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sábado, 2 de agosto de 2014

Uma cidade e suas histórias: a sempre lembrada Paulo Jacinto

Sábado, 4 de fevereiro de 2012








Umas poucas palavras
Luiz Sávio de Almeida

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Luiz Henrique sempre foi um bom contador de histórias e resolveu colocar seu talento na escrita de um livro. Passar da oralidade para a escrita não é coisa fácil, pois um caso, inclusive, necessita de gesticulação e performance para ser contado. A escrita reduz o espaço da contação e é preciso excepcional qualidade para que o sabor permaneça, devendo ser considerado que ele o caso é sempre destaque de algo do cotidiano e que somente é possível ele existir, em face de uma determinada estrutura capaz de suportá-lo. Todos os casos, por mais extraordinário que pareça são do cotidiano; o que possibilita o recorte deste cotidiano e o relevo está em situações como o fantástico, o fora da normalidade, o provocador de risos, de espanto... Por fim, um caso não é apenas ele, mas toda a sociedade a que se refere, funcionando como demonstração deste todo.
Pois bem, Luiz Henrique pegou sua coleta e transformou em livro: Paulo Jacinto e seus causos: estórias que são histórias. Gentilmente, nos deu a oportunidade de colocar em Espaço, um pouco do seu talento, um pouco de sua escrita que consegue refinar o sabor do que conta, uma escrita refinada no modo de entrar no miúdo, estar, em outras palavras, em momentos de intimidades de Paulo Jacinto. Os casos são momentos desta intimidade.

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Luiz Henrique de Oliveira Cavalcante iniciou sua carreira como professor, ensinando nos colégios: Crispiniano Portal, São José, Sete de Setembro, Imaculada Conceição e Guido de Fontgaland. Em Palmeirta dos Índios dirigiU a extinta Fundação Educacional de Palmeira dos Índios, ensinou nos colégios: Cristo Redentor, Sagrada Família, Monsenhor Macedo e Humberto Mendes, passando lá apenas uns poucos meses, quando voltou a Maceió. A partir do casamento com Maria do Socorro Aguiar de Oliveira Cavalcante foi que teve oportunidade de conhecer, com mais vivência, Paulo Jacinto, seu povo e sua cultura, apaixonando-se pela cidade, da qual é cidadão honorário. Professor aposentado da Universidade Federal de Alagoas, continua suas atividades nessa instituição, da qual é professor voluntário,  desenvolvendo um programa de extensão junto aos municípios alagoanos. Atualmente, além das atividades acadêmicas, é membro do Conselho Estadual de Educação, faz parte do Fórum Permanente de Educação do Campo e do Comitê de Avaliação do Plano Estadual de Educação.

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O colírio da mulesta
Com o passar do tempo, velhinho, ele precisava ter uma pessoa de confiança que lhe desse os remédios na hora certa, sem esquecer de nenhum, pois todos eram importantes para a sua saúde. A esposa não tinha mais condições, pois sua memória estava bastante comprometida, por causa das suas doenças. Começou esquecendo uma coisa que era impossível dela esquecer - dinheiro e devedores. Perdia tudo adoidado e ficava com raiva quando diziam que ela havia perdido. Depois, passou a perder a chave da casa, do petisqueiro, dos outros móveis, os recibos das contas a pagar, num ritmo cada vez mais progressivo.
 E, o pior de tudo, foi que passou também a perder dinheiro. Por isso,  responsabilizaram o filho para dar ao pai o remédio da manhã, logo cedo, que era um colírio
para baixar a pressão do olho e que não devia ser descuidado. O filho muito solícito, mas bastante distraído, nunca lia a bula de nada e aquilo que ele considerava ser o remédio tascava no inquilino, sem dó nem piedade.
Certa feita injetou carrapaticida nos bezerros pensando ser um remédio injetável estimulante do apetite. Foi um desastre e até morreram alguns. Tudo isso porque não leu o nome do remédio no vidro. Por isso, deram-lhe muitas recomendações de cuidado.
- Deixe comigo, eu não sou abilolado - dizia o cidadão. No outro dia, pela manhã, logo cedo, chegou na casa do pai para colocar o colírio. Pegou a caixa do remédio, abriu, aspirou com o conta-gotas algumas, dizendo:
- Chegue papai, ’tá na hora do colírio, são duas gotas.
Assim que colocou a primeira gota, o pai deu um grito e botou a mão nos olhos.
- ’Tá doendo, ’tá ardendo, que remédio é esse que você colocou?
Correu para a caixa do remédio, leu o nome e disse:
- Corra papai, lave logo o olho na pia. O remédio que coloquei no seu olho é para tirar calo seco.

Dina, cadê você?
Logo que casou, ele foi morar na casa dos pais, apesar de possuir uma casa próxima, toda mobiliada, mas não tinha coragem de se mudar para não abandoná-los. Era época de carnaval, a casa cheia de parentes, inclusiveos cunhados, que ficavam hospedados na casa reserva. Como, à noite, as crianças iam ficar em casa, chamaram uma pessoa pra ficar com elas. Esta pessoa era da pá virada e ele vivia de olho nela. Coisa de gente sem vergonha.
À noite, todos foram pro clube e, lá pras tantas, um dos cunhados com a esposa, foram trocar a roupa, pois estavam ensopados de suor. Entraram na casa e foram se trocar. Poucos minutos depois ouviram alguém batendo à porta e dizendo baixinho:
- Dina, Dina, abra a porta.
O cunhado apareceu e ele ficou morto, passado.
- Qué qui você ’tá fazendo aqui? - Perguntou o cunhado.
- É que eu vim trocar o sapato - disse desconfiado.
- Mas você não mora aqui. Você nem tem sapato aqui. Home conte está estória direito. Deixe de pantim.
- Deixe isso pra lá, foi engano - e foi embora frustrado.




A noite de azar!
O Baile da Chita é o acontecimento social mais importante da cidade. Nesse baile, costumam acontecer coisas inusitadas e este fato merece ser registrado. Ela é de PJ, mas não mora lá. Todo ano vem ao baile com a família, trazendo um monte de roupa pra ver a que fica melhor. Neste ano, infelizmente, só trouxe uma muda de roupa.
Chegou logo cedo na festa pra não perder nada. Estava animadíssima. Encontrou amigos, bateu papo, viu a ornamentação do clube e sentou-se à mesa esperando "Rosinha", o hino oficial do baile. Tão logo começou, tirou o marido pra dançar. É um casal animado. Dançou, dançou, cansou e resolveu ir à toilete. Em lá chegando, encontrou o banheiro não muito asseado e decidiu, a exemplo de outra parceira, que também estava no banheiro, fazer suas obrigações no chão, em frente da parceira. Era serviço leve.
Aconteceu que a parceira terminou primeiro e, ao levantar-se, segurou na torneira da pia ao lado para ter mais apoio. Desastre. A torneira ficou na sua mão e um jato d’água
molhou a outra da cabeça aos pés. Imaginem o que pode ter acontecido depois: toda molhada, chorando, desesperada, cheia de tristeza e raiva, nos braços do marido que a consolava, querendo compreender o acontecido.
A parceira ficou arrasada e teve uma crise nervosa de choro que não acabava mais.
Chamaram uma das diretoras do clube para amenizar a situação e prestar socorro.
- Aconteceu uma coisa horrível!
- Eu sei comadre, não se preocupe não! -
E correu para acalmá-la. Quando foi abraçá-la para consolar, a parceira, que estava sentada, deu um aperto tão violento que rasgou a calça da coitada, justamente no fundo. Nunca se viu tanto azar numa pessoa só. Mas o baile continuou na maior animação.

Que bobinha é essa
Já foi comentado como eram os carnavais de antigamente em PJ, da sua animação, das brincadeiras e da participação popular. Vinha até gente de outras cidades prestigiar a festa. Ele era de Viçosa, conhecido como Tenorinho. Gostava de uma vida mansa, sem muito trabalho, nem preocupação. Filho de pais ricos, muita terra pra herdar, nunca lhe faltou dinheiro no bolso e disposição para farrear. Era realmente um cara animado e fazia a festa aonde chegava. Nunca foi pirangueiro na hora de pagar. Era um cara mão aberta e baixou em PJ com a intenção de passar os quatro dias e arranjar uma capa de sela, um amor. Estava decidido a tirar o pé do lodo.
Os bailes eram no clube, com muita animação. Comprou o individual, entrou e ficou esperando as coisas acontecerem. E tome a chegar gente e tome música. Resolveu, então, beber umas doses de conhaque para ganhar fogo e coragem. De volta, observou uma pessoa dançando que estava na sua configuração de beleza, muito embora estivesse mascarada, vestida numa mortalha.
Era uma figura interessante: pequenininha, como ele gostava, apesar de ser bem alto, delicada, pés pequenos, foliã de mão cheia, rodopiava no salão com uma graça incompar
ável, parecia uma carrapeta.
- É com essa que eu vou sair do atraso - pensou.
Não foi afoito como costumava ser de outras vezes. Estava "bem intencionado".
Sondou o ambiente, deu umas olhadas na bobinha e lá pra terceira volta resolveu arriscar.
- Vamo dançar?
A bobinha apenas balançou a cabeça, afirmativamente.
- Ói... a coisa ’tá dando certo! - Pensou.
Dançaram, rodopiaram pelo salão, numa animação dos diabos.
- Não quer tirar a máscara? ’Tá fazendo muito calor.
- Hum, hum. - Balançou a cabeça negativamente, mas continuaram dançando.
Tentou um beijinho, de leve, mas nada.
- Negócio da peste, mulher mais difícil essa - pensava. - Tentei trocar uma
boquinha, mas ela não quis. Mas a danada tem uns olhos entre verdes e azuis...
vale a pena!
- Vamo sair um pouquinho?
A bobinha balançou afirmativamente a cabeça.
- Ói, ’tá amansando! - Disse com seus botões.
Saíram. Quando chegaram na porta do clube ele falou:
- Tire a máscara, eu quero lhe conhecer.
Nesse momento ele percebeu que a bobinha estava "beba cega" e quando tirou a máscara não era bobinha coisa nenhuma, era um marmanjo, muito conhecido na cidade. 


Fazendo as pazes
Ele tinha um pedacinho de terra dentro da rua que era próximo de algumas casas e a vizinhança estava constantemente botando lixo no seu terreno. Já tinha falado, pedido, exigido, dito uns palavrões, mas nada disso tinha surtido efeito.
Então, resolveu apelar para a ignorância, pois já estava cansado de reclamar.
- No dia em que botarem lixo aqui e eu vê, (sic) eu vou arrebentar um, de faca ou tiro.
Um dia pegou um cara com a boca na botija: tão logo foi chegando, viu quando o fulano que tinha acabado de derrubar o lixo no seu terreno e ia saindo.
- Qué qui você ’tá fazendo, caba safado, nego "severgonho"? - Falou, azeitado,
já com disposição de brigar.
- O senhor me respeite que eu apenas estou botando o lixo no mato e eu tenho
nome.
- Pois que seja a última vez, nego safado.
E foi embora.
Dias depois, lhe chega uma intimação da polícia, com hora marcada e tudo. Denúncia de racismo, crime inafiançável.
- É cara, você vai ter que ir e eu vou com você - disse o compadre.
Esperneou, virou, mexeu, mas prometeu ir, dando a mão à palmatória. No dia aprazado, foram os dois para a delegacia. Coincidentemente, o delegado conhecia o compadre de quem tinha sido aluno.
- ’Ta fazendo o quê por aqui, professor?
- Pois é, vim aqui com meu compadre por conta dessa intimação - disse mostrando...
e, então, aproveitou o momento para contar o incidente, sem muitos detalhes, buscando amenizar a situação, que o xingamento foi apenas força de expressão, tentando resolver a pendenga da melhor maneira possível. E, lá pras tantas, disse ao delegado:
- ... e ele quer tanto demonstrar que não tem nada contra este senhor, que vai
até lhe dar a mão em sinal de amizade. Vá compadre, dê a mão a ele.
E nada de mão.
- Compadre, dê a mão ao rapaz - disse em tom de ordem.
Quando viu que a coisa não saía, pegou a mão do compadre, puxou e encaixou na mão do outro. Estavam feitas as pazes. Dessa se safaram.





O porre de lança perfume
Ele não era muito de gostar de Carnaval. O que ele gostava mesmo era da farra, da animação, da companhia dos "amigos". Nessas horas, dava toda vazão aos seus recalques e emoções. Brincava mais levado pelas más companhias do que por outra coisa. Gostava de tomar porre de lança perfume e ficava aluado quando isso acontecia. Quando começava não sabia parar.
Naquele ano, ele e o compadre foram a um município vizinho, "olhar" o carnaval de lá. Chegou desanimado, sem jeito, mas, lá pras tantas, viu, na mão de uma pessoa, uma coisa que ele não via há muito tempo - um lança perfume. O dono da lança era um deputado, muito importante da região e, "burlando a polícia", que estava ao seu lado, lhe dando segurança, distribuía porre de lança pra quem quisesse.
- Vou pegar um porre - disse o danado.
- Não vá não cara, não vê que é errado. Olhe a polícia ali. - Falou o compadre, na tentativa de que ele mudasse de idéia.
- Tenho nada com polícia. Ela não ’tá lá, do lado do home. Eu vou e vou mesmo.
Fez uma "boneca" mal feita com a camisa e dirigiu-se para onde estava o referido deputado.
- Deputado, deputado, bote aqui um porre.
O deputado, com pena de gastar a lança com eleitor desconhecido, apenas seringou rapidinho na "boneca".
- Eita lança boa da gurita - disse o puxa saco, aspirando quase nada – nunca tomei uma dessa.
Mentira, a lança do deputado era uma loló vagabunda, de segunda categoria e o porre colocado nem chegou a molhar a "boneca".

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

José Alberto Costa Paulo Jacinto das minhas doces lembranças

Esta matéria foi publicada em Campus, suplemento do Jornal O Dia







José Alberto Costa nasceu em Paulo Jacinto-AL. Como funcionário concursado do Banco do Estado de Alagoas, onde permaneceu por 30 anos, chefiou na Assessoria de Comunicação/Marketing. Foi Secretário de Comunicação Social do Governo do Estado de Alagoas (1982/1983). Trabalhou nos jornais: “Diário – Alagoas”, nos semanários “Extra-Alagoas” e “Repórter Semanal”. Fez outros trabalhos freelance para jornais e revistas. Durante dois anos escreveu uma coluna no semanário “A Notícia”. É consultor de texto das revistas “VenhaVer” e “Alagoas S.A” e do Conselho Editorial do jornal “O Dia”. Membro efetivo da Academia Maceioense de Letras e da Associação Alagoana de Imprensa. Participa do Grupo literário “Movimento da Palavra”.
Cronista, contista, contador de causos, poeta e cordelista, publicou o livro “Doce Lembrança” e possui um outro, já finalizado, pronto para publicação. Blogueiro há vários anos (jac-versoreverso.blogspot.com), vem dado destaque aos poetas alagoanos de quem pouco se fala. Participou da antologia “Movimento da Palavra”. 



Dois dedos de prosa com Paulo Jacinto








Volta Campus a trazer à tona, textos sobre a vida de nosso interior e volta a publicar um bom memorialista que consegue visitar sua cidade, cuidar de si e cuidar dos outros.
Zé Alberto é jornalista de nomeada na vida alagoana e homem que participa de nossa vida cultural.
Campus pediu que ele revisitasse sua cidade natal e fizesse os recortes que desejasse para deixar registros da vida local, do seu cotidiano e de sua história.
Deste modo, surge uma Paulo Jacinto que poderia ser somada à outras tantas, pois existirão tantas cidades quantos forem seus viventes.  Eis, portanto, uma Paulo Jacinto entre tantas, uma cidade que surge do olhar atento de um jornalista inteligente e de um homem sensível.
Obrigado Zé Alberto. Na realidade, Campus é um testemunho para a história, um importante documento que fica para futuros colegas historiadores,  jornalistas e tantos outros sentirem os caminhos e as preocupações de nossa época.
Campus fica à espera de qualquer outra sua contribuição. Novamente, obrigado amigo.
Luiz Sávio de Almeida
Na ponte de Paulo Jacinto, abril, 2014
  



Memória memória memória
Paulo Jacinto das minhas doces lembranças
José Alberto Costa

Rua do Comércio, 63. Na verdade, Rua Floriano Peixoto, 63, Paulo Jacinto, Alagoas. Pelo fato de concentrar três ou quatro lojas de tecidos, armarinhos, farmácias, mercearias, padarias, açougue e a feira semanal (aos domingos), os moradores acabaram esquecendo o nome original do nosso Marechal de Ferro, adotando o de Rua do Comércio e o patrono foi quase olvidado. Ingratidão para com o Marechal Consolidador da República brasileira, proclamada por outro alagoano como todo mundo está careca de saber: o Marechal Manuel Deodoro da Fonseca.  Este, apesar das barbas imperiais que ostentava e da espada em riste que impunham respeito, quando algum dos meus colegas de bancas escolares pronunciava o seu nome em classe, um gaiato sempre completava a meia voz: “uma perna fina e outra seca”. Uma ofensa da qual nunca pude comprovar a veracidade.
A Rua Floriano Peixoto virou Rua do Comércio e ficou assim até hoje, pelo menos na boca do povo. Pois nessa rua, no número 63, tardezinha de uma quinta-feira, no dia 21 de maio do ano da graça de 1936, eu estreei no mundo, pelas mãos de competente parteira, madrinha Clara, moradora da cidade de Viçosa. Naquela época a Vila de Paulo Jacinto era dividida entre os municípios de Quebrangulo e Viçosa, coisa que deu trabalho depois para juntar e criar o atual município.
Eu e meus irmãos Zélia - que viveu poucos meses -, Selma, Elma, João e Nivaldo) fomos gerados e nascidos no lado quebrangulense, filhos de uma quebrangulense e de um pai oriundo da Vila de Mar Vermelho, pertencente ao município de Viçosa. Nossos pais foram João Cassiano Costa e Grinaura Sales Cassiano.
Marco zero
O marco zero de Paulo Jacinto é o local da igrejinha de Nossa Senhora da Conceição, onde tudo começou. Na época da emancipação política existiam poucas ruas, as principais eram: Floriano Peixoto (Comércio), Santos Dumont (Rua do Funil), João Pessoa (Rua Preta), São Pedro (Rua do Botapó), da Estação (atual Rua João Cassiano Costa) e outras menores.
A origem
Inicialmente, o nome do povoado foi Lourenço de Cima, pois havia um outro chamado de Lourenço de Baixo. O de cima, segundo consta, foi fundado em 1835 pelo paraibano Antônio de Souza Barbosa, que cuidou de erigir uma capela, sob invocação de Nossa Senhora da Conceição, em torno da qual começou a se formar o povoado.
Lourenço de Baixo, hoje Fazenda São Lourenço, surgiu em decorrência da propriedade agrícola do senhor Lourenço Veiga, que também mandou construir uma capela, que existe até hoje, em homenagem ao santo de sua devoção, São Lourenço.
O desbravador Antônio de Souza Barbosa, considerado fundador da povoação, mudou-se para aquela região com os familiares, levando seus teres, haveres e pessoas agregadas. Fez a doação de considerável área de terra em torno da capelinha, surgindo as primeiras casas residenciais e os primeiros pontos comerciais, ladeando os caminhos que vinham de Palmeira dos Índios e do sertão, seguindo em direção ao povoado Riacho do Meio (Viçosa) e ao Pilar, às margens da Lagoa Manguaba.
Para a construção da estrada de ferro Great Western of Brazil Railway Company Limited, em 1911, pelos ingleses, o proprietário rural Paulo Jacintho Tenório, filho de Quebrangulo, doou grande extensão de terra para a implantação dos trilhos da via férrea. Em sua homenagem o povoado Lourenço de Cima passou a chamar-se Paulo Jacintho, com “th”, como está registrado nas paredes da velha estação ferroviária.

Ouro branco
Desde o seu início, Paulo Jacinto sempre possuiu a vocação agrícola. Ao longo do tempo, acabou transformando-se em região de pecuária, na medida em que suas áreas de plantio foram substituídas por pastos para o gado. Quando a agricultura imperava naquelas paragens havia mais desenvolvimento e, como diziam os antigos, corria mais dinheiro na praça. As feiras semanais estendiam-se da antiga igrejinha de Nossa Senhora da Conceição, seguindo pela Rua do Comércio, ganhando o beco da ponte e parte da Rua São Sebastião. Quase todos os produtos eram originários da região.  Existiam três lojas de tecidos e a filial de uma outra sediada em Palmeira dos Índios (que abria, apenas, nos dias de feira); três mercearias, duas padarias, duas farmácias, armarinhos e outras pequenas casas comerciais.
O forte era o plantio de algodão que levou a multinacional Sanbra (Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro) a instalar uma indústria, para realizar, mecanicamente, o beneficiamento do algodão, com separação da lã (pluma) do caroço que, após embalados, esses subprodutos eram enviados para centros produtores de tecidos e de óleos comestíveis, em Alagoas ou em outros Estados. Durante a safra, mais de 50 operários revezavam-se dia e noite, no trabalho. A produção era transportada pelos trens de carga da Great Western, para diversos destinos.
No início da década de 40, a Sanbra transferiu o controle de suas indústrias de beneficiamento existentes em Alagoas, - Paulo Jacinto, Palmeira dos Índios, São José da Lage e União dos Palmares - para a empresa Siqueira & Tenório que, por sua vez, a transferiu para o nascente Grupo Carlos Lyra, adotando a razão social Algodoeira Lagense S.A. Com o desaparecimento do algodão, já na década de 60, o maquinário foi vendido e os vários  armazéns da empresa adquiridos pela prefeitura do município sobrando, apenas, a casa destinada à residência do gerente, localizada na esquina do conjunto de prédios  e que foi doada ao meu pai, pelos anos de bons serviços prestados à empresa desde a época da Sanbra, Assim, terminou o ciclo do “ouro branco”, acarretando desemprego para muita gente e o enfraquecimento do comércio local.

Luta pela independência
Como foi dito no início, a Vila de Paulo Jacinto encravava-se em terras dos municípios de Quebrangulo e de Viçosa. Durante muitos anos, foi acalentado o desejo de transformação da Vila em município. Muitas foram as discussões em torno do assunto, inclusive, na Câmara Municipal de Quebrangulo, na qual alguns paulojacintenses tomavam assento, representando seus conterrâneos, a exemplo de José Aurino de Barros, Sebastião Costa Barros e Francisco de Assis Barbosa.
Certo final de tarde, presenciei uma cena que ficou gravada em minha memória para sempre. Seu Novo (Sebastião Costa Barros), um dos nossos representantes junto à Câmara Municipal de Quebrangulo, adentra a sala do hotel de sua propriedade e também residência da família, desabafando para sua esposa dona Zefinha:
- Zefa, eu queria saber falar, pra dizer um bocado de coisas na Câmara de Quebrangulo, calando a boca daqueles debochados que ficam falando mal da gente, porque não querem a nossa separação. Isto aconteceu, provavelmente, no início do ano de 1952.
Seu Novo largou a velha pasta de couro que trazia na mão, tirou o paletó e desabou tristemente numa cadeira. Cotovelos apoiados na mesa e as mãos na testa, olhos fechados, era a imagem de um homem vencido. Na sala, além de dona Zefinha, sua dileta esposa, presenciaram aquela cena seus filhos Fleury e Neto, que pouco antes conversavam comigo, além de Tonha, que era pau pra toda obra nos trabalhos do hotelzinho administrado pelo casal.
O hotel de Seu Novo e de dona Zefinha, pais de Neto, Fleury, Valderez, Maria, Leureny e Zé Barros, principalmente durante as férias colegiais, era o ponto de encontro da juventude paulojacintense. A família Barros sempre foi extremamente musical. Seu Novo tocava violão, dona Zefinha cantava músicas da época de sua mocidade, Neto tocava pandeiro, Fleury, violão e as irmãs – Maria e Valderez -, cantavam muito bem. O caçula Zé Barros que nasceu muito depois, não viveu essa época, mas herdou o gene da música e hoje é um grande guitarrista. Leureny destacou-se no cenário nacional através de um programa da TV Tupy, do Rio de Janeiro, comandado pelo apresentador Flávio Cavalcanti. Em um concurso de âmbito nacional, ela ficou em segundo lugar, prejudicada por uma série de injunções.
Baile da Chita
Provavelmente, ali, naquela mesma sala, surgiu a ideia da criação do 1º Baile da Chita, com a finalidade de arrecadar dinheiro para custear as despesas com viagens e outros gastos em busca do apoio de políticos e de figuras de expressão no Estado de Alagoas, que pudessem aderir à nossa causa. Não presenciei esse momento histórico, mas tive o prazer de comparecer ao baile pioneiro, que acabou tornando-se uma tradição já ultrapassando os 60 anos.
O nome da festa derivou do figurino exigido para as mulheres, sem distinção de idade, que deveriam usar vestidos rodados, confeccionados em chita, um tecido muito em voga e que era utilizado pelas mocinhas da zona rural. Os homens trajariam vestimentas estilo caipira.  
Como não existia ainda clube social, o local escolhido para acomodar tanta gente, na previsão dos organizadores, foi um dos armazéns da Algodoeira Lagense, onde meu pai trabalhava. O salão enorme foi decorado com pedaços de chita suspensos, bandeirolas coloridas, balões de papel e, nas paredes, caricaturas desenhadas pelo futuro jornalista Manuel Nunes Lima, ourives de profissão e exímio desenhista, que depois se notabilizou através de suas crônicas do cotidiano e pelas charges, publicadas diariamente no jornal Gazeta de Alagoas. Nunes, embora nascido em Bebedouro - Maceió, vivia com o pai e as irmãs em nossa terra.
O primeiro Baile da Chita realizou-se no dia 22 de julho de 1952 e a festa foi aberta pelo sanfoneiro quebrangulense Júlio Vaqueiro que, espontaneamente, tocou o baião, sucesso de Luiz Gonzaga, “Propriá”. A música, foi repetida várias vezes durante a noite e, no encerramento da festa, quando os dançarinos ganharam as ruas, seguindo o sanfoneiro naquela madrugada fria, cantando alegremente: “Tudo que eu tinha, deixei lá não trouxe não / deixei o meu roçado plantadinho de feijão / deixei a minha mãe, o meu pai e meus irmãos / e com a Rosinha, eu deixei meu coração / Por isso eu vou voltar pra lá / não posso mais ficar / Rosinha ficou lá em Propriá / Ai, ai, ui, ui, eu tenho que voltar / Ai, ai, ui, ui, a minha vida tá todinha em Propriá”.  A música, até hoje, é a característica do Baile da Chita, iniciando e encerrando o evento.
A partir daí, intensificou-se a campanha pela emancipação política de Paulo Jacinto, culminando com a promulgação Lei nº 1747, assinado pelo governador Arnon de Mello, no dia 02 de dezembro de 1953. O novo município foi instalado no dia sete de janeiro de 1954, com a posse do prefeito nomeado José Aurino de Barros, um dos baluartes do movimento separatista, com mandato até a próxima eleição direta (1955), quando deu lugar ao comerciante e pecuarista Francisco de Assis Barbosa, o primeiro prefeito eleito pelo voto popular. Findo o mandato de quatro anos, José Aurino retornou à prefeitura, desta vez pelo voto direto.
Mico eleitoral
 Nas eleições do ano de 1955, votei pela primeira vez. Cheguei a Paulo Jacinto na véspera da eleição, pelo trem da noite e, após abraçar uns amigos que encontrei na estação, segui para a casa dos meus pais que ainda moravam na Rua do Comércio. No trajeto, recebi a notícia: - Você vai presidir a sessão eleitoral no Mercado das Farinhas. Foi um choque. Confesso que não voltei ao trem, para seguir viagem, porque ele já havia partido.
Ao entrar em casa, minha mãe, depois da benção e os afagos normais, entregou-me um ofício, assinado pelo Juiz Eleitoral, designando-me para presidir a tal sessão. Perdi a graça. Meu pai, em sua simplicidade, chegou orgulhoso, abraçando-me alegremente, chamando-me de presidente. Não dormi a noite toda, não vou negar. 
Pela manhã, encontrei meu único terno, branco, engomado até demais, uma camisa de mangas longas, da mesma cor, e gravata preta, o laço dado caprichosamente pelo meu pai, pronta para ser ajustada ao meu pescoço, como o laço de uma forca. Quando saí para o enfrentar a nova e desconhecida função, fui abraçado por várias pessoas. Ao entrar no tal mercado das farinhas, que nem parecia aquele local poeirento, com permanente cheiro de suor dos feirantes e fregueses, fui saudado pelos que compunham a mesa eleitoral.
Destinaram-me a melhor cadeira e amontoaram em minha frente vários papéis com timbres oficiais. Eram as instruções, código eleitoral e sei lá mais o quê. Como redigir a ata? Felizmente um modelo detalhado salvou-me da vergonha. Aí foi fácil. A eleição transcorreu sem qualquer incidente.
A urna era um trambolho de madeira, envernizada, com uma portinhola na parte superior, fechada por cadeado.  Às dezessete horas em ponto, as portas foram fechadas e a votação encerrada. Lacrada a urna e observadas as exigências da Lei, a ata de encerramento foi redigida, contendo o número de votantes e de faltosos, além de outros dados. Lacrada a tal urna, designei uma pessoa para conduzi-la ao local onde ficaria recolhida, sob a guarda da Polícia Militar. Para meu espanto, quase recebi ordem de prisão, porque eu próprio deveria levar a urna e fazer a entrega aos responsáveis por ela daí pra frente.
Andando pelo meio da rua principal da cidade, levando aquele trambolho praticamente no colo, porque não dispunha de alças ou puxadores para facilitar. Paguei o maior mico de minha vida. Sujei o terno branco e suei para caramba. Presidi a primeira eleição direta, fiz história, porém não deixei minha assinatura na calçada da fama.
A paróquia
Durante a dominação de Quebrangulo, embora existisse a capela de Nossa Senhora da Conceição, construída pelo pioneiro Antônio Barbosa Barros, as missas eram rezadas uma vez por mês, pelo pároco da sede do município, padre Moisés dos Anjos.
A paróquia de Paulo Jacinto foi criada por ato do então Arcebispo de Maceió, Dom Ranulpho da Silva Farias, em 1948, quando o nome da padroeira foi trocado para Nossa Senhora das Graças. O primeiro padre designado foi o cearense José Jesuflor. Ele criou a Escola Paroquial, que funcionou por alguns anos e da qual fui aluno durante os anos de 1948 e 1949, quando me transferi para Maceió, para enfrentar o Exame de Admissão ao Ginásio do Liceu Alagoano. Minha alfabetização, entretanto, aconteceu graças à paciência do professor Teodomiro Alves de Oliveira e uma tal Cartilha das Mães.
O segundo pároco, Padre José Monteiro, um sertanejo de Tacaratu, Pernambuco que, com seu jeito acaboclado, logo angariou a simpatia de seus paroquianos e tratou da construção da igreja matriz. A senhora Maria Luiza Torres Barbosa, esposa do comerciante Francisco de Assis Barbosa, cuidou da decoração interna do novo templo. Artista plástica, pianista e cantora lírica, ela realizou uma obra digna de admiração. Ela também foi autora da bandeira e do hino oficial. A igrejinha original acabou demolida, quando deveria ter sido preservada como um marco histórico da fundação da cidade.
Um fato hilariante ocorreu, quando a prefeitura construiu uma praça na frente da nova igreja, colocando o busto do fazendeiro João Duda. Um artesão muito conhecido e respeitado na cidade, resolveu reivindicar para si homenagem igual, pelos serviços prestados à comunidade durante tantos anos.
Um dia, enchendo-se de coragem, adentrou o gabinete do prefeito levando uma carta reivindicatória de tal honraria. O prefeito que se encontrava reunido com alguns vereadores e amigos, leu o documento e perguntou ao artesão: - “O senhor deseja realmente o que está escrito aqui?”. Diante da afirmativa do requerente, ele continuou: - “Veja bem, o senhor está pedindo para que seja colocado o seu ‘bustiê’ em uma praça. O senhor sabe que “bustiê” é uma peça do vestuário feminino, que as mulheres também chamam de corpete?” O homem empalideceu de repente, tomou o papel das mãos do prefeito e nunca mais pôs os pés naquele prédio.

Celeiro de padres e jornalistas
O município de Paulo Jacinto acabou transformando-se num celeiro de vocações eclesiásticas. Vejamos: o primeiro foi Monsenhor Pedro Teixeira Cavalcante, ordenado em Roma, atualmente pároco da Igreja do Divino Espírito Santo, em Maceió, que recentemente construiu e inaugurou o Carmelo de Santa Terezinha, no distrito de Riacho Doce. O Bispo José Francisco Falcão Barros, nomeado Bispo Auxiliar do Ordinário Militar do Brasil, Monsenhor Petrúcio Bezerra e os Padres José Cláudio da Silva, Wendel Assunção Gomes (atual pároco) José Ailton de Assunção, José Edvaldo dos Santos, José Carlos Emanuel, José Clodoaldo de Almeida Santos, Manoel Paulo Antero de Assunção e Francisco Teixeira.

No jornalismo figuram os seguintes profissionais: Salésia Ramos, Marcelo Firmino, José Feitosa (Zé da Feira), Fátima Almeida, Elenilda Oliveira, Clarissa Veiga, Lucas França (concluindo jornalismo/estagiário da TV Gazeta), Marcondes de Aquino (estudante de Jornalismo) e Laurentino Veiga (presidente da Associação Alagoana de Imprensa), todos em plena atividade.
O Campo de Pouso
Certo dia, o ronco de um “paulistinha” assustou a nossa pacata vila. Era um aviãozinho amarelo, do Aeroclube de Alagoas, como fiquei sabendo depois. Sumiu lá para os lados da Serra Grande, nosso relevo geográfico mais destacado. Depois ouvi a gritaria: “O avião está lá no campo de futebol”. Corremos todos para ver aquele fato inusitado. Do avião haviam descido o piloto e um acompanhante ainda bem jovem. Acabamos descobrindo que o mais novo se tratava do José Aloisio Costa, nascido em Pindoba, estudante de odontologia e aluno de pilotagem. Costinha, para os íntimos.

Outros voos se sucederam, alguns comandados pelo aluno Costinha. Veio logo a ideia de se construir um campo oficial, para pouso e decolagem de “teco-tecos” como eram chamados aqueles brinquedos voadores. Daí nasceu o “Campo de Pouso Cadete-Aviador Moacydes Caparica”, inaugurado com festança, em homenagem ao filho de um caixeiro-viajante que abastecia lojas e armarinhos da cidade mensalmente. O patrono havia morrido em acidente durante um voo de treinamento da FAB. Depois de algum tempo os aviões desapareceram e nosso “aeroporto” acabou.



Matriarcado
Quando a vice-prefeita Maria José Fontan assumiu o comando do município, em razão do falecimento do titular, Joaquim Borba, toda administração municipal foi ocupada por mulheres. Por uma feliz coincidência, a Juíza Nelma Torres Padilha havia sido nomeada para aquela comarca. As secretárias municipais e diretoras de escolas nomeadas foram: Elma Canuto, Maria Izabel Costa, Nize, Grináuria Teixeira, Eloisa Cavalcante, Grináuria Barbosa, Joana da Silva, Josefa Luíza Pereira, Francisca Correia e Maria Araújo Feitosa. Isso rendeu uma matéria no “Fantástico”, da Rede Globo de TV.


Exercício de memória

Aceitando o desafio proposto pelo professor Sávio Almeida, me dispus a registrar alguns fatos sobre a minha querida terra Paulo Jacinto, antes que a memória se torne prisioneira do “alemão” impiedoso. Escrevi algumas coisas presenciadas por mim ou associadas à minha vivência e também ao que contavam os meus pais. Não tive a pretensão de escrever a história do município ou a de sua gente, apenas relatos puxados lá do fundo da cachola. Um verdadeiro exercício de memória.

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