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sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Crônica diária (19/01/2019). Ted Ward, o Professor da Michigan State Univrsity


 Ted Ward: o Professor  da  Michigan State University

Luiz Sávio de Almeida

Devo imensamente a Ted Warren Ward, meu orientador na Michigan State University; conversamos  quando de uma de suas vindas ao Brasil e ela, requisitadíssimo, aceitou ser meu orientador.  Praticamente, ele me recebeu na Michigan State University e me deu assistência bem maior do que simples relação acadêmica. Deu-me acesso à sua residência onde convivi com sua família e com sua esposa, uma pessoa humana de última geração. E com quem fui à Igreja Batista algumas vezes lá em East Lansing.  A fama não lhe roubou a humanidade e nem a capacidade de dialogar, tendo uma grande atuação internacional.  Meu interesse com ele era a chamada non formal education e na sua grande atividade de pesquisador em curriculum.
Eu tinha acesso à seu escritório sem muito protocolo e muitas vezes saímos para passear nos entornos de East Lansing, com sua esposa sempre amável e brilhante música. Ele deixou a Michigan State em 1985 como Professor Emeritus  do College of Education e foi para a Trinity  Evangelical Divinity School, dando continuidade a seus interesses em ligar a discussão teológica à educação. Lembro-me perfeitamente do dia em que me disse estar  com altas taxas de diabete. Foi ela que ajudou a que morresse junto com complicação renal, isto em 2016.  Talvez a passagem mais íntima de nossa amizade deu-se depois do primeiro termo que passei na Universidade. Um termo difícil de adaptação cultural, da pressão da língua diferente, era como se estudar fosse algo irrealizável.  Foi quando ele mandou me chamar e deu-se um diálogo que somente vou narrar pela força da saudade e pelo que tanto representou em minha vida futura.
Mandou dizer que precisava falar comigo e eu julguei que era a minha dispensa, no que, sem dúvida, seria muito educado ao dá-la.  Fui com uma certa ansiedade. Entrei em seu pequeno escritório cheio de livros, papeis e uma cadeira ao lado de sua escrivaninha,  Sentei. Era a sentença da volta, arrumar a trouxa e pegar um Ita para o Brasil, aportando novamente nas belas praias de Maceió. Ele sorriu, parou de escrever olhou para mim, fez o gesto de quem contava com os dedos e disse: “Estou há 11 anos nesta Universidade e (contou nos dedos) somente disse o que vou falar a você, a umas dez pessoas. Eu sou altamente requisitado; muita gente espera pela minha orientação, mas sou eu quem está lhe dizendo: quero ser seu orientador!”.  Eu baixei a cabeça: era o contrário do que eu esperava. E ele continuou: “Mas você tem que ter humildade e jamais utilizar o que vai aprender comigo para ter poder. Pelo contrário, você vai ter de servir a seu povo e somente a ele!”. Eu baixei a cabeça. E ele arrematou: “Pense e me diga se aceita meu convite e ao voltar me peça,  para saber do início do caminho e por onde ele sempre começa!”.
Voltou a escrever e fui embora tomar um café, com a sensação de que havia estrada a percorrer e que talvez eu me demorasse por lá, mas um bicho roía a minha cabeça: eu sabia que voltaria, que havia papagaio,  coqueiro, lagoa e praia. Sabia que a tentação seria grande, mas eu jamais deixaria a terrinha e  nem jamais deixaria de estar ao lado da velhice de meus pais e nem de estar com os meus.
Aquela conversa com Ted foi decisiva e ela foi farol para o resto da vida.
Posso esquecer Ted Ward?

sábado, 26 de maio de 2018

Maceió e um pedaço do seu amanhacer


Estas são fotografias feitas por José Robson Leite Moreira, um artesão que mora no Trapiche da Barra e que, em suas andanças, procura  e  documenta a cidade à qual pertence. Anda e fotografa e desta vez foi conversando com o amanhecer. O que falam as fotos para vc? Como vc poderia dialogar com elas? 

São muitas as formas de termos um diálogo com a cidade e às vezes, até mesmo buscando o pequeno mundo das formas que se perdem, por exemplo, na vastidão das areias... Às vezes, encontrando os homens buscando a vida pelo trabalho... Às vezes, na luz da manhã batendo nos coqueiros ou na própria cidade...

Todos nós temos encontros permanentes, estranhamentos e espantos diante daquilo que está em nossa frente. Todos nós vivemos a guarda de frações de segundos de emoção, sensações. Muitos documentam  e dividem suas emoções, como é o caso deste artesão com suas belas fotos.

THE BEACH, THE DAWN AND THE CITY
 LA SPIAGGIA, L'ALBA E LA CITTÀ  
(Enseada Praia de Pajuçara)
O mar, sem egoísmo, reflete a luz do sol como uma oferenda prateada! (JRLM)

 (Começo da Enseada da Pajuçara, ao lado do cais)
O vazio não é solidão, é a ausência do ego, é a essência do "você mesmo" sem paixões e artificialidades, é a pureza da alma, é o "ser autêntico", é a natureza funcionando em você. você o sol e sua sombra são três.(JRLM)
 
( Praia do Sobral)
Observe o mar  como exemplo, se o mal tentar contaminar sua alma regurgite-o. (JRLM)

 (Praia Sobral, emissário submarino)
Mergulhe com o olhar e o deslumbramento, assim se organiza pensamentos, gerencia emoções, aprimora virtudes, daí retribua. (JRLM)

Praia do Sobral: O amanhecer pousando em te, afague-o! (JRLM)
(Enseada Praia de Pajuçara)
O mar, sem egoísmo, reflete a luz do sol como uma oferenda prateada! (JRLM)


Pescadores puxando, metro a metro, sonhos e esperanças! (JRLM)







sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Rio São Francisco: lembranças dos lados de Pão de Açúcar

Maria Goretti Brandão


Jornalista, Assessora de Comunicação. Foi editora do blog, Ensaio Geral no Portal CadaMinuto, tem publicação no Caderno B do Jornal Gazeta de Alagoas. É autora dos contos, Para Comer, Beber e Dormir Comigo, O Conto das Alagoas, Recife: Ed. Bagaço, 2007, Carlito Lima, Edilma Bomfim, (orgs.). Coisa de Homem, Agosto, À Sombra do Umbuzeiro, Casos e Loas, São Paulo, Gráfica Epitaciana, 2006. Só Para Contar, Zilma e Eu Meio às Penas, À Sombra do Juazeiro, São Paulo, Gráfica Epitaciana, 2008. Buraco de Entulhos, Entre a Vida e o Tempo, À Sombra da Quixabeira, São Paulo, Editora Epitaciana, 2010.

Dois dedos de prosa

           

Este é mais um trabalho da jornalista Goretti Brandão. Campus/O Dia espera que ela nos ajude sempre a manter o sertão em nossas  páginas. Há neste seu texto, uma bela junção entre memória, cotidiano a expressão da sensibilidade sobre um vida e um lugar.


            Gortetti sempre nos trará as cores e os modos do sertão, andando por sua vida e pelo lugar, alinhando sua circunstância com os tempos vividos junto a seu povo.

            Campus/O Dia agradece e convida a todos a ver a vida feita sobre o terreno do encantamento com o tempo e a circunstância no espaço.
Vamos ler!

Parceira, muito obrigado!

Sávio

O rio de São Francisco e o seu Pão de Açúcar
Goretti Brandão.


Rua da Frente

Venho do litoral rumo ao sertão alagoano. Após uma comprida e demorada viagem, cheia de estradas de barro e solavancos e descendo uma longa ladeira que serpenteia a serra, avisto o Cristo Redentor sobre o Morro do Cavalete e as águas azuis do Rio São Francisco que o festejam. Na quentura das três horas da tarde, contemplo o mundo até onde meus olhos alcançam.

A rua principal é uma imensa linha reta, larga e plana e possui um corpo de onde outras linhas, perpendiculares e paralelas, enchem-na de braços e pernas e saem a distribuir casas e gentes. É a Avenida Bráulio Cavalcante, que se estende desde o Grupo Escolar que leva o mesmo nome, até a Cadeia Pública Municipal.

Veste-se majestosa com centenárias e frondosas árvores, que fazem sombra sobre os bancos de suas praças. É a Cidade Branca com sua alma sertaneja, cercada de xique-xiques e mandacarus. Cheguei. Estou à porta de casa. Eis-me aqui em minha pequena pátria, a Terra do Sol, Espelho da Lua, Pão de Açúcar. É assim que começo, abrindo o meu portal de memórias e deixando que elas criem asas.  

A morada da minha infância tem fachada com porta e grade, uma alta, maciça, a outra menor, detalhada e dividida em duas, com postigos e duas janelas. Retorno à visão da casa e nela adentro. Ando pelos seus quartos e salas, seu quintal, seu beco que acompanha em paralelo um corredor estreito, onde um tanque de cimento testemunha nossa vida em movimento.

Ela é grande, simples, iluminada, antiga e de muitos anos antes de mim. Tem cumeeira com telhado bem alto que declina abruptamente, e no corredor quase tocamos os seus caibros e ripas. Duas janelas e uma porta lateral com portais de madeira tosca dispostas neste vão emolduram avencas penduradas e no chão, vasos com antúrios viçosos estão sob o céu azul ensolarado, onde pequenas porções de luz brilham sobre as sombras das folhagens.

Brinquedo espalhado pelo chão, vozes, e eu seguindo a caminho da cozinha, que tem fogão à lenha cuspindo fuligem por todos os lados e realiza em si a alquimia dos nossos afetos. Minha mãe está de costas, voltada para ele e tem um abanador de palha em uma das mãos. Na outra um mexedor de brasas, que ela atiça e estrelinhas douradas saem voando de dentro do fogo.

Sento-me. A velha cadeira de balanço feita de bambus e cordas provoca-me desconforto, que só a saudade o torna, agora, desejável. Aqui, os mais variados aromas penetram em mim. Os doces, as comidas, as frutas e todas as presenças que transitam pela cozinha, tatuam-se nos meus sentidos através dos seus cheiros que os chamarei para mim mais tarde e eles ressuscitarão.

O tempo muda de uma hora para outra. Fecha-se. No inverno as sombras descem sobre esse mesmo lugar e as cores, cinzas, diversos tons enegrecidos e azuis desbotados, constroem um cenário melancólico. É neste canto aqui da casa que vivem o nosso papagaio e uma parreira ocupa-se em esparramar-se e enfeitar minha vista, com pequenos e novos cachos de uva.

Essa imagem dá-me a sensação de estar contida, estática, em memória fotográfica, que quando evocada, aparece da mesma forma e que por essa razão vence o tempo. A chuva vai se anunciando aos poucos. Primeiro a ventania que varre a poeira das telhas e em seguida o pó que cai sobre nossas cabeças.

Vai chover dona Demantina’. Raulina corre para o quintal e tira às pressas as roupas que secam no varal. Volta depressa pela porta dos fundos, derrubando algumas peças entre o quintal e o último aposento da casa. É março e um chover com trovoadas e relâmpagos enche a tarde de sons estrondosos. Tudo parece parar de repente. O barulho rítmico dos pingos d’água principia.

O cheiro de terra molhada invade meu olfato e expira através da minha respiração, uma espécie de magia que constela a presença de outros sentires dentro e fora de mim e algo me desperta para o desejo de que esse instante sobreviva ao tempo, acrescentando-se às páginas de todas as recordações do mundo, para que a beleza dessa vivência nunca se perca e que seja eterna.

Acompanho a música da água sobre o telhado. A mãe da minha mãe, uma grande contadora de estórias e histórias, anuncia que a abóboda celeste está sendo lavada. Descreve com riqueza de detalhes a cena lá em cima, onde Nossa Senhora, dona de casa, celestial, agora de carne e osso e que eu a imagino com lenço na cabeça, igualzinha à minha mãe e a todas as mulheres da vizinhança, determina com sua voz pura e suave, que a limpeza seja feita.

Aos montes os anjos trazem nas mãos suas vassouras, acendem e apagam luzes, arrastam os móveis divinos e despejam sobre a Terra as águas do céu. Os pingos engrossam e as goteiras aparecem. ‘Chega Raulina!’ grita diligente a minha avó, que some e volta às pressas com panelas velhas, baldes e bacias, espalhando-as pela casa quase toda.

Mãe e avó da autora
Nova estação. É um dia de segunda-feira, a claridade do sol chega à janela do meu quarto. Acordo ouvindo o homem que vende vassouras de palha gritando um pregão. Barulho de cascos de animais, rumor de carros de bois, de metal batendo um no outro, um cheiro forte de fumo e o burburinho da feira livre abrem as cortinas desde outro momento que descrevo.

Matutos em idas e vindas para lá e para cá, as duas anãzinhas que sentadas bem próximas uma da outra em seus banquinhos, dispõem à venda suas bonecas de pano em um grande balaio. O colorido de suas roupas me deixa maravilhada e se não é minha avó que me chama, não saio mais de onde estou.

Bêbados trôpegos saem dos botecos, atrapalham-se e à marcha dos transeuntes. Caminho por entre as barracas atravessando a avenida até chegar onde minhas quatro tias-avós, Amélia, Sinhá, Dora e Prazerinha, muito afetivas, vendem cocada, broa, sonho e modinha, sobre uma mesa improvisada com o encosto do banco da praça e algumas tábuas.

Atrapalho-me neste turbilhão de tantas lembranças que se evocam a si mesmas e perco ao tempo sua linearidade. Procuro buscar-me entre os anos como se em mim tivesse guardado pedacinhos de memórias escritas em rodapés de textos ou presas na parte superior das páginas deste caderno empoeirado, onde a vida já escreveu tantos capítulos.


Fecho os olhos e as lembranças inauguram outra cena. Acordamos muito cedo, eu e meu irmão, e estamos vestidos em pijamas de flanela, sentados no batente, e com a porta principal entreaberta. É uma manhãzinha fria de agosto e a rua está coberta por uma espessa neblina. Ficamos em silêncio mergulhados na opacidade que esconde de tudo os seus limites e formas, vendo vultos saírem de dentro dela, como fantasmas vindos do nada. 

De súbito consigo ter a noção materializada do mistério. Ficaremos assim, contidos entre a perplexidade e a fantasia, e estaremos calados vivenciando a sacralidade despejar-se sobre as coisas, até a névoa se dissipar e a avenida revelar-se novamente, longa e definida. Acode-me outra lembrança de um dia de domingo ensolarado.

Estamos em frente ao portão da casa dos meus avós paternos, meus pais, eu e meus irmãos. Do lado direito estende-se um jardim que vai até o quintal, e de lá avança até os pés de um morro cheio de pedregulhos. Duas goiabeiras frondosas, uma com frutos vermelhos e a outra brancos, uma pitangueira e talvez outras que me escapam à memória, ali brilham sob a luz da manhã.

Na sala um comprido banco de madeira está próximo à porta de entrada e compõe um simples e quase harmônico conjunto com o restante dos móveis. Há retratos antigos na parede. Do lado oposto, onde elas formam um vértice, uma rede liga os pontos e cria um ângulo reto. Minha avó tem nela o seu lugar preferido. Izaura Brandão, a mãe do meu pai, é franzina, com feições graves, cabelos grisalhos sempre presos por trás da nuca.

Em ser tão miúda, contrasta com a sua personalidade forte. É uma mulher de curtas, firmes e diretas palavras, que soam sempre como ordens. Ela costuma usar uma saia inteiriça e uma blusa leve. Sobre ela, um casaco vermelho de lã. O seu balançar é bem proporcionado.  Vai e vem, em um ritmo quase perfeito e que não sobra, senão bate-lhe a parede nas costas. A nossa visita é conveniente e sempre se faz breve.

Sobre o meu avô paterno. Todas as tardes ele vem nos visitar. Descansado, atravessa toda a extensão da avenida a passos lentos. Usa costumeiramente chapéu, bermuda e sandálias de couro.  Antes dele, Turco, o seu cão, anuncia-se entrando casa adentro, seguro e tranquilo - um território fora do seu, incorporado aos próprios domínios -, e vai deitar-se aos pés da cadeira onde ele costuma ficar. 

Vovô que tem preferência em estar entre as mulheres da casa, o que o faz muito à vontade, é sempre bem vindo. Sua conversa é descansada e cheia de pausas. Fala sempre sobre coisas passadas ou sobre aquelas as quais os anos tornaram-nas mornas. Sua antiga canoa rio acima, rio abaixo, o calor sufocante do verão, os tempos do plantio e da cultura do arroz ao longo das margens ribeirinhas.

O gosto do café quente. Reclama do suor que lhe desce à testa, e que o enxuga com um lenço que traz no bolso e sobre os parentes vivos e mortos, deles e da minha avó Izaura. Alonga-se nas histórias e conta-as com riqueza de detalhes, personagens, nomes e sobrenomes, sem errar nenhum deles ‘Lembra dona Fulana de Tal, dona Diamantina?’

‘Não estou bem lembrada, Seu Antônio Hilário’ Minha avó recorre à memória, passa a mão no rosto, inclina um pouco a cabeça, ergue a sobrancelha direita e espera. Ele quase se angustia. Ambos esperam. Se falha a lembrança, não há como a prosa andar. O silêncio estabelece-se. Ela, beirando a aflição, entorta a boca, fecha o punho e dá pancadas leves em uma das têmporas e depois cruza os braços bem abaixo dos seios.

E de súbito, lembra. A tensão se desfaz. Meu avô restabelece-se da expectativa e da possibilidade da sua narrativa esfiapar-se e a conversa entre eles prossegue animada, até que outro breve hiato aconteça. É assim todas às vezes. O maior de todos os meus amores e que me ensinou sobre muito do pouco que sei é minha avó materna, que acima contracena com o pai do meu pai.

Nesse momento, cálida e serena, ela está sentada à máquina de costura. É professora de música e por isso fica atenta quando qualquer um de nós aventura-se a cantar. Quando falta à gente, voz, para chegar ao final das melodias, ela antecipa-se e recomenda que façamos um falsete. Encostada à parede, Maria Emília, uma rapariga velha e aposentada do ofício.

No dizer dela, quer despejar em seus ouvidos, todas as novidades que colheu na rua. ‘Quero saber não, mulher. Estou correndo de coisas que me acrescentem mais pecados. Conte a outra. Isso é tentação do inimigo’ e ela desanimada, senta-se em uma das extremidades da mesa, deita a cabeça sobre um dos braços e aceita o café com pão, que a minha mãe vem trazer como consolo.

À memória da minha infância, ainda nela estou, aprendendo encantos para fazer a vida ser do jeito mesmo que será. Das minhas lembranças surge nítido o timbre vocal da minha avó, que sem enxergar direito, mobiliza todo mundo para procurar seus óculos que se esconderam dela e da gente, meninos, nus da cintura para cima.

Temos muitas brotoejas e as costas cobertas de uma mistura de goma e cachaça para aliviar as coceiras que elas provocam. Somos assistentes às agonias de minha mãe que se vexa por qualquer coisa e uma vez ficamos sabendo sobre o meu pai, que saiu a serviço e voltou acidentado, duma viagem inexplicável na companhia de amigos e uma meia dúzia de mulheres alegres.

E que como era previsível, a minha mãe ficou sabendo, entristeceu-se e encheu-se de lágrimas. Outra vez, uma festa de Ano Novo, cuja alegria foi interrompida com a notícia do suicídio do meu primo Zezinho. Eu não entendia como aquilo veio comprometer a beleza do meu vestido de cassa azul com gola branca, incompleto, sem o belo laço vermelho. Minha mãe, brusca, o arrancou sem nenhuma justificativa. Que tem ele a ver com a morte?

Passa-se algum tempo. Estou viajando no banco de trás de um automóvel que faz a curva estrada de barro afora. Em meio à secura da vegetação, o clima hostil, olho dois meninos barrigudos sentados no chão, e que à minha passagem, também me olham. Parecem dois anjos sujos e sem asas, protegendo um cachorro vira-lata, que se passa por protetor deles.

A visão traz-se à memória outra memória, anterior, de uma espetacular paisagem, onde há na imensidão da terra nua e ocre, a única árvore florida. Toda amarelinha, sem uma folha sequer. Só flores. Uma craibeira. A sua beleza entra pelos meus olhos e deixa a minha alma agitada de tanto amarelo. Meu coração enche-se de água e derrama-se pelos olhos.

Emoção em ver meninos, cachorro e aquele amarelão, todos misturados. É um sertão que sei de cor. Outro dia que já amanhece dado às surpresas. Jipes e Pick-ups verdes chegam a Pão de Açúcar e distribuem, ao longo das praças, soldados do Exército em Campanha Para a Erradicação da Varíola Estamos não sei ao certo, em 1967.

Todos serão vacinados. Um dia medonho às crianças. Uns se escondem, enquanto outros choram. Estou com sete anos e tenho medo. Choromingo. Dou sinais de que cairei no berreiro. A minha mãe segura firme a minha mão e explica ‘não dói. Será como picada de formiga’. Confio nela e entrego o braço ao soldado.

É por essa época que passam em frente à minha casa, cortejos fúnebres de crianças vindas de uma desses locais esquecidos, chamados de pontas de rua. Corremos a vê-los. Mortas, as criancinhas parecem enceradas, pintadas de azul, de olhinhos fechados, mãozinhas cruzadas sobre o peito. Tudo indo ser anjo no céu.

É o que me diz a minha avó, para alívio à minha tristeza. A vida me aturde mudando apressada os cenários e um carro de boi passa com rodas que rangem cheio de moringas e esteiras. Os bois vão-se aguentando, um encostado no outro. Mas, aquela história da minha mãe sobre que agulhada de vacina, era igual à picada de formiga, é tudo mentira.

É como saudade. Ainda hoje quando lembro ela dói. É tempo de quaresma. Em casa entramos em clima de seriedade e somos chamados à contrição e às orações. Voltamo-nos à penitência. Um ar quase sombrio, exalando sacralidade paira sobre nós. Mergulhamos na prática católica exigida. Tenho a estranha sensação de estar sendo vasculhada.

Tendo que tomar uma espécie de óleo de rícino santo ou algo especial para purificação da alma. Chega a Semana Santa. A música é banida e o silêncio é pontuado pelos gestos comedidos e a expressão grave com a qual somos policiados. Minha avó nos observa pelo canto do olho. Às vezes algum de nós esquece-se da tristeza imposta e diz ou faz algo engraçado.

O riso é reprovado Voltamos todos à representação da tristeza. Somos oito irmãos e dentre eles, os maiores, mesmo crianças estamos comprometidos com os sofrimentos do Cristo, submetidos em uma espécie de vigília à dor sagrada, vivendo mesmo sem qualquer jeito, o luto santo e querendo sofrer, o mistério, sem sabermos como vivê-lo.

Agora mesmo o lugar onde me acomodo chama-se mãe. Nele a presença forte dela invade todos os espaços de quem sou, cantando cantigas de notas tristes, depois alegres, que se intercalam e abastecem-na quando retraída. Alguma vez destempera-se reclamando de tudo ao mesmo tempo, às vezes cheia de mágoas.

Outras vezes por coisas tolas, explode em sonoras gargalhadas de intensidades variadas, que repercutem no humor da casa. Suas disposições emocionais trafegam ondulantes entre dois opostos em frações de minutos. Ela é alva, de aparência agradável e de boa estatura. Tem cabelos curtos, veste-se com discreta elegância, embora não ostente vaidades.

Vejo-a bonita, fisionomia cotidiana, de uma beleza comum que se confunde entre outras sem destaques. É amante da leitura, bem educada, sensível e ocasionalmente suave... Minha mãe tem atitudes infantis algumas vezes, e agora eu a entendo melhor. Dona de uma constante ansiedade, não admite que opinião nenhuma seja diferente da sua, portando-se como a palmatória do mundo.

Quando contrariada irrita-se com facilidade e perde toda suavidade. Vive colhendo dos livros, as estórias todas de amor e entre um capítulo e outro, deixa-se estar por um tempo com os olhos entre tristonhos e perdidos. Consterna-se, fica meio desiludida e encosta-se à poltrona, imaginando com certeza, que a sua vida está distante de incorporar elementos que configurem os romances lidos.

Suspira. Lê mais algumas páginas, abandona o livro sobre o colo e volta a suspirar. Eu a observo com certa angústia, sentada no chão de cimento frio, enquanto decoro a tabuada. Em outras ocasiões é dada a pieguices, dramatizando situações vistas por onde anda o que me arranca tanta lágrima e soluços, que ela acaba se aborrecendo comigo.

Meu pai é um homem taciturno, de pouquíssimas palavras e de olhos graves. Tem a testa vasta, cabelos sedosos, dentes alvos e um sorriso que até agora não sei definir, pois nem sempre é de satisfação ou aprovação, o que para descobrir é preciso se arriscar muito. Com enorme talento para o desenho, retrata de memória, belas canoas que margeiam as areias do rio.

O que faz cuidando em retratar-lhes toda a beleza nos mínimos detalhes e de maneira realista. Também desenha cavalos maravilhosos. Às vezes me coloca no colo, me beija no rosto e anda de mãos dadas comigo, quando vamos buscar mamãe no trabalho dela. Mas esconde-se sempre no silêncio durante todo o trajeto.

Boêmio, amigo das farras quase intermináveis, ele canta divinamente bem e faz-me de vez em quando, ler em voz alta, para que ele e eu escutemos a poesia de Catulo da Paixão Cearense. Entre um verso e outro, levanta sereno uma das mãos. Faço uma pausa. Ele quer saber de mim o que entendi e quase ordena ‘ Minha filha, sinta a beleza do que ler’.

Descanso temores nas cantigas que ambulantes circulam pela casa. Inauguro todas as novas certezas, ciente de que, as boas lembranças são como um antídoto às coisas ruins. A felicidade instala-se, soberana e mágica. Contamina o ontem e o agora, solicitando da simplicidade, a razão da vida lá no futuro, onde me encontro. Tudo é simbólico e profundo. Recolho à memória o que me sustém e ao meu próprio universo de saudades, incandescentes como as estrelas.     

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

José Alberto Costa Paulo Jacinto das minhas doces lembranças

Esta matéria foi publicada em Campus, suplemento do Jornal O Dia







José Alberto Costa nasceu em Paulo Jacinto-AL. Como funcionário concursado do Banco do Estado de Alagoas, onde permaneceu por 30 anos, chefiou na Assessoria de Comunicação/Marketing. Foi Secretário de Comunicação Social do Governo do Estado de Alagoas (1982/1983). Trabalhou nos jornais: “Diário – Alagoas”, nos semanários “Extra-Alagoas” e “Repórter Semanal”. Fez outros trabalhos freelance para jornais e revistas. Durante dois anos escreveu uma coluna no semanário “A Notícia”. É consultor de texto das revistas “VenhaVer” e “Alagoas S.A” e do Conselho Editorial do jornal “O Dia”. Membro efetivo da Academia Maceioense de Letras e da Associação Alagoana de Imprensa. Participa do Grupo literário “Movimento da Palavra”.
Cronista, contista, contador de causos, poeta e cordelista, publicou o livro “Doce Lembrança” e possui um outro, já finalizado, pronto para publicação. Blogueiro há vários anos (jac-versoreverso.blogspot.com), vem dado destaque aos poetas alagoanos de quem pouco se fala. Participou da antologia “Movimento da Palavra”. 



Dois dedos de prosa com Paulo Jacinto








Volta Campus a trazer à tona, textos sobre a vida de nosso interior e volta a publicar um bom memorialista que consegue visitar sua cidade, cuidar de si e cuidar dos outros.
Zé Alberto é jornalista de nomeada na vida alagoana e homem que participa de nossa vida cultural.
Campus pediu que ele revisitasse sua cidade natal e fizesse os recortes que desejasse para deixar registros da vida local, do seu cotidiano e de sua história.
Deste modo, surge uma Paulo Jacinto que poderia ser somada à outras tantas, pois existirão tantas cidades quantos forem seus viventes.  Eis, portanto, uma Paulo Jacinto entre tantas, uma cidade que surge do olhar atento de um jornalista inteligente e de um homem sensível.
Obrigado Zé Alberto. Na realidade, Campus é um testemunho para a história, um importante documento que fica para futuros colegas historiadores,  jornalistas e tantos outros sentirem os caminhos e as preocupações de nossa época.
Campus fica à espera de qualquer outra sua contribuição. Novamente, obrigado amigo.
Luiz Sávio de Almeida
Na ponte de Paulo Jacinto, abril, 2014
  



Memória memória memória
Paulo Jacinto das minhas doces lembranças
José Alberto Costa

Rua do Comércio, 63. Na verdade, Rua Floriano Peixoto, 63, Paulo Jacinto, Alagoas. Pelo fato de concentrar três ou quatro lojas de tecidos, armarinhos, farmácias, mercearias, padarias, açougue e a feira semanal (aos domingos), os moradores acabaram esquecendo o nome original do nosso Marechal de Ferro, adotando o de Rua do Comércio e o patrono foi quase olvidado. Ingratidão para com o Marechal Consolidador da República brasileira, proclamada por outro alagoano como todo mundo está careca de saber: o Marechal Manuel Deodoro da Fonseca.  Este, apesar das barbas imperiais que ostentava e da espada em riste que impunham respeito, quando algum dos meus colegas de bancas escolares pronunciava o seu nome em classe, um gaiato sempre completava a meia voz: “uma perna fina e outra seca”. Uma ofensa da qual nunca pude comprovar a veracidade.
A Rua Floriano Peixoto virou Rua do Comércio e ficou assim até hoje, pelo menos na boca do povo. Pois nessa rua, no número 63, tardezinha de uma quinta-feira, no dia 21 de maio do ano da graça de 1936, eu estreei no mundo, pelas mãos de competente parteira, madrinha Clara, moradora da cidade de Viçosa. Naquela época a Vila de Paulo Jacinto era dividida entre os municípios de Quebrangulo e Viçosa, coisa que deu trabalho depois para juntar e criar o atual município.
Eu e meus irmãos Zélia - que viveu poucos meses -, Selma, Elma, João e Nivaldo) fomos gerados e nascidos no lado quebrangulense, filhos de uma quebrangulense e de um pai oriundo da Vila de Mar Vermelho, pertencente ao município de Viçosa. Nossos pais foram João Cassiano Costa e Grinaura Sales Cassiano.
Marco zero
O marco zero de Paulo Jacinto é o local da igrejinha de Nossa Senhora da Conceição, onde tudo começou. Na época da emancipação política existiam poucas ruas, as principais eram: Floriano Peixoto (Comércio), Santos Dumont (Rua do Funil), João Pessoa (Rua Preta), São Pedro (Rua do Botapó), da Estação (atual Rua João Cassiano Costa) e outras menores.
A origem
Inicialmente, o nome do povoado foi Lourenço de Cima, pois havia um outro chamado de Lourenço de Baixo. O de cima, segundo consta, foi fundado em 1835 pelo paraibano Antônio de Souza Barbosa, que cuidou de erigir uma capela, sob invocação de Nossa Senhora da Conceição, em torno da qual começou a se formar o povoado.
Lourenço de Baixo, hoje Fazenda São Lourenço, surgiu em decorrência da propriedade agrícola do senhor Lourenço Veiga, que também mandou construir uma capela, que existe até hoje, em homenagem ao santo de sua devoção, São Lourenço.
O desbravador Antônio de Souza Barbosa, considerado fundador da povoação, mudou-se para aquela região com os familiares, levando seus teres, haveres e pessoas agregadas. Fez a doação de considerável área de terra em torno da capelinha, surgindo as primeiras casas residenciais e os primeiros pontos comerciais, ladeando os caminhos que vinham de Palmeira dos Índios e do sertão, seguindo em direção ao povoado Riacho do Meio (Viçosa) e ao Pilar, às margens da Lagoa Manguaba.
Para a construção da estrada de ferro Great Western of Brazil Railway Company Limited, em 1911, pelos ingleses, o proprietário rural Paulo Jacintho Tenório, filho de Quebrangulo, doou grande extensão de terra para a implantação dos trilhos da via férrea. Em sua homenagem o povoado Lourenço de Cima passou a chamar-se Paulo Jacintho, com “th”, como está registrado nas paredes da velha estação ferroviária.

Ouro branco
Desde o seu início, Paulo Jacinto sempre possuiu a vocação agrícola. Ao longo do tempo, acabou transformando-se em região de pecuária, na medida em que suas áreas de plantio foram substituídas por pastos para o gado. Quando a agricultura imperava naquelas paragens havia mais desenvolvimento e, como diziam os antigos, corria mais dinheiro na praça. As feiras semanais estendiam-se da antiga igrejinha de Nossa Senhora da Conceição, seguindo pela Rua do Comércio, ganhando o beco da ponte e parte da Rua São Sebastião. Quase todos os produtos eram originários da região.  Existiam três lojas de tecidos e a filial de uma outra sediada em Palmeira dos Índios (que abria, apenas, nos dias de feira); três mercearias, duas padarias, duas farmácias, armarinhos e outras pequenas casas comerciais.
O forte era o plantio de algodão que levou a multinacional Sanbra (Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro) a instalar uma indústria, para realizar, mecanicamente, o beneficiamento do algodão, com separação da lã (pluma) do caroço que, após embalados, esses subprodutos eram enviados para centros produtores de tecidos e de óleos comestíveis, em Alagoas ou em outros Estados. Durante a safra, mais de 50 operários revezavam-se dia e noite, no trabalho. A produção era transportada pelos trens de carga da Great Western, para diversos destinos.
No início da década de 40, a Sanbra transferiu o controle de suas indústrias de beneficiamento existentes em Alagoas, - Paulo Jacinto, Palmeira dos Índios, São José da Lage e União dos Palmares - para a empresa Siqueira & Tenório que, por sua vez, a transferiu para o nascente Grupo Carlos Lyra, adotando a razão social Algodoeira Lagense S.A. Com o desaparecimento do algodão, já na década de 60, o maquinário foi vendido e os vários  armazéns da empresa adquiridos pela prefeitura do município sobrando, apenas, a casa destinada à residência do gerente, localizada na esquina do conjunto de prédios  e que foi doada ao meu pai, pelos anos de bons serviços prestados à empresa desde a época da Sanbra, Assim, terminou o ciclo do “ouro branco”, acarretando desemprego para muita gente e o enfraquecimento do comércio local.

Luta pela independência
Como foi dito no início, a Vila de Paulo Jacinto encravava-se em terras dos municípios de Quebrangulo e de Viçosa. Durante muitos anos, foi acalentado o desejo de transformação da Vila em município. Muitas foram as discussões em torno do assunto, inclusive, na Câmara Municipal de Quebrangulo, na qual alguns paulojacintenses tomavam assento, representando seus conterrâneos, a exemplo de José Aurino de Barros, Sebastião Costa Barros e Francisco de Assis Barbosa.
Certo final de tarde, presenciei uma cena que ficou gravada em minha memória para sempre. Seu Novo (Sebastião Costa Barros), um dos nossos representantes junto à Câmara Municipal de Quebrangulo, adentra a sala do hotel de sua propriedade e também residência da família, desabafando para sua esposa dona Zefinha:
- Zefa, eu queria saber falar, pra dizer um bocado de coisas na Câmara de Quebrangulo, calando a boca daqueles debochados que ficam falando mal da gente, porque não querem a nossa separação. Isto aconteceu, provavelmente, no início do ano de 1952.
Seu Novo largou a velha pasta de couro que trazia na mão, tirou o paletó e desabou tristemente numa cadeira. Cotovelos apoiados na mesa e as mãos na testa, olhos fechados, era a imagem de um homem vencido. Na sala, além de dona Zefinha, sua dileta esposa, presenciaram aquela cena seus filhos Fleury e Neto, que pouco antes conversavam comigo, além de Tonha, que era pau pra toda obra nos trabalhos do hotelzinho administrado pelo casal.
O hotel de Seu Novo e de dona Zefinha, pais de Neto, Fleury, Valderez, Maria, Leureny e Zé Barros, principalmente durante as férias colegiais, era o ponto de encontro da juventude paulojacintense. A família Barros sempre foi extremamente musical. Seu Novo tocava violão, dona Zefinha cantava músicas da época de sua mocidade, Neto tocava pandeiro, Fleury, violão e as irmãs – Maria e Valderez -, cantavam muito bem. O caçula Zé Barros que nasceu muito depois, não viveu essa época, mas herdou o gene da música e hoje é um grande guitarrista. Leureny destacou-se no cenário nacional através de um programa da TV Tupy, do Rio de Janeiro, comandado pelo apresentador Flávio Cavalcanti. Em um concurso de âmbito nacional, ela ficou em segundo lugar, prejudicada por uma série de injunções.
Baile da Chita
Provavelmente, ali, naquela mesma sala, surgiu a ideia da criação do 1º Baile da Chita, com a finalidade de arrecadar dinheiro para custear as despesas com viagens e outros gastos em busca do apoio de políticos e de figuras de expressão no Estado de Alagoas, que pudessem aderir à nossa causa. Não presenciei esse momento histórico, mas tive o prazer de comparecer ao baile pioneiro, que acabou tornando-se uma tradição já ultrapassando os 60 anos.
O nome da festa derivou do figurino exigido para as mulheres, sem distinção de idade, que deveriam usar vestidos rodados, confeccionados em chita, um tecido muito em voga e que era utilizado pelas mocinhas da zona rural. Os homens trajariam vestimentas estilo caipira.  
Como não existia ainda clube social, o local escolhido para acomodar tanta gente, na previsão dos organizadores, foi um dos armazéns da Algodoeira Lagense, onde meu pai trabalhava. O salão enorme foi decorado com pedaços de chita suspensos, bandeirolas coloridas, balões de papel e, nas paredes, caricaturas desenhadas pelo futuro jornalista Manuel Nunes Lima, ourives de profissão e exímio desenhista, que depois se notabilizou através de suas crônicas do cotidiano e pelas charges, publicadas diariamente no jornal Gazeta de Alagoas. Nunes, embora nascido em Bebedouro - Maceió, vivia com o pai e as irmãs em nossa terra.
O primeiro Baile da Chita realizou-se no dia 22 de julho de 1952 e a festa foi aberta pelo sanfoneiro quebrangulense Júlio Vaqueiro que, espontaneamente, tocou o baião, sucesso de Luiz Gonzaga, “Propriá”. A música, foi repetida várias vezes durante a noite e, no encerramento da festa, quando os dançarinos ganharam as ruas, seguindo o sanfoneiro naquela madrugada fria, cantando alegremente: “Tudo que eu tinha, deixei lá não trouxe não / deixei o meu roçado plantadinho de feijão / deixei a minha mãe, o meu pai e meus irmãos / e com a Rosinha, eu deixei meu coração / Por isso eu vou voltar pra lá / não posso mais ficar / Rosinha ficou lá em Propriá / Ai, ai, ui, ui, eu tenho que voltar / Ai, ai, ui, ui, a minha vida tá todinha em Propriá”.  A música, até hoje, é a característica do Baile da Chita, iniciando e encerrando o evento.
A partir daí, intensificou-se a campanha pela emancipação política de Paulo Jacinto, culminando com a promulgação Lei nº 1747, assinado pelo governador Arnon de Mello, no dia 02 de dezembro de 1953. O novo município foi instalado no dia sete de janeiro de 1954, com a posse do prefeito nomeado José Aurino de Barros, um dos baluartes do movimento separatista, com mandato até a próxima eleição direta (1955), quando deu lugar ao comerciante e pecuarista Francisco de Assis Barbosa, o primeiro prefeito eleito pelo voto popular. Findo o mandato de quatro anos, José Aurino retornou à prefeitura, desta vez pelo voto direto.
Mico eleitoral
 Nas eleições do ano de 1955, votei pela primeira vez. Cheguei a Paulo Jacinto na véspera da eleição, pelo trem da noite e, após abraçar uns amigos que encontrei na estação, segui para a casa dos meus pais que ainda moravam na Rua do Comércio. No trajeto, recebi a notícia: - Você vai presidir a sessão eleitoral no Mercado das Farinhas. Foi um choque. Confesso que não voltei ao trem, para seguir viagem, porque ele já havia partido.
Ao entrar em casa, minha mãe, depois da benção e os afagos normais, entregou-me um ofício, assinado pelo Juiz Eleitoral, designando-me para presidir a tal sessão. Perdi a graça. Meu pai, em sua simplicidade, chegou orgulhoso, abraçando-me alegremente, chamando-me de presidente. Não dormi a noite toda, não vou negar. 
Pela manhã, encontrei meu único terno, branco, engomado até demais, uma camisa de mangas longas, da mesma cor, e gravata preta, o laço dado caprichosamente pelo meu pai, pronta para ser ajustada ao meu pescoço, como o laço de uma forca. Quando saí para o enfrentar a nova e desconhecida função, fui abraçado por várias pessoas. Ao entrar no tal mercado das farinhas, que nem parecia aquele local poeirento, com permanente cheiro de suor dos feirantes e fregueses, fui saudado pelos que compunham a mesa eleitoral.
Destinaram-me a melhor cadeira e amontoaram em minha frente vários papéis com timbres oficiais. Eram as instruções, código eleitoral e sei lá mais o quê. Como redigir a ata? Felizmente um modelo detalhado salvou-me da vergonha. Aí foi fácil. A eleição transcorreu sem qualquer incidente.
A urna era um trambolho de madeira, envernizada, com uma portinhola na parte superior, fechada por cadeado.  Às dezessete horas em ponto, as portas foram fechadas e a votação encerrada. Lacrada a urna e observadas as exigências da Lei, a ata de encerramento foi redigida, contendo o número de votantes e de faltosos, além de outros dados. Lacrada a tal urna, designei uma pessoa para conduzi-la ao local onde ficaria recolhida, sob a guarda da Polícia Militar. Para meu espanto, quase recebi ordem de prisão, porque eu próprio deveria levar a urna e fazer a entrega aos responsáveis por ela daí pra frente.
Andando pelo meio da rua principal da cidade, levando aquele trambolho praticamente no colo, porque não dispunha de alças ou puxadores para facilitar. Paguei o maior mico de minha vida. Sujei o terno branco e suei para caramba. Presidi a primeira eleição direta, fiz história, porém não deixei minha assinatura na calçada da fama.
A paróquia
Durante a dominação de Quebrangulo, embora existisse a capela de Nossa Senhora da Conceição, construída pelo pioneiro Antônio Barbosa Barros, as missas eram rezadas uma vez por mês, pelo pároco da sede do município, padre Moisés dos Anjos.
A paróquia de Paulo Jacinto foi criada por ato do então Arcebispo de Maceió, Dom Ranulpho da Silva Farias, em 1948, quando o nome da padroeira foi trocado para Nossa Senhora das Graças. O primeiro padre designado foi o cearense José Jesuflor. Ele criou a Escola Paroquial, que funcionou por alguns anos e da qual fui aluno durante os anos de 1948 e 1949, quando me transferi para Maceió, para enfrentar o Exame de Admissão ao Ginásio do Liceu Alagoano. Minha alfabetização, entretanto, aconteceu graças à paciência do professor Teodomiro Alves de Oliveira e uma tal Cartilha das Mães.
O segundo pároco, Padre José Monteiro, um sertanejo de Tacaratu, Pernambuco que, com seu jeito acaboclado, logo angariou a simpatia de seus paroquianos e tratou da construção da igreja matriz. A senhora Maria Luiza Torres Barbosa, esposa do comerciante Francisco de Assis Barbosa, cuidou da decoração interna do novo templo. Artista plástica, pianista e cantora lírica, ela realizou uma obra digna de admiração. Ela também foi autora da bandeira e do hino oficial. A igrejinha original acabou demolida, quando deveria ter sido preservada como um marco histórico da fundação da cidade.
Um fato hilariante ocorreu, quando a prefeitura construiu uma praça na frente da nova igreja, colocando o busto do fazendeiro João Duda. Um artesão muito conhecido e respeitado na cidade, resolveu reivindicar para si homenagem igual, pelos serviços prestados à comunidade durante tantos anos.
Um dia, enchendo-se de coragem, adentrou o gabinete do prefeito levando uma carta reivindicatória de tal honraria. O prefeito que se encontrava reunido com alguns vereadores e amigos, leu o documento e perguntou ao artesão: - “O senhor deseja realmente o que está escrito aqui?”. Diante da afirmativa do requerente, ele continuou: - “Veja bem, o senhor está pedindo para que seja colocado o seu ‘bustiê’ em uma praça. O senhor sabe que “bustiê” é uma peça do vestuário feminino, que as mulheres também chamam de corpete?” O homem empalideceu de repente, tomou o papel das mãos do prefeito e nunca mais pôs os pés naquele prédio.

Celeiro de padres e jornalistas
O município de Paulo Jacinto acabou transformando-se num celeiro de vocações eclesiásticas. Vejamos: o primeiro foi Monsenhor Pedro Teixeira Cavalcante, ordenado em Roma, atualmente pároco da Igreja do Divino Espírito Santo, em Maceió, que recentemente construiu e inaugurou o Carmelo de Santa Terezinha, no distrito de Riacho Doce. O Bispo José Francisco Falcão Barros, nomeado Bispo Auxiliar do Ordinário Militar do Brasil, Monsenhor Petrúcio Bezerra e os Padres José Cláudio da Silva, Wendel Assunção Gomes (atual pároco) José Ailton de Assunção, José Edvaldo dos Santos, José Carlos Emanuel, José Clodoaldo de Almeida Santos, Manoel Paulo Antero de Assunção e Francisco Teixeira.

No jornalismo figuram os seguintes profissionais: Salésia Ramos, Marcelo Firmino, José Feitosa (Zé da Feira), Fátima Almeida, Elenilda Oliveira, Clarissa Veiga, Lucas França (concluindo jornalismo/estagiário da TV Gazeta), Marcondes de Aquino (estudante de Jornalismo) e Laurentino Veiga (presidente da Associação Alagoana de Imprensa), todos em plena atividade.
O Campo de Pouso
Certo dia, o ronco de um “paulistinha” assustou a nossa pacata vila. Era um aviãozinho amarelo, do Aeroclube de Alagoas, como fiquei sabendo depois. Sumiu lá para os lados da Serra Grande, nosso relevo geográfico mais destacado. Depois ouvi a gritaria: “O avião está lá no campo de futebol”. Corremos todos para ver aquele fato inusitado. Do avião haviam descido o piloto e um acompanhante ainda bem jovem. Acabamos descobrindo que o mais novo se tratava do José Aloisio Costa, nascido em Pindoba, estudante de odontologia e aluno de pilotagem. Costinha, para os íntimos.

Outros voos se sucederam, alguns comandados pelo aluno Costinha. Veio logo a ideia de se construir um campo oficial, para pouso e decolagem de “teco-tecos” como eram chamados aqueles brinquedos voadores. Daí nasceu o “Campo de Pouso Cadete-Aviador Moacydes Caparica”, inaugurado com festança, em homenagem ao filho de um caixeiro-viajante que abastecia lojas e armarinhos da cidade mensalmente. O patrono havia morrido em acidente durante um voo de treinamento da FAB. Depois de algum tempo os aviões desapareceram e nosso “aeroporto” acabou.



Matriarcado
Quando a vice-prefeita Maria José Fontan assumiu o comando do município, em razão do falecimento do titular, Joaquim Borba, toda administração municipal foi ocupada por mulheres. Por uma feliz coincidência, a Juíza Nelma Torres Padilha havia sido nomeada para aquela comarca. As secretárias municipais e diretoras de escolas nomeadas foram: Elma Canuto, Maria Izabel Costa, Nize, Grináuria Teixeira, Eloisa Cavalcante, Grináuria Barbosa, Joana da Silva, Josefa Luíza Pereira, Francisca Correia e Maria Araújo Feitosa. Isso rendeu uma matéria no “Fantástico”, da Rede Globo de TV.


Exercício de memória

Aceitando o desafio proposto pelo professor Sávio Almeida, me dispus a registrar alguns fatos sobre a minha querida terra Paulo Jacinto, antes que a memória se torne prisioneira do “alemão” impiedoso. Escrevi algumas coisas presenciadas por mim ou associadas à minha vivência e também ao que contavam os meus pais. Não tive a pretensão de escrever a história do município ou a de sua gente, apenas relatos puxados lá do fundo da cachola. Um verdadeiro exercício de memória.

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