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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Karina Cavalcante Dâmaso. Memória e cotidiano. Artes plásticas



Anjo e violão







ENCONTRO COM A ARTE
Karina Cavalcante Dâmaso Garboggini

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Iniciei meu amor pela arte através do desenho, aos 13 anos; mainha remexendo em minhas coisas descobriu meus desenhos e empolgada me matriculou em uma aula de pintura no bairro onde morava.

D. Odete Teixeira, pintora conhecida, foi minha primeira professora, uma linda vovó que me ensinou o básico da pintura e me deixava livre para desenvolver o dom, dizia para mainha que eu só precisava desenvolver a técnica, pois eu fazia tudo com habilidade e perfeição, mesmo assim, por amar aquelas tardes agradáveis com lanchinhos deliciosos, permaneci por um ano. Isso foi em 1986.

Em 1987 ou 1988, não me recordo precisamente, consegui ser a primeira aluna do renomado pintor Aloísio Coimbra, em Boca da Mata, interior de Alagoas. Lá permaneci por quatro meses, indo todos os sábados; aprendi sua técnica em fisionomia, e detalhes nas composições figurativas; incorporei muitas cores novas e vibrantes ao meu trabalho, que mais tarde foi determinante na formação do meu estilo.

Parei de pintar em 2005, por estudar e trabalhar, além de apresentar algumas consequências, como: tonturas, mãos tremulas e dores de cabeça pelo uso contínuo da tinta a óleo, considerada muito tóxica.


Boca da Mata
Voltei em 2013 pintando acrílico sobre tela, criei estilo próprio e nova técnica, pois a riqueza da perfeição do figurativo dos quadros a óleo não consegui mais obter, por ser o acrílico uma tinta de secagem muito rápida. Por isso foi essencial à técnica e a criatividade na composição de novos quadros com características do figurativo e abstracionismo de forma harmônica, trazendo a tona um estilo único e determinante. 

Atualmente continuo pintando, o amor pela arte me traz paz interior. Pretendo não mais parar por longos anos, a pintura faz parte do meu equilíbrio e bem estar. Portanto, convido a todos a descobrir suas habilidades artísticas, desenvolvê-las e provar desse imenso prazer. Vamos apreciar a arte com a mente aberta e deixar o olhar do imaginário lhe conduzir por belezas infinitas.

domingo, 10 de janeiro de 2016

A cidade e as lembranças: Sávio de Almeida


Minhas lembranças são um quebra cabeça (II): uma advinhação de São João





ESTE MATERIAL É POSTADO NOS FINS DE SEMANA






 Yes, a have mother and father
               
                 Eu sou filho de Manoel de Almeida e Maria José de Almeida, ambos de Capela, beira do Paráiba. Mamãe ainda era prima do meu pai, pois ela era filha de Fausto Vieira de Almeida, irmão da Tia Vidinha, a que casou com o Major Dionísio da Capela, irmão de Caetana Maria de Albuquerque, a minha avó Dondon. Diziam os povos da Capela, que o Major era rico demais; no verão, para que o dinheiro não mofasse, ele abria as burras e deixava tudo tomando banho de sol. Fausto, segundo diziam – e a crônica era gerada pela Dondon –, era meio irresponsável, gostava de um pé de bode, jogava pernada, mulherengo. Não era partido para a irmã do Major. Mas festa de São João é coisa arteira e a Dondon andou fazendo adivinhação e já viúva e quem sabe virgem pois o casamento foi breve, o marido levando uma mordida de cobra, chegando em casa carregado numa rede e logo se arroxeando e foi saindo desta para melhor. 

As perguntas que nos fazem
                      
Um dia, conversando com o Roberto Santos sobre patati e patatá, tomando um café que ele fez questão de pagar sob o argumento de que comeu mais do que eu, eu lhe disse: Olhe, eu acho que a gente vai tentar responder no trabalho científico de adulto,  os tipos de pergunta que se armazenam em nossa formação pessoal. Se as perguntas  – e elas obrigatoriamente não são registradas claramente – que eu me fui fazendo, me levassem para a física, possivelmente eu seria um físico. 
                   
                    Roberto Santos é um grande físico, uma inteligência finíssima. Eu mantenho; havendo engenho e arte para dar respostas, vamos atrás das perguntas que tínhamos guardadas.  Para mim veio o senso do histórico; para ele, veio o senso do físico. E engraçado, sempre achei que falávamos com línguas diferentes, as arquiteturas de pensamento para chegarmos ao real. Ele fala a física, ele se importa sobretudo com a energia e eu com uma  forma de  movimento no tempo feito pela minha avó Dondon, ela mesma uma tensão na ordem dialética. Eita porra, fui longe... Como dizia o Wilson Simonal: Vamos voltar à pilantragem! Mas antes, quero registrar que ele, entre cafés e sanduíches deu-me uma bela aula sobre a natureza e importância dos erros férteis na construção científica.

Voltando à pilantragem

                
Papai e Mamãe
A Dondon era menina; foi casamento de coisa de quinze anos de idade.  Contam histórias pesadas deste casamento feito a contragosto, mas que era da vontade do Dindinho Neo, meu bisavó, dono dos Minhuns e que morreu esmagado entre dois vagões de cana; quando o trem fazia manobra, ele foi colocar o engate e coitado, torou aqui, lá nele. Sangreiro e sem jeito.  Dizia a minha mãe que eu sou ele todo, no jeito de falar, de sentar, de andar, de puxar conversa pois segundo ela sempre fui prosista. O povo usa uma expressão deliciosa: cagado e  cuspido. Para ser honesto, era assim que a minha mãe dizia: Você é a cara do Dindinho Neo, parece que tou vendo; é ele cagado e cuspido. Virge, até no jeito de sentar em cima da perna!
              Ele era casado com a Dindinha Mariquinha; ela contada como santa e ele como danado. Diziam os mais antigos, que quando Mariquinhas morreu, os bois choravam no reservo e vieram escravos de todas as partes para chorarem sua morte. Foi muito triste e nem sei onde  ela foi enterrada, quem sabe lá pelos lados da Gameleira?.


              
Pois bem,  voltando a conversa, a viúva estava sem filhos e firulitando na Capela. Não sei em que ano o Dindinho Neo morreu. Vai que São João ajuda a descobrir verdades. A Dondon fez adivinhação para saber quem seria seu marido, que não era tonta e nem queria ficar eternamente viúva. Um dia, ela estava na casa da Tia Vidinha, bateram, foi atender e voltou correndo: “Vidinha. É o homem da adivinhação. É com ele que vou me casar!”. A sorte foi lançada e resultada também; nem precisa dizer, que o homem era o vovô Fausto de Almeida. Todos os três já viajaram. Dondon deve ter sido de velhice; Vidinha  de um câncer não sei por onde e Fausto morreu do mesmo mal. O inferno está de diabo com nome de câncer.  Meio dia, o sol quente, Fausto foi e tomou um copo de caldo de cana picado. Suado, além de muito mais coisa, tibungou no Poço do Pai Pedro e já tiraram roxo. Este era um modo de não falar naquele nome: o câncer. O velho teve foi na garganta e deve ter morrido numa profunda agonia. 


               Dizem os mais velhos, alguns antigos, que estes Albuquerques vieram pelos fins do século XVIII lá dos lados do Bom Jardim e por conta de uma seca braba; gente que veio descendo lá de Pernambuco e quem sabe no rumo do Papacaça bateu dentro de Quebrangulo, um pulo só para Viçosa e Capela e mesmo para Atalaia mais lá embaixo, que tudo era da mesma água do Rio Paraíba do Meio, a piaba que se pegava em cima era prima da que se pegava  mais para baixo. Já os Almeidas estão seguramente pelos finais do século XVII, últimas lidas de guerra com os Palmares, vindos de Antônio Roiz Vieira que mandou buscar sua mulher em São Paulo e ela subiu navegando em uma sumaca e apareceu a Dona Inácia de Almeida Braga.

               Antônio Roiz Vieira pediu confirmação de sesmaria na bagatela de três léguas em quadro, com centro na Barra do Porangaba e deles é que vieram os dois fantásticos Antônio de Almeida Braga; um era conhecido como o velho, o edificador do Flexeiras no dizer saberoto  do primo Wenceslau de Almeida; o outro era o Antônio de Almeida Braga, o chamado caudilho, o do Tamoatá que liderou a Revolta de Imperatriz, passando e muito pelos lugares da também fantástica povoação do Arrasto de Santa Efigênia. O Almeida Braga novo, o neto, o caudilho, o do Tamoatá escreveu um incrível artigo  intitulado Ódio Velho não Cansa! É uma peça extraordinária  para se discutir a mentalidade e as regras que faziam comportamentos e expectativas do senhorial daquele tempo.

               Uma vez quando conversava com um parente dos antigos, ele me disse: “Caboclinho – assim me chamavam – aquilo era um tempo brabo da peste! Ou a gente resolvia ou era resolvido!”. Foi deste tempo que comecei a tomar gosto para entender a ética senhorial, aquela que tem a coragem pública de argumentar que Ódio velho não cansa!, semelhante a  dizer que vingança é um prato que se come frio. Foi por aí que tudo se chamava resolver negócio: ou resolvia ou desse adeus.  Ninguém se achava criminoso, especialmente quando batia na honra da família. E ouvi muito, no pé e na cabeça do ouvido,  sobre a existência de categorias radicais como família e é do seu sangue: “É seu sangue, meu filho!”.

              
Ainda bem que dá minha geração por diante – quem sabe pelos efeitos das mudanças urbanas – e a começar por mim, todo mundo é frouxo. Não nasceu alguém brabo. A gente só deu para paz e amor, uma antecipação alagoana da geração dos ripongos.  A veia Dondon, mãe de minha mãe, dizia brincando mas com uma ponta de reclamação: “Na família da gente acabaram-se os homens!”.  Ainda bem, que é tudo frouxo, digo eu escrevendo estas mal traçadas linhas.  Tio Lourenço – não o tio Lourencinho –  que, quando mexiam com ele,  era mais brabo do que siri dentro de uma lata, mas um verdadeiro lorde britânico da Capela, Arapiraca e adjacências pelos modos e educação finíssima que tinha, vivia de pagode e dizia: “Mãe, Almeida virou marca de cachaça!” e criou para a geração dos filhos e dos sobrinhos, um lema de família. 

               Lembro de uma cachaça em um carnaval e acho que foi na Pinguim, lá na cabeça da Praça de Arapiraca e Tio Lourenço já estava p’rá lá de tungado, usando uma bermuda mas de chapéu na cabeça e dos bons; foi com ele que aprendi a usar chapéu: “Caboclinho, você não sabe como é bom tirar o chapéu p’ra uma menina. Bote esse aqui e experimente!”. E não é que era bom mesmo! Mas pois bem, apois a conversa foi indo, e tudo quanto era assunto foi passando e eu ficando nos limites de sobrinho que não era besta de passar deles. Aí, conversa vai e conversa vem – a bebida entre nós sempre foi a limpa, mas ali só tava sendo cerveja, treco que ninguém bebe, só urina ou só é para verter água, como se usava dizer  –,   Tio Lourenço sai com uma de suas pérolas e resume os tempos novos: “Savinho, meu filho, fica assim: Almeida quando não pode peida!”. E aí o kikiki e o  kakaka tomaram o tempo do resto da tarde. 
            
Tío Cícero e Tia Antônia
  
Tio Lourenço foi o homem que vi,  nestes tempos todinhos em que estou vivo, que mais entendia de puia. Vá entender de puia assim, na casa da peste. Era fino. E tinha cada história de fazer a gente ouvir por hora e meia. Era o contrário do Tio Lourencinho, homem santo, casado com a Tia Mocinha, gente ligada diretamente ao Padre Cícero Romão Batista, Ainda conheci ele, mas este  é outro assunto. Tanto era a ligação, que a veia Dondon teve um filho chamado Cícero Romão Batista que pela ironia do destino foi ser do Partido Comunista.  Teve também o Tio Floro Bartolomeu que nem conheci.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Luiz Sávio de Almeida. MINHAS LEMBRANÇAS SÃO UM QUEBRA CABEÇA : DISSERAM QUE NASCI. Memória e cotidiano. Viventes das Alagoas

 


MINHAS LEMBRANÇAS SÃO UM QUEBRA CABEÇA (I) : DISSERAM QUE NASCI

LUIZ SÁVIO DE ALMEIDA

              
Nasci em um pequenino lugar que ainda me agrada muito:  Rua Mato Grosso, na vizinhança mesmo da Praça do Rayol.  Meu pai casou na Capela, foi para Quebrangulo e de lá veio morar na Rua do Cravo. Depois foi para a Praça do Rayol e como estava caro, caminhou para a Mato Grosso. A casa continua  firme, embora modificada. Eu já havia perdido dois irmãos e um deles está no cemitério de Jaraguá;  nasceu morto, a tripa enrolada no pescoço.

                    Minha mãe contava tristonha sobre a tarde da saída do corpo. Era um enterro do meu pai sozinho com suas lágrimas que pareciam badaladas da Virgem Maria. Chovia. Ele caminhava com o caixãozinho debaixo do braço, como se nele repousasse a tristeza, no mais perfeito idioma capelense. Meu pai era duro, mas sentimental. Fico imaginando a chuva fina, a dor de uma mulher parida sem a cria, o homem com chapéu na cabeça, terno e um defunto de estimação em seus braços. Um defunto mirrado que nem tempo de vida teve e, portanto, um defunto enganado pelo destino.
               Não deu outra: nasci como peça de reposição; reposição de carinho. Devo ter sido arquitetado ainda na Rua do Cravo, sinal de que sou um cravense militante e alias, malgrado o que fizeram, ainda é uma bela rua de Maceió. Meu pai abriu a porta – é claro que não ia sair com ela fechada – e foi para o cemitério, coisa perto, dobrando à direita e meu irmão desapareceu na terra. Passados os meses de resguardo, os dois disseram: Fiat Sávio. E terminei nascendo, também, com a tripa enrolada no pescoço.
             
  Madrugada: duas horinhas da manhã. Tudo escuro; a cidade em black-out com medo dos submarinos alemães. Já pensou se os canhões apontassem para o Mercado?  Os bagos de jaca voando, a farinha de mandioca virando neve! Barbaridade! Era um atentado contra a identidade alagoana que, alguns dizem,  repousa muito no susuru.  Tudo escuro. No quarto, a minha mãe sofrendo, a Tia Nini acarinhando,  meu pai contando dinheiro para outro caixão e o Tio Lauro, pai do Radjalma Cavalcante, meu primo.
               Tio Lauro foi o escolhido: iria varar a escuridão em busca do médico. E foi e trouxe e eu fui arrancado a fórceps, já meio roxo e o pior de tudo: levava palmada e não chorava. Depois de um tanto,   o berreiro e todo mundo ficou feliz comigo chorando. Isso já dá um complexo da porra: como é que você está chorando e os outros rindo?  Tem jeito isso? O médico foi o Dr. Azevedo.
               E lá estava eu, fagueiro, destemido, um verdadeiro allegre vivace ou até mesmo molto vivace. E já fui embarcado para Capela com a minha mãe. Fui para casa da Tia Nini e passei uns três meses com ela,  pois meu pai estava, também,  depois de certo tempo, se aprontando para ocupar um cargo de contador da agência do Banco do Brasil em Pirapora, Minas Gerais, uma espécie de meu segundo estado, rivalizando com Pernambuco. Fiz a minha primeira viagem de trem.
               E fui batizado lá na Capela mesmo. Tia Nini era casada com o Dindinho Isais, pais do Padrinho Zé (José Edson) e Dindinha Leda. O nome da tia Nini sempre foi lindo para mim: Marguerita e dele fizeram Nini.  Os pais (Nini e Isais) foram meus padrinhos de apresentar e os filhos, meus padrinhos de vela.  Na minha família, sempre o padrinho era levado a sério e quase sempre buscava-se pessoa da família. E era uma série de salamaleques, desde a benção até o levantar imediatamente da cadeira para dar lugar a ele, normalmente com o Padrinho dizendo: “Precisa não, meu filho. Tá bom  assim!”, mas sentava.
              
Tia Nini era magrinha, com os cabelos abaixo da cintura, vestindo roupas das antigas, a roupa de chita a bem dizer com a manga comprida e bolsos na parte de cima. Costurava e bordava que era um pormenor de beleza. Ainda hoje tenho uma imensa peça de crochê que ela fez e que guardo na mesma caixinha onde ficavam a linha e suas agulhas. Usava óculos. Morreu e está enterrada longe do pai: está em Arapiraca. Era Filha de Maria e tinha uma voz mansa, mas quando alguém pisava nos calos, o negócio esquentava. Era o gênio da Dondon, sua mãe e minha avó, a velha Caetana Maria de Albuquerque.
 



Lembrança de uma infância feliz. Memória e cotidiano.


 Um depoimento para o futuro
 
 Este é um espaço do blog para quem desejar, deixar uma lembrança para o futuro.

 

Esta é uma lembrança de vida da zona rural da Boca da Mata em Alagoas; são os nossos tempos de vida que aparecem, uns aqui e outros ali e todos diferentes. Esta é a beleza: a diferença que nos faz existir. Karina é dos lados do Cariri, sendo uma boa memorialista e pintora.



A HAPPY CHILDHOOD
 Un'infanzia felice
 Una infancia feliz
 Une enfance heureuse 

 




LEMBRANÇA DE UMA INFÂNCIA FELIZ

Karina Cavalcante Dâmaso Garboggini
 

         
            Infância na fazenda, recordações felizes onde a liberdade, a tranquila, a natureza, a convivência em família, me acolhia de forma harmônica e saudável construindo em mim a beleza de um saber puro e eterno, que através desses rabiscos venho relembrar.

               Fui criada na fazenda e na cidade, porém na fazenda meu mundo era especial, colorido e infinito, cheio de possibilidades e mistério, um mundo a ser descoberto a cada dia, um mundo onde a imaginação, curiosidade e criatividade reinavam.

               Fazenda São Francisco do Cariri, no município de Boca da Mata/AL, local onde minhas raizes fincaram, local do meu coração e das minhas alegrias da meninice. Foi correndo pelos campos, rodagens, subindo em árvores, andando de bicicleta, brincando no balanço na mangueira, subindo nos sacos de adubo da casinha, sendo carregada no carrinho de mão, ou na carroça, ou ainda no caminhãozinho de madeira, brincando de chimbra (bola de gude) com os primos, carrinho, amarelinha, fazendo bolinhos e comidinhas em cacos de coco, criando bichinho com legumes e frutas (como meu pai fazia em sua época de moleque), brincando com bruxinhas de pano, de roda, pega bandeira, corrida de saco, pega-pega, esconde-esconde, banho de bica, de açude, de rio, futebol no cercado, ouvindo histórias de trancoso pelo Mané Bicho, e as mais variadas histórias por meu avô Jorge, as visitas às fazendas dos parentes e amigos, as festas, as explorações de matas e serras da região lideradas por meu tio Valdir, Moacir e painho Marcelo, e tantas outras... , são retalhos do passado ainda tão presentes na memória, ricas lembranças que me enchem de emoção.

              

                Viver a infância na fazenda alicerçou em mim um caráter sólido, uma alma pura, uma visão simples do mundo, além de bons exemplos de vida. A convivência com primos, tios, avô paterno, parentes, moradores, empregados, bichos, natureza, me mostraram que a simplicidade é o verdadeiro caminho para a felicidade e paz de espírito.

               Na casa grande moravam muitos velhos, irmãos solteiros ou viúvo(s) de meu avô, todos acolhidos por ele na grande casa da fazenda. Nos fins de semana a casa enchia, a família saia da cidade e se reunia na casa grande, nessa época muitos parentes e amigos tinham o costume de visitar uns aos outros e meu avô adorava toda essa movimentação, muita roda de conversa, prosa, poesia, política, música, rolava de tudo, conversas sérias e conversas divertidas, adorava estar em meio deles, me sentia importante. Sempre atenta a tudo, com curiosidade e inocência.

               Vovô era um bom homem, no fim de semana, não deixava seus netos e moleques sem um troquinho para comprar doces no barracão, era uma farra, corriamos ansiosos para comprar peito de velha, quebra queixo, pirulito de açúcar e outras guloseimas, daí nos deliciávamos sentados nas raízes das cajazeiras centenárias da fazenda.
              
                Mas, também, tinha o momento de assistir TV (preto e branco), pois era novidade na época, assistíamos desenhos, cinema mudo com Charles Chapplin e o gordo e o magro, sítio do pica pau amarelo, o globo rural (aos domingos de manhã) e todos os bons programas da época. Abriasse a janelona da sala e alguns moradores também assistiam conosco de lá. À noite, antes de dormir toda a meninada se sentava no alpendre para ouvir as histórias de trancoso do Mané, que nos assustava bastante, pois muitas delas era de parentes mortos que rondava a casa grande, ninguém se atrevia a ir ao banheiro para não cruzar no corredor com algum desses parentes já falecidos. Todos tínhamos nosso peniquinho em baixo da cama para alguma necessidade, nem mesmo alguns adultos se arriscavam por ter presenciado fatos estranhos, como vultos.
               São tantas recordações e lembranças felizes e curiosas, uma das mais marcantes era a festa de Natal no fim do ano, onde meu avô abria a fazenda para todos da região, era tanta gente por todo canto, a fazenda virava uma cidade, tinha corrida de saco, pau de sebo, cavalhada, banda de pífano, muitas atividades para todos, e ainda a atração principal a chegada do Papai Noel, que era o Mané Bicho fantasiado, havia distribuição de presentes e muito mais, só acabava a noitinha.
               Hoje tenho uma filha, moramos em Recife e sempre que podemos visitamos meus pais na fazenda Maná (desmembrada da Fazenda Cariri, por herança), é gratificante ver sua alegria e sorriso ao chegarmos lá, ela se sente livre, abraça os avós e corre logo para o jardim, o galinheiro, a casa do morador. Lá os brinquedos são outros, o pedacinho de pau, as pedrinhas, as bruxinhas de pano, os carrinhos de sucata  (confeccionados pelo morador da fazenda), os bichos..., tudo é diversão. Lá ela esquece o tablete, a TV, e até seus brinquedos da cidade. O colo da vovó é melhor do que o da mamãe, os braços dos titios a acolhe com carinho e o amor em família reina nos trazendo a felicidade tão almejada.
A meu ver, nenhuma tecnologia dos tempos modernos é capaz de se sobressair ante as brincadeiras saudáveis ao ar livre, os banhos de bica ou de mangueira no jardim, dar milho as galinhas, cuidar dos bichos, aguar as plantinhas no jardim, brincar de lama e fazer bolinhos, correr no terreiro sem se preocupar em ser atropelado, brincar com crianças, sejam elas pobres ou ricas, a simplicidade do ambiente, o acolhimento das pessoas, a igualdade de tratamento entre elas é que traz a harmonia entre homem e natureza, corpo e alma, infância e vida adulta.
A vida é um recriar. Cada época tem suas criações. Mas reviver na minha infância coisas e brincadeiras da infância de meus antepassados, e poder passar esse legado de cultura e simplicidade para minha filha não tem preço, viver nossas raízes é perpetuar nossa história.

                                                           Recife, 08 de janeiro de 2016