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domingo, 3 de março de 2019

Vila de Pescadores de Jaraguá: tradicionalidade e resistência urbana (I)







Parmênides Justino Pereira. Natural de Recife-PE, vivente das Alagoas dedes 1978.  Graduado em Psicologia e Mestre em Sociologia pela UFAL. Doutor em Educação pela UNICAMP. Professor da UFAL/Palmeira dos Índios, leciona as cadeiras de Introdução à Sociologia, Pesquisa em Ciências Sociais, e Psicologia Política. Coordenador do Grupo de Pesquisa (CNPq) Psicologia Política, Movimentos Sociais e Políticas Públicas. Defendeu pesquisa sobre remoção forçada de populações vulneráveis, onde acompanhou o caso da Vila de Jaraguá desde 2005, e atualmente estuda diversas comunidades em Arapiraca, como os pescadores do Lago da Perucaba, os removidos da comunidade Caboge (atual Bosque), e conjunto Frei Damião (ameaçado de remoção). Também desenvolve pesquisa sobre a visibilidade da Jurema Sagrada em Alagoas, com ênfase na autoafirmação indenitária da religiosidade afroindígena, momentaneamente concentrada nos desdobramentos da Jurema no agreste alagoano. 





Vila de Pescadores de   Jaraguá: tradicionalidade e resistência urbana (I)

Parmênides Justino Pereira


Quando, em meados de 2015, a sociedade alagoana se deparou com os desdobramentos finais relativos à expulsão dos moradores da Vila de Pescadores do Jaraguá pela Prefeitura de Maceió, a partir da prolatação da sentença de despejo, a maioria dos seus habitantes não entendia o que levava moradores de uma favela suja e degradada a recusar a benevolência da gestão municipal, que oferecia apartamentos na praia do Sobral e um parque público, chamado centro pesqueiro. Outros maceioenses, que conheciam superficialmente a história, estranhavam a reação da sociedade civil organizada (Movimento Abrace a Vila), e criticavam profissionais e estudantes que perdiam seu tempo defendendo uma favela. O que as pessoas - mal informadas pela imprensa local[1] - não sabiam, era que se tratava de um fenômeno que Paulo Freire conceituou como “falsa generosidade”, mediante um processo de expropriação urbana que vinha se desenrolando muito antes da proposta de substituir a Vila por um centro pesqueiro. Vinha, na verdade, desde meados dos anos 90, através de atos administrativos questionáveis, contraditórios e omissos em relação à melhoria da qualidade de vida da população, além de um conjunto de agressões e violência simbólica pautada pela desqualificação social da comunidade e o desejo quase compulsivo de expulsar os pescadores e marisqueiras de seu território tradicional.
Durante o processo de remoção, houve uma polêmica, desnecessária, sobre a real historicidade da vila. A Prefeitura de Maceió não concordava com a tese de que a história da cidade teria surgido de uma vila de pescadores, sustentando sua tese em um mapa de 1973, em que esta não aparecia. Achar que um mapa seria capaz de dar conta dos aspectos  dinâmicos da geografia foi mais uma estratégia política de desqualificação da comunidade do que propriamente um interesse lógico pelo conhecimento real da história da cidade. A importância de Maceió no cenário regional decorre bastante do ancoradouro, e todo o litoral era cheio de pescadores, desde a época colonial. As evidências culturais da importância dos pescadores na formação social de Maceió são antigas. [...] Todavia, é em Craveiro Costa (1981) que se encontra uma referência mais próxima, fazendo alusão ao povoamento a partir do riacho Salgadinho e estabelecendo relações com o início do bairro.
   
  Assim, considera-se que a importância social dos pescadores na formação da cidade é um fato inconteste, baseado em referências historicamente consistentes, embora o mapa de 1957, apresentado pela Prefeitura como argumento para afirmar a não importância da Vila para a história da cidade de Maceió, não dê conta dessa realidade, possivelmente devido a limitações cartográficas. Para compreender a importância da Vila é preciso, antes, entender como sua trajetória se funde à do próprio bairro. No início do século XIX, o bairro de Jaraguá começa a se destacar como zona portuária que movimentava o comércio, a cultura e a vida de Maceió, que chamava a atenção por ser uma aldeia de pescadores. Em 1818, com a chegada do primeiro governador de Alagoas, Sebastião Francisco de Melo e Póvoas, o lugar passou a viver um crescimento vertiginoso, com a instalação de pontos comerciais, belos sobrados, ponto de encontro de empresários, intelectuais e políticos. Tudo isso levou o governador a trocar a capital de Alagoas do Sul (povoado do Francês) por Maceió, devido, sobretudo, ao movimento do porto de Jaraguá.
[...] A geografia presenteara o local com a capacidade de servir como barreira de proteção das embarcações contra as correntes marinhas. É esta característica que faz do lugar a passagem e estada de variados visitantes. E é quando o Porto de Jaraguá supera o Porto do Francês, que se desenvolve o comércio no povoado, atraindo cada vez mais pessoas.
Outra questão que alimentou os debates entre comunidade e Prefeitura foi a tese de que pescador não precisa viver em frente ao mar, porque em outros pontos da cidade existem
pescadores que não moram na praia, a exemplo dos bairros de Pajuçara, Jatiúca e Ponta Verde. Esse argumento esbarra não apenas na impossibilidade de compreender uma comunidade tradicional importando o contexto de outras realidades históricas, como também na omissão de fatos históricos que explicam como tais pescadores foram afastados da praia, por meio de reestruturações urbanas higienistas e avanços do mercado imobiliário voltado para o consumo da elite. É neste sentido que se explica, por exemplo, o surgimento dos bairros de Pajuçara e Ponta Verde, atual área nobre da cidade, mas que já foi reduto de muitos dos pescadores, e que, como relata Sarmento (2002), recebeu grande parte de seu povoamento de pescadores que foram expulsos de seu lugar de origem para dar lugar às moradias das classes privilegiadas.
A Vila de Jaraguá, neste sentido, é apenas mais um exemplo de continuidade dessa higienização da orla maceioense. Desde a sua localização até sua expulsão, tudo é um reflexo deste movimento geopolítico de empurra daqui, tira dali, de submissão das populações pobres aos ditames do poder público e sua política de remoção, e inclusive de certos processos de grilagem  relatados pelos moradores antigos, quando a área era abandonada e utilizada por criadores de gado [...] Eles descrevem como as cercas foram se fincando e redefinindo o esquema de propriedade do local. [...] A despeito de ter aglomerado no seu interior pescadores oriundos de diversos estados, como Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte, e de toda a costa do Estado de Alagoas, de Maragogi a Piaçabuçu, muitas famílias pesqueiras eram oriundas das ondas migratórias dentro da própria cidade ao longo de anos. Assim, vinham de bairros como Ponta da Terra, Levada, Trapiche, dentre outros. Há relatos de que a antiga balança teria sido onde hoje se encontra as Lojas Americanas, embora se observe que a aglomeração mais recente - remontando aos anos oitenta - inicia-se onde hoje se encontra o Memorial da República, em frente ao coreto, de onde se podia atravessar, no tempo dos banhos dominicais na praia da Avenida em direção à Pajuçara.
Essa configuração da comunidade de pescadores começa a sofrer investidas da Prefeitura, por meio de várias remoções, na gestão do então prefeito Fernando Collor (1979–1982), que retira grande quantidade de moradores e os realoca na zona de expansão da cidade, próximo ao posto da  Polícia Federal, cruzamento da BR 104 com 316, aglomeração que ficou conhecida como favela do DER. Outra grande remoção é feita pelo prefeito Ronaldo Lessa, para a construção do memorial acima citado e do estacionamento de Jaraguá, espaço urbano só utilizado em períodos de festas.
           Após estas remoções forçadas, a comunidade do Jaraguá se caracterizava como assentamento urbano subnormal, onde se acomodavam, em condições subumanas, cerca de 700 famílias, das quais de trezentas a quatrocentas eram de pescadores. A pesca era atividade mais antiga do bairro. A vila proliferou na medida em que as pessoas foram tendo filhos, os filhos foram crescendo, casando, tendo filhos, os filhos cresceram, casaram, os netos foram aparecendo,  a família crescendo, e os pais tiveram que construir novos barcos e novas casas para alojar os filhos crescidos e casados que se multiplicavam.
             Em 2001, época da remoção das 350 famílias para o Conjunto Carminha pela então prefeita Kátia Born, a  comunidade de Jaraguá era uma comunidade heterogênea. Lá  habitavam diferentes grupos populacionais, que ao longo do tempo foram ali se fixando, através dos processos de migração natural da atividade pesqueira e do processo social que impulsiona o  crescimento urbano. A favelização começara a partir dos anos oitenta, quando além dos atrativos  naturais do lugar e sua localização privilegiada no tecido urbano, alguns eventos de natureza política contribuíram para o crescimento desordenado e densidade populacional. O mais crítico deles foi a remoção de famílias sem-teto que viviam dispersas pela cidade, associado a famílias de desabrigados das chuvas torrenciais. Todos eles foram colocados na comunidade do Jaraguá pela  então secretária Lucíola Toledo, amontoados no armazém da antiga Cibrazen. Essas famílias  viviam de outros empregos e subempregos na região, como catadores de lixo, empregadas domésticas, guardadores de carro, ambulantes, atividades portuárias, atividades auxiliares da pesca, dentre outras.
No entanto, o armazém estourou, pois os barracos foram aparecendo em seu entorno, crescendo exponencialmente e adentrando a Vila de Pescadores. A comunidade passa então a
conviver com uma heterogeneidade cultural oriunda dessa migração forçada. Após a fixação dessas famílias, outros barracos com famílias estranhas à cultura da pesca foram se aglomerando próximo ao galpão da antiga fábrica.
A comunidade possuía arquitetura marcada por espaços de múltiplas funções, que ao mesmo  tempo serviam de oficina de trabalho (tratamento do peixe), lazer, varal para estender roupas, e ponto de encontro (bate-papo com as amigas e presença das crianças). O terraço poderia ser a  própria rua, e a frente da casa geralmente tinha várias utilidades e muitos jovens reunidos. Ali trabalhavam, se divertiam, conversavam, perambulavam, havia toda uma sociabilidade que  engendrava diversas atividades, muito embora a principal delas fosse a pesca.
               Essa, no entanto, era uma realidade desconhecida da maioria dos maceioenses, pois o bairro estava quase abandonado, e só voltou a ser o foco das atenções quando a prefeitura o incluiu no projeto de revitalização de centros históricos. Tal iniciativa começou a surgir nas principais capitais brasileiras, no sentido de resgate das atividades locais, mas também atividades artísticas, como foram os casos de empreendimentos na mesma ordem em centros históricos como  Recife, João Pessoa, Salvador, Porto Seguro, e São Luiz.
Então, nos arredores do cais do porto de Maceió, a cidade efervesceu como espaço de construção de bens materiais e vida comunitária. Mas até meados dos anos 1990, o que restava do bairro era velhos armazéns de exportação abandonados, ferrovias desativadas, praças depredadas e descaracterizadas, a vila dos pescadores favelizada, e apenas lembranças de um lugar que deu vida à cidade.
Como alternativa ao turismo de sol e mar, que cai na baixa temporada, a Prefeitura Municipal se empenhou no planejamento e execução do projeto de revitalização, como tentativa de diversificação da oferta turística, através do turismo cultural centrado no lazer, entretenimento e conservação do patrimônio histórico. Este projeto é lançado em 11/08/1995, no coreto da Avenida da Paz, pelo então prefeito Ronaldo Lessa, que será sucedido pela prefeita Kátia Born, esta última dando total impulso à continuidade do projeto no percurso de dois mandatos.
Antes disso, o jornal Gazeta de Alagoas de 08/06/1997 lançara um caderno especial em conjunto com a Prefeitura, no qual se anunciava o empreendimento como o mais importante  investimento público da época, que transformaria o bairro em um belo atrativo para a cultura, o lazer, o turismo, o comércio de serviços. Nessa publicação, a prefeitura destaca que o projeto acarretará uma grande demanda turística, atraindo o visitante de “renda mais elevada” e promovendo o aumento de sua permanência na cidade. Coincidentemente, trata-se de uma época de grande crise econômica no Estado e no setor sucroalcooleiro, e os usineiros são proprietários de grande parte dos armazéns e casarões de Jaraguá, além de investidores locais no setor turístico.
Consequentemente, são os principais beneficiados com a revitalização. Um dos primeiros passos do projeto foi a elaboração de leis que dividiram a cidade em Zonas Especiais de Preservação (ZEP), mais especificamente a Lei Municipal 4.545 de 22/11/1996. Com ela, Jaraguá ficou definida como ZEP-1. O Decreto Municipal 5.569, por sua vez, estabeleceu normas que garantiram a caracterização do bairro dentro dos padrões esperados, como a manutenção da tipologia construtiva e a volta do alinhamento das fachadas. Esse mesmo Decreto estabelece a Vila de Pescadores como Zona Especial de Preservação [...]
A linguagem do decreto não deixa dúvidas quanto à importância da Vila tanto do ponto vista  turístico, quanto do ponto de vista ambiental. Para gerenciar o projeto, é criada a Unidade  Executora Municipal/PRODETUR (UEM), através da Lei Municipal 4.487 de 27/03/1996. No relatório de atividades de março a dezembro/96, a UEM destaca o que chamou de “problema ambiental”, na antiga Vila dos Pescadores, localizada às margens do Jaraguá e caracterizada como favela.
Os objetivos básicos do PRODETUR/NE[10] eram: a criação de áreas turísticas, promovendo o incremento desta atividade no município; resgatar o patrimônio histórico/arquitetônico local, através de sua correta recuperação e revitalização; melhorar as condições de vida da população, através da provisão de serviços de saneamento; preservar os ecossistemas terrestres e marinhos do bairro; e melhorar as condições de acessibilidade à área de intervenção. Para tanto, a Prefeitura promoveu um amplo investimento de infraestrutura básica e serviços públicos (abastecimento d’água, esgoto sanitário, tratamento e controle de resíduos sólidos, vias de acesso) que potencializaram as atividades turísticas, com recursos da ordem de US$ 80 milhões, sendo metade financiada pelo BID, por meio do BNB. A outra metade seria a contrapartida dos poderes público federal, estadual ou municipal. Com novos investimentos e aumento da permanência dos turistas, a consequência esperada seria o aumento na geração de emprego e renda. Com isso, os poderes locais integravam a cidade na reprodução do capital através da atividade turística, como afirmou Vasconcelos [...]
O projeto de revitalização foi fragmentado em subprojetos, quais sejam: a revitalização de obras  físico-arquitetônicas, que incluíam a restauração do prédio da Associação Comercial de Maceió e  o Museu da Imagem e do Som; a despoluição do tradicionalmente poluído Riacho Salgadinho.  Acrescenta-se também a reestruturação do sistema viário da área interna do bairro, como o alargamento de pontes na Avenida da Paz, drenagem e pavimentação para evitar as tradicionais inundações na Avenida Cícero Toledo, parte da Rua Comendador Leão, Avenida Maceió, e as ruas Graciliano Ramos e Mato Grosso, além das margens do riacho Salgadinho. A Rua Sá e Albuquerque, via arterial do bairro, teve o asfalto negro quebrado até aparecerem as antigas pedras (os trilhos do antigo bonde que circulava não estavam no local). Postes de cimento foram retirados e substituídos; as fiações da luz elétrica e da telefonia ficaram subterrâneas. Houve a construção de um grande estacionamento na Avenida Cícero Toledo e a construção do Centro de Convenções, além da promessa da construção de uma marina e incentivo ao esporte e comércio náutico. O nono subprojeto desta mega intervenção seria a urbanização da Vila de Pescadores, conhecida como favela de Jaraguá.
O direcionamento do programa de desenvolvimento do turismo acabaria por não atingir as metas a que se propôs, mas não sem deixar as sequelas tradicionais do caráter excludente deste  tipo de intervenção gentrificadora, que, onde ocorre, ocasiona conflitos e exclusão das comunidades locais. [...] A revitalização do bairro de Jaraguá se deu no contexto da globalização do turismo, caracterizado por capitais transnacionais, projetos de grande porte e exclusão social da comunidade local. Assim, um dos principais problemas da revitalização do bairro de Jaraguá como potencialidade turística pode estar associado a um dado importante citado por Vasconcelos (2004) que é a capacidade de reordenamento do território para sua realização. Este autor explica que este reordenamento apresentou uma falha crucial, qual seja o esquecimento da potencialização de uma melhoria de vida para a comunidade local, fato observado não apenas pela remoção de 350 famílias da comunidade de Jaraguá em 2002, mas também no descaso frente às condições suburbanas da Vila dos Pescadores, até sua total remoção.
A condição de pobreza conviveu simultaneamente com a área revitalizada, em um flagrante contraste social, apesar de a Vila dos Pescadores ter sido considerada como Setor de Preservação  Ambiental (SPA) pelo Decreto Municipal no 5.569, de 22 de novembro de 1996. Com que ética se pode falar em leis, no âmbito do posterior processo jurídico da remoção, se o próprio abandono da  Vila, em condições degradantes, foi uma clara violação da própria lei municipal criada para fins da referida revitalização?

Na verdade, o próprio projeto de revitalização já focalizava em seu conteúdo as ações que deveriam ser executadas como parte do processo de turistificação do lugar. No projeto apresentado para aquisição das verbas do PRODETUR, estava incluída a urbanização da vila (no mesmo espaço onde as famílias viviam), que era o nono subprojeto, através da implantação do sistema de saneamento básico, coleta seletiva do lixo, energia elétrica, abastecimento d’água, pavimentação, drenagem, construção de residências térreas de sobrados, orçadas em R$ 7.919.000,00.  O projeto arquitetônico elaborado para isso em 1996/1997 incluía também a construção de um mercado modelo, estacionamentos, centro de convivência, cais, seca de pescado, escola de pesca, estaleiro, cooperativa de pesca, correios/telefone, praça, primeiros socorros, pontos comerciais, área de lazer e esporte, casa cercada por área verde, como coqueiros e árvores frutíferas, afirmando o princípio de autossustentação da comunidade.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

A Maceió: a Praia do Sobral e o rapaz acorrentado.



 
46: Pesquisa: Paisagem e cotidiano: Praia do Sobral: Maceió: Alagoas: Brasil

Fotografias de Luiz Sávio de Almeida

02/11/2017

Nós estamos com estas fotografias, em busca de uma documentação sobre o processo urbano de Maceió e diante da que se pode chamar de orla proletária da sociedade, uma espécie de ponto de contraste com a região da orla da Maceió de fora. Esta é uma orla mais ao gosto de uma Maceió de dentro.
                   A chamada Praia do Sobral jamais foi um point em Maceió, mesmo após a construção de dois hotéis, que não foram adiante e nem renovaram o prestígio que sempre teve a Praia da Avenida e, posteriormente, a da Pajuçara, vindo em seguida a  Ponta Verde e a Jatúca. Parece que duas  circunstâncias contribuíram para isto: uma delas foi a vizinhança com o Ouricuri e outra foi a instalação do Salgema, o que alterou toda a atenção imobiliária que o capital por ventura intentasse  na praia.  Hoje coloco algumas fotografias e a maioria delas pretende chamar atenção para o humano que fica engatado na paisagem, na praia sem a proteção de arrecifes. Como estará em 2050? O futuro como lidará com esta porção da cidade?


    Se eu não me engano, esta era a casa do Professor Jayme de Altavilla e na foto anterior, lembro que era o local da residência de um amigo – apesar da diferença de idade – que foi o Deraldo Campos e a quem devo muito pelos incentivos e sugestões. Frequentei muito a sua casa; ele tinha uma coleção belíssima de relógios e os acertava para um concerto de badaladas. Depois foi uma escola que dois filhos frequentaram.
Esta é uma visão que mostra muito da paisagem que faz a  rua que se não me engano tem o nome do Chateaubriand, este francês nascido na Paraíba e que tanto poder teve nas comunicações nacionais, espécie de um Marinho atual da Rede Globo mas com o charme  de uma vedete política.

Sempre achei interessante esta bifurcação. O busão pega um caminho diferente da avenida, ganhando o mundo da concentração das casas, procurando pegar o dinheirinho do pobre que perdeu o bonde.

A mulher sozinha caminha sem sombra, com sua sandália havaiana, pisando na calçada desleixada de um terreno desleixado. Lá no fundo, a Maceió para cima.
Duas maceiosinhas: todas duas para o alto sendo uma mais pobre e outra da classe média dita remediada. Por aqui não mora a riqueza propriamente dita.


O novo que se faz em Maceió jamais se deixa vencer pelo desleixo privado e público. Maceipo, dentre outras pontos, é uma cidade que sofre pela falta de rigor na fiscalização e assim fica sempre permissiva.


Estamos pertinho de um lugar que sempre me chamou atenção e nem mesmo sei se já foi realizado algum estudo de maior profundidade sobre suas transformações. Era a antiga Favela do Ouricuri. Será que nos recordamos dela? Ou as áreas pobres ficam no indistinto da memória sobre e da cidade? Existe uma memória coletiva e por onde anda e quem e como é construída?

Nada mais Maceió do que esta foto, onde o cavalo serpenteia a rua, ajudando a uma família sobreviver. A carroça e o monturo são marcos que recordam e determinam-se na pobreza que se vive. Jamais a Avenida, Pajussara e Jatiúca e Ponta Verde teriam uma vizinhança deste tipo. Os pobres estão afastados naquelas regiões e estes estão á beira mar
Esta é outra cena jamais que jamais poderia ser vista na orla de fora, aquela de altíssimos investimentos imobiliários. E mostra a estética da mercadoria, com as bananas penduradas a a fazerem o retorno das velhas quitandas em mistura com as velhas bodegas. O coco na calçada aconchega o verde. Veja o desnível na calçada e a porta tosca à direita, contrastando com a casa melhorada sua vizinha, devidamente diferenciada. A moto que era uma indicação do play boy hoje é a indicação de transporte operário e do trabalhador de baixa renda em geral.
A solução dada para morar é a que vem do que chamo nas aulas de arquitetura da carência. Ele tem que viver e se proteger, como se pode verificar pelo que está colocado na calçada: medo da casa levar uma porrada, medo que talvez venha de alguma experiência tida ou sabida.  No lado direito, a telha; e  no esquerdo ele descansa. Lá em cima, se olha para o mar como jamais se faria na orla de fora, a orla onde a paisagem foi a grande mercadoria vendida. Eles olham a paisagem com seus olhos de dentro, da intimidade de nossa organização urbana. É bonito o cuidado com as cobertas e é fantástico o que faz a arquitetura da sobrevivência feita com as pequenas sobras e pródigas em descobertas de solução.

Gostei dos desenhos na parede, a mistura de motivos, o símbolo do anarquismo e, na realidade, uma forma do artista falar com a cidade, a bem dizer, vez em quando, forçando sua arte aparecer dentro de uma estrutura que a nega.  À esquerda, caminha-se, sendo de ver as sacolas verde-amarelas a relembrar o eterno feriado nacional da antiga e bela modinha: a festa dos trapos coloridos.
A posição dos braços, mostra decisão na marcha regresso, com coisas leves ensacadas e que me fazem lembrar de pipoca.
Então, a orla de dentro sempre mostra sua diferença com a orla de fora,

O artista coloriu e deu aos pescadores um novo mar: o mar de parede. O interessante é que  se trata de uma pintura tabuleta a querer ilustrar que aqui vivem pescadores e lá dentro, a parede mostra como vivem. Há um flagrante contraste entre a idealização dos volteios de golfinhos e o sujo na calçada.


Como sempre, o pecado mora ao lado! As grades! O pecado se protege! É dito ser uma pousada rotativa! Quem entra aí para repousar?
A Avenida se divide em duas e uma delas é o imenso calçadão que se transforme nos fins de semana, feriados e dias de guarda. Os lugares são miméticos e já se nota, na altura de tempo desta fotografia, a imensa transformação o colorido do plástico a chocar-se com o tom de verde no mar.



O portal aberto e o esgoto esburacando. Foi muita a transformação no Pontal da Barra. O que era o bucólico lugar de pescadores, transformou-se em uma espécie de imenso mercado. Das áreas consideradas pobres em Maceió, foi uma das que sofreu maiores transformações e ela é, na orla de dentro, uma espécie de reverberação da orla de fora.
Alguém chegou a me dizer, que por aqui eram imensas dunas e que a areia foi carregada para construção do porto. Nada sei sobre isto, mas sem dúvida é curioso. Ainda alcancei a ondulação marcante de dunas por aqui. Para ond está indo a areia que o vento trazia? Ainda existe vento?




Realmente não sei se aquela tripa é a da salgema ou do bostrodomo. Sei que a barraquinha é aconchegante.
A diferença no traçado das orlas fica demonstrado claramente

E é assim que se espera a ida e se descansa quando o sol arde e os pés pedem clemencia. É interessante como a mancha na calçada e o desenho da meia, parecem mostrar o rapaz acorrentado.






              
 

domingo, 13 de dezembro de 2015

João Paulo Omena. A Grota da Alegria e o Vigilante Poeta. [Literatura e periferia]

Este texto foi publicado em Campus/O Dia



A Grota da Alegria e o Vigilante Poeta
João Paulo Omena

Djalma de Araújo nasceu em 15 de Setembro de 1961, no bairro de Jacarecica, Maceió/AL. Aos 07 anos de idade mudou-se para outro local da cidade, considerando-se um “filho do Barro Duro”. Iniciou sua vida de poeta nos anos 70 e começou por  criar  poemas e frases quando amigos o procuravam para  escrever bilhetinhos para as amigas e namoradas. Foi quando despertou o sonho de ser um compositor, mas não tinha dom para aprender a tocar violão, ainda teve 04 violões, mas não conseguiu aprender. Ele ouvia falar muito em Carlos Drummond de Andrade, Paulo Coelho, visitava as livrarias e achava esses livros muito caro. Então, entre 1987 e 1988, com 16 a 17 anos de idade, rasgou todos os poemas que tinha produzido, pois não acreditava que iria ter possibilidade de algum dia publicar seu livro.
Todavia, em certa noite de trabalho lhe veio a inspiração e retornou a reescrever tudo que já havia escrito, conseguindo lembrar de quase todos os poemas. Participou de um concurso da Associação dos Poetas de Alagoas – APOAL, no qual foi classificado em 5º lugar com uma crônica intitulada “Sonhos de um menino”. Djalma de Araújo tem 10 antologias, 04 livros publicado em pequenas tiragens: Pequenas Homenagens (2015), com poesias à pessoas e lugares relevantes do Estado; Pingos de Amor (2012), com poesias líricas acerca do amor; O Vigilante Poeta (2011), poesias acerca do contexto social em que vive; O Pato Jojó (2007), destinado ao público infantil; dentre outras que ainda não foram publicadas, como “Favela de Barro”, acerca da Grota da Alegria.
Em 1992, Djalma de Araújo foi morar na Grota da Alegria onde vive até hoje. Residiu primeiramente em um barraco de taipa e hoje mora em sua casa de alvenaria. Foi presidente de time de futebol na comunidade e fez algumas poesias acerca do futebol; sua residência foi sede do Centro Cultural Poeta Djalma de Araújo.  O poeta  afirma que a Grota da Alegria é sua fonte de inspiração e um lugar muito bom: “- Para mim a Grota da Alegria é um paraíso”.
A inspiração da “Favela de Barro” foi de acontecimentos presenciados na Grota da Alegria. Trata-se de uma crônica do cotidiano dessa “favela”, descrevendo a tensão do que é ser/viver na periferia. Um dos personagens da crônica está vivo e sabe que escreveu acerca de sua história. É uma soma de ficção e realidade e ele mesmo se inclui nessa “Favela de Barro”. Um homem e suas poesias VIVEM NA Grota da Alegria.