramiro Bastos, chegou a ser Presidente do Centro Sportivo Alagoano. Por isso, logo cedo ele foi levado para jogar nos juvenis do clube azulino. Entretanto, sem muito jeito para praticar o futebol, resolveu parar antes mesmo de começar. Apenas participou de algumas peladas no tempo do colégio. Preferiu os estudos e terminou seu curso de Medicina.
          Quando regressou a Maceió, recém-formado foi logo consultado sobre a possibilidade de aceitar ser Presidente do Centro Sportivo Alagoano. O convite foi recusado. Dr. Alfredo não se achava com qualificações, com o gabarito e a experiência para ser Presidente de um clube como o CSA. Esse conhecimento significou o enfoque para que o jovem médico iniciasse uma atenção toda especial para as atividades do seu clube e também do próprio futebol Alagoano.
A iniciação no CSA

   Foi Segismundo Cerqueira, diretor do CSA, quem começou a levá-lo ao Mutange para observar os treinamentos da equipe azulina. Assim, ele começou a se entrosar com o grupo. Um dia, Dr. Alfredo se descobriu treinador do clube. Foi quase incessível. Segismundo, que treinava o CSA junto com Palito, ex-goleiro do clube, foi aos poucos cedendo seu lugar. Em dado momento, lá estava Dr. Alfredo junto com Palito dirigindo o time azulino. Aliás, a dupla contrastava pela altura. Palito era magro e alto; Dr. Alfredo, baixo e forte.
          Houve momento em que ele já treinava o time e outras pessoas o ajudavam, mas desde o dia em que começou a sentir a responsabilidade de comando da equipe, deixou bem claro que ele seria o treinador único. Existem técnicos que são treinadores, contudo não são comandantes. Dr. Alfredo teve que optar por uma técnica melhor ou um comando único. Ficou definido comandante único. Não iria admitir interferência de ninguém. Ele gostava da expressão “comandante”. Não se considerava um técnico, e sim, um comandante. Aos poucos foi adquirindo conhecimentos técnicos e começou a se desenvolver. Mandar sozinho foi um fator preponderante para ele vencer e o time ser campeão.
          Dr. Alfredo dirigia o time principal e o aspirante. Isso facilitava seu trabalho, porque ele manuseava as duas equipes, utilizando-se, quando necessário, dos jogadores dos aspirantes que eram escalados no time principal sem problemas. As duas equipes jogavam dentro do mesmo sistema e estavam todos sempre jogando. Os aspirantes jogavam nas preliminares do time principal e o CSA chegou a ser hexacampeão alagoano.
          Sua estreia oficial como treinador do CSA aconteceu no dia 5 de agosto de 1952, em uma partida realizada na Pajuçara pelo Campeonato Alagoano contra o Ferroviário. O clube da Rede Ferroviária estava formando uma grande equipe que, nos dois anos seguintes, seria bicampeão. O jogo era muito importante para Dr. Alfredo que sentia uma grande responsabilidade diante da torcida azulina. As lembranças estavam bem vivas para o técnico azulino, principalmente pelas mudanças no marcador: Ferroviário 2x0. CSA 3x2. Ferroviário 3x3 e CSA 4x3. Nesse dia, Dida marcou quatro gols para o time do Dr. Alfredo. A vitória foi um estímulo e um conforto. O time jogou bem e soube sair de um marcador adverso para uma vitória sensacional.

O congraçamento no esporte

       Depois do jogo, Zequito Porto, falando com Segismundo Cerqueira, parabenizava-o pela bela exibição do CSA. Naquele instante, Segismundo foi muito sincero e leal. Ele disse para Zequito que todos os elogios deveriam ser para Dr. Alfredo, o verdadeiro e único responsável pelo sucesso do time do Mutange. Para o comandante dos azulinos, aquilo era gratificante, porque ele sempre considerou Zequito Porto como a maior autoridade do futebol Alagoano, e Dr. Alfredo não poderia deixar de registrar a importância de Zequito na sua participação dentro do futebol. Nas seleções alagoanas, um era o técnico e o outro o médico. Nesse convívio, havia muita conversa, principalmente sobre o futebol, suas táticas e suas técnicas. Tudo aquilo transformou os dois em verdadeiros amigos cuja amizade perdurou até os últimos dias do Zequito.

          Dr. Alfredo já era comandante do time do CSA e, por isso, observava com atenção as instruções dadas por Zequito aos jogadores da Seleção. Era uma maneira diferente daquele que aprendera com Segismundo Cerqueira. Este era um técnico exclusivamente de campo. Zequito reunia essas qualidades e acrescentava a de psicólogo. Mostrava aos jogadores como se colocar em campo, como se defender e atacar. Seu time era bem distribuído e ocupava todos os espaços do campo. Tudo era observado e anotado por Dr. Alfredo e foi de grande utilidade para quando ele retornou ao CSA. Começou a compreender a necessidade da teoria no futebol. Mandou buscar livros que comentavam sobre táticas e técnicas no futebol. Quando grandes equipes do futebol brasileiro jogavam em Maceió, e ele gostava de conversar com seus treinadores para aprender sempre mais.

O gosto pelo teórico
Com o passar do tempo, Dr. Alfredo foi se transformando, de certa forma, em um teórico. Chegou a dominar razoavelmente bem a técnica do futebol. Como comandante, ele considerava-se mais um técnico teórico do que propriamente um treinador prático e tático. Sua grande dificuldade, em determinado momento da partida, era transformar seus conhecimentos técnicos quando tinha que alterar o sistema de jogo da sua equipe. Apesar disso, não deixava transparecer a seus comandados qualquer indecisão de sua parte.

A Sofia e o Xaxado: 4 a 0

Aspirantes de 1953
          Xaxado era a música do momento e com os jogadores do CSA jogando dentro do gramado da Pajuçara e a torcida azulina batendo palmas e gritando Xaxado, Dr. Alfredo viveu um momento de grande emoção no futebol. O jogo era contra o CRB em 1952. Foi um verdadeiro "olé". Jamais se pensou em desrespeitar o adversário. Aquele era o dia do CSA. Tudo dava certo e para Dr. Alfredo era gostoso observar o passeio que os atletas do velho rival estavam levando naquela tarde de 21 de setembro. O CRB comemorava mais um aniversário e o CSA ofereceu o baile. Nesse jogo, aconteceu uma coisa curiosa. Por incrível que pareça, Dr. Alfredo não sabia do caso da Sofia, aquele jogo em que o CRB goleou o CSA por 6x0 em 1939 e, até os dias de hoje, o CSA não conseguiu fazer o mesmo placar. Quando no jogo do Xaxado o marcador marcava 4x0, a torcida começou a pedir mais. Entretanto, ninguém o advertiu que havia uma Sofia atravessada na garganta dos azulinos. Os jogadores azulinos queriam fazer a bola correr de pé em pé, sem se preocupar em fazer mais gols. Muitos foram perdidos. Apesar de não conseguir os 6x0, outra exibição daquela vai ser difícil de acontecer em um campo de futebol.
A força bruta de King
          
 Um dos jogadores mais discutidos do plantel do CSA, na época, era King. Jogava nos aspirantes e muitas vezes era aproveitado no time principal, chegando mesmo a disputar um campeonato inteiro como titular.  Apesar de ser chamado de “grosso”, King sabia fazer gols, muitos gols. Tecnicamente era fraco. Contudo, uma bola lançada em profundidade à frente de King era meio gol. Não era veloz, mas sua robustez, pela sua massa muscular enorme que fazia do centroavante um bloco de músculo, dificilmente era derrubado. Dr. Alfredo gostava de utilizar King no segundo tempo dos jogos. O ataque do CSA era formado por jogadores leves, habilidosos que gostavam de tabelar, driblar. Durante quarenta e cinco minutos, a defesa adversária ficava sentindo a leveza, os dribles, os toques. Quase que não havia o corpo a corpo. No segundo tempo, entrava King e as coisas mudavam. Os zagueiros passavam a serem assediados, molestados. Eles sentiam a diferença e ficavam preocupados com o atacante azulino. King entrava duro, forte, dividia e dificultava as rebatidas dos adversários.

E a luz sumiu



CSA = Campeão 1953 Em pé: Dr. Alfredo. Neu. Joab. Zanélio. Almir. Paulo Mendes. Napoleão e Edezio Leitão. Agachados: Ítalo. Sued. Dida. Netinho e Géo.
                A rivalidade entre CSA e CRB atravessa os anos e todos que passaram pelos dois clubes sentiram de perto fortes emoções e também algumas decepções. Certa vez, Dr. Alfredo fez uma coisa que se fosse hoje não faria. Por isso, ele fez questão de contar o acontecido. Foi em um clássico CSA e CRB que começou atrasado e terminou mais atrasado ainda por falta de energia no campo do Mutange. Naquele tempo, os jogos eram disputados com bola alaranjada. À noite, essas bolas eram pitadas de branco, que com o passar dos minutos, a tinta ia saindo e a redonda não ficava branca nem amarela. O CSA vencia por 1x0 e ficou na defesa para garantir o resultado. O CRB foi todo para o ataque. A iluminação era deficiente. O goleiro azulino passava por dificuldades por causa da bola e dos refletores. Os dirigentes do CSA pediam para a Federação trocar a bola e não eram atendidos. Quando Dr. Alfredo sentiu que as coisas estavam pretas e o CRB podia empatar a qualquer momento, usou de um expediente nada correto.
Chamou Seu Antônio, que tomava conta do Mutange, e ordenou: desligue as luzes e desapareça.  O pai do Peu, que obedecia cegamente ao Dr. Alfredo, não pensou duas vezes. Foi até a Casa de Força e desligou os refletores. Ninguém percebeu o que aconteceu. Todos pensavam que tinha havido um problema com a Força e Luz, hoje Ceal. Com o jogo paralisado, houve tempo para conversar com o árbitro, trocar a bola, esfriar a reação do CRB e acertar alguns detalhes com os jogadores do CSA. Quando Dr. Alfredo achou que estava tudo em ordem, a energia voltou, os refletores voltaram a funcionar, o jogo continuou e o clube azulino manteve o resultado. Dias depois, quando a diretoria do CSA soube o que realmente tinha acontecido, não gostou da atitude do Dr. Alfredo, principalmente Napoleão Barbosa.

A amizade acima de tudo

          Apesar da grande rivalidade, aconteceram casos que mostram que uma grande amizade pode passar por cima de tudo. Dr. Alfredo tinha em Zequito Porto um grande amigo. Um comandante do CSA; outro, treinador do CRB. Além da amizade, existia muita confiança entre os dois. Um exemplo disso está nesse detalhe. Dario Marsiglia, que jogava pela meia esquerda do CRB e era o grande craque do clube da Pajuçara, estava contundido. Era a semana que antecedia o clássico. Zequito levou Dario para Dr. Alfredo curá-lo. Ele trabalhou a semana toda para que o atacante ficasse bom do tornozelo. No dia do jogo, já no campo, Dr. Alfredo, técnico do CSA, enfaixou o pé do Dario e ele jogou normalmente. Esse não foi um caso isolado. Muitos outros jogadores alvirubros eram enviados ao consultório do Dr. Alfredo.
          Depois da conquista do campeonato de 1952, Dr. Alfredo foi aos Estados Unidos para fazer um estágio a fim de aprimorar seus conhecimentos na cardiologia. Quando regressou, voltou ao CSA para conquistar o primeiro tetracampeonato da história do clube azulino. Revendo as fotos dos quatro campeonatos, Dr. Alfredo não destacou nenhuma. Todas foram boas, cada uma dentro da sua temporada. O ambiente foi sempre o mesmo. Havia grandes jogadores, porém a disciplina estava acima de tudo e foi um dos fatores mais importantes para se conquistar o campeonato quatro vezes. A cada título era uma emoção. No esporte, não tem coisa melhor do que sair vencedor em uma competição.
          Dr. Alfredo nunca teve problema com seus comandados. A indisciplina violenta o esporte. Por isso, ganhava a disciplina de seus atletas com exemplo de assiduidade, pontualidade, esforço e boa vontade para resolver os problemas particulares de seus comandados. Dr. Alfredo recebia os atletas e seus familiares no seu consultório sem receber nenhum tostão. Com suas atitudes simples, franca e firmes deixavam os jogadores à vontade e conquistava a amizade e o respeito de todos.

A entrada de Dida no CSA

          Foi Dr. Alfredo quem levou Dida para o CSA. Um dia um jogador chamado Penedo e que atuava nos aspirantes do CSA, convidou o seu treinador para assistir a um jogo de pelada na Praça da Cadeia. Lá jogava um garoto endiabrado chamado Dida. As jogadas do jovem atleta impressionaram Dr. Alfredo, que logo que terminou a pelada, procurou Dida e lhe perguntou se queria jogar no CSA. Dida bem que gostaria, mas ia depender da permissão de seus pais. O médico-técnico não perdeu tempo. Foi junto com Dida até sua casa para conversar com Seu Jaime. Ficou acertado que o CSA, nos dias de treinos e jogos, mandaria um carro para pegar Dida e depois trazê-lo de volta para sua casa, além de pagar seus estudos.
 Na mesma semana, o futuro craque já estava no Mutange como titular da equipe azulina. Muita gente estranhou aquele menino franzino no time principal. Todavia, em uma das primeiras jogadas do treino, Edgar lançou uma bola para área. Dida suspendeu a perna direita, matou a bola lá em cima e quando ela desceu, chutou violentamente de pé esquerdo para o gol dos reservas. Estava ali o jogador que Dr. Alfredo precisava. Ali estava o malabarista, o artista e o futuro campeão do mundo.
          No domingo, o CSA jogaria contra o Auto Esporte, vice campeão do ano anterior e uma das boas equipes do campeonato. Dida foi regularizado às pressas para jogar no domingo. Sua escalação foi uma surpresa para muita gente. Segismundo Cerqueira, que não tinha ido aos treinos do CSA, achava que Dr. Alfredo estava louco. Escalar um garoto para um jogo tão importante. Afinal, Dida era desconhecido e nem tinha passado pelos aspirantes. Depois da partida, com uma excelente atuação, Dida calou a boca dos descrentes. Dida, como todo artista, tinha sentimentos delicados, tinha uma forma toda especial de ser conduzido e, nesse aspecto, parecia frágil, mas não era. Jogava valentemente contra duros zagueiros.
          No início da década de cinquenta, Dr. Alfredo foi médico da Seleção Alagoana e participou de duas memoráveis partidas. Em 1952, contra os sergipanos no famoso jogo dos 163 minutos. Jogo disputado no Mutange e que, além da vitória nos noventa minutos, os alagoanos tiveram que disputar duas prorrogações de trinta minutos e o gol alagoano que definiu nossa classificação veio aos treze minutos da terceira prorrogação. Neste jogo, três fatores decidiram a nossa vitória: disciplina, bom nível técnico dos jogadores e preparo físico. A outra partida aconteceu em 1954 contra os paraibanos. Alagoas perdia de 3x1 e virou o marcador para 4x3 com Dida fazendo dois golaços. Foi o jogo que levou Dida para o Flamengo. Na virada, valeu a raça e a vontade de vencer dos alagoanos. Quando serviu à Seleção Alagoana, Dr. Alfredo era médico e Zequito Porto era o técnico. Foi um período de muito aprendizado para o técnico do CSA. Era muito observador e tirava proveito de tudo de bom que via nas preleções, nas mudanças táticas da seleção durante o jogo e o comportamento de todos. Dr. Alfredo que sempre foi um comandante sério e um técnico teórico habilitou-se a ser um vencedor. O mesmo sucesso também se repetiu no esporte amador quando foi treinador de voleibol.
          Por tudo de bom que aconteceu com ele, valeu a pena ser um comandante no esporte. As amizades que conquistou, as emoções pelas muitas vitórias que viveu e pelo aprendizado que recebeu, Dr. Alfredo agradece ao esporte, hoje, aos 88 anos de idade.

sábado, 14 de junho de 2014

História do futebol em Alagoas






Texto publicado em Contexto de 12 de fevereiro de 2012 em Tribuna Independente. Para este blog, estamos utilizando material digitalizado e com gerenciamento das imagens realizado por Kellyson Ferreira, com a coordenação do Professor Antônio Daniel Marinho.





Luiz Sávio de Almeida. O primeiro livro sobre a história do futebol em Alagoas


Este texto estava no meu arquivo e bote tempo; não sei a data, mas deve ser da década de oitenta do século passado. Foram muitos encontros com Renato e recordo, perfeitamente, das conversas na varanda de entrada de sua casa, com o velho Philips K-7 rodando, meu primeiro gravador comprado por influência do Theo Brandão. Renato era fechado, mas bom cara. Na verdade, caiu fora de Maceió por uma situação per
igosa que viveu. Sem querer, ouviu o papo de dois figurões e, sem pensar, colocou a boca no trombone ao querer dar um furo. Resultado: ra, re, ri, ro, rua. Foi embora. Dele, guardo im presente: um caderno onde colava as crônicas que escreveu sobre futebol. Estou cuidando da reedição do livro. Quem sabe a Associação dos Cronistas e a Federação ajudam nesta empreitada. Renato merece, pela coragem que teve de conseguir ver um objeto inusitado para a intelectualidade alagoana: a bola como motivo de escrita. Eu perdi meu exemplar, mas  o Lautheney me emprestou o dele.
Luiz Sávio de Almeida


O primeiro livro sobre a história do futebol em Alagoas
Luiz Sávio de Almeida

UM TEMA ESCORRAÇADO
 
Renato Araújo Sampaio é um nome desconhecido pela nova geração, que se interessa pelo futebol nas Alagoas; mas seu nome é muito mencionado pelos companheiros da época em que andou por Maceió, trabalhando na imprensa. Renato foi quem produziu o primeiro livro sobre o futebol em Alagoas e, sem dúvida, um dos primeiros do Brasil. Neste sentido, tanto pela época e quanto pela qualidade, pode ser considerado um clássico da literatura brasileira especializada. Seu grande pecado, foi ter sido escrito em idioma caeté e, aí, sumiu no Brasil e sumiu nas Alagoas. Trata-se de livro simples, sem revoada teórica, mas honesto na tentativa de produzir sobre documentos e história oral e de uma coragem temática inusitada para a época provinciana, quem sabe desafiando o tempo em que foi escrito e publicado.
 
É um trabalho de natureza expositiva e paga um preço: o futebol se faz abstratamente, desvinculado das raízes estruturais, como se estivesse em qualquer tempo e em qualquer espaço, pouco ou nada indicando sobre o modo como ele se fez alagoano. Poderia ser nas Alagoas, como poderia ser em qualquer outro ponto, pois não possuía amarras. Ali estava o futebol posto na solta do tempo, não havendo uma ponte clara para que se entrasse na terra das Alagoas e a pelota corria em um campo também sem tempo e quem sabe era uma bola ahistórica. Seria querer demais, que naquela altura da vida e naquela motivação pessoal, Renato fosse além do que produziu. A ideia era brilhante e capaz de gerar uma visão do que se havia passado em Maceió, após o que se pode considerar como o ano inicial do pé na bola alagoano: 1908.
 
O futebol estava contundentemente posto na vida do povão. Esta a grande vantagem do livro. Por outro lado, o que poderia ser cobrado de um rapaz que se infernizava história adentro? Um rapaz que desejava inovar numa Maceió daquele tempo e ainda por cima nos cueiros de sua carreira jornalística? Nada mesmo a cobrar e apenas um bom sorriso aliado ao elogio; ele teve foi uma atitude louvável, ao romper com o vai-vem da intelectualidade alagoana, abandonando o que poderia ser um tema consagra- dor em termos de prestígio e status, para dedicar-se ao prosaico do povão, trocando espadas e canhões reais ou de oratória, por bolas, pés descalços e algumas chuteiras. E rompeu em boa companhia, pois Ledo Ivo teve a boa vontade e inteligência para escrever o prefácio. Renato colocou o lápis debaixo do braço e saiu por aí, entrevistando mundo de gente, lendo velhos documentos, conversando com jogadores e dirigentes, agarrado com o tema meses a fio
.
Se ainda hoje (note-se o ano deste texto, LSA), o futebol não é um tema que desperte suspiros intelectuais, naquele tempo deveria ser pior. Quem iria transformar em tema de livro, a correria atrás de uma bola? Graciliano Ramos meteu o pé no futebol quando ele andou pintando em Palmeira dos Índios. Tá lá, nas páginas de O índio. Imagine-se que Alagoas vivia a construção de sua historiografia guardiã de um ènfoque moral classista, escrita pelos
homens bons, para os homens também bons e ter-se-á quanto o futebol seria um tema escorraçado, especialmente quando a elite abandonou os grounds, preferindo financiar pobres para darem o espetáculo que, quanto mais comprado, mais interessante seria.
UMA PEQUENA VIRADA DE MESA 

Renato deu uma guinada de muitos graus no


que seria uma carreira intelectual esperável em Alagoas. Fugiu do que seria idealizável no compasso da música provinciana. Ele teve à sua frente, todo um beletrismo a vencer, pois era de bom tom participar de cultos heróicos, dos encontros lítero-musicias e continuar abonando as excelências da jamais extinta Guarda Nacional, que gerou coronéis em substituição aos barões. Na verdade, poucos se recusariam à facilidade da consagração e, neste contexto, o livro não deixa de ser uma virada de mesa, mas sem qualquer efeito no panorama intelectual, que jamais poderia considerá-lo como um igual.
Aparece um livro que pensava em goals e isto dessacralizava o universo histórico, buscando o humilde de times que treinavam em vacarias, expectativas que se faziam em ambições de pequenos funcionários. Era diferente. Uma espécie de fora de propósito, coisa meio amalucada e não fosse o gracioso que poderia gerar, seria difícil de ser digerida. Renato inovava, mas isto não quer dizer que se processava qualquer maior mudança no panorama. Até mesmo deve ser considerado, que a elite se encontrava consagradamente rural, preservando a teia ideológica ruralesca. Renato Sampaio ensaia seus andares pelo manto urbano, que se insinuava nos contrafortes desta mui querida Maceió.
 
Quase nascia em Viçosa
 
Quem era este audacioso? Afinal de contas, era um pioneiro. E lá vai conversa e chega Zequito Porto e chega Floria- no Ivo Júnior. Conversa vai e conversa vem e disseram que ela havia sido do Conselho Nacional de Economia. E vai que vai, de andança em andança, descobri que era pai de um amigo, o físico Renelson Sampaio, com quem eu havia trabalhado no levantamento ecológico cultural do que era chamado de complexo lagunar-estuarino das lagoas Manguaba-Mundaú. Após toda uma caminhada de adivinhação, fomos encontrá-lo em sua casa, tranquilamente tomando a sua insulina.
 
Era um homem vindo de família pobre; seu pai chamava-se
Manoel Correia Sampaio e sua mãe, Júlia Araújo Sampaio. Ele nasceu em Major Izidoro, no dia 20 de maio de 1921, nasceu e foi levado imediatamente para Viçosa, onde seu pai foi trabalhar no beneficiamento do algodão. Ele fica em Viçosa, faz o curso primário no Grupo Escolar Treze de Outubro, de onde guardaria a figura da professora Ivone Torres. Viçosa seria o padrão mas o capital agrega o campo de futebol a este complexo de padrão urbano. Obrigatoriamente, Viçosa teria futebol. A meninada do interior sempre viveu inventando divertimentos e eram criados os tempos de brincadeira. Tempo de pião, tempo de papagaio...
 
O futebol resistia a isto, mesmo em tempo invernoso. E foi em Viçosa que Renato se aproximou do futebol. O seu tempo de infância parece não ter sido agradável. Renato - ao conversar - sempre passava raspando por ele, e dava um salto para Maceió. Num de repente, nascia e estava em Maceió, onde ele continuou pobre e morando na Rua Formosa, parte do complexo urbano da Levada. Aqui, coma dificuldade da roupa cochica- da e do dinheiro faltando - vez em quando o professor Guedes Lins ajudava - ele fez o exame de admissão para o Liceu Alagoano e no ano dé 1936 começa a trabalhar como jornalista.
 
JORNALISTA E HISTÓRIA DE VIDA
 
Começou a trabalhar na Gazeta de Alagoas, como aprendiz de revisor em 1935; seu aprendizado como revisor foi realizado em O Semeador, em trabalho conseguido por Manoel Valente de Lima. Posteriormente, ele passa a fazer matéria sobre futebol e polícia. O salário dava para ir suprindo suas necessidades: 150 mil réis por mês, além de faturar comissões; quando o assunto era carnaval, tinha como certa a propaganda de J. Barros; quando era economia, entravam em cena Flávio Luz e Morgado Pinto.
 
Chamado por Afrânio Melo, vai ser revisor do Jornal de Alagoas, fazendo o turno da tarde; apesar do dinheiro que entrava, a dificuldade era grande. Tanto que eu uma de caderneta de aula, ele anotou cuidadosamente: “Comprei meu sapato, no dia de 20 de dezembro de 1937.” Era o famoso sapato da festa, quem sabe o calçado a ser guardado com cuidado e parte do conjunto de peças que se conhecia como a roupa de ir pros cantos, a roupa da missa no domingo e por aí vai. A temporada no Jornal de Alagoas foi curta. Na mesma caderneta está anotado: “Entrei no Jornal de Alagoas no dia 31 de janeiro de 1938; saí no dia 8 de maio de 1938”.
 
O grande incentivador de sua carreira em Maceió foi Sílvio Almeida, que era responsável pela área comercial da Gazeta. Foi a partir de Sílvio, que passou a manter contato com as empresas de Maceió, angariando propaganda, fazendo corretagem e aumentando o salário. Pelo mesmo Sílvio vai ingressar na crônica esportiva, escrevendo seus primeiros artigos e passando a manter coluna, incentivado sempre por Zequito Porto que o orientava na redação das matérias.
 
Quando sai de Maceió, o aprendizado realizado em nossas pequenas redações vai ser de extrema valia, mesmo quando passa a revisor do Jornal do Brasil e redator de O Meio Dia. Ele vai ter toda uma carreira ligada aos grandes jornais: Diário Carioca, Diário de Notícias, Observador Econômico. Nesse seu caminho, deve ser dado especial destaque á sua participação na revista Desenvolvimento e Conjuntura. Ele foi fundador e diretor. Fora Desenvolvimento e Conjuntura, Renato fundou um pequeno jornal em Maceió, tendo circulado alguns poucos números: Democracia.
 
Desenvolvimento e Conjuntura era porta voz, no campo técnico, da Confederação Nacional das Indústrias e, como o próprio título revela, analisava a conjuntura do ponto de vista do desenvolvimento. Renato dirigia o corpo redatorial e era membro do Conselho Técnico Consultivo, com o primeiro número tendo aparecido em 1957, com sua apresentação trazendo um texto de norte para a revista. Isso gerará polêmica acirrada com o grupo de Eugênio Gudin, especialmente quando se tem a famosa Instrução 113 da SUMOC.
 
A vida de Renato vai se misturar à defesa da industrialização, montagem de um parque acional que sustentasse a tese da substituição das importações. É nisso que se dá o choque com a visão do grupo de Eugênio Gudin e que acaba, inclusive, por franco debate na imprensa. A vida de Renato, portanto, ao fazer-se no Rio de Janeiro, deixava uma imensa distância da crônica esportiva, mas restou- -lhe a prudência de continuar torcendo pelo Clube de Regatas Brasil.
 
Ao sair, encontra um novo caminho e vai para uma série de trabalhos ligados à história do Brasil; prepara prefácio para a reedição do livro clássico de Si- monsen; pronuncia conferência sobre Simonsen na Confederação Nacional da Indústria. Torna-se, também, um dos fundadores e membro do Conselho Técnico do Instituto Roberto Simonsen para o Desenvolvimento Econômico, Conselho do qual faziam parte D. Helder Câmara, Josué de Castro e outros. Participa de curso patrocinado pela Cepal, ministrando aulas sobre a evolução do processo industrial brasileiro, quando a temática histórica fica em evidência, posta sob A saída de Maceió
 
Renato teve que sair de Maceió para enfrentar a vida, antes que Maceió enfrentasse a dele. É na economia que vai fazer sua carreira culminando por uma cátedra e pela participação, a convite de Juscelino, no Conselho Nacional de Economia e ali funciona como representante da ^vertente industrial, que argumenta com a necessidade de se fundar e firmar um setor secundário nacional. É por tal motivação que entra em debate com o grupo de Gudin, conhecido como pai do monetarismo brasileiro. Na verdade, na medida em que entrou na implicação entre conjuntura e desenvolvimento, fatalmente seria levado a uma posição contrária a de Gudin. Na medida em que a problemática do desenvolvimento nacional entrasse em discussão face à substituição de importação, iria contra qualquer privilegiamento do setor internacional.
 
Esta sua preocupação, leva a que seja professor de Evolução e Conjuntura da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Rio de Janeiro; será conferencista da ESG, ISEB, CEPAL. Esta sua atividade conduz em 1957, a que seja nomeado membro do Conselho Nacional de Economia. Na realidade, toda a sua carreira é ligada às representações patronais e isso acontece primeiramente na Bahia, de onde vai assentar-se no Rio de Janeiro e em Brasília. A carreira baiana começa com cargo na Comissão de Planejamento Econômico do Estado da Bahia, ano de 1953, posição em que permanece até 1956. Contudo, a vida baiana é iniciada em 1948, quando ingressa na Suerdick como Assessor Técnico, passando a Sub-Diretor e a Superintendente.
 
É através da vinculação com a Suerdick que fará parte do Conselho de Representantes da Federação das Indústrias do Estado da Bahia e do Serviço Social da Indústria. Torna-se Vice-Presidente da federação e seu representante junto à CNI, terminando por dirigir o Departamento Técnico daquela entidade. Ainda ligado à vertente industrial, vai ser Superintendente Adjunto e Chefe da Assessoria de Programação e Orçamento do Centro Industrial de Aratu. Por
último, dirigiu o Banco Regional de Brasília, parecendo-nos que foi, também, Presidente da Companhia de Desenvolvimento de Alagoas. Renato foi membro do Conselho Técnico do Instituto do Fumo da Bahia, Diretor do Departamento Nacional de Mão de Obra e Salário, além de outras participações em menor escala
 

CHEGANDO AO LIVRO
 
A lista do que andou fazendo, depois que saiu de Maceió, é grande. E vamos cada vez mais nos afastando de seu livro, curiosamente chamado de À Margem do Futebol. O próprio título merece explicação; ele o considerava como se fosse um ponto de partida para poder escrever outros tantos. É daí que o futebol está à margem.
 
Ele tinha era vontade de ampliar para casos, contos, fazer do futebol uma espécie de abertura para uma intensa atividade literária. Os casos faziam com que vibrasse. É assim que ele relembra Segismundo Serque' a que tinha a mania de ir a campo carregando um guarda-sol ou guarda-chuva a depender do tempo. O engraçado é que Segismundo ir andando atrás da bola como se fosse bandeirinha e ai de quem ficasse na frente. Quando terminava o jogo, deveria ter perdido alguns quilos.
 
Lembro de uma história que o Renato me contou sobre um jogador que fechava os olhos quando ia chutar. Era uma mania da qual não se livrava. Um dia mandam que ele vá cobrar um pênalti. Ele se prepara, fecha os olhos, corre e a ola ficou lá, quieta. Ele passou por ela.
 
Tanto Renato era amigo do pessoal do futebol, quanto do grupo de rapazes intelectualizados, tanto que Ledo Ivo vai escrever o Prefácio. Renato fez uma tiragem de 2000 exemplares e ele hoje é uma raridade; foram penosamente impressos de cem a cem, na velha e antiga tipografia Machado. A imensa bóia, Renato saiu distribuindo com o pessoal de futebol, jogadores e dirigentes.
 
É que ele pensava o livro, como extraordinário sucesso de mercado e, daí, os dois mil exemplares. Pensava, também, que falando de tanta gente, iria vender fácil. Todo mundo se interessaria na compra. A impressão custou a bagatela de quase três contos de réis. Praticamente, passou uns seis meses sem trabalhar, apenas cuidado da edição. Além disso, esperou uns oito meses, para que Elói Paulírio entregasse o clichê da capa, todo esculpido na ponta de canivete com a figura do Renato sentado e em manga de camisa.
Dizia-me Renato, que recebeu uma corda imensa para escrever o livro. Quando viu o primeiro exemplar, saiu emocionado, julgando ter escrito uma obra prima e sentindo-se inteiramente consagrado. Levou correndo para vender no Enéias, no Ramalho. Colocou na vitrine de A Brasileira, levou para a Casa Normande, Loja do Povo, Bilhar do Comércio, Sapataria do Ferreira. Conseguiu vender e entre tudo saíram uns 250 exemplares. Mas algumas pessoa e empresas adquiriram em quantidade: Flávio Luz, José Dionísio Sobrinho, Mauro Paiva, Paulo e Pedro Pedrosa.
 
Zequito Porto foi o grande mentor. Deu a mão, ajudou na elaboração, apresentou a diversas pessoas; finalmente, colocou Renato em contato com o grande mundo do futebol da época. Renato foi a Penedo e Palmeira dos índios à procura de informações. Paulo e Pedro Pedrosa ajudaram; consultou a documentação que estava disponível por parte do CRB e do CSA. Um grande auxílio foi dado por Pai Manu e também pelo célebre engraxate: Rás Gonguila.
 
Renato leu durante um ano e meio; debruçou nos jornais do Instituto Histórico. Foi desta forma que apareceu “À Margem, do Futebol”. Hoje, uma raridade. Se não foi a primeira tentativa para compreender o nosso futebol, foi a primeira apresentação sistemática do eu se havia plantado até década de trinta do século XX.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Lautheney Perdigão. Cláudio Pacheco Um depoimento para a história



Texto  publicado em Contexto de 11 de dezembro de 2011 em Tribuna Independente. Para este blog, estamos utilizando material digitalizado e com gerenciamento das imagens realizado por Kellyson Ferreira, com a coordenação do Professor Antônio Daniel Marinho.  

Um pequeno bilhete sobre futebol
Luiz Sávio de Almeida


Passado o mês de novembro, Lau e seu Museu

voltam às páginas deste suplemento, que
tem a finalidade de construir um painel de
visões sobre a sociedade alagoana. Contexto
precisa e muito do Lau, jornalista a quem admira de
longa data - bote tempo nisso, né Setton? mesmo
ele sendo azulino de corpo e alma. Felizmente,
neste número, ele lembrou que CRB existe, e assim
Contexto se encontra em seu estado puro, devidamente
dezazulizado.
Ainda hoje, eu não sei, objetivamente, a razão de
justificar-me como CRB. Acho que tudo decorreu
de uma graça conduzida pelo destino, tão angélica
e sagrada quanto é ser tocado pela chama mágica
do rubro-negro, aquilo que identifica o meu amado
e decantado Clube de Regatas Flamengo, a aurora
mundial do futebol, o por do sol da glória a renovar-se
pudica e simples, a noite inspirada do esporte, o dia
da justiça final dos adversários vítimas dos mais fortes
e inteligentes peiotaços.
Amigo Lautheney, é pena, contudo, que a beleza das
rivalidades tenha se tornado em coisa feia, pela violência

do que ainda é, talvez erroneamente, chamado
de torcida. Meu bom Lautheney, quando isso vai
parar? Amigo, pode escrever sobre o CSA novamente,
quantas vezes desejar; aqui é livre, como deve ser
livre a amizade. Vamos nos encontrar e misturar as
cores das bandeiras numa comemoração pela paz,
cerimônia que bem poderia ser puxada pela Federação
Alagoana de Futebol e, quem sabe, o exemplo
partir de uma solenidade pública comandada pelas
diretorias de nossos clubes. Seria um belo exemplo
para nosso futebol.

                                                                 Um abraço amigo para todos os legítimos torcedores
                                                                  azulinos. Eu prefiro um torcedor azulino decente, a
               
                                                       um baderneiro que se possa dizer CRB. Será que a
                                                                 Federação Alagoana promoveria o Dia da Paz? Não
                                                                         importa se já fez algo neste sentido; o fundamental é
                                                                           água mole bata tanto em pedra dura até que fure.
                                                                             Contexto pede humildemente, que a Federação
                                                                          Alagoana de Futebol pense no assunto. Nossa! Seria
                                                                  uma belíssima cerimônia pela paz, contra qualquer
                                                                      indicação de violência. Lautheney, você que conhece
                                                                         mais de perto os homens, fala com eles.






Cláudio Pacheco Um depoimento para a história
 
Lautheney Perdigão

A ESTRADA DA VIDA

Cláudio Moreira Pacheco é filho de Lafaiete Pacheco, o principal fundador do Clube de Regatas Brasil. Nasceu em Maceió, no dia 19 de setembro de 1931. E como não poderia deixar de ser, Claudinho começou jogando no clube da Pajuçara. Com a camisa do CRB, ele começou a mostrar suas qualidades de um futuro craque. Não demorou muito e logo chegou ao time titular se consagrando bi campeão alagoano nos anos de 1950/1951. Era um jogador inteligente dentro e fora do campo. Seus movimentos eram rápidos e objetivos. Com o passar dos anos, seu futebol foi amadurecendo, ganhando mais cadência, habilidade e técnica refinada.

Em 1952, foi contratado pelo Esporte Clube Bahia e formou o chamado “esquadrão de aço” dos tricolores da Boa Terra. Foi campeão, destaque do time e convocado para a Seleção Baiana. Ainda defendeu o Sport Recife, Ferroviário do Ceará, Botafogo da Paraíba e encerrou sua carreira no Capelense em 1962, onde ajudou o clube do Dr. Horácio Gomes a ser Campeão Alagoano naquele ano. Quando ainda estava atuando pelo CRB, Claudinho jogou voleibol pelo Flamengo de Maceió.


Depois de viver fortes emoções no esporte, deixou os gramados e continuou o mesmo moço simples e amigos de seus amigos. Hoje, aos 80 anos, vive na lembrança de todos aqueles que o viram jogar um futebol cadenciado e no melhor estilo. Seu depoimento está bem vivo nos arquivos do Museu dos Esportes.

OS FILHOS DE LAFAYETE PACHECO

Três filhos de Lafaiete Pacheco jogaram futebol. Nos anos trinta, o zagueiro Bacurau participou do tetra campeonato conquistado pelo CRB. Nos anos cinqüenta, foi a vez de Claudinho que também foi campeão pelo clube da Pajuçara. Vetinho também foi campeão, mas pelo Ferroviário em 1954. Claudinho tinha orgulho do seu pai. Afinal, Lafaiete Pacheco foi o grande incenti- vador para a fundação do CRB, clube que ele defendeu com um amor acima do normal. O interessante é que mesmo quando Claudinho defendia o clube da Pajuçara, ninguém sabia desse detalhe. 

Somente depois um depoimento de Lafaiete ao Arquivos Implacáveis do Jornal Gazeta de Alagoas é que a história começou a ter um melhor colorido nas páginas dos nossos jornais e a torcida ficou sabendo a verda deira história do Clube de Regatas Brasil.


Claudinho começou jogando nas peladas de ruas. Muitas vezes deixava de ir à aula para jogar futebol. Na Praça da Cadeia, havia jogos memoráveis entre o Águia Negra do Colégio Diocesano e o Monte Castelo que era o time local. Como morava no Poço, Claudinho jogava pelo Treze de Maio. Em 1948, já estava disputando o campeonato alagoano pelo juvenil do CRB. No ano seguinte, integrava o time principal dos alvirrubros. O bi campeonato foi conquistado por um time maravilhoso. Claudinho lembra com saudade: Bandeira. Cacau. Miguel Rosas. Walfrido Vieira. Cacará. Divaldo. Macedo. Laxinha. Dario. Carlos Santa Rita e ele mesmo, Claudinho. Os treinamentos eram realizados às seis horas da manhã, porque a grande maioria dos atletas trabalhava. A diretoria comparecia e Zequito Porto era o técnico que, ao logo dos anos, transformou-se no maior nome da história do clube. O Zé de Barros tomava conta do Estádio e era muito querido por todos os atletas. Depois do treino, lá estava Zé de Barros com o seu munguzá e pão com manteiga para os jogadores. Esses jogadores tinham amor pelo clube e a amizade dos dirigentes.

A DEVOÇÃO AO ESPORTE

Claudinho jogava de graça e ainda era sócio do clube. Isso lhe garantia certo privilégio, dando condições de entrar nas festas do CRB que eram realizadas nos salões do Clube Fênix Alagoano. Além da alegria em defender o clube do coração, ele tinha o reconhecimento de ser convocado para a Seleção Alagoana várias vezes. Ele viveu uma época em que os torcedores presenteavam seus ídolos com chapéus, guarda-chuvas, sapatos, camisas etc. Um tempo que, mesmo no dia de clássico, Claudinho e Dida, no domingo pela mânhã, iam bater bola no campo da Faculdade até onze horas. Depois iam a pé até a praia do Sobral, tomavam banho e iam para casa. À tarde, no Mutange ou na Pajuçara, lá estavam Dida com a camisa do CSA e Claudinho com a do CRB. Também acontec ia que jogadores participavam da preliminar atuando pelo aspirante e, quando faltava um titular, o atleta era escalado do time principal.

Foi defendendo a Seleção Alagoana em 1952, que Jorge Gazar o enviou para o Esporte Clube Bahia. Claudinho foi, fez teste e ficou. O CRB recebeu apenas uma taxa de transferência, já que o atieta era amador. O primeiro contrato com o Bahia valeu para Claudinho doze contos de réis de luvas e um conto e quinhentos por mês mais o pagamento da pensão onde o atleta passou a residir em Salvador. Os dirigentes prometeram muita coisa e cumpriram tudo. Sua passagem pelo Bahia foi uma das coisas boas de sua vida. Fez amizades, ganhou títulos, foi ídolo e participou de um dos maiores times da história do clube que tinha uma excelente diretoria e uma fanática torcida.


A fase do supercampeonato baiano foi uma loucura. Claudinho levou o amigo Bandeira para o Bahia. O goleiro se transformou em uma barreira no gol do clube tricolor. Na decisão com o Vitória, foi o melhor jogador em campo e garantiu o título defendendo até pênalti. Claudinho e Bandeira foram convocados para a Seleção Baiana. Ele; eram como irmãos. Quando Bandeira foi entrar por um portão que não devia um diretor não teve bons modos e puxou o goleiro de maneira grosseira. Houve uma discussão e Claudinho comprou a briga. Depois o Bahia não quis renovar o contrato com Bandeira e o companheiro resolveu reincidir o seu e retornar a Maceió.

Voltando a Alagoas, Claudinho foi passar alguns dias em Recife na casa de uma tia. Dida queria levá-lo para o Flamengo. Estava tudo certo. Dida telegrafou para o amigo viajar e treinar na Gávea. Lafaiete Pacheco, ao invés de mandar o telegrama para a casa de sua irmã, enviou para o Sport Recife onde Claudinho estava, treinava e tentava acertar um contrato. Um diretor do Sport ficou com o telegrama. Somente depois de assinar com o clube pernambucano é que o craque alagoano soube da existência do telegrama de Dida.

Ele nunca perdoou o diretor Galvão. O contrato com o Sport valeu para Claudinho trinta contos de luvas e quatro mil por mês e mais o pagamento do hotel onde passou a mora com outros alagoanos: Hého Miranda, Carijó e Ita- mar Dengoso. Ele ficou trà as anos em Recife. Depois, foi para o Ferroviário do Ceará e para o Campinense.

UM RETORNO A MACEIÓ 

Já casado, resolveu retornar a sua terra. Estava com trinta e um na cidade de Capela para tomar contar e ! ficar perto da sua família. Nessas alturas,  o Capelense entrou na sua vida. Assinou contrato com Dr. Horário e ficou como técnico e jogador. A diretoria não interferia no seu departamento de futebol. Os jogadores eram amigos e ajudavam ao ! técnico. Logo depois da sua contratação,  Dr. Horário chamou Claudinho e lhe
 entregou um pacote cheio de dinheiro para ele ir a Recife comprar todo material  novo para o clube. O Presidente guardava  o dinheiro em casa e deu liberdade  para o treinador contratar os melhores  jogadores do interior. Apenas Aguiar que  tinha jogado no CRB e Zé de Gemi que  defendeu a seleção sergipana não eram | do interior. A grande maioria era das
Usinas de Alagoas e Pernambuco.

A estreia de Claudinho no Capelense  foi contra o CRB e uma decepção: CRB  6x1. Uma goleada. Ninguém reclamou  de ninguém. Os treinos continuavam, o time foi se arrumando e, no final do I campeonato, o Capelense foi campeão  de 1962 vencendo a decisão contra os | Estivadores. O trabalho foi tão bom que  Claudinho foi convidado para ser o técnico da Seleção Alagoana que disputaria  o Campeonato Brasileiro daquele mesmo ano. A Seleção era a base do Capelense. Conseguimos passar por Sergipe e, depois de empatar em Maceió, perdemos : para os cearenses em Fortaleza. Para esse jogo, houve muitos problemas. A viagem para o Ceará atrasou. Em Recife, o avião somente saiu para Fortaleza no mesmo dia do jogo. A delegação alagoana chegou a tarde para jogar a noite. Os dirigentes da Federação Alagoana não tentaram adiar o jogo e nos sos atletas estavam sem condições ideais para enfrentar a Seleção ! Cearense.

Claudinho foi convocado para a Seleção pela primeira vez em 1952, quandoos alagoanos disputaram um Campeonato Brasileiro amador. Depois, ele foi convocado para a Seleção principal. Contra os sergipanos, aconteceu um jogo memorável. O jogo dos 163 minutos. Alagoas havia perdido em Aracaju. Precisava vencer no Mutange o jogo e a prorrogação. Claudinho lembra com certa emoção. Alagoas venceu o jogo por 2x1. Veio a primeira prorrogação e 0x0. Veio a segunda e novamente 0x0.

Somente aos treze minutos da terceira prorrogação é que Laxinha assinalou o gol que garantiu vitória de Alagoas. Os jogadores estavam cansados, mesmo assim, festejaram no gramado uma das maiores vitórias do Futebol Alagoano. Um triunfo da garra e da vontade de vencer. E nada teria sido possível se não fosse a ajuda da torcida. Depois perdemos para Pernambuco.

AS FORTES EMOÇÕES

Todos nós sentimos fortes emoções ao longo de nossas vidas. No bi campeonato alagoano de 1951, o CRB conquistou o título vencendo o CSA na decisão. O futebol começava a lhe oferecer as primeiras emoções. Nesse mesmo ano, o CSA enfrentou o Vélez Sasfield da Argentina no Mutange e convidou alguns jogadores do CRB e, entre eles, estava Claudinho, que vestiu a camisa do clube azulino pela primeira vez. O jogo foi na véspera do Natal e o empate de lxl lhe rendeu uma gratificação de cinco mil réis. Claudinho lembra o jogo da Seleção Baiana contra o Botafogo do Rio.

Foi uma das suas grandes atuações. Jogando de ponta direita, deu um show no grande Nilton Santos e ainda fez o gol da vitória baiana. Entre suas decepções, que foram poucas, ele cita quando t entou ser treinador do seu querido CRB. Em 1966, deixou Capela e voltou para Maceió. Tinha feito um grande trabalho no Capelense e poderia repetir no clube da Pajuçara. Logo que começou, sentiu que as coisas não eram como no seu tempo de jogador. Havia muitas dificuldades. O clube foi campeão em 1964 e aquela equipe estava se desfazendo.

Os jogadores que ficaram, não tinham muito interesse em jogar. Certa vez, Aguiar, Paulo Nylon e Canhoto procuraram Claudinho e disseram que não podiam jogar. Cada um tinha um problema: dor de cabeça, contusão no pé e desenteria. Foram substituídos por Ademir, Beba e Silva que logo se tornaram titulares e grandes figuras do nosso futebol. O clube não tinha dinheiro para contratar e seu trabalho tinha de ser com os juvenis. Os dirigentes queriam r aparecer, reclamavam contra os juvenis e não lhes davam apoio. Quando o time está mal, eles desaparecem. Então, Cláudio resolveu parar com o futebol e cuidar da sua vida fora dos gramad os.

Para Claudinho, o maior jogador que viu atuar foi o zagueiro Miguel Rosas. Era um espetáculo. Não dava pancada. Era inteligente e tirava a bola do adversário sem ele sentir. Claudinho se sentiu privilegiado em jogar ao seu lado. O melhor time foi o Esporte Clube Bahia de 1952. Um time que jogava por música. Cada um sabia o que fazer dentro de campo. O treinador era Gentil Cardoso queinha tudo ensaiado. Ele sabia de tudo e dizia aos jogadores que não era da Seleção Brasileira porque era preto e não tinha olhos azuis. Jogando em Maceió, Claudinho nunca se concentrou. Já no Bahia e no Sport, havia concentração. Com Gentil Cardoso, o pessoal somente ia para casa na segunda- -feira. Concentração longa não é uma boa.

PASSOS DE VIDA

A partir da sexta-feira a noite até q ue é bom. Ele acredita que o treinador tem muita influência no rendimento de uma equipe.

Gentil Cardoso era realmente maravilhoso. Muitos jogos eram ganhos no intervalo quando ele conversava com seus atletas, consertando os erros e mostrando sua visão e como aproveitar as falhas do adversário. Com relação à arbitragem, ele destaca Wal- domiro Breda, Cláudio Règis e Agustim Farrapeira. Em dezesseis anos de carreira como jogador de futebol foi expulso apenas duas vezes.

No seu tempo de jogador no CRB, os dirigentes tinham os atletas como filhos. Chegavam a ir a suas casas para visitar seus familiares. Havia bastante afinidade entre dirigente e jogador. Hoje está tudo diferente. Tudo é profissional. Futebol virou comércio. Quando o time ganha, querem aparecer no rádio e na televisão. Quando o time perde, eles têm sempre um culpado: o técnico. No submundo do futebol, escondem- -se muitos interesses e nisso, tudo pode acontecer. Sobre a rivalidade entre CSA e CRB, sempre existiu, mas somente dentro do campo. Fora dos gramados, todos eram amigos. 

Muitos estudavam no mesmo Colégio. Quando o CSA ganhava; Claudinho não aparecia na Praça Deodoro, porque a turma era azu- lina e caia em cima dele. Quando o CRB ganhava, a gozação era d ele e do Bandeira em cima da turma do CSA. Era uma época de diversos craques e pouco dinheiro. Diferente dos dias de hoje, muito dinheiro e poucos craques. Os jogos eram realizados no Mutange e na Pajuçara. No campo do CSA quando chovia, o gramado virava lama. Quando fazia sol, a grama ficava dura. No campo do CRB, nos intervalos dos jogos, os jogadores tinham que tirar as chu- teiras e jogar a areia fora. Apesar disso, era gostoso jogar naquele tempo. Na imprensa, havia Luiz Alves, Aldo Ivo, Osvaldo Braga e outros que sabiam criticar. Faziam críticas construtivas. Existia uma crónica completa de todo o jogo. Hoje mudou. Existe mais espáço no jornal, no rádio e na televisão. Infelizmente, esses espaços são ocupados mais com o noticiário do futebol do Rio e de São Paulo.

E Claudinho contou um detalhe de sua vida esportiva que poucos sabem. Ele participou ativamente do esporte amador, atuando pelo Flamengo de Maceió como jogador de vôlei e basquete. Com ele, jogavam outros craques do futebol: Carijó, goleiro do CSA; Dudu, goleiro do CSA; Arroxeias, do CRB; Geraldo, do América; Ve- tinho, do Ferroviário. As partidas eram disputadas na quadra de cimento da Polícia Militar. Para ele, o negócio era jogar. No gramado, na quadra, na praia ou em qualquer lugar. Tendo uma bola e ura pedaço de chão, já era suficiente. Voltando ao futebol de campo, Claudinho sente saudade de jogadores com Bandeira, Miguel Rosas, Cacau, Divaldo, Castelar, Nezinho, Cão, Dida, Laxinha, Da- rio, Santa Rita e Miltom Mongôlo. Nunca ouviu falar em suborno no se u tempo de jogador. Talvez, porque a divulgação não tinha a mesma dimensão dos dias atuais.

Claudinho afirma que valeu a pena ser jogador de futebol. Se pudesse, começava tudo de novo. Foram dezesseis anos de muitas emoções e poucas decepções. Fez diversas amizades douradoras e soube ser um profissional responsável. Ganhou algum dinheiro, gastou outro tanto, contudo ficou com alguma coisa. Aposentou-se como funcionário do Estado e, apesar de seus oitenta anos de idade, vive a vida que Deus reservou para ele.