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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Memória e cotidiano: meus caminhos de vida





Se eu recordo, qualquer caminho para o Juazeiro era longe. Os romeiros costumam cantar dolentemente,  o quanto de estrada falta para chegar, muitas vezes o sol nasce e torna a nascer, e o Juazeiro parece perdido na fumaça da terra. Fui de carro; imagine nos tempos de Tio Lourencinho e dos irmãos Dondon e Dionísio.



Minha caderneta de lembranças e pendências com a vida (II)
Luiz Sávio de Almeida


Onde se fala sobre o que se pretende


Vergonhosamente, deixaram este mercado desabar e até hoje fica o vazio espacial e público

Talvez este trecho deveria ter sido escrito no primeiro grupo de lembranças que publiquei. Não fiz e há tempo agora. São anos juntando informações e lembranças. Decidi  começar a publicá-las, como se eu fosse buscar o passado e conta-lo, seguindo uma linha que foi aberta pelo primo e brilhante historiador que foi o Wenceslau de Almeida. Ele publicou alguns artigos, inclusive, que passam pela história da família, na revista do Instituto Histórico. Wenceslau era um erudito sobre a história do vale do Paraíba e, em particular, da área da antiga Atalaia, da qual, até finais do século XIX, Capela era um povoado.
Foi da década de vinte do XX, que Wenceslau começou um levantamento da genealogia da família, coletando dados de cartório, ouvindo fontes em conversa e disto gerou o que conheci como Caderneta do Wenceslau, uma pequena caderneta de anotar compras em bodega, tipo conta corrente. O meio onde escrevia deu nome à escrita. Ainda vi este material, certo dia em que fui com Eustáquio Moreira à casa do Coronel José Otávio para uma conversa. Não sei com quem anda o rico acervo fotográfico que existia na João de Deus, a usina que comandava a economia da Capela, Cajueiro e parte de Atalaia.
O Eustáquio Moreira copiou a parte referente à família dele e tembém vi e copiei o que ele montou. Era a caderneta do Eustáquio, primo, irmão da Áurea,  casada com o Pedro Macário do Metro de Ouro, loja de tecidos na Moreira e Silva em Maceió. Da tia Terezinha conheci o Aberal e o Zé Augusto. Ele era – salvo engano – pracista e nos visitava em Penedo. Parece que ambos foram para o Rio de Janeiro. Acho que a Antônia, prima,  copiou parte do trabalho do Eustáquio e acrescentou informações. Quem tem os cadernos dela é o filho: o Hélio da Gameleira. Falavam que o Efigênio escreveu também uma caderneta, mas o filho me confirmou que não.
O Cícero da Capela deve ter anotado muita coisa; faleceu. O Soriano também: ambos faleceram.  Talvez o registro que tenha ficado e de alta importância é o chamado livro do véio Pedro, irmão do Wenceslau que o ofereceu ao coronel Zé Otávio. Quando o coronel morreu, o livro escafedeu-se, mas estava guardado com o Tonho Moreira.  O Duda Moreira recuperou, mandou datilografar e repassou para nós; recebi uma cópia dada ao Sérgio Moreira.
Tudo isto faz parte de um grande conjunto de informações, mas privilegia Almeidas, pouco existindo sobre os Albuquerque Pontes. Sei que há um trabalho recente e que foi feito pelo pessoal do Clóvis, segundo me disse a Solange, filha dele e minha prima em segundo grau. No entanto, conheço livros de Ieda, prima, filha da Tia Lurdes, trabalhos do Rosival e do Roberval, filhos de Tio Lourenço. Há também um outro  importante trabalho da prima Sonia Xavier de Araujo-Ulrich.
Papai escreveu um livro sobre sua vida e assim fez o Aloísio Costa Melo, primo dele e filho de Tio Pedrinho. Tio Pedrinho também escreveu suas memórias. Faz tempo, meu pai adoentado, eu sempre estive com ele em torno de duas horas por dia e muitas vezes eram todo o sábado e todo o domingo. Haja histórias e mais histórias da Capela e de outros cantos.  Um dia ele me pediu para escrever a história da Capela. Disse que faria e comecei a tomar notas e, além do mais, tenho mania de pegar dados sobre curiosidades que me aparecem.
Assim foi brotando a ideia de escrever esta caderneta de lembranças, deixando os assunto chegarem sem consultar a esquemas e  sem ter preocupações acadêmicas; deveriam ser notas que fossem escritas a pedido do momento e que muitas das observações e anotações guardadas sobre o contexto do tema fossem aproveitadas. Cheira um pouco ao modo narrativo que Tio Pedrinho ensinou para fazer folheto de feira. Tio Pedrinho ensinou a meu pai  que me ensinou a arte do folheto de feira. Minha primeira publicação foi um deles e intitulado voto não se vende e consciência não se compra, publicado pelo Serviço de Assistência Rural da Arquidiocese de Natal.  O segundo foi um folheto intitulado As dores do gigante ou a fachada do Brasil, escrito em parceria com meu Compadre Chico Traira,  já falecido. Vendíamos nas feiras do Rio Grande do Norte.


Dele, não ficou qualquer registro; do primeiro, tem-se, mas o segundo ficou enterrado nas feiras do Rio Grande do Norte. Dos folhetos, ficou a mania de querer brincar com a narrativa;  ter um objetivo, mas andar por desvios e desvios e sempre voltando ao tema. Acho que isto, esta forma de escrever define este relato de lembranças e, nele, por opção, jamais ter como base uma escrita acadêmica. No fundo, estarão as lembranças a mim repassadas e as minhas próprias recordações de vida, vez em quando entrando na história a que vou chamar do prosaico,  com informações que foram anotadas sobre objetos e situações de nosso dia a dia.


Onde se fala sobre como Fausto voltou para Capela

             
  Imprensado em Maceió, na pobreza da Rua do Cisco, cinco filhos nas costas –  Dondon tinha menino encarrilhado – Fausto vai ter de voltar para Capela, baixar a cabeça, contar com a ajuda que será dada pela Vidinha e pelo Major, irmão da Dondon. Montam outra bodega e a casa ainda hoje existe, perto do Major que era onde está o Clube.  Haviam descoberto, mais uma vez, a repetição do caminho para Fausto Vieira de Almeida: ele teria de ser bodegueiro e agora, esperar pelos bons dias de feira, longe do mercado, quase em frente ao Torquato Cabral, o belíssimo grupo da admirável Capela.
    Era pelos lados do grupo, que vivia a Dindinha Belmina, linda, cabelão descendo pela cintura, oitão do grupo e passagem para a beira do rio. Andava cega, quando a vi.  Casinha, acho de porta e janela, caso me recorde direito.  Se não fosse cega, era abrir a janela e ver o rio ou a pracinha em frente ao grupo. Pois bem, Fausto volta para a Capela e o que fazer da vida? Ser domesticado mesmo como bodegueiro; do que ele poderia viver numa cidade como Capela naquele tempo? Se hoje é difícil, imagine como era.
               Sei que vai vender jogo de bicho, ser cambista.  Minha mãe ajuda o pai e andava preenchendo pule. Sei que vai ser fiscal municipal da feira, espécie de sinecura de baixo ganho e sei, também, que vai ser porteiro do Cine Ceci da Capela, onde Carlito e o Boca Larga faziam dezenas de risos, com a música saltitante do Maestro Chico Caetano. Passar fome, não passaria que Vidinha estava ali, na primeira fila.


O Grupo Torquato Cabral

Onde se fala um pouco sobre Fausto

               E pouco se vai falar da vida do velho Fausto Vieira de Almeida, salvo que não ligava para nada, apesar de ser um homem muito bom. Então, dos defeitos, somente o roubar e o beber não existiam. Rabo de saia era seu maior encanto: passava uma e dando a ordem, o velho Fausto correspondia e tudo isto, enquanto tinha uma mulher honesta, pudica e guardada em casa à sua espera. Dondon sofria com Fausto; e lá vinha a obrigação de dar de comer aos filhos e tudo escorado em uma máquina de costura, que muitas vezes era apenas uma imagem para dizer que o irmão ajudava.
               A velha Dondon pegava fogo igual a busca-pé, com extrema facilidade e acho até que Fausto matava com delicadeza, ou na unha como se costuma dizer. Tinha dia que ela começava a gritar e ele dizia baixinho: “Peste!”. Aí é que a Dondon desembestava: ”Fale alto! Tenha coragem! O povo vai pensar que sou doida!”. Aperreios, talvez, de um  amor aos gritos. Separar? Loucura naqueles tempos; era virar uma mulher a um passo da difamação e aí os dois seguiam as ruas da Capela com suas tristes ou alegres afirmações de vida.
               Fausto era calado e Dondon era de arranco. Pavio curto ou vida sofrida? Quem sabe? Não exitava em colocar cinturão com cartucheira nos quartos  e sair procurando uma conversa sincera  com lobisomem. Tinha um bicho sem vergonha que estava correndo e era até de dia, luz do sol acesa. É que um danado inventou de vir andar na Capela e ficar espiando as meninas, as moças tomarem banho no Poço do Pai Pedro. É muita safadeza... E parece que tudo foi no tempo do Juca Malta como delegado, homem duro, sem moleza, não aguentava prosa viesse de onde. Papai trabalhou com ele e contava histórias interessantes.  Pois o lobisomem sumiu para ninguém mais dar notícia, desapareceu assim, misterioso como chegou. 
               Contam que vovô teve uma amizade até de botar casa;  Dondon soube, levantou e foi lá e tocou fogo na casa da mulher que nunca mais viu sombra do Fausto, pois rumou para o oriente médio, numa saída de rabo de foguete. Destemida, sem dúvida, aguentava tranco e talvez fosse bem mais aguerrida de que Fausto. Uma vez, salvou a vida da filha de morte certa na mão de um ladrão.  Não fosse Dondon, a querida tia estaria morta. O ladrão amarrou um arame na porta e por dentro: fechou.  Dondon escuta os gritos e arromba a porta com arame e tudo. O ladrão corre e imagine o que passou no coração da Dondon ao ver a filha ensanguentada por conta das facadas que levou. Ladrão deu ás de Villa Diego e fugiu para a rua. Tio Lourenço ouviu os gritos e veio correndo    e pegou o ladrão, dando-se uma história que é melhor parar por aqui.
 Tio Lourenço era magrinho, mas brabo que nem um siri na lata e somente tinha um canivete no bolso; assim mesmo, era de apontar lápis. Havia um tipo de canivete, onde se usava as lâminas de barbear que já haviam passado no rosto: cega. Quebrava a metade, encaixava em um suporte e isto deu para vadear no ladrão. A Gillete azul deve ter ficado vermelha. Veja que da barba, a Gillete passou para outro uso, ela que foi criada por volta de 1900, vivia junto com um pequeno pote e um pincel de fazer barba, substituindo a navalha que se amolava numa correia, e tirando dinheiro dos barbeiros, numa popularização que deve ter começado a se fazer depois da I Guerra Mundial.
É claro que se usava a navalha em casa. Mas a Gillete era bem mais prática; meu pai tinha um estojo bonito e logo pela manhã, após banhar-se, colocava o creme do rosto e passava a lâmina; não era tarefa difícil, mas havia a necessidade de tomar cuidado para não arrancar os tamboques; tarefa mais delicada era escanhoar, a mão esticando a pele e a outra passando a lâmina, examinando-se sempre por onde ficava pelo e ele era cortado na contra mão. Chato era quando a barba tinha redemoinho. Tinha tempo de menino tirar a barba; era quando os fiapos já ficavam incomodando e estava pelos fins da mudança de voz.
               Pouco vou saber a mais sobre meu avô. Mamãe, que era louca por ele, dizia que era o homem mais bonito do mundo e falava de peito cheio sobre ele; sentia uma verdadeira adoração, mas sempre tinha a ressalva no comportamento, o não ligar para a casa. Seria verdade? Sei que até a notícia de sua morte passa pelo inverossímil: meio dia, tomou um caldo cana picado, mergulhou no Pai Pedro e já saiu roxo, tal o ramo do estupor. Na verdade. Pelo que sei, foi um baita câncer, aquela doença que mata aleijando. Sumiu Fausto Vieira do mundo dos vivos. Nem mesmo a catacumba achei no cemitério da Capela. Disseram-me que se enterrou na cova de um parente. Mostraram. Será? Pois este era Fausto, um grande mistério na vida e na morte.


Uma casa de quatro grandes portas

Onde se fala sobre o casamento de Maria José

Dondon, se teve outros amores, eu não sei. Apenas, na rua, andava de luto fechado, toda vestida de um preto forte; em casa, roupa mais à vontade, meio cinza, meio viúva já descansada. E assim foi por anos, até morrer, indo à Igreja, missal na mão, curvada para o tempo.  Minha mãe casou de surpresa e quando disse à vovó que iria sentar praça ao lado do  Manué, a velha rebateu: “Mas minha filha, você tem coragem de casar com um homem mais pobre do que você?”. Casar de surpresa era bom.  Não se gastava dinheiro, opção de pobre, casava e depois comunicava aos amigos; era diferente do casar fugida. Pois foi assim que se deu o casamento da Maria José do Fausto mais Dondon com Manué. Mamãe arrastou o padrinho Zé com ela, foram à Igreja e casaram: ela e Manué.
Manué  tinha comido uma tremenda poeira de vida; agora, a Igreja o abraçava, mas já não era tão pobre assim, já havia colocado as asas de fora e poderia sustentar a mulher.  Tomaria o rumo do Quebrangulo e já deveria ser Secretário da Prefeitura da Capela. Era um exagero chamá-lo pobretão. Nem sei para onde foram depois que casaram. Pai morava na Rua de Cima, conhecido lugar de pobreza; acho que morava com a Donana, sua irmã por parte de pai, que depois rumaria para o Rio de Janeiro por onde criaria os filhos. Pouco sei da Donana, minha tia, mas sei que era uma pessoa notável, abandonando tudo na Capela e correndo para o Rio a fazer, bem dizer, uma nova família nas bandas de Niterói. Era a mãe do Heitor, primo e grande amigo de meu pai. Nesta época, seu irmão José de Almeida era dos ricos das Alagoas e ela nem psiu deu: foi embora.


A subida do Campo Santo

Onde se fala sobre as andanças do Tio Cícero

Os filhos de Dondon iam encontrando seus próprios caminhos; o primeiro morreu e se chamava Bartolomeu; o segundo, Cícero Romão Batista, viveu bangolando na Capela e tomou o destino do Rio de Janeiro, com o primo Dário que o levou com a autorização da Dondon e o ingressou no Partido Comunista sem a autorização dela, para imenso desgosto da velha minha avó. Tia Nini já havia casado com o Tio Isaís;  Maria José tomou seu rumo com o Manué, Lurdes vai ser Mestra Rural e vai viver em Limoeiro de Anadia, com Dondon e Lourenço que, acho, era o caçula, o ponta de rama. Maria José de Almeida também era Mestra Rural, curso tirado no Torquato Cabral.
Conheci o Tio Cícero ainda no Rio de Janeiro. Diz a Jurema minha prima e filha dele que estou errado, mas acho que foi numa loja de vender meias e chamada Olga. Meu pai foi resolver uns negócios e me levou com ele. Tudo terminado, fomos conversar com Tio Cícero, que nesta altura já era casado com a Tia Antônia, pessoa de raiz familiar na Serra Talhada do sertão de Pernambuco. Os dois estão enterrados aqui em Maceió.
Chegamos lá, perguntamos por ele, e ninguém respondia e passa tempo, até que papai diz ser cunhado dele e dá mais uns toques;  então, como seria no cinema, Tio Cícero abre a cortina, sai e dá um espanto: “Manoel!”. Depois me abraçou e tudo ficou assim na minha cansada cabeça. A Dondon e sua filha Lurdes conseguem trazê-lo de volta para o aconchego do lar alagoano e vem com a metade dos filhos e o resto faz aqui mesmo, dentre eles a minha primíssima Jurema.
Eu gostava dele e muito. Fui ao enterro. Ele me chamava de Comandante e, quando bem velhinho, quase se arrastava pelo meio do mundo. Era baixinho, meio peralta, bigode, a cara da Dondon, se minha avó  usasse bigode. Sempre foi muito bom comigo e vezes filei a boia de sua casa. Ele tinha uma estante, onde guardava seus livros da Editorial Progresso, publicados com o ouro de Moscou. Herdei a sua coleção das obras de Lenine. Acho que ele tinha, também, as de Stalin. Tio Cícero foi em cana; não sei se levou umas pitombadas. Dondon morria de agonia e rezava para o menino ter juízo; acho que esteve preso no tempo em que o Zé Maria, primo, estava também, para as amarguras da mãe que chorava suas desventuras.
Nem preciso dizer que estamos diante do Santo Padre do Juazeiro e que o nome do tio era resultado da fé que Dondon vivia, espécie de catolicismo que não acreditava nas loucuras que se diziam com meu padrinho. Dondon foi ao Juazeiro; saiu da Capela, montada em um cavalo e rumou para o Cariri; acho que foi com Salvador, pessoa de confiança e fogueteiro na Capela. Na mesma oportunidade e não sei se foram juntos, viajou o Major Dionísio com destino à Meca. Dizem que o Padrinho pegou na beca do Major, deu-lhe uns sopapos e ninguém soube como o Santo adivinhou a traição que doía na Tia Vidinha. O Padrinho quando pegava bela beca, era como se excomungasse e ele tinha a força no sangue vertido na boca da beata Maria Araújo.
Fazia tempo, que morava no Juazeiro um santo homem de nossa família: Tio Lourencinho. Eu o conheci quando ele voltou para Alagoas; vestia caqui, um lenço vermelho no pescoço e passava o dia lendo livros sagrados. Vendeu tudo o que tinha e foi para o Juazeiro onde montou uma casa de santos e se fez da intimidade do Padrinho. Casou com a Tia Mocinha e tiveram um filho: Paulo.  Paulo morreu quando andava com os burros pelo sertão, a chuva caiu num de repente, a água do rio engrossou e ele não teve tempo de sair do caminho que antes estava seco e esturricado. Tio Lourenço morreu, parece, em Viçosa, refém da marrada de uma vaca braba que pegou nos quartos lá dele.
Quem o trouxe de volta foi a bondade do Clóvis, filho do Antônio Toledo de Albuquerque. Clóvis era primo de minha mãe e ele sabendo das dificuldades de vida do tio, mandou chama-lo e foi assim que ele terminou se findando por aqui. Parece que a Tia Mocinha enterrou-se para onde parte da família mudou.


Pobres bandeiras a secar


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Memórias de um cidadão da Capela, Alagoas

Os três filhos de Manoel de Almeida: Sávia, Sávio, Rita (falecida)







memória memória memória 



Foi meu pai quem me mostrou, desde pequeno, a existência de livros; foi meu pai quem me sentava no colo e fazia-me perceber a vibração da música; foi meu pai quem, me mostrou o que era o amor pela família, pela dignidade. Foi meu pai quem me aconselhou quando errei, mas nunca me recriminou; foi meu pai, portanto, quem mostrou à criança o caminho para ser adulto e eu o amava, mas amava tanto que desejava dar na hora de sua agonia e minha vida e disse-lhe nos seus ouvidos de morte: “Eu lhe amei durante os 50 anos de minha vida!”. Luiz Sávio de Almeida

 Uma homenagem, a Manoel de Almeida (I)

Quem é quem

Luiz Sávio de Almeida é filho de Manoel de Almeida e Maria José de Almeida.


Dois dedos de prosa

Ele merece:   lidou com milhões  e ficou com o que lhe deu o suor. E me acostumei a ouvir: “Seu pai é uma reserva moral das Alagoas!”.  Claro que eu sentia orgulho, mas sorria por existir reserva moral, como se a gente gastasse a que tem e mandasse buscar a poupança.

Era um gentleman alagoano. Uma vez mamãe  falou: “O Lula da Bomba disse que dois camaradas apareceram num Jeep e perguntaram onde era a casa do seu pai!“.  Sinal de coisa braba. Imediatamente fui ao Banco: entrei na sala e fechei a porta. Ele sorriu: “O que procura o jovem Infante?”.  Perguntei se estava tudo certo. Ele sorriu, abriu a gaveta e mostrou o arsenal: “Dá pra dois?!”. Ele jamais soube, mas a mando de minha mãe, passei uma semana o acompanhando de longe. Sem pestanejar,  morreria por ele. Eu tinha uns 15 anos: era cada encomenda...

Eu ainda te amo, meu pai!

Vamos lá
Sávio


As memórias de Manoel Almeida

Luiz Sávio de Almeida


Sem qualquer sombra de dúvida, Alagoas tem bons memorialistas e Manoel de Almeida está entre eles.  Seu livro intitulado Memórias de um homem comum foi publicado em 1992 pelo Instituto Arnon de Mello e com a chancela do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool do Estado de Alagoas,  Cooperativa Regional dos Produtores de Açúcar e do Álcool de Alagoas e Associação dos Produtores Independentes do Açúcar e Álcool. Este rol de entidades ligadas ao açúcar e álcool deve-se ao seu papel como Gerente do Banco do Brasil durante anos em Maceió e, também, ao fato de que sempre esteve no açúcar, nascido que foi em Capela, no Vale do Paraíba e membro de famílias tradicionais daquele pedaço de Alagoas: Almeidas e Mellos, como também Vieiras.

Fausto Viera de Almeida, sogro de Manoel de Almeida


Não seria exagero dizer que seu livro somado à produção de seu primo Aloysio de Costa Melo fornece um painel do que seria o açúcar e a vida daquela área do Estado nas décadas de 20 a diante do século XIX. Sobretudo demonstra como  o açúcar é cruel em suas relações sociais interpares.  Ele não reincorpora aquele que foi alijado. Isto pode ser identificado aqui e ali, conforme aconteceu com os primos mencionados. Saíram do meio açucareiro, viveram o cru da pobreza e refizeram a vida como personagens urbanos, por coincidência, lidando com o próprio açúcar.
Há uma tradição de escrita entre os Almeidas que começa pelo Wenceslau de Almeida e seus estudos capelianos, interessado que foi na história da região e na própria história familiar. Ele tem estudos  publicados  sobre a Capela, sendo autor, por outro lado, de anotações de caráter genealógico que ficaram conhecidos como a Caderneta do Wenceslau, desde que os assentamentos foram feitos em uma caderneta de compras, usual naquela época. Ainda a vi, nas mãos do Coronel José Otávio, na casa grande da Usina João de Deus. O  coronel era casado com uma irmã do Wenceslau.  Depois, Pedro Wenceslau de Almeida copia e amplia os registros da Caderneta, gerando o Livro do Véio Pedro, desde que foi escrito em um velho livro de atas. Conheço ainda a Caderneta do Eustáquio e  os Cadernos da Antônia. Surge o Livro do Manoel.
A vida de Manoel de Almeida foi, antropofagicamente,  a destituição do açúcar, o nascimento do homem da classe média urbana que vai ser um fiel agente bancário. E isto, vencendo adversidade por cima de adversidade, até que a tudo remonta quando vai ser secretário da Prefeitura Municipal da Capela. Em seguida parte para ser secretário da Prefeitura de Quebrangulo, onde monta o Ateneu Quebrangulense, uma escola;  depois ingressa no Banco do Brasil e segue sua carreira.
É de se notar o quanto a vida foi trabalhosa, o quanto teve de lutar para ter um lugar rural e quanto teve que sair em busca da vida em locais urbanos. Decididamente, não teria mais a volta, apesar da tentativa de estar plantando no Monte Verde ou quando está em Quebrangulo sonhando com um caminho que jamais passaria por uma fazenda. E ele sempre achou que tinha algo a contar como se desejasse ter uma conversa consigo mesmo: precisava dizer coisas a ele mesmo e este foi o caminho deste livro, publicado em 1992, mas na verdade, pensado por muito tempo e tentado quando retorna para Maceió, com tudo sendo assentado em uma velha caderneta – ainda a guardo – comprada na Papelaria Acadêmica, Niterói.  Na primeira página estava escrito: “Resumo dos acontecimentos e da [...]  de minha existência e escrito por minha própria pessoa”. Eu mesmo falo sobre mim e comigo.
Para sobreviver, sentou praça no Exército.  Em 1926 embarcava para o Rio de Janeiro no Paquete João Alfredo. Esteve no exército e depois entrava para a polícia. Em 1931 estava de volta e terminou sendo convidado para ser Secretário da Prefeitura da Capela, pelo Prefeito Eustáquio de Mello. Foi a virada de vida; começou a carreira de professor, ensinando português no Colégio São José, depois lente de português e de escrituração no Educandário Capelense. E vai e então, a dois de junho de 1932 que começa a família: “Por carta me declarei perante Fausto Vieira de Almeida e pedi em casamento, Maria José de Almeida”. Vai ser Secretário da Prefeitura de Quebrangulo, casa. Em 1933 funda o Ateneu Quebrangulense e a 10 de junho nasce seu primeiro filho:  Sávia  de Almeida e a batiza. Este foi o último registro em sua caderneta de lembrança que ele sempre guardava junto à sua Caderneta Militar, com várias anotações assinadas pelo Coronel Luiz Cavalcanti Lima a quem sempre foi agradecido.
A sua  vida tem uma reviravolta quando entra para o Banco do Brasil e segue para Maceió. Depois vai comissionado para Pirapora; volta para Alagoas: Penedo, onde será contador da agência. Depois vai ser gerente em Bicas, Minas Gerais. Volta para o Nordeste e será gerente em Palmares. Segue para ser Inspetor em Natal e volta para ser gerente em Maceió. É esta andada de vida, que aparece em seu livro. E sua aventura termina em um dia pesado de qualquer ano, pois não guardo datas tristes.

Manoel e Maria José de Almeida

O caixão estava descendo na cova e minha mãe abraçada a mim disse-me ao pé do meu ouvido: “Meu filho, está sendo enterrado um homem honesto. A vida do seu pai prova que este país pode dar certo!”. Arremata e esta frase gravei: “Eu nunca tive vergonha de um grão de feijão que entrou em nossa casa!”.
Manoel de Almeida foi engenhoso na construção de seu texto; ele é  escrito de uma forma dialogada entre seu passado e seu presente, com ele menino mandando cartas para ele adulto e recebendo respostas. Aos poucos, o tempo dos dois faz com que se encontrem e, então, o menino revolta-se contra o adulto. Ele devia ter dito que era ele, segundo as razões do menino, e com isto entenderia tanto sofrimento que vivera. O menino assina suas cartas como Manoel e o adulto como Sr. Almeida.
Bons  observadores, em diversas partes do livro, tanto Manoel quanto Almeida fazem uma narrativa de ambiente e circunstâncias. O tempo e seu andamento transparecem. Hoje vamos publicar trechos de uma carta escrita pelo Sr. Almeida para o Manoel e fala sobre a vida da pequena Capela nos idos de 30. Claro que estamos com uma Capela por ele recortada, pinçada para realçar-se no texto, desde que ele é sua própria personagem.  Isto não impede de sentirmos o que indica sobre o que seria, na sua posição, viver  o tipo de integração que poderia ter.  Mas o que me encanta neste texto, é a função do detalhe e do acaso na definição das histórias. Isto me faz lembrar um pouco da micro-história em Ginsburg que relembra Sherlock Holmes: suas grandes conclusões são encaminhadas por detalhes que se poderiam julgar insignificantes.
Não quero e não posso transformar meu pai em objeto de estudo e fiz questão de não enveredar por uma série de discussão que o tema suportaria sobre, por exemplo, memória e história. Discutir efetivamente, a sua contribuição, ao falar de si mesmo, para entendermos o outro enredado em nossas vidas.

II – A orelha do livro

Manoel de Almeida: pai e amigo

Luiz Sávio de Almeida

Rita Maria de Almeida
No momento em que escrevo esta pequena nota,  tenho em meus ombros a dor de todos os órfãos do mundo. As minhas mãos estão pesadas no teclado do computador e a minha alma se arrasta,  junto com a imensa saudade que toma conta de todo meu corpo. Meu pai morreu numa manhã de domingo, quando trabalhava em seu escritório, continuando o que sempre fez na vida. A velhice não o fez parar de ler, estudar, escrever, manejar a sua poesia.
Foi meu pai quem me mostrou, desde pequeno, a existência de livros; foi meu pai quem me sentava no colo e fazia-me perceber a vibração da música; foi meu pai quem, me mostrou o que era o amor pela família, pela dignidade. Foi meu pai quem me aconselhou quando errei, mas nunca me recriminou; foi meu pai, portanto, quem mostrou à criança o caminho para ser adulto e eu o amava, mas amava tanto que desejava dar na hora de sua agonia e minha vida e disse-lhe nos seus ouvidos de morte: “Eu lhe amei durante os 50 anos de minha vida!”,
Morreu compassadamente como tudo o que fazia; sem grandes gestos, sem qualquer estardalhaço, discreto e morreu, onde eu sempre quis que acontecesse: no meu ombro, sendo beijado por minha boca e acarinhado pelas minhas mãos que percorriam os seus cabelos, passavam por seus braços. Ele estava olhando para mim e seus olhos fitavam longe, quando a morte aconteceu. É que seus olhos sempre viam longe, sempre estavam procurando o que havia além do horizonte. É que meu pai não conhecia limite.
Quero agradecer em nome de minha família a todos os que estiveram conosco, especialmente  à minha prima Rosângela, a quem ele muito queria;  especialmente a Maria Clara Brandão a quem dedicava admiração e carinho e que esteve com ele durante os momentos de seus últimos suspiros.
Meu pai honrou à humanidade, desde os tempos em que chegou a viver da caridade pública, até os tempos em que se demorou na terra.  Sinto-me feliz e agradecido a Deus, que fez com que seus últimos instantes fossem tão cheios de carinho e de amor por ele, carinhos de minha mãe, meus, de minha esposa, de minhas filhas e de Maria Clara, cujos olhos cheios d’água revelaram a grandeza de seu espírito, ficando conosco, dando apoio a todos nós e consolando a minha mãe.
Devemos agradecer a todos quanto colaboraram na impressão deste livro, simbolizando-os na pessoa de Douglas Apratto Tenório, amigo que se dedicou de corpo e alma, à tarefa de nos dar esta satisfação de ver a vida de Manoel de Almeida prolongando-se.
Meu pai provou com sua honestidade, com sua própria vida, que este país ainda pode existir com dignidade.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            Maceió, 2 de setembro           de 1973
Manoel
                                                                                                                                                            
A família de Manoel Hermenegildo de Almeida, meu avô

Reconheço que em minha vida não há o que o senso comum chama de sucesso, pois, neste sentido, progredi bem pouco, mas se me fosse dado partir de onde parti, para recomeçar a vida, não vacilaria um momento e tomaria a mesma estrada que tomei, mesmo sabendo que iria encontrar as mesmas dificuldades e os mesmos sofrimentos que me são sobejamente conhecidos.
Começo  minha narrativa  pelo ano de 1930, em época somente sete anos posterior àquela que você está usando em suas cartas. É uma época que, por ser bem próxima à sua, você terá facilidade de compreender. Não faço referência concreta às datas posteriores, e espero que você, pelo menos durante algum tempo, não me faça perguntas sobre este ponto.
[...]
Em 1930, estou em Capela, a minha cidadezinha, enquanto corre o mês de abril. Aqui estou, vindo do sul do país, e de certo modo vencido pelas circunstâncias, embora não vencido em relação aos meus propósitos básicos. Já aprendi a ler e escrever, embora praticamente nunca tivesse frequentado cursos regulares, mesmo o primário.
A cidade é pequena, e o meio um pouco acanhado. Ser pobre, aqui, é a regra. Indústrias não há, com exceção da do açúcar, e o comércio tem pouca expresso. Quanto à instrução, só o Grupo Escolar. Ginásios ou colégios estão fora de cogitações em futuro próximo, por não haver condições pata a criação, instalação e manutenção. É assim, mas é a minha cidade, a cidade de meus antepassados. População simples e ordeira, não havendo forasteiros. É gente daqui mesmo, formando três ou quatro famílias tradicionais, mais ou menos ciosas de sua importância.
Esta é a cidade de 1930, de que acima falei no presente, ou melhor, usando o verbo no presente e de que, agora que estamos em 1973, passo a falar como no passado, sentindo a saudade dos 43 anos decorridos.
A moralidade tinha a sua força e os costumes eram um tanto quanto rígidos. A religião católica tinha bases firmes e o padre d freguesia era a autoridade mais importante. Fora dele, só o juiz; o promotor, o diretor do Grupo Escolar e o delegado de polícia. Mas acima de todos estava o chefe político, como única autoridade de fato.
Capela tinha suas tradições de cultura e de importância política. Nas conversas seria comum ouvir dizer que B foi Secretário do Interior no governo de C; que D, o avô de E, foi chefe político mais respeitado da região, entendendo-se o seu prestígio até mesmo à capital, junto a governos diversos, e assim por diante.
A vida econômica girava em torno da cana de açúcar, contando o município com 50 engenhos banguês, que já começavam a ceder lugar às usinas.
As diversões eram poucas, apenas um cinema com duas ou três funções semanais. Havia também um barzinho, ponto de reunião de todas as noites ou mesmo de todas as horas e onde se discutia de tudo, desde literatura, política e religião até os particulares mais reservados da vida alheia. Fora disso e complementando a vida social, havia as conversas de esquina, que começavam logo depois da refeição da noite e se prolongavam por vezes, até altas horas da madrugada. Logo depois de minha chegada à Capela chegou, também, vindo da capital, o Padre Joaquim que irisa tomar a frete de sua primeira paróquia. Moço saudável, bonitão e tido por inteligente, queria, e devia aparecer e sobressair-se na condução de suas ovelhas, e o número de Filhas de Maria ou de membros de outras congregações elevou-se substancialmente. A frequência às missas e ao catecismo duplicou desde logo, pois o homem sabia mesmo fazer sermões bonitos. Religião passou a ser assunto de todas as conversas, e quem não soubesse falar sobre o tema estava automaticamente fora de moda.

Papai está em pé. É o quarto da esquerda para a direita

Para congregar a moçada católica,  padre Joaquim fundou o Centro Social Católico e não ficou rapaz de 15 a 60 anos que não aderisse prontamente e, entre os aderentes, é óbvio, estava eu, cantando hinos de igreja que era uma maravilha, mesmo sem haver ingressado no Centro com muito entusiasmo, e, sim, apenas para não ser alijado da vida social.
Mas, eu não necessitava só de convivência, porém, também, de sobrevivência. Estava desempregado e necessitava ganhar alguns mil réis, pelo menos para o vestuário e pequenas despesas, pois casa e alimentação meu pai garantia. E foi assim que me tornei empregado do Sr. Joaquim Lemos. O qual possuía uma mercaria relativamente bem sortida na rua do Comércio. Mas haviam construído um novo mercado lá para as bandas da Canafístula. Para onde se mudaram quase todas as casas comerciais. Ele resolvera manter a loja antiga mas, para ajustar-se à mudança, criou uma filial na nova zona comercial, na qual fui admitido, representando, ao mesmo tempo, os papeis de gerente, caixa, balconista e servente, pois seria o único.
Praticamente, nada fazia ali, pois freguês era coisa rara, a não ser nos dias de feira, porém seu Lemos insistia pela minha permanência e por conservar a loja funcionando, dando-me almoço e pagando-me 40$000 mensais. Outro emprego, porém, apareceu depois e deixei o cargo. [...]
[...] devo mencionar que Padre Joaquim, interessado no nível  intelectual de sua paróquia, logo descobriu que entre os seus paroquianos muitos necessitavam avivar as luzes do saber, principalmente no que se relacionava com o bom uso da língua pátria e, por isso, resolveu ministrar um curso de linguagem.E eu inscrevi-me, como não devia deixar de fazer, acontecendo a primeira aula poucas noites depois, no salão principal da prefeitura para isto iluminado a capricho, com a presença do fino da sociedade, principalmente moças e rapazes em roupas de festa, todos curiosos com o que iria ser dito. Eu, a um canto e meio desconfiado com tanto aparato, lá estava.
O jovem sacerdote falou bonito e demoradamente e todos ouviram calados e pasmados de tanto saber. O que veio por fim foram algumas noções  de gramática da língua portuguesa bastante conhecidas, mas lá pelas tantas alguma coisa foi dita que me parecia confusa ou errada e eu, supondo que não tivesse ouvido ou entendido bem e com o desejo real de aprender, aproveite uma pausa e, timidamente, pedi esclarecimentos sobre um detalhe de que agora não recordo. A resposta foi prointa e os esclarecimentos foram longos. Meu quociente intelectual infelizmente não me ajudou e tive de fazer nova pergunta. Nova explicação sofisticada e nobva pergunta desajeitada...

Um projeto de mim mesmo
Não me interessava gerar confusão, aliás, gerar discussão, o que queria era aprender, mas não me dava por satisfeito com o que ouvia. O impasse estava criado, a contragosto meu.  Padre Joaquim embaraçou-se um pouco mas, esperto, teve uma boa saída. Alegou que gostaria de continuar com a discussão do assunto, mas ela estava se desenvolvendo em um plano muito mais alto do que o cabível naquela primeira aula, que se destinava a pessoas de nível médio.  [...]
Porém, aquilo, para a assistência assumiu logo cores de grande discussão de alto nível e já no dia seguinte passava a figurar como prato preferido em todas as reuniões ou ajuntamentos, ativando as conversas de esquina e os serões domésticos. O professor era uma capacidade mas eu era, em Capela, a única pessoas capaz de discutir português com Padre Joaquim. Tornei-me herói de um momento para outro. [...]
O episódio da primeira aula do padre Joaquim, insignificante em si, teve, se bem apreciado, consequências de grande sentido, em relação à minha pessoa. É que eu, que nunca frequentei escolas regularmente, sempre senti desejo de saber alguma coisa, estudando, por mim mesmo, como podia, através  da leitura dos livros que me chegavam às mãos. [...]
Ao padre visitei várias vezes, trazendo de volta um livro ofertado ou emprestado. Do juiz consegui alguns livros e do promotor alguns outros. Também comprei muita coisa e a verdade é que, com isso, alcancei algum resultado. Oficialmente continuei analfabeto [...] O professor é necessário, mas o essencial é a vontade de aprender. O curso do padre não durou muito e não trouxe, em si, qualquer vantagem apreciável, mas aquele detalhe, que não estava no programa, foi um estímulo valiosíssimo, como outros que tenho recebido pela vida a fora.
Adeus

Almeida.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Conversa de bar. Vamos deixar nossas saudades conversarem na Praça da Matriz


Hoje foi um dia triste. Será que o mundo é uma grande saudade? Acordei com a notícia de que minha madrinha Maria Leda havia falecido.Sei que você tem saudade. Vamos deixar as nossas conversarem na Praça da Matriz



Escute a proposta

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Passeando. Alagoas: saindo da Capela para Viçosa

Precisamos documentar, precisamos ser generosos com o fgutujro.
Documente e agora, saia da Capela e pegue o runo da Viçosa

quer ver? Clique!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Conheça Capela: pequena cidade da mata das Alagoas

Esta é uma pequena filmagem feita na Capela,em Alagoas, terra de minha família. Nosso objetivo era encontrar o João das Alagoas. Eram quatro amigos:  Chico e Eduardo (estão na foto), Myrian e eu.  Resolvemos documentar filmando, fotografando, gravando, Um dia, este material interessará à pesquisa de alguém.
Conheça a Capela.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Pedaços de Alagoas. Artes Plásticas. Eduardo Bastos




A imponente Matriz da brava Cidade da Capela
Piezas. Alagoas. Artes plásticas
Alagoas Pieces
Piècis Alagoas arts plastique
Pezzi Alagoas, Arti plastiche





 Este material foi publicado originalmente em Campus/O Dia, Maceió.




Quem é quem
Eduardo Henrique Omena Bastos é artista plástico, arquiteto e professor do IFAL. Colaborador de Campus.

Dois dedos de prosa
               Novamente, trazemos para nossos leitores,  a produção do artista e professor Eduardo Bastos. Desta feita, ele lança seu olhar, trazendo maravilhas que suas mãos traçam, desta feita visitando parte de nosso Estado.

          Temos por Eduardo uma grande admiração, não apenas por ele ser um expressivo artista, mas pela figura humana que é.           

               Campus/O Dia dá aos leitores um belo presente.

               É sentar e ver como talento e método fazem com que a beleza se expresse.

               Obrigado ao Eduardo e ao amigo leitor, um grande abraço.

Sávio de Almeida


Capelinha da entrada da Capela pela ponte

I - O TRAÇO DA MINHA TERRA
Eduardo Henrique Omena Bastos

Os croquis aqui apresentados são o registro de imagens - capturadas através do olhar e da mão, pelas andanças no interior do Estado de Alagoas, algumas vezes a trabalho, outras, mais lúdicas, com o grupo do curso Design de Interiores do IFAL.


  A arquitetura interiorana, a vernácula, sempre me atraiu e fascinou e, nessas viagens, busco observar e deixar algumas marcas sobre as folhas de papel. Creio que existe na natureza humana a vontade imperiosa de exprimir essa intenção/emoção, seja riscando no solo uma cruz o local da futura construção de um edifício ou traçando com uma linha em um mapa, demonstrando aonde se quer chegar, ou ainda de maneira mais sublime, pintores como Van Gogh, Constable, os Impressionistas, Visconti, Calixto... Entre outros gigantes da História da Arte, mantinham uma relação de amor e paixão pelo lugar e suas obras influenciaram esses sentimentos no grande público.


 Imagino que o desenho deva fazer parte da fisiologia humana, o homem das cavernas muito antes de aprender a se comunicar verbalmente, desenvolveu todo um sistema de símbolos que se relacionavam com sua própria sobrevivência: a imagem de um bisão na parede de uma caverna continha a expectativa de aprisionar o espírito da caça. Depois perceberam que poderiam representar a si mesmos em cenas de caçadas ou rituais religiosos. Porque tais necessidades? Talvez o traço, seja nossa primeira reação ao mundo para nos comunicar de maneira efetiva e duradoura. Dê um lápis e um papel a uma criança na mais tenra idade e veja o que ela faz. Não pensa duas vezes e vai logo rabiscando, é instintivo... Emocional! Elas gostam!


Cada artista tem esse poder de imaginar e criar o mundo como gostaria. Certa vez disse Gombrich, um famoso historiador: “Na realidade a arte não existe. Existem apenas artistas.” Percebemos de maneiras diferentes, pontos de vistas são distintos e mutáveis, cada um carrega dentro de si um universo em construção, ou “sabe a dor e a delícia de ser o que é” (Veloso), e a arte é também uma forma de se distanciar do mundo e criar significados para ele. Minha percepção faz parte de um conjunto de experiências que são só minhas e busco fazer uso delas para criar imagens, contar histórias e criar um diário de memórias.  Como Dibutades, que desenha o contorno da sombra do amado que vai partir para guerra, traça seu perfil para que este permaneça na sua lembrança, quiçá uma maneira de aliviar a solidão e a tristeza. Tais sentimentos se expressam ao ver muitos exemplares da arquitetura da nossa terra, abandonados e mal preservados, os quais são o registro, como expressão maior, dentre todas as artes, como diria Paul Valéry, da memória de um povo.

Campus do IFAL em Satuba

Casa na área rural do Bananal, Viçosa

Convento de São Francisco em Marechal Deodoro

 II - Um Olhar para Cidade
 Pedro Caetano

Arquiteto, artista plástico e poeta nas horas vagas.

Aprender a ver ainda é uma das qualidades mais intrínsecas das pessoas que trabalham com pintura, design, arquitetura, ou escultura.

Paul Laseau nos alerta que da mesma forma que o músico deve ouvir muita música, e o escritor, deve também ler bastante, este raciocínio não deixa de ser aplicado aos que trabalham com a esfera visual.

Isto é, arquitetos, artistas e designers precisam ver muito, várias ideias, porque tudo que já foi feito, foi baseado em algo, ou em alguém, vanguarda, momento histórico...
Então como se aprende a ver?
Ora, se aprende a ver melhor desenhando.
É neste sentido que o desenho de observação ainda se faz fundamental na carreira de um arquiteto, designer ou artista plástico.
Ainda hoje damos muita importância de alimentar apenas nossa literatura verbal através dos livros, renegando nossa literatura visual.



Desenhar é aprender a ver, quanto mais se desenha, melhor se enxerga, e quanto melhor se enxerga, melhor se desenha.
Desenhar é aumentar nossa literatura visual e nosso acervo de ideias. É também educação visual.



Pelo seu caráter analítico, o desenho nos faz estreitar nossa relação com o tema desenhado, faz com que nossos olhos percorram a silhueta da forma escolhida, que vai aos poucos sendo assimilada, internalizada.

Desenhar é deixar nossos olhos caminharem pela silhueta da montanha,

da cidade,

da casa

ou da mulher.
Um desenho de observação é uma busca de se “apossar” da beleza,

de possuir o que não se pode ter... 
de tocar o que não pode ser tocado...
de ter algo que não se deseja tornar-se inesquecido.
Olhar para um  desenho antigo é acessar os viadutos da memória.



Le Corbusier costumava dizer que o surgimento da câmera fotográfica interferiu na visão das pessoas. O click é instantâneo e muitas vezes fullgás.
O instante fotográfico muitas vezes é impaciente e nem sempre possui a dimensão contemplativa de um desenho.
Desenhar é analisar, selecionar, absorver, traduzir, sintetizar...


Todas essas qualidades inerentes ao ato de desenhar estão sempre presentes nos esboços e aquarelas de Eduardo Bastos. Que nos revelam um oásis do que deve ser apreciado.


As aquarelas de Eduardo são o testemunho de uma conexão entre o artista-arquiteto e a cidade, do desenho com a verdade, da emoção diante da beleza.
São, sobretudo uma lição de que a arte está dentro de uma esfera não verbal, não lógica.

Fazer uma aquarela que imite a aparência fidedigna das coisas não faz sentido para Eduardo, seus temas funcionam como um meio através do qual algo maior se manifesta, a sua visão de mundo.
Tratam do que não pode ser descrito em palavras. Como diria Henri Matisse, “se você um dia quiser ser um pintor trate de cortar a sua língua”,
Edward Hopper também nos indica o mesmo caminho afirmando que se pudesse descrever em palavras, não precisaria pintar.
Só mesmo um poeta para achar as palavras certas para o que não pode ser dito.

Sentimentos não moram em palavras.
procuram seus silêncios, são invisíveis,
mas procuram suas imagens.

E Eduardo é um caçador de imagens
Sua arte não precisa de comentários porque fala por si,
é poesia para os olhos e alimento da emoção.

Matriz de Porto Calvo, Alagoas

Matriz de Coruripé


III - Um comentário sem título e sem pretensões.
           Gildo Montenegro
                                           Arquiteto e Professor  -Universidade Federal de Pernambuco

    Para muitas coisas há um jeito complicado de fazer, mas, em geral,  há possibilidade fazer de outro modo. A fotografia, por exemplo, é uma maneira simples de reproduzir uma praça ou um prédio. Em questão de segundos, a imagem fotográfica revela minúcias de um monumento que teriam escapado a uma espiada normal. Tudo fica gravado com exatidão notável, com extraordinária precisão.


    Por que, então, complicar fazendo esboços à mão livre que podem levar horas ou dias? Seria falta do que fazer? Ou uma compulsão pelas cores e traços? Seria um retorno às origens, um mergulho no passado, quando ainda não existia a fotografia? Que passado?


     Há muitos milhões de anos o macaco nosso ancestral achou de descer das árvores e caminhar pelo chão. A princípio meio desajeitado; aí descobriu paisagens diferentes, encontrou frutas, flores, raízes e pedras. O macaco verificou que suas mãos não mais se ocupavam de segurar galhos de árvores e que elas poderiam ter outras finalidades. Quais?


    Colecionar pedras, partir sementes duras para comer o miolo adocicado, quebrar pedras para usar como projeteis ou como raspadeiras para curtir o couro de animais, agora usado como proteção contra os rigores do inverno quando o frio chega a 40 graus negativos. Assim a mão passou a ter novos e inesperados usos.


     Ao utilizar as novas habilidades manuais e associá-las com a visão para antecipar eventos futuros, o homem desenvolveu o que veio depois a ser chamado de inteligência. Logo ele criou instrumentos que não existiam e aprendeu a pintar seu corpo. Nasceu a beleza. E a vaidade veio junta.


     Em etapas a seguir, o homem aprendeu a pintar seixos rolados, a fazer adornos para o corpo, a pintar paredes e grutas. Era o nascimento da arte.


     Seguindo outros caminhos, em sequência ainda hoje ignorada, o homem desenvolveu o ritmo musical e corporal, a língua falada, a representação simbólica, a escrita.



        Resumo da ópera:

       A fotografia é rápida e exata, porém fria e mecânica, com raras exceções. Se você aprecia a beleza, tem de ir atrás da Arte. Foi isso que Eduardo fez. Aqui para nós: com extrema habilidade ele captou a beleza de obras arquitetônicas, de prédios construídos talvez sem projeto, mas com domínio de técnica e da arte de construir.


       Em cada uma destas aquarelas o observador encontra cores, traços livres, leves e soltos. Da mesma maneira que a fotografia retém a exatidão, os desenhos de Eduardo captam o sentimento e a emoção.


       Sugere-se que o leitor não perca tempo com um texto metido a erudito e trate de desfrutar da beleza de cada esboço, imaginando-se a ver de perto e a tocar as paredes, andando em volta de cada lugar que o pincel e a mão de um artista bordaram com sensibilidade e habilidade. E lembre-se de que estes esboços não são reproduções de construções; eles são criações, uma maneira especial de ver as coisas, mais com o coração do que com o olhar. 
Matriz de Viçosa