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sábado, 19 de julho de 2014

Memória: o cinema mudo na Capela de Alagoas

Capela das Alagoas: o maestro e o cinema mudo





         Hollywood é algo presente em nossa vida, como símbolo do cinema que nos bombardeia desde a época do cinema mudo. Depois passou pelo falado e depois pelo colorido. São três ênfases tecnológicas em nossa vida. Do cinema mudo, restaram-me algumas coisas contadas por meu pai, que me transmitiu o culto por Carlitos. Acho que tenho quase tudo que Carlitos filmou;  vez em quando curto alguma coisa. Lembro das histórias do Cine Ceci na Capela, com o maestro Chico Caetano tocando piano, valsa nas partes tristes, chorinhos nas alegres.



Chico Caetano era músico de primeira, militar ferido em Canudos e tocava no Cine Ceci. Conheci muito a Naná, que morava na linha do trem em uma casinha simpática, aqui em Maceió. Dizem que ela puxava ao pai: alta e magra. Nana trabalhou muito em teatro e era ligada a Os Dyonísios, grupo do Bráulio Leite Júnior. Chico Caetano tinha composições e eu somente conheço uma, que ouvi ser cantada por suas de suas filhas, quando conversávamos em Maceió. Otávio Cabral estava comigo. A letra era a seguinte:

Mamãe tem, papai tem

Todos têm

A barriga empinada.


Muito se contava de Chico Caetano. Meu avô Fausto era o bilheteiro do cinema. Ir ao cinema era uma preparação. Não se ía maloqueiro e nem com a roupa das festas, mas com a roupa para ir para os cantos, arrumado. Me disse papai que teve cinema engraçado: as pessoas levavam suas próprias cadeiras, mas não foi o caso de Capela. Era um salão, cadeiras e a tele; um piano do Chico Caetano. Uma coisa triste, lá vinha o dolente de uma valsa. Uma valsa dolente é coisa que sumiu.  Saudades do Matão é dolente. Acho bonito, viajo quando a escuto e é uma forma de me lembrar de casa, de uma história que tive, como se o passado nunca se acabasse e fosse imediatamente uma situação de agora. Faz pouco, descobri que sou um ser que revive permanentemente. E que as pequenas coisas são senhoras de mim.



tom mix

buck jones

Contam, que Chico Caetano tomou um meio porre e foi ao piano, mais pra lá do que pra cá. Um idílio aparece na tela e a música deveria passar para um vivace, quem sabe um “feroce”, e a cana trazia o Chico Caetano para longe das luzes de Hollywood e espremia contra as pedras do Rio Paraíba.  Veio uma embolada:


Chuleia o besouro, Iaiá

Bem chuleadinho, Iôiô

O besouro avoa, Iaiá

E é bonitinho,  Iôiô.


A plateia caiu na gargalhada, mas o Chico Caetano, veterano de guerra, jamais se perturbaria mantendo a embolada a martelar nas teclas do piano,  o besouro avoando sobre o amor da tela. Acho fantástica esta desconstrução capelense, este ajuste de contas entre os peixes do Paraíba e as estrelas que depois farão a propaganda de sabonete. As meninas do Paraíba tomavam banho de cuia ou tibungavam no Poço do Pai Pedro. O beijo e o besouro chuleado ficaram enlaçados retomando para a Capela, o tempo que Hollywood parecia roubar-lhe.

Mas não foi somente esta façanha, que foi atribuída ao Maestro, antes do cinema falado chegar na Capela, exigindo a atualização do cinema em seu equipamento. Gente da Capela pegava o trem e vinha ouvir o cinema em Maceió. E isso dava o tom da ligação entre o trem e a possibilidade das novidades. Ms o Maestro tinha outra que se contava. Era Semana Santa e em um dos dias foi passada a vida de Cristo. O Maestro esqueceu dos tempos de trevas, entornou umas cinco e lá vai a cena comovente da cruz  sendo levantada e, com ela, o corpo de Cristo. Era o encontro do sagrado da tela com o profano do piano. O Maestro não se conteve e saiu:


Tatu subiu no pau

E na mata ninguém viu!


Isto tudo devia ser mangação, brincadeira de quem não tinha o que fazer. Não importa, contudo, a verdade,  mas o modo como se construía com o humor uma personagem urbana e, com ela, vinha o anedótico e o jocoso desconstruindo valores. Sei que do meio do universo do cinema, ficaram na cabeça de meus pais o Boca Larga, Carlito, Tom Mix, Buck Jones.

Eu gosto do cinema mudo.

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