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domingo, 20 de julho de 2014

Memória e cotidiano: peripécias na Rua da Penha

Sexta-feira, 9 de dezembro de 2011


  Este texto foi publicado na coluna Espaço no dia  6 de fevereiro de 2011 , O Jornal, Maceió


A Rua da Penha em Penedo: heróis e cinema

Luiz Sávio de Almeida





Os livros de história

     Uma história do arco da velha  era diferente de Trancoso e  Carochinha. Era uma expressão que  no Velho Testamento, outros falam  também se usava para introduzir  desconfiança quando ao que foi falado  ou indicar fantástico, antiguidade...  Alguns lançam a expressão  nas superstições medievais com as  
bruxas. Carocha para mim – e era  assim chamada pelo pessoal da   Bananeira de Baixo, o que leva para uns 150 anos mínimos – era aquela  barata cascuda, grande, que aparecia  e muito em tempo de inverno em  Arapiraca. O povo chamava também  

de barata de coqueiro. Mas a  palavra já teve significado na  perseguição religiosa, sendo do tempo da inquisição uma mitra feita  de papelão e posta nos feiticeiros,  

conforme o Dicionário de Folqman,  publicado pelo Impressor do Santo  Ofício em Lisboa, no antigo ano de  1755. Diz Silva que esta carocha é  derivada do inglês: caroack. No  entanto, ele mesmo vai dar como sinônimo de barata (“uma espécie  

de inseto caseiro no Brasil”), havendo,  
também, o verbo encarochar.

     Esse Silva era nascido no Brasil e, em 1831, seu  dicionário tinha quatro edições. ssa carocha do Santo Ofício está no D. Quixote, na cabeça de Sancho. O bicho está em prosaico inseto em Camilo Castelo Branco em O que fazem mulheres. Por aí se pode ir e andar muito em relação à marca pública e teatral dos crimes da Inquisição. Mas, na Rua da Penha, carocha não tinha o senso da ignomínia, ia mesmo para o tempo da carocha, coisa velha. O encarochar da Rua da Penha era diferente.



    A Rua da Penha tinha história de Trancoso, da carochinha e do arco da velha, coisas que se misturavam à tradicional coleta ou à invenção dos contos populares, que remontavam tradições para a construção das nacionalidades européias. Eu tinha coleção daqueles livrinhos de história que a Companhia Melhoramentos editava, como o Gato de Botas, a Branca de Neve e toda aquela saraivada cultural de fadas, príncipes, reis e rainhas num carnaval de majestade sobre os sonhos infantis da Rua da Penha. Tenho todos guardados, encadernados, a capa azul, a fantasia européia.           Eu  tinha também livros da editora Del Vecchi, formato grande, os melhores contos de fada e Simbad, o marinheiro, além de Ali Babá e os Quarenta Ladrões.



     Trancoso era, na verdade, o senhor Gonçalo Fernandes Trancoso, que publicou uma coletânea de contos ditos morais, tendo sido editado o primeiro volume em 1585; o segundo, em 1589; e, finalmente, o terceiro apareceu após a sua morte e por iniciativa do seu filho. Tudo passou a ser história de Trancoso e a expressão contos de fadas parece que não pegou bem ou, então, a experiência histórica fez um recorte separando o que vinha da tradição ibérica e o que veio das coletas européias do romantismo.



Histórias em quadrinho

     Era, na verdade, o que eu lia; a miscelânea estrangeira que iria aparecer também nas revistas  em quadrinhos, substituindo o romantismo pelo americanismo das tiras. Dentre elas, a minha preferida era a Edições Maravilhosas. Recentemente  recebi um presentão pelos Correios: dois exemplares 
da Edição Maravilhosa, ambos Extra,  

sendo um de 1956 – Doidinho, de José Lins do 

Rêgo – e outro de 1957 intitulado A terra vai 

ficando ao longe, de autoria de uma mineira chamada 

Lasinha Luís Carlos. O primeiro foi adaptado  
e desenhado por André Le Blanc e o segundo 

 de responsabilidade de Ramón Llampayas,  

espanhol que trabalhou para a Ebal. Le Blanc era 
do Haiti e praticamente foi o criador da famosa boneca Emília, tendo sido ilustrador muito requisitado por Monteiro Lobato.



     
     Colecionava, com cuidado, a Edição Maravilhosa, bem como Tarzan que – segundo ouvi uma má língua dizer – é o american way of life na selva. Era um mercado que, sem dúvida, foi dominado pela Ebal, editora criada pelo Adolfo Aizen, que pode, na verdade, ser considerado o grande introdutor dos quadrinhos no Brasil. Ela funcionou de 1945 a 1995. Ajudou a 
cultuar O Capitão América, Super-homem, 

Fantasma, Mandrake, Batman e tantos outros, 

como, por exemplo, Namor, o príncipe submarino.


  

     Ao contrário de Clark Went, Namor vinha das profundezas do oceano, filho de uma Princesa da Atlântida com um marinheiro; ele, além de ser anfíbio, conseguia até voar. O romance entre a mãe de Namor – a Princesa Fen e o marinheiro – começa quando está sendo realizada uma exploração sobre uma cidade submersa. Lançam bombas que começam a destruir a cidade. O rei Thakorr manda sua filha, a Princesa Fen, com uma patrulha, verificar o que estava acontecendo na superfície. Ela decide ir sozinha, sobe, todos ficam impressionados com a beleza, ela decide demorar para poder melhor informar ao seu pai sobre aquele povo. Resultado é que engravida e vai nascer Namor. O fato é que ele vai acabar sendo um lutador contra o nazismo, ao mesmo tempo em que ia para a cama com a agente Betty Dean.



      Eu gostava do Fantasma, o espírito que anda, fazendo justiça, sobretudo, na selva e imortal para quem não sabia seus segredos de linhagem. Ele nasceu em 1936, criado e desenhado por Lee Falk. Sua vida era copiosamente documentada e os arquivos estavam na Caverna da Caveira. A única pessoa a saber desse segredo imenso era Guran, chefe dos pigmeus Bandar. Nem a namorada do Fantasma nem o Comandante da Patrulha da Selva sabiam de qualquer coisa mais aprofundada sobre o herói, que usava uma vestimenta  especial a proteger-lhe o rosto e também, para efeito de timbre, um anel com o símbolo da caveira. Ao sair da selva, cobria o uniforme usando um chapéu, calças e, sobretudo, transformando-se em Christopher Walker e, às vezes, viajando em companhia de Capeto, seu lobo de estimação.


     Ele andava em um cavalo chamado Herói, tinha um falcão e enrolou por anos a Diana Palmer, com quem terminou por casar gerando um futuro Fantasma, de quem nada se sabe, mas deve andar aí pela altura da Lagoa do Peleve. É uma bela sensação manusear o velho exemplar. É também de Lee Falk a criação de Mandrake, um mágico de capacidade extraordinária, com seu nome estando associado à mandrágora. Ele usava como ninguém a técnica de hipnose, sempre acompanhado pelo seu amigo Lotar, um príncipe africano. Mandrake apareceu primeiro em 1934 e também passou anos enrolando Narda.



     Gente sem qualquer imaginação andou me falando que Mandrake tinha um caso com Lotar e somente vai se decidir anos e anos após o amor à primeira vista que surgiu pela Narda. Casam em 1997 e foi prá lá de idosos. Acho que nem aproveitaram Xanadu. O mesmo malidicente veio me comentar que o Robim era caso do Batman. Jamais isso poderia passar pela minha cabeça em Penedo. O que de tão secreto havia na vida do trilionário Bruce Wayne para ter uma batcaverna, batcarro, batamor? Um batblue? Sei que ele ficou meio lelé depois do assassinato de seus pais; talvez, em inglês, funcionasse melhor a palavra peculiar ao invés de lelé. Ele adota Dick Grayson em 1940, menino filho de artistas de circo. Chato é que Dick parece ser um baita palavrão em inglês e nem me atrevo a traduzir. Bom, a coisa se complica pelo fato de o homem morcego se casar com a mulher gato, com quem vai ter uma filha. A gata morre. Como se pode verificar, era uma história solenemente complicada. O Capitão América era o próprio defensor da democracia na luta contra os nazistas. 

       
     Foi criado durante a guerra, sofreu diversas transformações e, na Rua da Penha, utilizava o seu escudo fantástico, com o qual fazia a sua guerra. Jamais os super poderiam estar fora do grande universo americano. O azul, o branco e o vermelho eram comuns e não eram as cores das Alagoas. Um outro tipo de Estados Unidos vinha com as aventuras de cowboy como se fossem lições sobre a formação histórica, a conquista e a formação do espaço através de um confronto permanente. 

  O quadrinho resolvia o mundo e nisso resolvia-se a Rua da Penha, uma determinada forma de inclusão em uma lógica radical de cadeias de poder. Nem se brincava nem se lia como se, angelicalmente, tudo fosse um em si, uma coisa resolvida em si mesma. Então, cada pedra de calçamento da Rua da Penha estava em um sistema de relação, embora a ideia de sistema não a resolva, e sim a lógica fundante da organização.

    
     Não causaria espanto que Batman, Superhomem, Fantasma e tantos outros andassem por aqui, em piruetas magistrais, com o super poder à disposição da supersalvação. Tudo então faria parte da ilusão de que andávamos em direção a uma parusia, devidamente protegidos pela santificação de iluminados? E quem poderia pensar que haveria uma mera e singela garantia humana?    Os anos da construção da guerra demandavam construção de heróis e a demonstração de que a civilização cristã ocidental, se não os tivesse, tinha inteligência para criar ou mesmo importar, como foi o caso de um deles, que veio de Kripton, e de Namor, que era dos atlantes.

    
     Ora, se não havia um culto aos super-heróis na Rua da Penha, pelo menos eles tinham admiração, respeito e apoio, pois vinham vestidos de  bem. Fundava-se uma mirabolante Távola Redonda e havia uma escondida busca pelo Santo Graal. Claro que é uma comparação rude e até meio deselegante, mas a salvação da terra estava nas mãos de uma ideologia que dispunha do cálice que coletou o sangue do martírio. Haveria um super-herói bobo? Não lembro. Todos sabiam da força que tinham e de como viver para mantê-la. Afonte da força era longe do humano e, assim, revestia a construção de uma espécie de nova mitologia sem atavios mais sofisticados.

   Eu gostava do Homem Borracha; seus poderes fascinavam, mas era mesmo ligado no Capitão Marvel, que, na realidade, era Billy Batson ou Guilherme Filho de Morcego, bom em inglês e péssimo em português. Ele depende de um mágico chamado Shazam, pois foi escolhido para guardar o bem. Basta ele gritar e logo se transformava de homem franzino e com problemas físicos em um Capitão Marvel, um paladino da justiça. Nesse passe de mágica, incorporava as mais excelentes qualidades que a história revelou, todas elas derivadas de um ser igualmente mágico. De Salomão, ele apanhava a riqueza da sabedoria; de Hércules, recebia a força; de Atlas, correspondia-lhe o vigor; Zeus era o poder; Aquiles, dava-lhe   coragem; e Mercúrio, a velocidade. Havia uma ponderação de excelências históricas: uma judia e o restante grego. Mantinha-se o complexo cultural das integrações gregas e judaicas?

    O cowboy jamais perdia, mas tudo não passava de uma resolução bem mais humana de conflito. Tudo se passava pelo farwest, uma espécie de sertão sendo edificado, onde aqui e ali, índios tombavam, estradas de ferro rompiam caminho, chineses se manietavam aos trilhos, xerifes corruptos bravejavam e tudo aquilo que fazia o mundo da conquista. A violência, a correria, a velocidade, tudo isso entusiasmava uma platéia, que se ligava totalmente e ficava frenética.  Olhe, o Coliseu devia ser daquela forma em termos de algazarra; nós nos comportávamos como se o ajuste do mocinho com o bandido fosse o ajuste de todos nós. O cinema literalmente caía quando o bandido se arrebentava. E ao soar o gongo, ao fim de tudo, todo mundo continuava enredado no meio de socos

e tiros.


A árvore dos enforcados


   
     Desse tipo de filme, o que mais marcou minha cabeça aparece depois e era com Gary Cooper. Foi A Árvore dos Enforcados, com Maria Schell.  A música era belíssima, a ação era densa, ia bem mais  longe do que as formas tradicionais  da construção do western, além, por  exemplo, de diversos filmes do John  
Wayne, na sua mania da bela 
América. The Hanging Tree foi de fato a sensação do último verso da  música, que,  numa tradução literária,   solta, dizia qualquer coisa como:  Cavalgando para seu sonho e destino.


     Acho bonita essa ligação entre sonho e destino. Os cowboys que pipocavam o  cinema eram de baixo custo, marcavam tipos, levavam aos fãs a algazarra de baixo custo, marcando mocinhos como Audie Murphy (um herói de guerra) e Roy Rogers, numa velha estrada que parece ter sido marcada pelo Tom Mix passando pelo Hopolong Cassidy. Gene Autry era outro arrumadinho, o cowboy cantor. Os mocinhos, alguns tiveram o doidelo junto, e um deles era o Gabby Hayes, extraindo gargalhada. Ele andava com Roy Rogers, Gene Autry, Bill Elliot, Randolph Scott, todos caras de primeira linha.

A Deusa de Joba e os Tambores de Fu Manchu



     Foi do cinema que veio a fixação 
da ideia da beleza feminina em mim. 


Jamais eu poderia dizer que foi uma 

paixão; nada mais importante do que 

os episódios das séries e ninguém 

perderia sem motivo real. É que se 

passaria a discutir, durante toda a 

semana, a solução que o artista daria 

para a situação em que se encontrava 

e era conhecida, na Rua da Penha, 

como o perigo do mocinho. Vi muitos 

seriados, mas o melhor de todos e, 

não me resta dúvida, foi a Deusa de 

Joba; depois aparece Os Tambores de 

Fu Man Chu.







     
     Hoje tenho ambos completos em casa e, vez em quando, dou uma belicorada. Boris Kaloff foi um Fu Manchu, Manchúria. O Dr. Fu Manchu vivia em uma série de romances escritos por um inglês chamado Sarsfield Ward. Os tambores de Fu Manchu foi um romance escrito em 1939 e arrepiou a meninada de Penedo. Logo em 1940, a Republic Pictures estava fazendo o seriado em 15 episódios, tamanho usual. Eram quase quatro meses de exibição e, com isso, o público não cansava, tendo de ser alimentado constantemente, o que obrigava e levava a uma alta produção. Jamais poderia haver um sábado penedense sem que houvesse um seriado.
      Os seriados começaram a ser produzidos na década de dez, do século passado, com as produções chegando perto de 1960. Apartir daí há uma severa concorrência da televisão, que muda o estilo de fazer os seriados e eles perdem uma característica que era essencial: uma comunidade
que os via. Aquela multidão de menino, de uma hora para outra, era uma unidade, embora volátil.    A frente do cinema ficava cheia de menino, uns vendendo e trocando estampas, revistas, pedaços de celulóide. 
       
      Um pedaço de filme valia dinheiro, mormente se era colorido, mormente se tinha uma cena do mocinho. Gente inventava que havia feito uma máquina de projeção com um despertador velho. Ouvi, mas o certo é que se tinha uma espécie de lente feita com lâmpada velha e cheia de água. Um mundo existia antes, e ele ia sumindo na medida em que se entrava no prédio do cinema. Cinema era um complexo de situações: o interno e o externo.
     Lá dentro, a algazarra, a gritaria, como se sumisse a massa comportada que estava fora. O baleiro e eu comprando chicletes que só Adams fabrica. E esse Seu Adams realmente existiu e começou a produzir em 1872, chegando ao Brasil em 1945, coisa também da guerra. Comprava também as caixinhas de passa de uva da Califórnia. Em Penedo consumi passa e heróis. Chicletes também.  
       Tinha vez que eu entrava mais cedo, ia para o camarote para jogar helicóptero, enquanto aviões poderiam estar cruzando os ares. Na verdade, ainda hoje gosto de jogar helicóptero. Deu chance, o bicho desce com as asas rodando e eu cometendo o engano público de sujar as ruas. A culpa é da Rua da Penha, que não me larga. Sou engenheiro aeronáutico de helicóptero de papel; é preciso ter uma certa prática para calcular a envergadura das pás, o corpo de sustentação embaixo. No cinema,  a altura e a ventilação eram poucas e o helicóptero logo caía, mas a sensação de ver aquilo rodando era impagável. Fui e continuo a ser um péssimo fabricante de avião.
     
       A Rua da Penha sabia muito sobre chicletes. Todo mundo sabia que era fabricado com a goma do sapoti e conheci alguns que colecionavam as caixinhas pelo número
que elas tinham nas abas de fechamento. Diziam também que, juntando uma determinada quantidade de caixas, a fábrica trocava por uma cadeira de rodas, dava a cadeira a alguém. Mas o mais importante é que circulava uma informação: era preciso ter cuidado para não engolir, pois grudava no estômago e a pessoa morria.
     Lá dentro do cinema, uma bagunça. A matinal ia começar, mais silêncio, todo mundo procurava acomodação e tudo seguia o ritual do jornal, do desenho, da propaganda dos futuros filmes e aí o mundo se remodelava e tudo se unia na repartição do momento, o que não significava uma verdadeira comunhão. Ninguém jamais, diante da demonstração de tal ordem de atomicidade, poderia conceber que se plasmava uma unidade.
    
      Fora a vida, somente o cinema era um grande 
fabricante de imagens em Penedo. E ele me deu a perfeição feminina justamente na figura de A Deusa de Joba, cujo nome era Valery Tremaine. Joba era uma cidade perdida  no meio da selva e Valery foi transformada em sua Deusa, controlada pelo Sacerdote, que era servido por uma tropa de homem morcego. Seu irmão Baru consegue fugir em busca de socorro e é encontrado no meio da selva pelo mocinho, que era Clyde Beat, na verdade, um grande artista americano: domador de leões. Por isso vai que existe cena com leão. A Deus de Joba passou a ser venerada por mim. Ela sempre aparecia com uma túnica branca, que lhe dava uma leveza e uma graça celestial. Era Elaine Shepard, artista que não teve qualquer projeção, mas chegou a ter presença de primeiro plano na área do jornalismo.




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