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sexta-feira, 26 de maio de 2017

História: os lugares e os caminhos

Sempre tive  grande admiração e carinho por Elói, um homem extremamente simples, inteligente e intuitivo. Para mim, ele produziu uma pequena joia da historiografia em Alagoas, sobre os caminhos de Viçosa, mostrando a sua engenhosidade de perceber as interações que fazem o lugar.
Tive a honra de, a seu pedido, participar de uma das edições do seu livro sobre os caminhos que montam e fazem a vida econômica de Viçosa, ao longo da rota de acumulação que andou pelas trilhas do Vale do Paraíba.  Em sua homenagem, vamos publicar uma parte deste livro, digitada por Glessy Kelly que decidiu nos ajudar. Suprimimos algumas partes e, no original, estão corretas as citações bibliográficas.
Tenha o prazer de ler o que o velho homem disse sobre o velho local que sempre foi seu.
Luiz Sávio de Almeida






Velhos Caminhos de Viçosa
Elói Brandão de Sá

  
[...]
        A mais antiga referência sobre os caminhos do oriente e do ocidente, integrantes da estrada do Vale do Paraíba, que ligava a Vila de Atalaia ás terras de Quebrangulo, passando obrigatoriamente pelo povoado Riacho do Meio, vamos encontrá-la em Alfredo Brandão: “A região do vale do Paraíba, compreendida entre a cidade de Atalaia e a povoação da Passagem, era desabitada e coberta de espessa mata. Uma estrada tortuosa, que ora marginava o rio, seguindo bem perto das suas barrancas, ora se distanciava, internando-se pelo coração da floresta, dirigia-se para o sertão, ligando entre si os dois pontos povoados” (o grifo é nosso). Por esta informação do historiador viçosense, a qual remonta à primeira metade do século XVIII, verifica-se que aquela região podia ser despovoada, mas a estrada já existia. E não apenas existia, mas já devia ser bem movimentada.
   O caminho do nordeste, subindo o Cento e Vinte e avançando pelo planalto da Fazenda Velha, também já era palmilhado.
   Por ele passara muitas vezes, entre fins do século XVIII e princípios do XIX, o fundador de Viçosa, Manuel Francisco, que por lá abriu roçados de algodão. “Homem ativo e trabalhador, o fundador da Viçosa continuou com o plantio do algodão e estendeu os seus roçados para os lados do norte, até muito além do “Cento e Vinte”, legando o seu nome a uma ladeira que fica entre a Fazenda Velha e o Limoeirinho, no antigo caminho do Barro Branco” (o grifo é nosso).
    De qualquer forma, embora não se possa fixar a época em que se formaram aqueles velhos caminhos, o que importa, sobretudo, é que foram fundamentais para o desenvolvimento econômico e social de Viçosa.
   Pelo caminho da Vila da Imperatriz chegavam à Vila Nova da Assembléia, e mais tarde à cidade de Viçosa, numerosas cargas de açúcar bangüê, procedentes de antigos engenhos situados ao norte e nordeste do município. Grande parte desse açúcar destinava-se ao Pilar, importante centro comercial que, na segunda metade do século XIX, constituía uma espécie de entreposto para onde convergiam os produtos dos engenhos da zona da mata. “Nascida em engenho, e em torno dele crescendo e desenvolvendo-se, Pilar tornou-se importante núcleo do comércio açucareiro, talvez pela facilidade e barateamento do transporte para a capital, pela lagoa e canais. De Atalaia, Capela, Anadia, Viçosa, o açúcar descia para o Pilar, e daí em barcaças era transportado para Maceió”.
   Diferentes ramais derivavam desse caminho da Imperatriz: um, que levava o viajante ao engenho Queimado e ao povoado Santa Efigênia, bem perto da linha divisória Viçosa-Capela; outro que, passando pelos engenhos Barro Branco e Bom Jesus, ia adiante encontrar-se com uma antiga estrada em direção a Pernambuco; e vários outros, menores, que se comunicavam com os engenhos não situados à margem do caminho geral.
    No período de 1860 a 1895 encontravam-se nessa zona norte-nordeste de Viçosa diversos engenhos de açúcar, alguns dos quais sobressaindo pela capacidade de produção. Entre os mais antigos e importantes, destacamos o Barro Branco, de Pedro José da Cruz Brandão; o Boa Esperança, de Firmino Rebelo Torres Maia; o Bom Jesus, de João Tenório de Albuquerque; o Bonito, de Francisco Florentino Tenório de Albuquerque; o Cruzeiro, de Joaquim Pereira Ávila; o Ingazeiro, de Elias Constâncio Brandão; o Mata Verde, de João Aprígio dos Passos Vilela; o Três Paus, de Joaquim Pereira Ávila.
    Pelo caminho do Sul – por muitos conhecidos como caminho da Pindobinha ou da Gereba – que ligava Viçosa a Anadia e Mar Vermelho, também era conduzido açúcar de vários engenhos, entre os quais: o Gereba, de Apolinário Rebelo Pereira Torres; o Cambuim, de Vicente Ferreira do Nascimento Rodas; o Amazonas, de Adrião Pereira da Silva; o Areia, de José Florentino Pereira Torres; o Pedras de Fogo, de Lourenço José da Silva, e o Timbó, de José Raimundo dos Santos. Mas o principal movimento comercial através desse caminho era representado pelo algodão, cuja produção provinha não só de fazendas localizadas no município de Viçosa, como Paturi, Pedras de Fogo, Pindobinha e Gereba, mas também de algumas propriedades de Anadia e Mar Vermelho. As pesadas cargas do “ouro branco”, descendo as escarpas da Pindobinha, destinavam-se ás antigas bolandeiras da Vila Nova da Assembléia, substituídas mais tarde pelos descaroçadores ou vapores de algodão, tão conhecidos em nossos dias. No período de 1910 a 1935 essas máquinas de beneficiar algodão tiveram importância vital no desenvolvimento econômico do município.
[...]

   
Quanto ao caminho do ocidente, havia dois ramais: um para Paulo Jacinto e Quebrangulo, marginando o Paraíba e o Caçamba, e outro para Palmeira dos índios, em demanda do sertão.
    Por esse caminho a Vila de Assembléia recebia açúcar e gado. Açúcar fabricado pelos engenhos Bananal, de Quintiliano Vital dos Santos; Caçamba, de Nuno Rebelo Lúcio e Silva; Caçambinha e Flor do Caçamba, de Tertuliano de Holanda Cavalcante; Baixa Funda, de Caetano Donato Brandão; Firmeza, de José Alves Paes do Bonfim; Chã Preta, de Romualdo José de Souza.
    O gado bovino, procedente do sertão, era geralmente transportado via Palmeira dos índios, Quebrangulo e Paulo Jacinto. Já em terras de Viçosa, as boiadas seguiam pela margem esquerda do Paraíba, passando pelo antigo engenho Veados, de Manuel José de Oliveira Mata, e pelo sítio Cruzes, de José Gonçalves Carnaúba. No verão, as boiadas continuavam por uma estrada larga e meio arenosa, indo atravessar o Paraíba numa ampla passagem existente logo após o sítio Cruzes. Tomavam agora a sua margem direita, para sair no ponto denominado Barra do Caçamba, na confluência deste com o Paraíba. Tal itinerário, a partir da última década do século XIX, tinha a vantagem de evitar perigosos cruzamentos com a estrada de ferro. Na época invernosa, porém, ou ocasionalmente quando havia enchente no Paraíba, os tangerinos guiavam o gado por um caminho estreito, geralmente entre o rio e a via férrea, indo depois de meia légua alcançar o antigo povoado, atual vila de Anel, prosseguindo pelas fazendas Caçamba e Limoeiro, até desembocar em um dos mais velhos lugares de Viçosa – a secular Mata Escura. Em seguida, subindo a chamada ladeira do Descansador, na fazenda Dourada, as boiadas descambavam para outra ladeira – uma descida em tanto difícil, apesar de parcialmente calçada de pedras irregulares – e penetravam na cidade por um caminho antigo, quase paralelo à montanha da Mata Escura, do qual se originou a rua do Cravo, hoje denominada Senador Ismael Brandão.
   E se esses caminhos – o do norte, o do sul e o do ocidente – contribuíram fundamentalmente para o desenvolvimento econômico de Viçosa, maior importância ainda teve o do leste ou da serra Dois Irmãos, pois através dele se processava toda a exportação de açúcar e gado para Pilar e Maceió, bem como a importação de gêneros indispensáveis ao comércio viçosense. E não só na parte econômica, mas também na social, concorreram esses caminhos para o crescimento do município. Sem eles não teria sido possível o intercâmbio de Viçosa com várias cidades, como Anadia, Atalaia, Cajueiro, Capela, Maceió, Mar Vermelho, Palmeira dos Índios, Paulo Jacinto, Pindoba, Quebrangulo, União dos Palmares e Correntes (Pernambuco).
    Senhores de engenho e fazendeiros que iam à vila tratar de negócios ou, com suas famílias, assistir às festas de Natal, Ano-Novo e Bom Jesus do Bonfim, padroeiro de Viçosa; chefes políticos ou simples eleitores, da zona rural, nos dias de eleições, como naquele distante e agitado janeiro de 1878 (8), quando conservadores e liberais se desentenderam e as ruas da pacata Vila de Assembléia foram invadidas por capangas; sinhás-donas, em seus belos cavalos de sinhão, ou em fofas liteiras conduzidas por negros escravos; “coronéis” montados em castanhos baixeiros; os noivos que, acompanhados de tradicionais comitivas, iam casar-se na igreja matriz da “rua”, dia de sábado, como ainda hoje se usa; bandos de feireiros, ora conduzindo pesadas cargas de cereais, ora esquipando em quartaus rudados; o ronceiro carro de bois – o veículo agrícola da época – a cantar estrada afora, transportando lenha da mata para as fornalhas dos engenhos; dançadores de reisado, com malote às costas, no período das festas natalinas; zabumbeiros e tocadores de pífano, esses valorosos músicos populares de todos os tempos, que iam abrilhantar os leilões de São Sebastião ou do Bom Jesus ou de N. S. da Conceição – toda essa gente, sem distinção de cor e posição social, quer os que residiam em confortáveis casas-grandes de engenho, quer os que viviam em míseros casebres de palha, toda essa gente, no passado distante, percorreu os Velhos Caminhos de Viçosa.       
  
 Os Caminhos da Serra Dois Irmãos


  Dentre os primeiros caminhos que determinaram as comunicações entre as terras de Viçosa e outros municípios alagoanos, o mais antigo, sem dúvida, é o do leste ou da serra Dois Irmãos. Sua antiguidade, como caminho natural de tropa, presume-se remontar aos primeiros anos setecentistas. Sua importância comercial, todavia, somente no princípio do século XIX começa a se evidenciar. E a sua grande contribuição para o desenvolvimento municipal não deve ser considerada apenas em relação a Viçosa, pois também foi ele indispensável a uma vasta zona do vale do Paraíba, compreendendo várias unidades populacionais.
  Em época muito distante dos nossos dias, quando a atual cidade de Viçosa, ainda sem expressão demográfica e econômica, era apenas um sítio circundado de capoeira grossa, esse antigo caminho constituía a via única de penetração para o viajante que, galgando a serra, desejasse alcançar determinadas paragens do sertão alagoano ou do território pernambucano.   
   Poderia ser um caminho estreito, tortuoso, ora em mata fechada, ora em espaços rasgados através de capoeira rala, onde por muito tempo sempre estivera ausente qualquer obra de engenharia, mas o fato é que ele está geográfica e historicamente vinculado aos fundamentos não apenas de Viçosa, como ainda de outros municípios do vale do Paraíba.
   Ora beirando o pedregoso Paraíba, aqui cortando o seu fertilíssimo vale, ali varando as escarpas da serra Dois Irmãos, adiante estirando-se em longos trechos de puro massapé – a verdade é que essa velha estrada contribuiu, de modo inequívoco, para a formação socioeconômica da cidade de Viçosa.
 [...]


   Por ele chegaram ao referido povoado, nos anos que precederam á formação urbana de Viçosa (1820-1830), os que se deslocaram de vários pontos da Província e em Viçosa se estabeleceram, adquirindo por valores ínfimos grandes áreas de terra, oriundas de sesmarias formadas após a luta dos Palmares. Ao lado desses latifúndios foram sendo construídos, pouco a pouco, os primeiros engenhos bangüês de Viçosa, movimentados por tração animal. Já em 1849, no “mapa dos engenhos de fabricar açúcar moentes e correntes da província das Alagoas” (3), figuram quatro desses mais antigos estabelecimentos: o Dois Irmãos, de José Martins Chaves; o Jacu, de Afonso de Albuquerque Melo; o Quizanga, de Manuel Bezerra de Vasconcelos, e o Bananal, de Manuel Carneiro da Cunha.
[...].
  Em meados do século XIX, quando Vi çosa contava cerca de 30 engenhos safrejando, o produto era transportado, a princípio, para o Pilar, principal centro comercial entre a capital e a região da Mata, e onde se encontravam diversas firmas atacadistas, dispondo já de grandes armazéns. Já em 1871, a Vila do Pilar era considerada “a primeira da província pelo seu importante comércio, edificação e povoação; tem 847 fogos – 10 sobrados, 389 casas de telha e 448 de palha; tem ela mais três trapiches, 3 igrejas, uma mesa de rendas gerais, outra de rendas provinciais, uma agência do correio e quatro cadeiras de primeiras letras” (4). Mais tarde, quando o movimento comercial daquela cidade lacustre começara a declinar, o açúcar exportado pelos bangüês da Vila de Assembléia seguia diretamente para os armazéns de Jaraguá, em Maceió. Paralelamente à saída do açúcar, verificava-se a necessidade aquisitiva de certos artigos importados, indispensáveis à subsistência da população assembleiense, sobretudo gêneros alimentícios, tecidos, calçados e medicamentos. E, nesse intercâmbio comercial, era o velho caminho a única via de comunicação, cuja influência econômica, como podemos observar, não se restringia à Vila de Assembléia.
   Em numerosos documentos oficiais do período provincial vamos encontrar aquele caminho do vale do Paraíba – inclusive o trecho da serra Dois Irmãos – figurando entre as principais estradas da província. Já em 1862, referindo-se a essa estrada como importante via de comunicação para abastecer a capital, informava o presidente Antônio Alves: “A estrada que se dirige desta capital às vilas de Atalaia e Assembléia e povoação de Quebrangulo, e a que segue para a Imperatriz, são as vias de comunicação por onde se transporta a maior parte dos gêneros que vem para o mercado desta capital e são as que em todos os tempos mais têm merecido a solicitude desta assembléia e do governo provincial. Estou persuadido que neste ramo de serviço, que se liga aos interesses da agricultura e do aumento da renda pública, um dos maiores benefícios que se pode fazer à província será reparar e aperfeiçoar essas duas estradas, de modo que se prestem ao trânsito dos carros ainda na estação invernosa”.
  O valor comercial desse antigo caminho está bem caracterizado através de um velho relatório de junho de 1867, onde se informa que o governo mandara proceder a um levantamento do terreno compreendido entre a capital e os municípios considerados centros produtores: “Um dos mais vitais interesses desta província é, sem dúvida, o melhoramento de suas estradas, se é que tal nome se pode dar aos caminhos que ligam entre si os diversos pontos povoados, por onde se faz o comércio e se exportam os produtos da lavoura da província. Duas são as principais vias de comunicação que ligam os municípios centrais e produtores da província a esta capital: a que se dirige para a Vila da Imperatriz e a que, partindo do Pilar, se encaminha para Atalaia, Assembléia etc. Cumpre, pois, que Vmcê, como trabalho preliminar, proceda a um reconhecimento do terreno compreendido entre esta capital, Imperatriz, Assembléia, Atalaia e Pilar, determine a posição geográfica de todos estes pontos, assim como de outros, cujo reconhecimento for necessário para o estudo perfeito das estradas que pretenda construir”  (O grifo é nosso).

  Em outro documento de 1871, novamente se evidencia a importância econômica dessa estrada do vale do Paraíba, passando pela serra Dois Irmãos, que servia a uma microrregião agricolamente das mais ricas: “As principais estradas da província são: 1º a do Norte; 2º a da Imperatriz; 3º a de Atalaia; 4º a de Anadia; 5º a do Sul (...). A terceira é um ramal que, partindo da estrada da Imperatriz além do riacho Bebedouro ou Luiz da Silva, passa pelos povoados denominados Fernão Velho, Carrapatinho, Pedro da Cruz, Boca da Mata, Capela, Cajueiro, Gameleira, Sabalangá, Quebrangulo e vai ás vilas de Atalaia e Assembléia, terminando na povoação da Cruz de S. Miguel, cujo território é contestado a esta pela província de Pernambuco. É esta a zona mais povoada e produtora desta província; e, não só por este motivo, como pelo da conversão de grande parte do comércio do centro de Pernambuco para esta capital e para a Vila do Pilar, é a estrada de Atalaia, a meu ver, de todas quantas possuímos, a mais freqüentada e conseguintemente a que mais urgentemente reclama atenção do governo, atento ao péssimo e perigoso estado em que se acha em quase toda sua extensão”.
   Na década de setenta, embora o comércio da Vila de Assembléia ainda se apresentasse pouco desenvolvido, já o número de engenhos espalhados pela zona rural havia se elevado a 32, destacando-se, pelo valor da produção, os seguintes: Baixa Funda, de Caetano Donato Brandão; Bananal, de Quintiliano Vital dos Santos; Barro Branco, de Teotônio Torquato Brandão; Boa Esperança, de Firmino Rebelo Torres Maia; Boa Sorte, de José Martins Ferreira; Brejo, de Carolina Leopoldina de Farias; Firmeza, de José Alves Paes do Bonfim; e Gereba, de Apolinário Rebelo Pereira Torres.
   Várias localidades que comerciavam com a Vila de Assembléia também começavam a progredir na agricultura, na indústria rural e no comércio de açúcar, entre as quais a Vila da Imperatriz, hoje União dos Palmares, e as povoações de Capela e Murici. Muito mais importantes do que estas, porém, eram Pilar e Atalaia. Pela sua posição geográfica, ponto intermediário da zona da mata com a Capital, a Vila do Pilar era grande praça importadora de açúcar e muito cedo atingira a categoria de cidade (1872), suplantando as suas circunvizinhas. Atalaia, o velho arraial de Domingos Jorge Velho, embora ainda não fosse cidade, era vila influente com vários estabelecimentos comerciais e numerosos engenhos bangüês. O desenvolvimento dessas localidades sob o ponto de vista econômico e demográfico, estava, agora, a exigir do governo providências inadiáveis quanto ao melhoramento das condições da estrada do vale do Paraíba, passando pela serra Dois Irmãos.



sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

História do Teatro em Alagoas - Homenagem a Bráulio Leite Júnior II



Esta é a segunda parte da homenagem prestada ao Bráulio, com a ajuda de sua filha Duce,





Uma nota de Duce Leite

Já era para ter feito isso mas, a emoção não nos permitiu... mas agora vamos lá... 



A vida foi muito boa comigo. Boníssima. Sempre.




Hoje acordei com um lindo sol na cara, e tinha certeza que uma coisa muito especial havia acontecido. Ele veio até mim, meu pai, através das palavras do professor Savio Almeida. Aplausos. Bravos é o que nós da família damos, pois conseguiu de uma forma natural colocar no papel o que foi o nosso Braulio Leite amigo, marido, pai, avô, sogro e todas as outras linhagens. Poucos conseguiram mostrar realmente o que foi esse homem grande e de um coração maior do que todo seu peso.




Foram dias de conversas, trocas de informações, cobranças disso e daquilo mas, que ao final deu-se essa matéria rica, simples e de um sabor inesperado...Única e exclusivamente uma homenagem ao amigo.


.

Nós agradecemos pela sua amizade e carinho por nós todos dedicados, e saiba que a recíproca é verdadeira.


 Beijo Grande.


Foi exatamente nesta época que nossa amizade começou. Andamos muito nesta Rural ; está estacionada ao lado do oitão da Igreja de Santa Luzia.

Se podermos perfilar, numa linha de frente, os homens que fazem a grandeza de nosso Estado, pelo trabalho honesto, criterioso e até desprendido no campo de suas atividades, naturalmente que Bráulio Leite Júnior formaria nos primeiros lugares, tal a operosidade de seus misteres, muitas vezes mais criativos do que técnicos, mas inteligentes do que esquematizadores. Homem de agilidade mental surpreendente, não dispensa o calor humano aos seus empreendimentos, empolgando, contagiando e cativando a todos nós pelo poder de convencimento, pela mobilização que faz em favor de suas iniciativas, pela persistência com que sabe lutar pelos seus ideais. 
Coluna Opinião. Jornal de Hoje.

Edna: a esposa

Dois dedos de prosa

Sem dúvida, Bráulio Leite Júnior foi um dos mais importantes alagoanos durante o correr de todo o século XX. Homem simples, honesto, inteligente teve uma vida digna ao lado de sua família.  Fomos íntimos amigos. Certo ou errado (também, como qualquer um, ele  errava) jamais deixou de ter coragem para defender suas posições e sempre na vida jogou limpo, jogou de frente.
Ele não precisa de homenagem, mas o reconhecimento permanente, sem dúvida, nós devemos dar.
Este suplemento foi realizado pela diligência de sua filha Duce Pontes e através dela quero abraçar a Edna.
As crônicas reproduzidas foram retiradas do seu livro Algumas crônicas escolhidas, publicado em Maceió no ano de 2005.
Vamos ler.
Sávio
Gustavo: filho


Bráulio, uma grande figura e um grande amigo
Luiz Sávio de Almeida

         Bráulio Leite Júnior foi um dos meus grandes amigos; não éramos de viver encangados, mas era daquela amizade em  que o espaço e o tempo não incomodavam e quando nos víamos, tudo fluía como se nada tivesse mudado. Sabíamos do outro o que bem desejássemos e nos abríamos sem qualquer escondido, quando desejávamos desabafar a vida. Não foram poucas as vezes em que ficamos os dois, três, quatro horas falando.
         Tivemos algumas aventuras juntos e lembraria de muitas, mas no momento, bateu uma na cabeça.  O Teatro Deodoro tinha uma divisão diferente: o gabinete dele, ficava do lado esquerdo, onde hoje fica a bilheteria, Ele mandou me chamar e pediu para não sair do lado dele no gabinete.  Iria passar no palco, a famosa Liberdade, Liberdade dirigida pelo Flávio Rangel. O presidente do DCE da UFAL era Radjalma Cavalcante e o DCE havia intermediado a vinda do espetáculo.  E eles tiveram papel essencial; eu somente estou falando da parte do Bráulio, com a qual convivi dentro daquele gabinete simples mas limpo e preservado..
         Pauta reservada, anunciado e de repente chega a ordem: o espetáculo não poderia ser apresentado.  É quando Bráulio manda me chamar e nos trancamos e vi a firmeza como, depois de telefonemas sucessivos, aquela figura humana imensa, dizia que jamais faria isto, que a pauta havia sido dada e era sagrada. Foram cinco a dez telefonemas e a expectativa era grande. No silêncio que ficamos depois de um período mais conturbado, talvez pelo nervoso do quadro, começamos a rir e a hora do espetáculo chegando. O que poderia acontecer? Jamais a ordem para cancelar o espetáculo partiria do Teatro Deodoro.
         A quebra de braço continuava; em nenhum momento Bráulio abriu  mão. E foi e foi e o Deodoro ficou aberto. Tudo resolvido. Ele me pergunta para onde eu iria. Disse que ver o espetáculo. E  ele me pediu: quando terminar passe aqui. Pois bem, vi o espetáculo e passei no Gabinete. Saímos para jantar: o Flávio, o Bráulio e eu. Acho que ainda era o tempo da Churrascaria Galo de Campina. O papo não parava e lá pelas três da manhã o garçom dormiu. Flávio Rangel foi lá e deixou um bilhete: “Jacaré que dorme no ponto, quando acorda é carteirinha!”.
O do Bráulio dizia para não se preocupar: iríamos pagar no outro dia e de safadeza deixou meu telefone. Fomos pagar e com isto, demos por fim o dossiê Liberdade, Liberdade no Teatro Deodoro.  Um homem profundamente emocional teve uma paciência imensa e não arredou o pé do lugar.
Esta é uma das que vivi com Bráulio Leite Júnior, vi e partilhei inúmeros sonhos do Bráulio. Ele queria sempre uma Alagoas boa,  e, embora pareça exagerado, não fosse ele, o Teatro Deodoro talvez não existisse.  Foi ele quem construiu o Teatro de Arena, quem estruturou a Fundação Teatro Deodoro, quem inventou de  fazer e fez o Museu da Imagem e do Som. Foi ele quem deu vida a Os Dyionisios. Criou muita coisa.
Pois este homem, aos 81 anos de idade, sem pedir permissão à cidade e aos amigos, faleceu e com toda a certeza, deixou-me com uma permanente saudade. Sei que levou muitas aventuras e muitos passos de vida comigo. Era turrão e não escolhia palavra. Nunca brigamos, nunca discutimos, nunca aconteceu a mínima farpa.
Tem dia Bráulio  que lembro de você e começo a sorrir. Lembra de quando a gernte vendia máquina de lavar roupa, que se telefonava para hotéis e restaurantes oferecendo uma máquina já esqueci a marca inventada?  Era Brascheta... E se explicava as maravilhas que ela fazia? Tou morrendo de rir agora. Pois é: os grandes heróis como você foi, não esquecem do menino que foram. Muitos hotéis ficaram sem a miraculosa Beascheta.
Eu escrevi estas linhas com o coração. Poderia ter escrito de outra maneira, algo formal e intelectualizado. No entanto, jamais conseguiria, pois o grande apelo do Bráulio para mim, é a recordação da amizade que sustentamos e ela foi isso: alegria, cumplicidade e extrema confiança pessoal. E isto para mim é um orgulho, pois considero Bráulio a grande figura do teatro de Alagoas no século passado. É mentira que Bráulio esteja esquecido; isto jamais acontecerá, o tempo e as evidências sempre estarão lembrando o seu nome.
Prefeitura de Maceió! Que tal um bronze do Bráulio, olhando para o porto como gostava de ficar ou da Praça Deodoro olhando os dois teatros: um que ele construiu e outro que perseverou em manter e conservar? Claro que outros fizeram isto: conservar. Mas Bráulio foi uma vida inteira. Marechal Deodoro precisa de companhia naquela praça, que é uma das  desditas urbanas de Maceió.
Que tal uma placa na entrada da rua onde ele morou, Prefeitura? Coisa assim:
Como esta rua é minha
Mandei ladrilhar
Com pedrinha de brilhantes
Para o Bráulio Leite Júnior passar!
Cidade de Maceió.



Dr. Biu

           
 Eu o conheci lá pros meados dos anos 50. Enfatiotado num terno de linho branco, cujo preço “quem dava era o vento” ou um “sirocco pele de ovo”, dançava todas as noites na “Pensão da Dina”, meretrício de Jaraguá, caçado em sapatos “Polar” bicolor e coberto por um chapéu de feltro “Ramenzoni”. Mulato ainda moço, bigode aparado e barba escanhoada, dançava tango para uma plateia que, quase sempre, o incentivava com risos e aplausos. Perguntei, quando o conheci: - Quem lhe ensinou a dançar tango? E ele, num muxoxo, com voz anasalada e gemida na última sílaba, respondeu: - Foi no cinema. Assisti o filme quatro veiz e aprendi as “queda”... Aquele dançarino (era Fred Astaire) pra mim é pinto...
            Desde aquela época até agora centenas de estórias, piadas, chistes foram inventadas ou realmente vivenciadas por uma das mais singulares figuras da nossa Maceió. Pintor de paredes e contratante de serviços por profissão, o vivente Benedito Alves terminou por largar as tintas e embrenhar-se, por vocação, no mundo do lenocínio, tornando-se no mais famoso proxeneta das noites alagoanas. Seu nome de guerra – Mossoró – tornou-se referência no submundo da cidade, como aconteceu com certa cervejaria ou com um dicionário da nossa língua. Como se pede uma “Brahma” ou um “Aurélio”, se diz em Maceió, “vou ao Mossoró”, querendo dizer que se “vai à zona do meretrício”...
            Personalidade multifacetada, o cidadão Benedito Alves tinha heterônimos que o distinguia em cada setor de atividades. Como já dissemos, Mossoró era sinônimo de cabaré. “Biu” era tratamento dos seus auxiliares e empregados, e “pai véio” era o chamamento respeitoso, feito pelas quengas, ao seu hospedeiro, guia e empregador, do mundo. Embora fosse “duro” no cobrar as diárias de suas “hóspedes”, dizia-se que sustentava dezenas de prostitutas decaídas e doentes, dando-lhes tudo que necessitassem, até o funeral.
            Suas estórias, e linguajar de arrepiar gramáticos, percorreram o Brasil inteiro, sendo contadas nos salões, barbearias, bares, boates e até mesmo na Academia Brasileira de Letras. Conhecia segredos de alcova de muitos políticos, empresários e autoridades importantes e os guardava com avareza e um discreto sorriso acumpliciador e matreiro. Durante muitos anos foi personagem e foi autor, povoando as noites maceioenses de sons, alegria, sexo, tilintar de taças e esvaziar de garrafas madrugadas a fora. Quem não o conhecia pessoalmente, já ouvira falar no seu nome e na sua decantada “Areia Branca”. Eu mesmo, durante os meses que titulei uma coluna no saudoso “Jornal das Alagoas”, reservava, dia sim dia não, um tópico para as proezas do meu simpático e humano “dr. Biu”. Relembro com nostálgica saudade seus meneios, seu riso largo, seu arquear de sobrancelhas, seus gestos acolhedores, quando numa noite de boemia errávamos o caminho de casa, ele pressuroso nos recebia, em se reservado, puxando cadeiras e chamando o garçom: - Vem cá menino... tá chegando Dr. Bralis, Dr. Jambris, professor Dinô , seu Druvá, e o Dr. Emis Vasconselvas... E acrescentava: - Tem umas francesa, umas americana e umas russa... Tudo da Bahia.
            Era assim o velho Mossoró. O homem que, perguntado pó uma incauta missionária, porque deixara de ser pintor para se dedicar à exploração de mulheres, respondeu: - “A gente tem que escolhê o mió negoço”... E batendo no baixo-ventre de uma prostituta mais próxima arrematou: - “Isso que dá dinheiro, irmã, porque lavou tá novo”... A religiosa, horrorizada, escafedeu-se e nunca mais tentou salvar aquela alma...
            Queira Deus que ele ao chegar lá no céu, não aperreie São Pedro atrás de um banheiro com paredes cobertas por “branculeijos” e “vermeleijos”, pois “azulejos” ele não queria de jeito nenhum. Afinal de contas, o nosso Mossoró, até morrer na semana que passou, era torcedor fanático do Clube de Regatas Brasil...
            A nossa Maceió ficou mais triste sem você, dr. Biu. Descanse em paz.

                                                                                              23/12/1994 – O J



 O Risadinha

           
Toda gente de teatro o conhecia. De norte ao sul do país – viajante que era de importante empresa paulista – ele frequentava os teatros, pavilhões, circos, salas improvisadas, fosse aonde fosse que se exibisse um grupo de artistas teatrais ele estivesse na cidade, lá estava aquela figura simpática, bem vestida, educada, unhas polidas e barba escanhoada, colônia inglesa e cabelos gomalisados. Média estatura, não era feio nem bonito, era distinto, afável, comunicativo. Só sua voz destoava de todo. Era desafinada, casquilhada, estridente, espremida por entre os dentes. Esquisita e horrorosa. Foi batizado como Agnelo, mas ninguém do meio artístico o conhecia como tal. Para todos era o Risadinha, terror dos melhores e mais afamados elencos, indesejado pelos produtores e referência urgente dos bilheteiros que, ao saberem de sua presença, corriam esbaforidos para avisar que ele estava na plateia...
            Fazia questão de comprar ingresso, embora fosse amigo de todos os diretores e artistas, mas sua reação espontânea, sem premeditação ou desejo de perturbar, com voz de riso inconfundível, transformavam os dramas mais pungentes em ações burlescas, provocando a plateia mais atenta e séria, em participante do verdadeiro pandemônio de risadas abafadas e dobradas gargalhadas que aconteciam depois do seu:
            -  Eh, eh, eh, miseráve... Eh, eh, eh, miseráve… Cuja entonação ia aumentando de volume à proporção que ele se emocionava ou ria com a cena representada...
            A princípio, era um susto. Depois um contágio incontrolável que atingia a todos, inclusive aos artistas, no palco, parados, mudos, desorientados, tentando conter o riso e, muitas vezes, sem conseguirem continuar representando, rindo, rindo, todos, plateia e artistas... Um inferno hilariante!...
            Ele, o autor da risadinha, sério, atônito, olhando para um lado e para o outro, depois encolhido na poltrona, cabeça baixa, envergonhado, quase sempre abandonado a sala depois de recomeçado o espetáculo... Um doidera...
            Contam que certa feita, no Recife, durante a Semana Santa, assistindo a cena do enforcamento de Judas, feita pelo ator Clênio Wanderley (que também fazia o Judas da Paixão de Cristo, em Fazenda Nova), Agnelo me pleno apogeu cênico, largou a sua casquinada e o seu miseráve bem alto, enquanto o Clênio se debatia pendurado pelo pescoço. E quanto mais se debatia o personagem, mais gritava Agnelo e ressoava mais alto sua risada de aprovação e emoção... O povo ria às bandeiras despregadas, até que o ator desesperado, soltou-se da corda, pulou do palco para a plateia e esmurrou furiosamente o pobre Risadinha, quebrando-lhe a dentadura e pisoteando os seus óculos que caíra pelo inópino da agressão... Acho que não é preciso dizer que nessa noite o espetáculo terminou ai...
            Em Maceió, que eu saiba, o meu bom Agnelo só esteve por duas vezes. Graças a Deus, naquelas noites exibiram-se artistas da musica erudita, gênero pelo qual ele não tinha maiores ou menores predileções. Fomos jantar no Bar das Ostras, quando falou-me do seu constrangimento e do ocorrido no Teatro Santa Isabel. Depois não o avistei mais...
            Por onde andará, o hoje lembrado e impagável Risadinha?...

                                                                                              24/04/1995 – O J
Os alados artistas do Teatro Deodoro

            Muito pouca gente, sabe disso. Somente alguns velhos criadores de pássaros ou os mais antigos frequentadores da Praça Deodoro.
            Quando assumi a direção do Teatro em 1957, o tema já servia para motivar os encontros, todas as tardes, dos funcionários aposentados e moradores das adjacências. Todos sabiam que naquela praça viviam os melhores sanhaços canoros de Maceió. Era um bando de mais ou menos uma dezena, entre o cinza, verde e o azul, encanto dos fiéis ouvintes que os protegiam contra os moleques e os inúmeros pegadores, aparecidos com gaiolas, armadilhas e alçapões.        
            “Seo” Morais, o antigo mordomo do Tetro, era uma espécie de coordenador do grupo de amigos, reunidos todas as tardes para jogar gamão, dama e firo, no saguão da velha casa d espetáculos seus porões transformados em sede de um “clube de caça e pesca”. O magnífico prédio construído no Governo Euclides Malta em 1910, era um casarão em ruínas, praticamente sem cumprir suas finalidades especificas. E o saudoso João Siqueira de Morais, que li residia, era o guardião de sues móveis e material cênico, composto de 4 varas de gambiarras, 3 refletores quebrados e sem lentes, além de 2 ou 3 telões e rompimentos pintados por Eurico Maciel e Alfredo Dacal. No meio dessa precariedade e semidestruição trabalhavam o Morais e o Zé Cabral, este, até hoje graças a Deus vivo e o mais fiel servidor daquela casa. Para mim o melhor servidor público que conheci e que depois de quase 50 anos ali trabalhando, nunca foi escolhido o Funcionário Padrão do Estado, como sempre mereceu.
            Um dia, lembro que o Morais, após receber ordem para mandar limpar o forro do salão de espetáculos, procurou-me para dizer, reticente, que ali moravam os sanhaços mais admirados da cidade. E ajuntou: Não queria espantá-los, pois já faziam parte da casa sendo os seus moradores mais apreciados. E dizia com os olhos brilhando, quase molhados:
            - E os bichinhos, diretor, já moram ali há muito tempo... Os velhos morrem e os pelancos continuam morando, pois nos oitizeiros da praça os meninos sacodem pedras.
            Fiquei sem saber como decidir. Na minha frente o antigo funcionário de cabelos brancos, olhos aflitos, velho caçador de tantos animais de grande porte a pedir pelos pássaros; na contramão a  necessidade de limpar o entulho, a sujeira. Pedi tempo para pensar. Fui para casa maturando o assunto. No outro dia mandei chamar o Morais.
            Limpe até onde for possível... Fiz um silêncio e acrescentei: E vigie para que nada aconteça aos nossos hospedes... . E que ninguém saiba do nosso trato, ouviu? – adverti convincente.
            O Morais, dentes alvos e certos à mostra, sorria satisfeito. Quando foi saindo, lembrei-me do seu gato:
            - E o gato?...
O morais tornou:
- Deixe comigo diretor, ele não mexe não...
Recomendei ainda:
- Cuidado, e quando puder, bote pra eles frutas e água...
E o Morais falando mais baixo:
- Isso, eu já faço há muito tempo...
Durante alguns anos ainda, o segredo permaneceu entre nós. Os sanhaços cantavam na praça, nos jardins laterais e moravam e procriavam no forro do Teatro Deodoro.
Depois que o Morais foi aposentado e morreu, deixando grande lacuna na administração do Teatro, os passarinhos desapareceram, sumiram, sem que eu nunca mais ouvisse falar deles.
E hoje quando lembro os inquilinos, artistas voadores do Deodoro, recordo também os versos do poeta Raul Machado que, num poema imortal, na primeira e terceira estrofes, de Pássaro Morto, diz assim:
            Eras, talvez, com tua alma cristalina,
            Nas manhãs em que a terra andava em festa.
            E nas tardes ensolaradas de verão,
            O mais sonoro poema da campina.
            O Caruso emplumado da floresta.
            O Bethoven boêmio da amplidão.
            Desdenhoso de glórias e de reclamos.
            Amavas a arte com pureza d’alma.
            E prescindindo de estímulos alheios.
            Cantavas só nas cúpulas dos ramos.
            Para o seu gênio não pedias palmas
            Nem auditório para teus gorjeios...

Eram assim, os alados cantores do Teatro Deodoro.

                                                                                              06/07/1992                
  
Os natais de outrora

           
Quando em conversa sobre Maceió de alguns anos atrás, nos referimos aos festejos do Natal, notamos espanto e até certa incredulidade entre os nossos ouvintes mais novos. Eles não podem imaginar uma Maceió, naqueles tempos, iluminada, colorida, festiva e alegre como era a nossa cidade. Não podem sentir o ambiente descontraído e impregnado da magia natalina, que fazia os maceioenses saírem para o passeio público praças e largos de cada bairro, a fim de assistirem os folguedos populares ensaiados pelos mestres de reisado, pastoril, baianas, chegança, guerreiros e outros festejos que encantavam a multidão enfatiotada em roupa nova e sapatos bem engraxados, rostos iluminados por sorrisos largos de contentamento.
            O barulho das “rodas-gigantes”, “carrosséis”, “sombrinhas”, “polvos” e “ondas” misturavam-se às vozes e danças das pastorinhas e baianas que gingavam em palanques enfeitados, reunindo, em derredor, torcedores entusiasmados que tudo faziam pelos “cordões” azul ou encarnado...
            As barracas de prendas e de jogos com seus prêmios expostos, ouvindo-se as falas dos banqueiros determinando começo e fim das apostas, seguidos dos ruídos das palhetas batendo entre as traves da roleta, e estalar de tiros secos das espingardas de setas coloridas, espetando os círculos do “tiro ao alvo”...
            As vozes masculinas das cheganças anunciavam “terra à vista”, enquanto os guerreiros duelavam e cantavam sob a “proteção de Nossa Senhora”, e os reisados sapateavam e entoavam versos sobre um “buquê de boninas” e uma “menina, linda flor da madrugada”...
            Passeando em torno da praça, moças de braços dados olhavam de esguelha para os rapazes que se postavam à beira das calçadas, dizendo galanteios ou cravando olhares demorados sobre as suas escolhidas. No alto falante, os “telegramas” anunciavam mensagens de elogio ou marcavam encontros em locais discretos, início, talvez, de uma amizade que iria perdurar por toda vida... No ar, o cheiro convidativo do cachorro quente, peixe frito, rolete de cana, algodão doce, farinha de milho, amendoins cozinhando ou torrado e do caruru e vatapá do velho “baiano”, de pele muito negra, roupa branca e óculos de lentes bem limpas, refletindo as gambiarras iluminadas.
            E acima de tudo, um cheiro bom de mulher, de moça-virgem que recendia a leite, pó de arroz e colônia, e das outras, casadas ou não, que traziam entranhado nos corpos o odor do perfume caro ou do “óleo de mutamba” misturado com pecado, suor de coito, visão imaginativa de lençóis e camisolas amarfanhadas num só espaço de prazer e paixão...
            Os bondes, nesses tempos usando sempre “reboques”, passavam apinhados; com trabalho dobrado para os cobradores que não conseguiam receber todas as passagens. De hora em hora, o apito dos trens especiais acautelavam a todos, trazendo no comboio centenas de usuários que a “great Western” transportava da estação central até Bebedouro – “a república da alegria” do Major Bonifácio da Silveira – com breve parada no parque Rio Branco (onde construíram o antigo mercado público e hoje se instala o “Mercado do Artesanato” cheio de pés de eucaliptos, e onde foram realizadas concorridas festas natalinas).
            Nas igrejas iluminadas, abertas durante toda á noite, os sinos dobravam alertando os muitos fiéis para a “missa do galo”, rezada impreterivelmente à meia noite. Nas fraldas do morro do farol podíamos ouvir os ecos das festas distantes, vindos de todos os bairros como da Pça. Da Liberdade na Pajuçara, da Pça. Raiol em Jaraguá, da Pça do bomfim, no Poço, da Pça. Bom Conselho, na levada, da Pça. Dos Martírios, no Centro, dos Largos Stª. Terezinha e Stª. Rita no Farol, e outras muito distantes que não conseguíamos distinguir, como da Pça. Dos Pobres, no Vergel do Lago, da Pça. Mané Caixão, na Ponta Grossa, e da Pça. Santo Antônio em Bebedouro, onde se reunia a melhor sociedade de Maceió, para participar da festa organizada pelo homem que tanta falta faz a esta cidade inquieta, escura, despoliciada, crescendo desorganizadamente, que não pode bem comemorar a data maior de toda cristandade.
            Ao relembrar tudo isso nos enchendo de saudade e de gratidão por todos aqueles que fizeram os Natais de Outrora, pleno de luzes, cânticos e cores, costumes e tradições, gestos e falas que se perderam no tempo, quando a nossa querida cidade cantava hinos e se perfumava de incenso para anunciar o nascimento do Menino-Deus.
            Bons tempos aqueles...

                                                                                                          24/12/1995 – OD

  
  
Tipos inesquecíveis

Maceió, como acontece em outras capitais e cidades antigas do Brasil, possui uma galeria interessantíssima de tipos populares que marcaram época e registraram aspectos da paisagem humana e social do nosso burgo.
            Quando falamos em cônica anterior do cidadão Benedito Alves – o Mossoró – não pensávamos que houvesse tanta repercussão e interesse pelo tema. Recebemos mensagens que nos incentivavam e sugeriam fazermos uma possível retrospectiva dos tipos populares que viveram em Maceió. De fato, não conhecemos nenhum trabalho de fôlego sobre tão singular assunto, ao contrario do que ocorre em vários municípios brasileiros. A história de cada cidade exibe sempre referências pitorescas ou tristes desses viventes que fazem parte, quase sempre, do universo brincalhão da garotada ou servem de chacota para outros tantos, disfarçados, semelhantes.
            Claro que não se pode numa crônica detalhar ou descrever tão originais e especiais criaturas. Mas para rememorar, podemos dizer que Maceió teve entre muitos tipos populares um a quem chamavam “Guabiraba” que foi uma espécie de “bobo da corte” do Governo Costa Rego. Todos riam dele, mas o temiam pela simpatia que despertava no jornalista-governador, homem austero e contrário a intimidades, que não admitia que o aborrecessem ou criticassem. Só o “Guabiraba” lhe fazia os reparos e recomendações que quisesse, obtendo como respostas sonoras gargalhadas e, quase sempre, atendimento. Outro tipo interessante foi um tal de “Dominguinhos”, frequentador diário das igrejas e solenidades de casamentos, batizados, funerais, missas de 7 dia, com os bolsos do paletó enfeitado com medalhas e santinhos que ia recolhendo e distribuindo de acordo com o acontecimento; o “Habitante da Lua”, que ficava sentado no batente lateral da Delegacia Fiscal, com uma serie de pauzinhos entrançados em curiosos desenhos, pelos quais ele dizia se comunicar com os extraterrestres; outro mais, o “Ariston”, o negro bom e serviçal que ao tomar uma carraspana saía com o braço dobrada à altura da boca, o polegar e o indicador apertando o nariz, tocando fanfarra e imitando o ruído de bumbos atrás das pessoas que ele desejava homenagear; nesta galeria, incluí-se também “seu Fortes”, pequeno proprietário de um sítio na antiga Buarque de Macedo, que andava ligeiro, um cacete na mão, acompanhado de um cão a quem chamava constantemente com assovios e apitos. Ficava “brabo” quando a molecada o alcunhava de “comunista” ou “assassino de Getúlio Vargas”; “Augusto Doidinho” que dizia-se parente de uma autoridade local, se constituía no terror de seus desafetos e contrários políticos, pois a todos chamava de “cornos, veados e ladrões” em altos brados e em plena Rua do Comércio; recordo também um a quem chamavam “Piupiu”, portador de frondoso bigode branco que por ter criticado Costa Rego, teve o seu bigodão arrancado, fio a fio, por policiais munidos de alicates, em pleno Relógio Oficial; outro autointitulado “Dr.. Freitas” tomava porres para contestar políticos, pastores evangélicos e propagandistas comerciais, negando e desmentindo tudo quando os oradores diziam, provocando anarquia e confusão nos comícios e assembleias religiosas; vindo do sertão, apareceu um tipo curioso: trajava farda caqui, capacete “canoa” riunas e óculos de vidro comum, além de fitas coloridas presas à roupa como se fossem “condecorações”; falava devagar e guturalmente, dizendo-se chamar “Catrevagem”. Um dia, levado para se confessar, ao ouvir do padre: - Diga os seus pecados, meu filho... deu um muxoxo e respondeu: - Diga os do sinhô primeiro; lembro ainda o mulato pintor de parede, cabelo empastado de brilhantina, dentes separados e anéis de latão nos dedos, que gostava de cortejar políticos... Contava-se que um dia perguntaram-lhe como se soletrava “pincel” e ele com ares de “filósofo” foi dizendo: P-I-N/pin-c-h-e-l/cel, por isso como “chexeléu” ficou conhecido até morrer. E tantos outros como o “Espinhaço de Gato”, magríssimo cidadão que nos morros do Farol ficava chorando olhando para os navios no porto e gritando que haviam lhe roubado a fortuna e as embarcações... “Otília Cascavel”, doida-mansa que só saía acompanhada de sete ou oito cachorros amarrados à cintura... “Nega Elefante”, gorda e de beições deformados que corria atrás da meninada ao ouvir o apelido... “Zarcan”, funileiro no beco da marabá, que corria atrás dos moleques, com um espeto na mão ameaçando e falando nas santas mães daqueles endiabrados... “Moleque Namorador”, jornaleiro viciado em maconha, considerado um dos maiores passistas do Nordeste, que morreu tuberculoso aos vinte e poucos anos de idade... E muitos outros benditos tipos populares, que se perderam no passado, mas que serviam para enriquecer o nosso acervo folclórico, de tradições e costumes, lições de vidas humildes e mosaicos vivos das nossas deficiências e intolerâncias.
            Além do escritor e saudoso cronista da cidade, Feliz Lima Júnior, poucos literatos se ocuparam do assunto. Seria o caso de pesquisadores de dedicarem a esse trabalho tão necessário à historiografia da nossa Maceió, já tão desfigurada e com seus monumentos e logradouros públicos tão abandonados. Sem dúvida, esse é um assunto que fascina e merece melhor atenção e maiores cuidados.
            Quem se habilita?...

                                                                                                          11/02/1995 – J O