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domingo, 27 de julho de 2014

Urbanismo, paisagem, mirantes. Cynthia Nunes da Rocha Fortes. As casas-mirante da Ladeira da Catedral: o olhar e a paisagem

Quarta-feira, 28 de dezembro de 2011


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ESTE FOI O PRIMEIRO ARTIGO PUBLICADO EM ESPAÇO


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FORTES,  Cynthia Nunes da Rocha. 
As casas-mirante da Ladeira da Catedral: o olhar e a paisagem. O Jornal, Maceió, 14 set. 2008.
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Umas poucas palavras



Luiz Sávio de Almeida



 Iniciamos Espaço com texto de jovem pesquisadora dedicada ao entendimento do  processo de urbanização de Maceió e, atualmente,  cursando o Mestrado Dinâmicas do Espaço Habitado da Ufal. A abordagem é interessante  e  pelas modificações acontecidas em determinado processo de construção do espaço.  

Trabalho de pesquisadora em forma
ção aborda temática sui generis no conjunto 

de estudos elaborados sobre Maceió. 


Aliás, a preocupação atual de Cynthia é 
com a condição das ladeiras associada ao 
desenho urbano de Maceió, à montagem 
da área especifica do bairro do Farol. 
tema da Ladeira da Catedral foi abordado 
em seu trabalho de conclusão de curso, 
orientado pela Professora Dra. Josemary 
Ferrare que fez a gentileza de ler e opinar 
sobre este texto que publicamos e 
que, também, recebeu nossa orientação 
ao ser apresentado à disciplina que ministro 
no mestrado mencionado.

Há muito trabalho importante produzido pelos estudantes em Alagoas e a grande maioria dorme nas prateleiras.  Espaço tentará recuperar alguns, trazendo a público material interessante e de bom nível, capaz de demonstrar como vai se modificando o perfil do intelectual e do cientista em nossa terra. No campo da formação de sua inteligência, Alagoas sem dúvida tem se modificado e para melhor.  Espaço tenta manter uma linguagem entre o acadêmico e a divulgação, o que não é fácil. Iremos aprendendo, mas jamais os textos desta espécie ficarão livres de cacoetes acadêmico o que, necessariamente, não é mau, mas, sem dúvida, o leitor deve estar atento ao fato.



O que Cynthia faz




      Arquiteta e Urbanista pela Ufal, mestranda do Programa de Pós-Graduação Dinâmicas do Espaço Habitado - DEHA/Ufal. Participou em 2007 da equipe executora do Inventário do Patrimônio Arquitetônico na Sede Urbana de Porto de Pedras. Atualmente é integrante do Grupo de Pesquisa Representações do Lugar (Relu) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Ufal, desenvolvendo projetos de pesquisa para compor um banco de projetos para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - Iphan 17ªSR (Alagoas). Foi finalista regional do 20º Concurso Nacional de Trabalhos Finais de Graduação em Arquitetura e Urbanismo Ópera Prima 2008, com o trabalho orientado pela prof.ª Josemary Ferrare e intitulado O Registro da Memória e o Exercício do Olhar na Ladeira da Catedral e suas "Casas-mirante", que serviu de base fundamental para este texto, apresentado à disciplina Formação do Espaço Alagoano, ministrada pelo Professor Luiz Sávio de Almeida e sob sua orientação.






As casas-mirante da Ladeira da Catedral: o olhar e a paisagem




Cynthia Nunes da Rocha Fortes
















Paisagem, sujeito e coletividade



Todos os sentidos são fundamentais e cada um cumpre uma determinada função. Considerando o olhar, Cullen (1983) afirma que a localização do observador desempenha papel fundamental na apreensão da paisagem. A partir dessas observações podemos desvendar a singularidade das paisagens e, em nosso caso, a que se refere à Ladeira da Catedral. A sua posição topográfica de intermediação entre dois planos produz espaços privados (casas) e públicos (mirantes), capazes de possibilitarem captação panorâmica da paisagem litorânea. Fosse no século XIX, seria lugar privilegiado para  ver a que o  missionário Kidder, de passagem por Maceió,  considerou como mais bela do que a visão dos mares do sul.





É na simultaneidade de estar ali e de estar além que se pode desfrutar da paisagem. É essa contemplação que revela a forma típica de ela ser para o sujeito, que, ao apreendê-la sob o aspecto visual, culturalizando-a, estabelece relações de posse e reconhecimento. Em função desse processo de culturalização,  a paisagem deve, também, ser compreendida a partir das experiências individuais e coletivas dos seus observadores. Como diz Sandevile Júnior (2004, p. 2), “[...] o melhor modo de começar o estudo de uma paisagem [...] está [...] no reconhecimento que a traz para  o   universo da cultura e concebe seu sentido dependente de experiências partilhadas”.




A Ladeira proporciona visão de parte da orla de Maceió e refere-se à estreita relação que as cidades litorâneas e seus habitantes têm com o mar. Esta relação varia historicamente. É o que se deu com a área onde se consolidará a idéia urbana de uma ladeira a chamar-se da Catedral; e neste movimento histórico, o antigo Farol foi elemento fundamental pela função econômica e pelo fato de ter nucleado população, dando-lhe unidade. A Ladeira vai se tornar um traço urbano de ligação entre uma região consolidada e uma área de expansão, o Alto do Jacutinga, que será posteriormente conhecido como bairro do Farol. A condição de eixo urbano começa a estruturar-se  a partir dos inícios do século XX.













 A Ladeira da Catedral



Todos os sentidos são fundamentais e cada um cumpre uma determinada função. Considerando o olhar, Cullen (1983) afirma que a localização do observador desempenha papel fundamental na apreensão da paisagem. A partir dessas observações podemos desvendar a singularidade das paisagens e, em nosso caso, a que se refere à Ladeira da Catedral. A sua posição topográfica de intermediação entre dois planos produz espaços privados (casas) e públicos (mirantes), capazes de possibilitarem captação panorâmica da paisagem litorânea. Fosse no século XIX, seria lugar privilegiado para  ver a que o  missionário Kidder, de passagem por Maceió,  considerou como mais bela do que a visão dos mares do sul.



É na simultaneidade de estar ali e de estar além que se pode desfrutar da paisagem. É essa contemplação que revela a forma típica de ela ser para o sujeito, que, ao apreendê-la sob o aspecto visual, culturalizando-a, estabelece relações de posse e reconhecimento. Em função desse processo de culturalização,  a paisagem deve, também, ser compreendida a partir das experiências individuais e coletivas dos seus observadores. Como diz Sandevile Júnior (2004, p. 2), “[...] o melhor modo de começar o estudo de uma paisagem [...] está [...] no reconhecimento que a traz para  o   universo da cultura e concebe seu sentido dependente de experiências partilhadas”.



A Ladeira proporciona visão de parte da orla de Maceió e refere-se à estreita relação que as cidades litorâneas e seus habitantes têm com o mar. Esta relação varia historicamente. É o que se deu com a área onde se consolidará a idéia urbana de uma ladeira a chamar-se da Catedral; e neste movimento histórico, o antigo Farol foi elemento fundamental pela função econômica e pelo fato de ter nucleado população, dando-lhe unidade. A Ladeira vai se tornar um traço urbano de ligação entre uma região consolidada e uma área de expansão, o Alto do Jacutinga, que será posteriormente conhecido como bairro do Farol. A condição de eixo urbano começa a estruturar-se  a partir dos inícios do século XX.



Sabe-se que terras no Planalto do Jacutinga pertenceram a Bento Ferreira Guimarães e à sua esposa, com parte doada ao Governo Imperial em 1834 para construção do farol e fortificações necessárias à defesa da vila, segundo Lima Júnior em seu livro O Planalto do Jacutinga,  Publicado em 1974. Possivelmente não ocorria densidade de habitações no planalto e, ainda de acordo com o autor mencionado, não constavam ruas em relação dos logradouros da cidade datada de 30 de abril de 1869.



Adentrando o século XX, o Jacutinga ainda não havia densamente sido povoado na década inicial do século XX. As primeiras ruas abertas no planalto do Jacutinga . seguindo Lima Júnior na mesma obra . parecem ter sido a do Arame (Ângelo Neto), a das Vacas (Comendador Palmeira), a do Seeger (Aristeu de Andrade) e a São Gonçalo (Oswaldo Sarmento); ele Considerava que a primeira Ladeira foi a do Farol, por dá acesso a essas ruas. A ocupação da Ladeira que configurou o seu atual perfil ocorreu basicamente durante o século XX. No anterior, esta ocupação resumia-se a casebres, às casas dos faroleiros e ao antigo paiol.





A continuidade do processo de ocupação da área da Ladeira da Catedral levou a que o lado esquerdo de quem sobe fosse marcado por lotes pequenos e estreitos, enquanto o oposto, por lotes de grande testada e profundidade.



Através da análise do perfil atual do espaço edificado na Ladeira observa-se que a tipologia das casas do lado oposto à encosta corresponde, em sua maioria, a um pavimento, enquanto as do lado da encosta, com vista para o mar, encontram-se .soltas. nos lotes. A construção alinhada com a rua, sobre os limites laterais do lote, coladas com as vizinhas e no fundo do terreno, a presença de quintais são características do século XVIII e início do século XIX.



Reconhecidamente,de acordo com Reis Filho (2004) esta forma de implantação vem da tradição portuguesa, baseada no urbanismo medieval-renascentista. Com efeito, alguns elementos arquitetônicos nas fachadas de casas no lado oposto à encosta, construídas ou reformadas no século XX, são tipicamente do Segundo Império, embora apresentem partido de meia-morada, compatível com suas fachadas de porta e janela, produto de características de implantação no lote típica do legado da colonização portuguesa. É o caso do que era chamado .Vila Gerbásio. e da casa que existiu no lugar do prédio da Associação dos Servidores da  Secretaria Executiva da Fazenda (ASSEFAZ), antiga residência com entrada lateral e alpendre, características das habitações do Segundo Império. Outras, apesar de manterem a forma de implantação, parecem ter tido suas fachadas reformadas para se atualizarem aos novos tempos, apresentando composições geométricas em um estilo limpo em adornos.



Dá-se o contrário com as edificações que se situam do lado da encosta, que são em geral limpas e/ou muradas, sendo notadamente modernas, o que é comprovado pela implantação a partir da década de 1950, após o desmoronamento da barreira. Este fato é exemplificado pela presença de uma das obras de arquitetura moderna do desenhista José Nobre, de grande atuação e renome na cidade durante as décadas de 1950 e 1960, de acordo com Silva (1991), Estamos mencionando a antiga residência de JoséLoyola, datada de 1959.

A CATÁSTROFE DE 1949: um marco temporal para a Ladeira

Grosso modo, poder-se-ia dizer que existe uma Ladeira da Catedral antes e uma depois de 1949, especialmente falando no que toca ao espaço edificado, pois no dia 19 de maio deste mesmo ano, chuvas torrenciais caíram em Alagoas, levando Maceió a viver uma das suas mais marcantes tragédias. Resultado dessa catástrofe foi a transferência do antigo farol para o bairro do Jacintinho, sendo inaugurado em 1951.




Em documento por nós obtido na Capitania dos Portos de Maceió consta que, após a transferência do Farol, em 1953, o Ministro da Marinha foi a Maceió encontrar o Governador do Estado para tratar das questões referentes ao terreno da Marinha onde esteve o farol que, diante da tromba d´agua, perdeu sua função. Após o encontro ficou decidido que o terreno da Marinha deveria ser aplanado para a segurança dos moradores e fins urbanísticos.


Os Mirantes e a Ladeira


Os mirantes são um dos tipos de espaço urbano onde se processa a culturalização da paisagem e se ganha o sentido público. Notadamente, o São Gonçalo e a Praça Rosalvo Ribeiro foram . durante a segunda metade do século XIX . lugares da união do sagrado e profano, palco da tradicional festa de São Gonçalo do Amarante. As modificações acontecidas  a economia, cultura e sociedade maceioense mudaram o sentido dos mirantes e dos usos, pesando para isso, inclusive, a acentuada violência urbana e a falta de manutenção por parte da administração da cidade. O Mirante de São Gonçalo é o mais visitado por turistas que mobilizam pequenos comerciantes informais a se instalarem na Praça Rosalvo Ribeiro. Já o Mirante da Praça Dom Ranulpho tornou-se ocioso. São poucos os que o utilizam durante o dia, ficando o local, durante a noite, à mercê da violência.



Contrariamente, conta Dilma Fortes, ex-moradora da Ladeira na década de 1960, que o  Mirante D. Ranulpho foi um espaço .vivo. onde as crianças costumavam ir brincar, os adultos apreciarem  a paisagem e casais, namorar. É semelhante ao relato de Salete Santos Campos de Lima, também ex-moradora, ao afirmar que a praça D. Ranulpho era utilizada pelos estudantes dos colégios do Farol para namorar: Era, porque os estudantes desciam pra ir ali namorar. Era! Iam namorar... E ainda quando não tinha muito ladrão, muito cheira cola, muito assaltante, os carros paravam, ficavam namorando. Era o motel das estrelas (risos). Paravam ali e o casal de namorados ficava no carro. Hoje quem for ficar, já viu!






Relações entre espaço e a captação da paisagem


Antes da existência do Mirante D. Ranulpho, por servir como espaço público, o antigo Farol foi também local de lazer, quando observar a paisagem fazia parte do cotidiano; e em seguida à sua demolição, o espaço do mirante que surgiu após a tromba d.água de 1949 funcionou da mesma forma que o antigo farol, não deixando de ser um espaço público de captação da  paisagem, mesmo que por poucos e de forma esporádica. Entretanto, faltava-lhe o ícone.

Como o lado da encosta da ladeira propriamente dita somente foi ocupado após 1955, ano da demolição da base do Farol, as casas do lado contrário tinham, em parte, vista para o mar, devido à grande barreira em que se encontrava implantado o antigo farol. A captação da paisagem se fazia a partir das janelas do segundo pavimento ou então a partir do primeiro, pois ele se encontra em nível superior ao da Ladeira na maior parte das edificações.



Este perfil da ladeira foi alterado com a implantação de novas residências no lado da encosta, quando a barreira foi planada. Ainda assim, as casas do lado oposto à encosta continuaram tendo vista para o mar. Entretanto, em um outro momento, como algumas casas do lado da encosta ganharam mais um pavimento, a captação da paisagem foi comprometida para os moradores das casas do lado oposto à encosta. As casas do lado da encosta têm a seu favor a forma de implantação “solta”no lote, como recurso de captação da paisagem, graças ao tamanho dos terrenos, de grande testada, que geram espaços externos favorecedores de uma apreciação da paisagem sem obstáculos visuais, somando-se a vantagem de localização na borda do tabuleiro. O grande número de janelas e a presença de varandas e terraços que compõem as fachadas que ficam no fundo dos lotes são outros indícios de que os projetos dessas edificações levaram em consideração a paisagem, que poderia ser potencialmente captada.



A geomorfologia característica do sítio permitiu que grande parte dos quintais das casas do lado oposto à encosta estivesse num patamar mais alto que a casa, constituindo-se assim pequenas  barreiras. Esta posição foi aproveitada por alguns moradores ou familiares para apreciar a vista do mar no passado, mas hoje o quintal é pouco utilizado, pois boa parte se transformou na área de serviço da casa ou, mesmo, eliminou-se a declividade para a construção de edículas.



Dessas análises conclui-se que a casa é também lugar privilegiado de culturalização da paisagem litorânea, tanto no lado da encosta quanto no contrário, sendo a captação da paisagem nela privatizada. Há, inclusive, uma lógica de aproveitamento e um andamento histórico em todo este processo. Diz um morador, quando perguntado se usava o  mirante:



Não, não. Veja aqui, que ao lado da minha casa. Isso aqui tem um mirante. Aí o mirante da casa tem uma vista melhor do que o dali da praça. Então pra quê! Então quando eu quero, eu boto uma mesinha, numa  noite de lua cheia, fico conversando com minha esposa. Às vezes se toma um vinho, se toma uma cerveja, come-se um churrasco.[...] Fica-se namorando olhando pra praia, pro mar.





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