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domingo, 27 de julho de 2014

Memória e cidade: Penedo, a Princesa do Rio São Francisco

Luiz Sávio de Almeida, Minhas recordações de Penedo (I) 


Matérias esparsas







Esta matéria foi publicada em O Jornal, Maceió, no mês de Dezembro de 2007
         


Não lembro quando cheguei; não recordo da primeira vez em que cumprimentei a cidade.Sei apenas que desci das nuvens em teço-teco, vindo de Pirapora, Minas Gerais,com meu pai  - funcionário do Banco do Brasil –, transferido para ocupar a função de Contador na Agencia. Desta viagem, restaram retalhos na minha cabeça, construções fantasiosas às vezes alimentadas, aqui e ali, por expressões imprecisas que foram ouvidas durante outras quadras de vida, gerando um universo de memória onde fantasia e realidade se encontram. 

         Sei que chegamos. Pelo que contava meu pai, o melhor hotel era o dos Viajantes, mas fizeram reserva no Brasil, um sobrado. Dele, lembro muito pouco. Meu pai falava das péssimas condições de hospedagem, da má vontade e do lançamento da família em quartos do térreo. No dia seguinte, o dono do hotel o teria visto no Banco do Brasil e logo tratou de nos acomodar no primeiro andar. Não sei quanto tempo passamos ali. 

         Ninguém de hoje, consegue imaginar o que seria uma mudança, naquela época ainda imprensada pela guerra. A bagagem demoraria a chegar e se transportava o mínimo possível. Por onde se ia morar, meu pai comprava a mobília barata, indispensável como a mesa, cadeiras, a petisqueira, a cama. A minha cama em Penedo era a Patente, mas dormi muito em cama-de-vento, a melhor dormida que sempre achei.

         Pela Internet, sei que a famosa cama Patente foi desenhada em 1915 por um espanhol;a primeira delas fabricada em Araraquara para a substituição de camas de ferro em hospital. Toda a madeira na Patente era torneada, com as partes encaixadas em ganchos, com dois apoios, havendo a bandeira, o estrado e os pés.  Era tão prática, que até menino montava. A minha era marrom escuro, e ficou na lembrança devidamente guarnecida pela imagem do Anjo da Guarda, a quem eu tinha que rezar de joelhos e mãos postas, pedindo a atenção do meu zeloso protetor. Ele era  pendurado por uma fitinha branca, amarrada na grade da bandeira. 

         A cama-de-vento era para quando a casa estivesse cheia, mas eu arranjava forma de dormir nela, devidamente empacotado em pijama de manga comprida, fizesse ou não calor. A imagem que guardo é de uma cama dobrável, com dois cavaletes nas pontas, a lona embranquecida brochada nas laterais para agüentar a pressão do corpo. Era fresco, talvez mais do que rede e é uma peça notadamente portuguesa, nício da colônia.

         Passamos pouco tempo no Hotel Brasil; se não me engano, fomos para o Hotel dos Viajantese de lá foi alugada casa no Cajueiro Grande, pequena, com os fundos dando para uma ribanceira, cerca de vara no quintal quase em frente ao Hospital. Na verdade, Penedo começa para mim no Cajueiro Grande e estas lembranças assumem em torno de sessenta anos atrás, coisa do imediato do fim da guerra. A rua era extremamente larga e eu era proibido de colocar os pés além  do meio-fio, por conta dos caminhões que ainda chegavam quase que a chorar na rampa, na batida que vinha da subida da praia para o Cajueiro Grande.  Era tempo do Mack, venta cortada, verde, carroceria comprida de madeira, sacos e o mais que se podia, vindo de longe,passando na balsa e ganhando novo mundo na direção do norte, a venta enfeitada por uma estatueta que guarnecia sua busca por destinos.

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