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domingo, 22 de setembro de 2019

Culto afro-brasileiro: Tia Marcelina e o pintor Zumba (I)_


 Chamada
 Afro-Brazialian religion: history, memory and emotions
 Religione afro-brasiliana: storia, memoria, emozioni
 Religion afro-brésilienne: histoire, mémoire, émotions
 Religión afrobrasileña: historia, memoria, emociones
 Painter
Afro, Historia, Cultos, Artes, Memória, Pintor Zumba 

Jeamerson Santos



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Mestrando em Culturas Populares na UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE- UFS Especialista em Arte, Educação e Sociedade no CESMAC. 2014/2015. Graduado em Ciências Sociais- antropologia pela Universidade Federal de Alagoas UFAL 2013. Cenotécnico da Escola Técnica de Artes ETA / UFAL Área de pesquisa :Antropologia,Culturas Populares, Identidade,Educação, Preconceito Racial. Área de atuação : Cenografias,Ambientação cênica,Pintura artística,Direção de artes, Esculturas,movimento sociais. Coordenador Geral do Sindicato dos Trabalhadores Técnicos da Universidade Federal de Alagoas- SINTUFAL- gestão 2013/2015. Membro da Câmara Acadêmica da Universidade Federal de Alagoas- UFAL (2013/2015). Membro do Conselho Universitário da Universidade Federal de Alagoas-CONSUNI ( 2013/2015). Membro do Projeto de Extensão da UFAL: Fórum Mestre Zumba: Pensamento em Artes Afro Ameríndias desde 2013. Suplente do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial de Alagoas 2013-2015. Membro do Conselho Universitário da Universidade Federal de Alagoas-CONSUNI ( 2016/2018). Membro da Câmara Adâmica da Universidade Federal de Alagoas-CONSUNI ( 2016/ 2018). Diretor da Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores técnico-administrativo em Instituição de Ensino Superior Publicas do Brasil- FASUBRA gestão 2012/2014.

 História, memória e emoção

Luiz Sávio de Almeida


Não gosto de dar entrevista; ela é sempre traidora e , até mesmo, o entrevistado se obriga a falar dentro do recorte realizado pelo entrevistador,  bastando isto para surgir uma série de problemas. Então, quando me pedem algo, por exemplo, ds parte da imprensa,  eu digo para me mandarem as perguntas e com calma tento responde-las, at´pe mesmo para colaborar com o próprio jornalista. Gravar entrevista, é muito raro. E entrevista longa, mais raro ainda, pois quanto mais tempo você fala, mais besteira você sai dizendo: é melhor ser burro no mais curto espaço de tempo.  No entanto, quando é um trabalho acadêmico, eu sempre falo livremente.

Foi surpresa quando fui procurado pelo Jeamerson para falar sobre uma tela do Zumba: a da  Tia Marcelina. Eu jamais pensei, quando fazia e faço as coisas, que aquilo tem alguma importância: eu vou mais pelo impulso– e preparado para aguentar as consequências –, do que estudado. Tenho me dado mal e tenho me dado bem, da mesma forma que aconteceria se eu andasse com uma fita métrica, a tomar medida sobre minhas falas. Eu não sei se  já havia dito, que a famosa pintura do Zumba havia passado por mim. Os cuidados do de pesquisador do Jeamerson,  havia dito a ele para ver as raízes da foto.

E, sem dúvida, eu podia narrar muita coisa do que havia acontecido, por ela ter emergido quando eu estava imerso no povo da macumba – adoro esta expressão –, procurando, dentre outras coisas, se eu teria condições de propor um projeto de pós-graduação sobre ele. Foi quando conheci pessoas maravilhosas e que se atrelaram á minha vida: antes como amizade e hoje como saudade.

Navegar no passado foi aprazível e ao mesmo tempo saudoso. Julguei que era necessário passar pelo sentimento, dar a entrevista e situar a participação de muitas pessoas, mormente a de Celestino, Joca e Luiz Marinho; nisto incluo o próprio Belarmino,  no caso da imagem pintada de Tia Marcelina, o Zumba. Celestino, Joca e Luiz Marinho são fundamentos da obra do Zumba.

Tia Marcelina bem, poderia ser aquela senhora com o balaio na cabeça, parada na calçada e em frente a uma casa pobre, nem sei mesmo se de Maceió. Importa que ela foi reconhecida assim e daquela exata maneira se impôs e resgata a memória de uma história que jamais poderia ter sido letrada. Esta é a beleza de Tia Marcelina: ser única e tantas ao mesmo tempo e, deste modo, responde simbolicamente pela história do próprio povo: o povo da macumba.

Vou contar uma história que não disse na entrevista. Uma vez, a janela estava aberta e da calçada dava para ver o quadro da Tia Marcelina. Um homem ia passando e aí parou; olhou para mim e perguntou: É esta mulher que parava o trem? Eu ia dizer que não? Ele sorriu, e saiu alegremente.  Tia Marcelina integra, alegra e representa.


REGISTRAR, CELEBRAR E AGRADECER :  O  cotidiano negro em  Maceió.


Prof. Sávio: Eu só queria que o Celestino, que o Joca e o Luís Marinho tivessem ouvindo essa conversa. Eu acho que deve ‘tá’ por aqui. [Jeamerson - Deve ‘tá’ por aqui sim.]

É com esse trecho da entrevista que realizei  com professor Sávio  para minha pesquisa  do Mestrado em Culturas Populares, que compartilho com a mesma  disposição e gentileza com a qual foi concedida, suas memórias e historias que  são de importância para quem quer estudar, conhecer  e celebrar a presença negra pelo olhar da força e da resistência.
Em minhas pesquisas sobre o artista plástico José Zumba, vou encontrando novos caminhos que nos leva para o reconhecimento e registro de grandes momentos da historia dos negros alagoanos, e um desses caminhos nos leva para  aqueles  encontros de encruzilhadas:  foi assim a entrevista com o professor e pesquisador Savio de Almeida, relatos de uma vivencia compartilhada,  de experiência de enfrentamentos,  e de risos sobre a  Salva de Exu.
Um momento de pesquisa mágico, ouvindo mais que perguntando, chegamos onde a memoria  vai   a realidade resultante das ações do passado, ao iniciar nosso encontro com a curiosidade de como chegou ate ao artista  plástico José Zumba, a ideia de pintar o quadro Tia Marcelina e encontramos bem mais do que buscávamos: encontramos os “anônimos”, que são os homens negros religiosos organizados  e  corajosos.
Registrar parte  da historia contemporânea  das  lutas travadas em Maceió, por liberdade   religiosa e perceber essa dinâmica pela perspectiva negra é muito significante, o espaço para os homens  negros e sua cultura e  religião  eram absolutamente perseguidos  marginalizados, invisibilizados; compreender  a força do enfrentamento  de tudo isso  é o posso afirma como fundamental.
Por isso a importância  da  entrevista  do professor Sávio, parte  dessa possibilidade  de cruzar  nosso caminhar com outros que como  lamenta o professor  não estão aqui para ver o resultado  de  suas lutas, uma Maceió negra  que não  se cala mais, que sai as ruas não pra celebrar  o Quebra, mas para exaltar  a resistência de Tia Marcelina, sai as rua pra afirmar que não somos o que sobrou do Quebra, somos o que resistiu ao Quebra  e resiste ate hoje pela vida da juventude negra e  liberdade  religiosa.
Espero que o leitor, possa sentir o mesmo, que senti ao ler essas memórias registrada nessa entrevista, emoção de ter a oportunidade de agradecer e reconhecer  a contribuição do professor Sávio, Celestino, Joca e Luiz Marinho. E em nome deles   agradecer  a todos os que lutaram  e continuam lutando.



O povo da macumba e Tia Marcelina: uma entrevista a  Jeamerson Santos (I)

Uma proibição policial

É preciso retomar um pouco o clima, para chegarmos à Tia Marcelina. Houve uma época, aqui em Alagoas, que a Polícia vigiou os ensaios de folguedo, como, por exemplo, o Guerreiro e isto sob o argumento de ser motivo de cachaçada, confusão e de violência...  Então eles passaram por período de pressão policial muito grande. Aí houve um acordo – eu acho que costurado pelo Théo Brandão: se o Departamento de Cultura liberasse o local para  ensaios, a Polícia não chegaria perto. Conversando comigo ele disse:  - Se eu não fizesse isso, ia ser um problema muito sério!
Passou muito tempo desta forma. Eu tinha muita ligação com a Federação dos Cultos Afro-brasileiros, por conta de amizade com um cidadão chamado Celestino, que vivia na Igreja de São Sebastião... Vivia ali na Igreja. E era contínuo da Secretaria de Educação. A gente fez amizade pessoal. E ele era Ijexá. Eu acho que era o único que existia em Alagoas;  era no Jacintinho daquela época, radicalmente diferente do que vemos hoje. Eu procuro por ele e não consigo saber onde ficava. Eu acho que é a hora dos cultos começarem a reclamar a colocação dos Terreiros no patrimônio histórico. Falta pressão em cima disso.
O caminho do Traçado
Pelo Celestino, fiz amizade com o pessoal da Federação dos Cultos Afro-brasileiros;  amizade que terminou sendo íntima no sentido do companheirismo, de viver conversando.  E, naquela época, eu motivado pelo Théo Brandão, que era uma espécie de tutor meu... Bom, Theo e eu e conversávamos  praticamente todos os  dias, umas duas horas por aí assim... E tínhamos ligações pessoais.  E o Théo me levou a começar ter interesse em estudar isso. Naquele tempo eu andava pensando em estudar antropologia. E eu comecei a me aproximar dos Terreiros especialmente andando com mais três pessoas: uma delas era  o Luiz Marinho, Pai de Santo, era Nagô Traçado, como chamavam. Não sei como é que chamam hoje:  Nagô Traçado.  Bom, eu acharia interessante que se fizesse um trabalho sobre o léxico dos Terreiros, as mudanças... Eu acho que seria interessantíssimo;  mas chamavam Traçado.
E eram ali, a Federação e o Terreiro do Luiz Marinho, lá no lado da Ponta Grossa, que era um centro de concentração dos Terreiros. Existe um livro, que foi publicado nessa época, e que tem um título fantástico. Chama-se: Os Tambores na Ponta Grossa. Luís Marinho,  profissionalmente era pedreiro e  tinha uma lojinha de vender calçados, uma barraquinha na área do mercado, ali nos lados da feira do Passarinho, perto da banca do Arthur que era meu fornecedor de folheto de feira.
Sobre esse Luís Marinho, eu publico talvez o primeiro trabalho que aparece na imprensa de Alagoas, absolutamente simpático aos cultos. Eram duas páginas inteiras no jornal, parece-me que O Correio de Maceió, coisa assim. Ele fala do Terreiro sem qualquer  acusação. Eu encontrei o artigo no site da FUNARTE. E aí eu fiz amizade com Luís Marinho, que começou a achar que era meu Pai de Santo e eu não ia dizer que não, ‘né’? E fui privando da amizade deles e com isso eu fui tendo uma grande intimidade com os cultos aqui em Alagoas, principalmente Maceió. Mas eu não me considerava capaz de fazer uma pesquisa sobre isso. Eu achava que era uma complexidade muito grande, e que eu não tinha formação. E foi por isso que eu desisti; foi mais por covardia intelectual do que por qualquer outra coisa.  Eu teria de sair daqui para estudar, me preparar e não podia por razões de família. O resultado é que não me senti preparado,  mas eu me sentia tão bem que não largava. Para objeto de estudo não dava, eu sabia que não dava, mas andar com eles, dava.

As amizades

Então, eu terminei tendo amizade com eles e com muitas Casas de Terreiro de Xangô, aqui em Maceió. Eu acho que eu devo ter conhecido muitas e muitas e muitas Casas aqui. Eu não perdia saída de Iaô. Acontecia uma, eu ‘tava’ lá, com esse pessoal. Era o Luís Marinho, era o Celestino. Esses dois eram dirigentes da Federação dos Cultos Afro-brasileiros,  uma entidade que merece um belo estudo, até por conta das negociações que se faziam com o sistema.           Apois bem. E eu gostava, inclusive esteticamente, e ainda hoje de uma beleza fantástica e isto quer seja de Terreiro rico, quer em pobre. Eu acho que os pobres, às vezes, têm muito mais beleza. Faz tempo que eu não vou. O último foi na Mãe Vera a quem adoro.
 Apois, ficamos o Luís Marinho, eu, o Celestino, e aí havia uma pessoa que eu acredito que estava interessada em fazer política lá dentro, mas que terminou se ligando na gente. Chamava-se Coronel Belarmino. Morreu faz um tempão. Era uma pessoa muito boa, mas eu acho que ele era muito ligado a um Coronel do Exército que queria ser Deputado. Mas ele nunca, junto com a gente, conseguiu fazer a política partidária, porque a gente não deixava.  Ele andava mais com a gente como amigo. Ele era muito agradável. E era daqueles coronéis antigos, da Polícia antiga, velha, que tinha muita história ‘pra’ contar.
Então, eu gostava muito dele. Mas ele tinha essa tentativa de fazer um movimento político de candidatura lá desse Coronel, que depois mataram: acho que Adauto. O da polícia que andava com a gente era o Belarmino que o Bráulio brincava comigo, chamando de Coronel da Macumba, mas só quem falava isto era o Bráulio e eu. Nunca se usou esta expressão. Falo do Bráulio Leite Júnior. E aí, fiz também amizade com um camarada chamado Joca. Joca morava lá na Ponta Grossa e trabalhava pelas canhotas, como a gente chamava. Não sei como é que chama hoje: pelas canhotas, pela esquerda... sangue... Era o que chamavam. Ou seja, tinha umas certas ligações e não seria muito interessante fazer brincadeira com ele. E ficamos amigos. Isso é importante eu dizer, porque são essas quatro pessoas, comigo cinco, que fazem, em grande parte,  aparecer a história da Tia Marcelina em alto curso da memória da Seita – como também chamavam. 
A Salva de Exu
Então a Polícia continuava botando pressão em cima dos cultos, especialmente por conta de um negócio que eu não sei se existe hoje ainda, chamada a Salva de Exu.  A Salva de Exu, já ‘tá’ dito, ‘né’. Eu já fui ‘pra’ Salva de Exu e era barra pesada, porque a cachaça rolava mesmo. Então a Polícia, especialmente a partir daí, e o pessoal a reclamar do barulho, dava no que dava,  Maceió já não tinha mais espaço ‘pra’ você ter os Centros isolados. Os Centros já estavam, por mais pobres que fossem, em contexto de relação urbana. Você não tinha condições de ter um Terreiro afastado. O Terreiro ‘tava’ geminado ali com a pobreza que inclusive ia  aumentando por conta da migração que vinha ‘pra’ Maceió.
É entre 60 e 70, onde você começa a ter a violência da chegada da marcha migrante ‘pra’ Maceió. E é onde você vai começar a ver  crescer as ruas pobres da cidade, mas numa expansão alta! As grotas e tudo vão nascer um pouco depois daí. Mas na hora que essa pobreza chega, ela chega num lugar onde poderia ter sido considerado afastado, mas agora mais não. O Centro ‘tava’ ali, parede com parede.  Se bem que esses cultos, só eram relizados uma vez na semana, duas... Assim era a vida do culto, da época que conheci. Era muito ‘pra’ dentro do culto e muito pouco ‘pra’ fora, porque ele não podia ‘tá’ saindo ainda. Então era uma espécie de contido, revertido para si mesmo.
Nunca deixou de existir perseguição; ela não acabou com o Quebra;  e o que vem depois precisa ser estudado. Eu até escrevi isso em alguma coisa. Na década de 30, por exemplo, a perseguição foi grande! Eu tenho um livro raríssimo! Não sei nem como eu consegui; foi escrito por  jornalista que passa por Maceió nessa época e acompanha a polícia perseguindo alguns Terreiros: década de 30.
A ligação se estreita
Apois, começa haver essa empatia minha. Agora pronto, eu cheguei no termo que eu queria. Essa grande empatia que ainda hoje eu tenho manifesta, com relação aos cultos, mas eu já tinha visto que eu não podia estudar. Era preciso que eu fizesse uma remontagem da minha formação, porque ela era em Direito, e o Théo, acho que sentindo em mim alguma espécie assim de  não sei se talento ou da possibilidade de interesse por essa área cultural, me fustigava e aí me disse: ‘Vá estudar os Terreiros! Estudar os Terreiros... Depois que Arthur Ramos ninguém vê  isso”.   Então eu por brincadeira respondi: “ E por que é que o você não estuda?”
A temática negra não penetrava na inteligência de Alagoas da época. Então, você veja que isso que eu ‘tô’ lhe dizendo dá um pouco da magnitude do problema geral do negro desse momento que nós vivíamos. Você transformar o negro, objeto de plena perseguição, num sujeito que tinha história e num sujeito que tinha a sua cultura e não era a excrescência que se dizia... Isso era um afrontamento ‘pra’ muita coisa. Era preciso ter peito.
Eu nunca pensei, naquela época,  que era importante o que a gente  fazia. Eu ‘tô’ vendo os caras que ‘tavam’ comigo e vendo a importância deles e não a minha, agora que voce me faz olhar a importância do que vivemos. Aí você tinha uma temática negra perseguida em sincronia com a perseguição que viviam. Ela não aflorava. Ela no máximo chegava ao Abelardo Duarte, mas ligada à ideia de folclore. O Abelardo Duarte tem uma grande importância, não é porque ele rompa, mas ele tem coragem de ser diferente.
Ele não tinha uma antropologia capaz de romper com o que, tradicionalmente, se montava com relação ao conhecimento da cultura de Alagoas. Havia uma cabeça ibérica, de formação ibérica. A África quando chegava aos estudos, não chegava visível, porque o negro não era visível. Não era que houvesse maldade, era como se a cortina que existisse, fosse de tal forma fechada na vida política e social normal, que ela impedia o campo acadêmico de existir.  
Um rompimento
E veja os rompimentos. De uma hora ‘pra’ outra, você vai ter uma estrutura intelectual se vinculando aos cultos e você ‘tá’ num momento em que era eles eram negados pela polícia. Macumba não era  tema. Macumba era negócio de macumbeiro! E não seria apenas por ser de negro. Eu acho que era também pelos interditos religiosos, alicerçados pela Igreja Católica e pelo kardecismo, que considerava isso coisa de segunda linha, de terceira linha, negócio assim da periferia: espírito vindo a  frequentar os Terreiros, não poderia ser boa bisca.
Aí o que é que acontece? Eu passo a frequentar isso e a ter interesse.  Alguma coisa eu teria condições de fazer do ponto de vista intelectual: era estudar a distribuição geográfica dos Terreiros. Quem faz o primeiro estudo deles aqui neste sentido, somos nós. A verificar a distribuição geográfica dos Terreiros em Alagoas... Agora, imagine a importância desse troço lá naquele tempo.  Hoje tudo é graça.
E como é importante registrar, porque se você não registrar  ‘tá’ perdido... E é por isso que eu ‘tô’ lhe dando esse depoimento. Eu não me dei conta, nunca me dei conta de que vivia um momento importante... Só depois, é que comecei a perceber:  quando me falaram. Começamos a trabalhar com os fichários da Federação. Eu lhe disse que eu perdi esse material todo, já, ‘né’? Ficaram poucas coisas. A complexidade, por exemplo, desse negócio de ser Nagô, de ser Jeje, na minha cabeça, eu não tinha condição, eu não tinha formação, eu não sabia o que era isso e demoraria para saber se fosse me meter.
Um lugar a trabalhar
Mas saber onde ‘tava’ o ‘lugar’, eu sabia. E comecei a mapear uma série de elementos e a descobrir um troço que ‘pra’ mim foi muito importante, tendo descoberto isto com o Théo Brandão. O Théo me disse uma vez o seguinte: “Olha, Sávio, o segredo ‘pra’ você matar o que é que é o Terreiro em Alagoas,  em Maceió, é entender o que é que é isso que é chamado de Traçado”.  Aí minha cabeça ficou todo o tempo pensando o que seria esse Traçado. Traçado, sentindo que ele tinha história; apenas sentindo.
 Fui fazendo pequenas coisas que eu podia fazer sem me assustar com a responsabilidade: sobre a nomenclatura dos Terreiros etc. e tal. Tudo isso perdeu-se! Nomenclatura dos Terreiros, eu comecei a anotar isso.  Bom, e decidi tomar uma atitude que eu achei que era séria: ‘desfolclorizar’ esse negócio e ter coragem de ir ‘pra’ imprensa defender. E jamais ‘folclorizando’, porque meu medo era esse. Meu medo era que ‘folclorizasse’ a questão e deixasse de estar com o negro.
Então fica essa vida de ida e vinda... De tal forma que eu achava que eu já era macumbeiro também. Era macumbeiro. E onde tinha... Saía ‘pras’ festas etc. e tal, vivia na Federação... Eu gostava deles. Eu nunca frequentei o lado do Maciel. Isso eu nunca frequentei não. Mas engraçado, eu acho que eu tenho tudo que saiu na imprensa, sobre quando Maciel quis ser o rei do Candomblé. Eu acho que eu tenho tudo guardado, mas onde ‘tá’, não sei.  Dá outro grande trabalho, mas isto foi bem depois: merece também um estudo: a nobilitação do Pai de Santo.
O povo da macumba e Tia Marcelina: uma entrevista a  Jeamerson Santos (II)
 
Quadro de Zumba
Aí um dia, eu ficava assim pensando onde é que estava a história disso tudo: onde estava registrada. Eu não tinha ainda a formação suficiente ‘pra’ poder entender a questão de memória, ‘pra’ entender a questão de identidade. Digamos assim: eu teria muito mais uma base filosófica do que prontamente uma discussão de uma temática antropológica ou histórica.  
.           E vai essa integração todinha e é sempre esse sentido que não existia a história registrada e teria de estar na memória. Por isso é que eu volto muito depois ‘pra’ poder tentar trabalhar essa história, mas eu nunca escrevi; é material mais recente, embora com uns 20 anos e isto já faz diferença. Eu tenho todo o material, mas nunca escrevi.. São horas de entrevista sobre a história de cada Centro que visitei.    
O que me impressionava era no que divergiam, no que os Centros eram diferentes. É muito fácil você ver o que é igual e é muito difícil você perceber porque que o diferente é construído em detalhes. Eu tenho todas essas gravações feitas e estão no IPHAN, pois dei ‘pra’ eles talvez o mais importante acervo de registro oral sobre os Centros que deve ter sido feito pelos 80 ou noventa. Importantíssimo.
Nós fomos a muitos Terreiros, inclusive no interior e isto é essencialmente importante no acervo. Essas gravações, que eu acho que devem ser recuperadas, trabalhadas, estão no IPHAN, em disco e em fita. Isto dá uma bela tese, um belo livro. Embora que ela se perder é um troço muito triste. O Clébio andou nesses Terreiros comigo nessa segunda etapa. Há muito tempo depois. Isso aí vai ser, acho, na década de 80, por aí assim.  É um tesouro: dá dissertação, tese, livro. Talvez valesse a pena, alguém apresentar um, projeto para transcrição das fitas. Está também no IPHAN um importantíssimo acervo sobre a história indígena,  um raro acervo de falas indígenas.
E vamos para o Zumba
O Zumba é um exótico negro ‘pra’ burguesia. O Zumba era um artista que tinha que ser camelô de si mesmo, mas era reconhecido pelo povo da Macumba. E foi esse pessoal da Macumba que fez minha aproximação com ele. Eu não tive essa convivência de intimidade. A minha relação com o Zumba,  acontece em torno da Tia Marcelina. Então veja: eu sempre comecei a achar que faltava a... Hoje em dia eu falo em memória registrada. Foi quando eu tomo conhecimento do Quebra. E aquilo ficou na minha cabeça
Você ‘tá’ vendo como o Théo foi importante na minha vida, ‘né’?.  A minha cabeça não chegava lá, mas pressentia essa questão da história. Como é que foi a história desse povo e como é que é possível escrevê-la? Mas como eu digo: eu me julgava incapaz de mexer. Se eu fosse mexer, eu não iria pelo viés antropológico. Eu ia pela recuperação dessa história.  Você pode ver que quase todos os trabalhos que passam pelo Quebra, tratam muito mais da estrutura branca do que da referente ao negro. E a documentação que pegam é só branca, porque não tem negra! A documentação negra é auricular, no ouvido, a comunicação era essa.
Então você tinha um marco que depois virou ficção, no sentido de que extrapolou a condição. O Quebra aparece muito por conta da política branca. É extremamente difícil ter plantada uma ótica negra, porque você teria que ”imaginá-la”. Em grande parte do que se fala sobre o Quebra é estruturado de três, quatro ou cinco reportagens vagabundas do Jornal de Alagoas. E, quando na verdade, o que está por trás é a grande estrutura de perseguição, que aflorava religiosamente, à população negra. Você veja que se você for tratar bem a questão... Estava em jogo a destruição do negro com sua cultura na condição urbana.  Não, é porque diziam que o governador era lebá...  Nem um lado e nem o outro estaria com o negro.
Ele era chamado de Léba, porque você estava com a contradição do negro aflorando ali e não pelo fato de Euclides Malta ser macumbeiro. Agora, por que é que um negro representava esse perigo? Por que era negro? Por que era pobre? Ou ser pobre era ser negro? Então você tem um problema aí, que é imenso ‘pra’ você se situar, porque o Quebra nem sequer foi arranhado ainda, eu acho, sabe. Apesar de magníficos trabalhos. O trabalho do Rafael ´´ é  um belo texto, ‘né’. Outros trabalhos que têm por aí, são trabalhos interessantíssimos! Mas eles não conseguem o que era o momento negro embora aflorem muito do que seria este cotidiano onde o religioso era apenas um detalhe.
Eu acho que você verá parte do momento negro do Quebra, muito mais pelo que estava consignado nas estruturas de fora da alta elite da disputa política. Eu acho que é muito mais importante você estudar, por exemplo, a presença do Quebra... Vá estudar a Liga dos Republicanos Combatentes, porque ali você começa a verificar que ela passa por baixo, trabalhando as contradições que existiram no fundo dessa cultura onde o negro também estava em contradição. Ou seja, o fato de você ter uma determinada caracterização física não implica. Eu por exemplo, aprendi com Joel Rufino,   um grande amigo meu. Aprendi que a gente se escolhe, muitas vezes. Se você me perguntar:  “ Você sabe se é negro?”. Aí eu digo: Não sei, mas sou. Sou como?
Quando estou na plataforma da igualdade, de todos aqueles que querem uma condição justa, então eu sou negro.  Eu escrevo ‘pra’ caramba sobre negro, mas  nunca escrevi me considerando negro, nem com procuração negra, nem negro nunca me pediu que fizesse. Eu escrevi com a minha mão. Não sei se dá ‘pra’ me entender. [Sim, sim, fala do entrevistador].  Eu escrevi com a minha mão, e ali eu sou negro, ali. Negro, naquele espaço que a gente criou, que é um espaço da igualdade, que é um espaço de somar diferenças. Mas eu não tenho um histórico de vida negra. Eu nunca vivi na periferia, não sei nem que porra é! Apesar de que você vai ter um espanto do caçamba, agora: meu pai pediu esmola. Mas eu nunca vivi a esmola de meu pai. Eu já vivi meu pai funcionário do Banco do Brasil. Era outra coisa. 
Quadro do Zumba

É tudo difícil
Você percebeu o que eu quis dizer, né? [Sim, sim, fala do entrevistador]. Então eu não vivi o momento negro. O momento da exploração não chegou realmente em mim. Eu aprendia isso em casa. Eu não aprendi isso na rua. Eu não aprendi em Universidade. Eu aprendi que sou igual com minha mãe falando, com meu pai falando... Bem por aí... Eu me lembro de uma vez, meu pai era gerente do Banco do Brasil, em Palmares, de Pernambuco. Isso significa que ele estava entre as autoridades, talvez, da cidade. Eu ‘tava’ sentado, procurei por mamãe, não achei.
Aí fui ‘pra’ rua. Quando eu vi,  a mamãe tava com uma senhora magrinha, coitada! Ainda me lembro como hoje. Tão magrinha... E a minha mãe com o feixe de lenha da velinha na cabeça, andando no meio da rua. E meu pai Gerente do Banco do Brasil! Quando ela chegou, eu disse:  “O que a senhora ‘tava’ fazendo?” Ela: “Carregando lenha. Você ‘tá’ com vergonha de mim, é? Você tinha que sentir vergonha de mim se eu não tivesse carregado a lenha, que ela precisava daquilo ‘pra’ viver e não tinha condições de carregar!”. Só faltou remendar como sempre fazia no fim do carão: Seu cabrito! Ms eu não estava com vergonha mas orgulhosamente surpreso.
Voltando ao início e sobre a história da macumba nas Alagoas... Eu sabia naquele tempo que ‘tava’ faltando alguma coisa. Na minha cabeça tudo isso existia, tinha um sentido e era preciso algo que transformasse esse sentido em uma evidência para escrita. Aquela história negra  ‘tava’ muito ‘pra’ dentro, ela não tinha representatividade pública. Agora foi que cheguei onde queria: a publicidade.
Faltava uma representatividade pública, porque a própria pobreza não conseguia; não era o fato de ser a religião em si, mas era aquela própria pobreza que não conseguia se expressar. Existem momentos de expressão magnífica na pobreza, mas naquele momento não se tinha a visão dele. Uma vez pensando em hip-hop, escrevi sobre uma grande libertação urbana em Maceió, da explosão negra em Alagoas quando garotos vão dançar o hip hop na frente do Cine São Luís.
Voltando ao Quebra
 Aí essa coisa ficou na minha cabeça. Estava a ligação pessoal, estava o caminho ‘pra’ trabalhar com o que eu podia, que foi esse da Geografia da fé e de verificar as titulações dos Centros etc. e tal, de me preocupar com essa questão do Traçado, que o Théo levantou e ele tinha razão e com essa falta de representatividade pública da história que eu estava pressentindo. Por isso é quem vem o texto sobre o Luís Marinho publicado no jornal. Ele não deve ser bom. Eu tinha o quê? Vinte e poucos anos de idade, por aí assim. Quando eu leio com a idade que tinha, eu acho um puta e corajoso texto, sabe? [Sei]. Mas quando eu leio com a minha cabeça de hoje:   P. que pariu! [Risos de Jeamerson].
A TIA MARCELINA

A significação política dele independe de prestar ou de não prestar. Um jornal estava dando uma página ou duas páginas inteiras  em cima de algo que era considerado um tabu em Alagoas e o texto era absolutamente simpático a ele. Eu não podia dizer ‘eu sou macumbeiro’, mas ‘tava’ na entrelinha de que, se insistisse eu era [risos de ambos].
Aí eles, os amigos macumbeiros,  me procuram. Quando eles me procuram já havia uma história minha com eles. Não me procuram por acaso. Procuram ‘pra’ conversar sobre a perseguição que a Polícia ‘tava’ fazendo, segundo diziam e era mais do que possível. Especialmente eles diziam que quando era a temporada da Salva de Exu, como eu falei. Não sei se existe hoje ainda esse negócio de Salva de Exu. Existe? [Salva de Exu?][i]. Salva de Exu é um toque onde só baixa Exu. Aí você conhece tudo quanto é Exu. [Risos do Professor Sávio].
Eu tenho umas amizades assim estranhas [Risos do pesquisador], porque eu sei que se existirem eles estão aqui sentados agora. Os Exus! Os Exus ‘tão’ aqui. Eu só ando com quem não presta. Tá tudo aqui. [Risos de Jeamerson]. [Mas Exu presta][ii]. [Risos de ambos]. Eu falo que não presta no sentido da moral tradicional. [Sim, isso][iii]. [Risos de ambos]. Então deve ‘tá’ aqui assim ó! [Gesticula com a mão]. [Então, eles te abrem os caminhos, é?][iv] [Risos de ambos]. Eu tive uma briga com o Tranca Rua. Esse foi um negócio sério na Salva de Exu. O peste queria que eu tomasse uma cachaça. - Eu não tomo essa porra! Foi na Casa do Júlio, no Terreiro do Júlio.
Aí eles vieram conversar sobre a perseguição da Polícia. Aí me perguntam o que é que eu achava. Eu digo: - Nós precisamos buscar um representante. [Professor Sávio imposta a voz]. Eu não iria dizer isso, mas a chave era essa. Aí vão surgindo umas coisas: Tia Marcelina surge daí. Ia surgindo umas coisas.
Era qualquer coisa assim: ou sai da catacumba ou não existe vivo. Eu disse a você que a vida da religião era muito ‘pra’ dentro, porque não tinha meio de dar um passo desse. Isso contraria qualquer princípio de uma cabeça que não seja absolutamente maluca. Porque seria se levantar contra toda a organização de poder da sociedade, pegar isso, lançar-se na busca do público.
- O que é que você acha, professor? Foi a pergunta.
Aí eu disse:  - Tem que ter um troço aí que sacuda.
Queria dizer, que não dava mais tempo ‘pra’ ir lentamente na construção dessa representatividade. Ou papoca ou não papoca. E como é que papoca? Aí deu aquele negócio: se papoca a gente faz.
O sentido é que era esse. [Sim][v]. A gente tem que dar uma tacada que aflore isso daí e que fique a Polícia de mãos atadas, porque agora você não é mais marginal. Você tem que arranjar uma forma de você penetrar de tal modo que a ideia de que você era marginal e vagabundo não possa mais permanecer. E aí não pode ter a violência policial em cima. Eu era doido, eu acho, sabe? [Risos de Jeamerson]. Eu faria a mesma coisa hoje, eu faria. Só que hoje eu não tenho mais a coragem de enfrentar. ‘Tô’ mais cansado... Me chamaram:
 [Jeamersom: Mas sua memória já é uma ação corajosa. [Risos de ambos]
- “E o que é que o senhor quer fazer?”
- “Se vocês toparem, eu queria dar uma porrada do caramba. A  coisa que tem mais importante aqui em Maceió ‘pra’ gente atacar é o Teatro Deodoro.”
Por que o Teatro Deodoro? Porque o Teatro Deodoro era símbolo e representativo da cabeça da burguesia de Alagoas, embora ele fosse muito mais do que isso.
- “Vamos fazer o seguinte, se vocês toparem. Vamos fazer uns toques...’
Repare a proposta. Pense onde pesa a proposta. Mas eu não falei isso como de fora não. Falei de dentro, porque eu era de dentro. [Sim.][vi]. Aí o cara diz:  você era um intelectual! Não é não. Eu era de dentro. Eu não falei de fora. Eu falei de dentro. E eles vieram conversar comigo porque eu era de dentro.
Catedral você não ia entrar. Eu não ia fazer um negócio desse na Catedral. [Risos de ambos]. Assassinavam a gente. Era maluquice. Então eu tenho que ter um troço do estado, que pertence a todos.
- O que é que a gente vai fazer?
- Vamos...


[i] Fala de Jeamersom.
[ii] Fala de Jeamersom.
[iii] Fala de Jeamersom.
[iv] Fala de Jeamersom.
[v] Fala de Jeamersom.
[vi] Fala de Jeamersom.


 



sábado, 21 de setembro de 2019

Um pouco sobre prostituição e mudanças














Caderneta de lembranças: caminhos da prostituição


Luiz Sávio de Almeida


Comunicação e prostituição


Uma das marcas da chamada pós-modernidade é operar as estradas virtuais de comunicação,  maximizando a circulação das informações, abrindo,  portanto para todos os temas que circulam na cadeia humana da cultura e, dentre eles, sem dúvida, está a pornografia absolutamente escancarada, ao contrário de meu tempo de meninote e rapazote, quando se via fotos de mulher nua, como fundo de pequenos espelhos de algibeira. Se muito, eu vi dois ou três quadrinhos do Zéfiro, coisa como se fosse clandestina e a circular com imenso cuidado. E isso, praticamente nos começos dos 60, quando tem relevo o nome de Carlos Zéfiro com os seus catecismos, sorrateiramente vendidos em bancas de jornal que sempre tiveram espaço, inclusive, para as revistas de nú.
Claro que ao revolucionar o mundo, a tecnotrônica iluminou basicamente todos os setores da vida cultural, tal o poder das invenções e da tecnologia. A produção em série de textos e imagens, sem dúvida foi também renovando os ares da prostituição e da pornografia, mas a grande diferença é a velocidade com que tudo acontece  fazem com que um cafetão, por exemplo, seja atualmente  – e a bem dizer – um número de telefone celular, enquanto, ainda por exemplo, as casas de pornografia em endereços eletrônicos.  É assim, que a tecnologia sempre acentua a renovação e enquanto se poderia falar de velocidade na duplicação, hoje se pode falar na velocidade da integração e da entrega. Nos próprios começos do cinema tinha-se as  stag fiulms
Carlos Zéfiro cujos “catecismos” marcaram época, ainda vi quando menino em Palmares, Pernambuco. Pouco ficou em minha cabeça, mas lembro que li em frente a um hotel que havia na Praça e que me parece ter sido Hotel Palmares, um hotel cuja zona de prostituição chamava-se Coréia, uma relação com a guerra no Paralelo 38.  Não sei do que se tratava pois a grande sensação do Carlos Zéfiro era o desenho. Só que a banca de jornal de uma pequena cidade como era Palmares, jamais encontraria espaço para ele e para as revistas de mulher nua, como se dizia,  e, então, tudo era de um lado absoluta novidade e, do outro, absoluta raridade. Isto apesar do jornaleiro que viajava nos trens que passavam vindos de Recife e seguiam para Garanhuns ou Maceió, com o desvio de ramal feito em Paquevira, uma pequena estação perdida nas fronteiras entre Alagoas e Pernambuco, famosa por uma sopa servida quentíssima, enquanto o trem se arrumava no seu ramal. A pornografia e o trem da Paquevira, jamais poderiam ter a mesma relação que a pornografia teve com o supersônico e que tem com os megas e parentes em velocidade.
Hoje Carlos Zéfiro está à disposição na net; ele seria o que se pode entender como a demonstração na imprensa de um tipo de luxúria e tudo é sinal de que nos dias de hoje, o pecado tem pressa e é tão urgente quanto a própria possibilidade de viajar.  E isto me lembra o velho e esquecido Marshall Mcluhan quando falava na ampliação de sentidos e na aldeia global, pois é possível, atualmente, dar-se a volta ao mundo sem sair de casa e andar na pornografia e no erotismo de todos os cantos do mundo. Mais difícil seria aceitar as suas teses sobre meios quentes e frios quando se fala na pornografia. Mas sem dúvida o mundo estreitou-se e a pornografia e o erotismo está como o food fast se encontra, inclusive com lanchonetes virtuais.

A geografia urbana do pecado

Antes fazia sentido falar-se em zona de mulheres, como se o pecado tivesse condições de ficar em uma ilha urbana. Nas pequenas cidades do interior, os dias de feira eram de grande movimento nas casas, como se dava no Pernambuco Novo do Pilar, no Camartelo do Penedo, na Coreia dos Palmares, rompendo o normal da semana e dando força aos sábados e domingos, normalmente, também, dias de feira a pesar de que ela é omitida de seus nomes. Hoje o pecado cruza  o espaço, numa velocidade extraordinária, assumindo uma nova realidade que, por ironia, ainda é chamada de virtual embora seja um campo evidente de transformação do imaginário em realidades que alguns ainda tentam  chamar de ficção, de invenção, como isentando-as do eixo de culpabilidades, erros e paixões e amores e que, por eles, somente poderiam ocorrer no que chamam de real, parecendo-nos, que, fictícia é esta exclusividade do real como se somente o físico existisse.
A geografia urbana do pecado mudou, também, na medida em que vai sendo pressionado para abandonar áreas e na medida em que ele, por razões de mercado, precisa estar perto do cliente. Basta verificar Maceió que contou, neste sentido, apenas com um estudo realizado pelo Edson Bezerra; aliás, trata-se de um belo estudo que não foi por ele, infelizmente, continuado.  Lembro de meu tempo de menino, da existência da zona em Jaraguá, um lugar de porto e, então, de costumeira prostituição. Foi consolidado na década de trinta do século passado, para onde foi empurrada a prostituição que andava pelo centro aliada à jogatina em cassinos e ligações com a área de mercado, como por exemplo se dava no Beco da Lama e nos lados da Pirulito, Santa Cruz.   Carlos Paurílio em um conto mostra esta prostituição central ainda em andamento, quando narra os impasses do amor no passar do tempo e nos lados do Beco da Lama. A zona foi se despersonalizando: sabia-se de cor, nomes como o de Mossoró, Railda e outras tantas.
O centro foi recebendo a intervenção policial e Jaraguá ficando subdividida em uma área mais chic na Sá e Albuquerque e outra pobre em seus adentrados. Ela dura até a década de setenta quando se transfere para a região do Canaã onde não sei se permanece e sua transferência para o Canaãn  transformou-se em uma ironia na nomenclatura urbana. Alguns comentam que se transformou em um denada, em face da revolução dos costumes urbanos que aconteceu na cidade de Maceió, especialmente em face da descoberta da orla, de modificações nos padrões da economia urbana e surgindo uma nova cidade encostada à que sempre foi velha.  Alguns marcos foram aparecendo e se foi indo da famosa corrida de submarino ao aparecimento de alguns estabelecimentos que foram testemunhos das mudanças de costumes, da liberação do sexo, de uma juventude que tinha agora novos caminhos para seus pecados. Aparece um restaurante chamado Ipaneminha e o Fornace, elementos da renovação de costumes e de uma nova visão de algo que começou a ser chamado de orla.
O automóvel permitia ir-se pecar longe e a classe média teve facilidades e foi se expandindo. A orla teve dois mundos diferentes: o da Jatiúca e da Ponta Verde formando um conjunto, enquanto a Pajuçara era outro.  Na Pajuçara, a distância para o mar abriu para campo de futebol, espaços livres... A outra banda, a banda do norte, estava imprensada e talvez isto a fez tornar-se mais seletiva. O fato é que a corrida de submarino foi acabando pela construção, especialmente, de barracas que foram expandindo suas ocupações. Ficava difícil a classe média de boa renda pecar por ali.
As moças passaram a ter uma liberdade que jamais existiu antes, no que se refere a sexo. O que era furtivamente realizado nos intervalos de vigilância, passou a ser feito sem qualquer  restrição e pejo. As meninas do meu tempo de menino eram mais do que conhecidas, especialmente no interior e me refiro agora a Palmares em Pernambuco.  Meninos sempre conversam sobre meninas do mesmo modo como meninas sempre conversam sobre meninos. Eu me lembro de  – que menino –, estava flertando (como se dizia) com uma moça e uma amigo me disse: “Fulana é danada! A gente com uma semana, pega na mão dela!”.  Santa castidade!
Uma vez, já coroa ambulante,  perguntei a Zé Paulo, um poeta meu amigo e que é de Pão de Açúcar: “Zé Paulo, como é se se fala para namorar hoje uma menina?”. Respondeu: “Sávio, tá mais simples!  Você chama para tomar cerveja e aí pisa no pé dela. Se ela não reclamar, tá tudo certo!”. Eu ri. Mas a resposta do poeta desmontava todo um tempo passado, se bem, que o presente sempre comenta o que vai passando com certa conotação de distância. Tempos presentes, necessariamente são diferentes de tempos passados. Não posso, neste momento,  esquecer uma embolada de Manezinho Araújo:  Cuma é o nome dele?
Tecnologia, investimentos urbanos vão mexendo com o ato sexual de pecar e não com o sentido de pecado, cuja tônica está nos acontecimentos do Paraíso e que envolviam, como ambiente, o Eden e como personagens: Adão, Eva, a Serpente e Jeová que teve de expulsar Adão e Eva. O malemolente da serpente parece e muito com a nossa cabeça a argumentar-se sobre o fazer e o não fazer; quem resiste a esta malemolência é Cristo no deserto.
Tudo se arrebenta em Maceió ou se escancara, é quando a praia se abre e nasce a orla, suplantando a Avenida e acabando com de vez com a possibilidade de se continuar falando sobre uma  antiga Praia das Acanhadas que era conhecida  a região da Ponta Verde e isto é mais ou menos contemporâneo ao aparecimento de  nosso primeiro motel que arrebenta, dentre outro pontos, com as antigas casas de recurso. Somem as casas de recurso, as boites, as pensões de raparigas... As mulheres de vida livre e de vida fácil vão ter de encontrar outros caminhos, devendo ser lembrado com o saudoso Stanislaw Ponte Preta que: somente a arbitrariedade poderia chamar uma prostituta de mulher da vida fácil.
Edson Bezerra mostra como nasce um polo de prostituição na região da antiga rodoviária e ele conta as casas e conta os leitos que estavam disponíveis. Era um novo marco, atraindo, como deve ter atraído a rodoviária nova. No entanto, a Praça Bomfim transformou-se em região de bares e botecos, a redondeza ficou cheia de pequenos hotéis e Maceió bifurcava os caminhos: Poço ou Jaraguá.  Mas a ideia de uma zona para o pecado, foi sendo acabada com o advindo de uma nova invenção: o motel.
E eles foram se alastrando, eles foram aparecendo aqui e ali,  as casas de recurso foram substituídas por esta espécie de hotelaria que geralmente era instalada na beira de estradas ou de rotas de alto fluxo. Se a memória não falha, o primeiro que nasceu estava longe: lá pelo Catolé: era o que se comentava e se falava também de um outro que surgiu nas proximidades, todos na parte de cima  e é somente depois que eles descem e ficam mais perto do modernoso de Maceió. Antes, quando eu era menino e andava nas ruas de Maceió, era pelo meio mesmo que saía o magote;  raramente passava um carro e a gente sabia a quem pertencia:  é do dr. fulano de tal. Depois, os carros foram aparecendo e possibilitando dizer que o pecado mora ao lado,  mas viaja também.
Devagar mas com ritmo, eles vão procurando novos pontos, e vão fazendo um corredor na Mangabeiras e por onde se tem os corredores de deslocamento da cidade. Demoraram a seguir no rumo sul, mas estão por lá. E hoje, o celular ampliou ainda mais a oferta; basta pegar os pequenos anúncios e a relação está posta, como se tem oferta em sites que são aos montes. Não é fácil saber se tais sites são daqui: acho que dificilmente. Mas estão ofertando mulheres de Maceió, como se estivéssemos diante de uma vitrine no Bulevar da  Cidade.
Antigamente, uns 20 anos passados, não era raro chegar um cara metido a conquistador e a cavalo do cão dizer:  “Cara, acabei de estar com a Miss Pernambuco ! Mandei buscar e ela chegou de avião!”. Ora, dizia eu com meus modestos botões: “Coitada!”. Pegando um sites que fala sobre Maceió e Arapiraca, muitas são anunciadas como visitanters, pequena temporada nas Alagoas, gente andeja que vai e vem.

Tá tudo diferente

Era diferente ter acesso ao material pornográfico, estando-se no Rio de janeiro e em Palmares,  Pernambuco. Não era escancarado entre os cariocas, mas quase inexistente na beira do Rio Una. Vez perdida,  passava filme de safadeza como se chamava, no Cine Apolo em Palmares, sessão que começava por volta das 11 horas da noite e lotava. Não sei como era feito a propaganda; sabia-se do filme, a partir de reclame que se fazia em grandes tabuletas, cobertas com papel que eram pintados com os informes essenciais, mas Seu Amaro jamais faria isto de forma aberta. Aqui em Maceió, houve cinema que se especializou nisso, um deles era perto da Praça do Bonfim e o outro era para os lados do mercado e dizem as más línguas que hoje ainda opera um deles para os lados do Prado ou Trapiche.  Aqui, nunca fui, mas em Palmares, havendo possibilidade eu entrava, apesar de ser dito que era proibido para menores.
O que era a bem dizer uma espécie de segredinho masculino terminou por escancarar-se por via da internet, que coloca o mundo no fervilhar do sexo transformado em mercadoria, sentido puramente comercial. Talvez por aí, se possa procurar o sentido da pornografia: o mercado.  E a sua produção, sem dúvida, é mafiosa, no sentido de que o crime organizado e inteligente a manipula. E o pior deles é o que envereda pela pedofilia, algo impossível de se conceber e aceitar como normal dentro da rede do que vamos chama de cultura pornô, onde, sem dúvida, o grande ponto de apoio é o lucro ou a renda do capital. Aliás, muitas e muitas vezes, a pedofilia se encontra insinuada em fotografias e vídeos, como é fácil encontrar. Um exemplo é dado em site sobre nudismo, com fotografias apelativas e aparecendo aqui e ali criança em posição que se insinua sobre ela. Isto ocorre sobretudo em sites com vídeos sobre nudismo,  temperados pela insinuação de sexo e aparecem, vez em quando, como se houvesse cuidado em não dar evidência, cenas com crianças que mesmo não estando em situação de sexo estão enquadradas dentro do mesmo conjunto que caracteriza as demais.
Venho de muito tomando nota sobre isto, o azar me fez perder uns três a quatro cadernos de anotações.  Perdi. Por outro lado, precisava de parceria de especialistas para levar à frente um estudo mais amplo sobre a questão e precisava ser necessariamente ponderado e justificado. Deveria ser algo que evitasse o sentenciamento moral. Mas, sem dúvida, especialmente, de alerta, condenação e demonstração de onde estava insinuada a pedofilia. Não é pequena a bibliografia de trabalhos sobre o assunto: pornografia/internet.
A tecnologia teria de mudar o mercado do sexo, do qual, este tipo de pornografia que estou comentando, faz parte. Ela não deixa de afetar direta ou indiretamente, todos os campos sociais e, no caso, foi diretamente, pela universalidade que conseguiu da oferta de sexo. O antigo cafetão vai sendo substituído pelo apoio das corporações e as pensões de rapariga vão sumindo do mapa e se tornado arcaico do sexo. Pegando jornais de domingo, por exemplo, tem-se anúncios e mais anúncios do que passou a ser conhecido como meninas e meninos de programa. Por outro lado, são inúmeros os sites de oferta de acompanhamento inclusive com anúncios de Maceió. Desta forma, o que foi escondido, hoje é escancarado: o que alguns chamam de sexo bizarro é, sobretudo, uma grande fonte de acumulação.
Neste sentido, basta ver o caso da UOL, cujo começo é de 1996 e hoje domina a internet brasileira com seu estrondoso número de acessos anuais. Segundo consta, seria do mesmo grupo da Folha de São Paulo. O grupo deve faturar muito bem com pornografia, que ele mesmo estimula em seus chats. Acesse o uol e logo verá o que oferece para entretenimento. Clique e terá como entretenimento, a opção sexo, que na realidade é um imenso acervo pornográfico; ela mesmo fala em milhares e tem planos para quem deseje uma aventura, com uma escala de preços que começa em torno de uns trinta reais. São milhares, como ela mesma anuncia, com uma espécie de conjunto especializado que ela chama de As brasileirinhas. Ela vende a assinatura para o que ela chama de Uol Sexo. E aí você pode ver Roger e Angel Lima, Taras de mulher, Foi daquele jeito. Se é pornografia, então a matriz está no alto capital reconhecido no Brasil e não simplesmente. Na proverbial Boca do Lixo em São Paulo, onde uma vez, liso, tive de me hospedar naqueles tempos brabos.
Agora a Boca do Lixo é fichinha. Se As Brasileirinhas são distribuídas, posso suspeitar de um conluio que chega à produção.  No seu chat ou bate-papo, existem, especificamente, para sexo cerca de seis grupos de sala: sexo virtual, sexo lgbt, por localidade, imagens eróticas, lgbt por localidade, por faixa etária. Somente a sala de sexo virtual tem cerca de 22 especializações, sendo engraçado a de sexo por telefone, pois fica o virtual multimídia.  A categoria de sexo virtual tem cerca de 50 salas e, considerando uma ocupação média de vinte pessoas por sala, a uol esperaria a presença de 1.000 pessoas somente neste seu pavilhão virtual de coitos ou de trânsito e transporte eletrônico de pénis e vaginas.
O chamado pecado morava longe e hoje você hospeda em seu celular. Lembro da Chalaco,  exposta à visitação para quem transitava pelo Jacintinho. Era pequena. Muitas vezes tive vontade de entrar para ver como era, se eu ainda encontraria a velha zona, mas não fui.  Lamento, teria sido interessante comparar com a Maria Boa de Natal que além de tudo tinha um famosíssimo  galeto al primo canto. Comparar com as casas simples da Ribeira, também em Natal,  encrustada no porto como era a de Jaraguá.
O esquecido  Mcluhan tinha razão ao pensar que o tamanho da aldeia estaria aumentado, ao ponto de assumir o mundo? Ele conseguiria acabar com o lugar a que tanto se ateve Tolstoi? Acho que realmente o mundo encolheu e disto não tenho dúvida, mas acho, também, que não acabou o meu lugar e o fato de que posso pecar aqui e agora, embora juntinho  do vizinho que continua vizinho e nunca poderia ser eu. Pecar, o que justamente seria? Não sei direito, mas quando estou futucando as lembranças surge e gosto que tenha surgido:

CONFITEOR Deo omnipotenti, beatae Mariae semper Virgini, beato Michaeli Archangelo, beato Ioanni Baptistae, sanctis Apostolis Petro et Paulo, et omnibus Sanctis, quia peccavi nimis cogitatione, verbo et opere: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Ideo precor beatam Mariam semper Virginem, beatum Michaelem Archangelum, beatum Ioannem Baptistam, sanctos Apostolos Petrum et Paulum, et omnes Sanctos, orare pro me ad Dominum Deum nostrum. Amen.

domingo, 3 de março de 2019

Vila de Pescadores de Jaraguá: tradicionalidade e resistência urbana (II)



Vila de Pescadores de Jaraguá: tradicionalidade e resistência urbana (II)
Parmênides Justino Pereira

Além disso, incluía ensino de outras línguas para a comunidade se relacionar com turistas, o que empolgou os técnicos do Banco Interamericano de Desenvolvimento, segundo o arquiteto responsável, Ovídio Pascual. A possibilidade de inclusão da Vila nesse projeto de revitalização é destacada pelo arquiteto nessa matéria do jornal Alagoas em Tempo de 23/10/2005: “A vila dos Pescadores surgiu na primeira metade do século passado e envolve um sedimentado ambiente social que pode ser utilizado como atrativo para o emergente pólo turístico de Jaraguá. [...] isso mostraria a possibilidade de sociabilização, da integralização e do desenvolvimento de uma área pobre (favela), transformando-o em um prospero bairro. [...] A presença da Vila de Pescadores, em Jaraguá, pode e deve ser explorada como um atrativo turístico de grande potencial, ao invés de ser vista como um empecilho para o crescimento do local como polo turístico.”.
Esta informação é de extrema importância, pois com as mudanças de perspectiva da Prefeitura, argumentar-se-á que a remoção da vila é condição para adequar a área às finalidades turísticas, como se a presença dos pescadores em suas moradias também não servisse de instrumento urbano para tal finalidade, o que vai de encontro a conceitos contemporâneos no âmbito do próprio turismo, como ressalta Vasconcelos (2007).
Esta mesma concepção, defendida pela equipe de urbanistas da prefeitura de Maceió, ao colocar a urbanização da Vila como nono subprojeto da revitalização de Jaraguá (servindo igualmente de justificativa para a liberação da verba do PRODETUR), foi corroborada por uma das principais urbanistas maceioenses, professora da UFAL. Esta urbanista nos revelou que, curiosamente, foi procurada por uma empresa ligada à prefeitura para formular um parecer sobre o projeto de urbanização da vila. Ela o fez, mas, posteriormente, o mesmo empresário a procurou para formular um parecer contrário, desfazendo tudo que tinha sido dito no parecer solicitado. Segundo a professora, que ficou indignada com tal proposta e a recusou, aquele havia sido o único parecer que concedeu gratuitamente, dada a importância social e cultural que visualizou no projeto.
[...]
É estranho que o maior investimento de recursos da época tenha gerado uma intervenção de tamanha envergadura, cujo único item não realizado do projeto foi a urbanização da comunidade pobre do lugar; tratava-se de um momento em que a prefeitura estava bem com as contas, a ponto de ter dado a contrapartida do PRODETUR, obrigação que em tese seria do Estado. Afinal, 373 moradias é um número pequeno para o cômpito de quatro anos de governo, principalmente para um governo politicamente próximo do PSDB (partido que ocupava à época o governo federal e estadual), haja vista ter conseguido habitações para 350 remoções; além do fato mais óbvio: não havia nenhum impedimento de se realizar todo o restante do projeto de urbanização, que tinha verba, posse da área, projeto arquitetônico, etc. Entre tantas ambiguidades e contradições, fato é que a Vila dos Pescadores apenas serviu de barganha para verbas federais e internacionais, mas nunca saiu da condição degradante a que foi submetida. A prefeitura apenas mudou de ideia, ou de fato nunca teve interesse em incluir a vila de pescadores no cenário da revitalização? O que fica claro é as essas contradições de postura da prefeitura em relação à comunidade, ora valorizando-a, ora desqualificando-a, o que justifica a suspeita sobre o real enfoque da revitalização de Jaraguá: um redesenho da cidade, em que os pobres não estão incluídos no seu traçado, tal como ocorre nos processos de gentrificação.
No dia 31 de agosto de 2005, o prefeito Cícero Almeida, que sucedeu Kátia Born, foi ao jornal Tribuna de Alagoas declarar o fim da “favela Jaraguá”, afirmando que os moradores seriam removidos para a praia do Sobral. A notícia pegou a cidade de surpresa, porque a comunidade não sabia e não contava com os planos da Prefeitura de removê-la. Em matéria posterior, o chefe da edilidade afirmaria que não queira prejudicar ninguém, apenas “limpar a cidade”.
Tudo acontecia à revelia da comunidade. Ou os pescadores sabiam do seu próprio destino pelos jornais, ou eram surpreendidos com as visitas desastrosas do Secretário de Habitação, que geralmente terminavam em confusão. No dia 03/11/2005, aconteceu a audiência com o Ministério Público Estadual, quando os moradores reafirmaram seu desejo e necessidade de ficar na Vila. Por solicitação da Procuradora do Ministério Público Estadual, foi convocado um encontro, marcado para o dia 20/11/2005, entre a comunidade, gestores da Prefeitura e professores da Universidade Federal de Alagoas.
Antônio Azevedo, então representante do secretário municipal de Planejamento, disse que os estudos que levavam à permanência dos pescadores no local foram caindo aos poucos, na medida em que não houve sustentação técnica para a mesma. Contudo, no final da reunião, por meio dos questionamentos da procuradora, descobriu-se que, de fato, a Prefeitura não possuía tais estudos, que se tratava de uma fala sem sustentação prática. Diante desta contradição, Azevedo afirmou que a Prefeitura, naquele momento, ainda não teria uma opinião fechada sobre o que fazer com o local, mas que o Plano Diretor não viabilizava as atividades, o que levava à conclusão de que as habitações deveriam ser levadas para o entorno e que a Vila era inadequada para alguns equipamentos urbanos. Com isso, entrava em contradição com toda a equipe técnica que fundamentou o projeto de revitalização do bairro, para quem a vila tinha viabilidade econômica e social.
O procurador da República, Rodrigo Tenório, lembrou aos representantes da Prefeitura que o convênio firmado entre a União e a Prefeitura, para a concessão do terreno, não previa a retirada dos moradores, e que a dificuldade de serviços urbanos alegada pelas autoridades seriam resolvidas no próprio projeto de urbanização, como previsto. Portanto, não via na argumentação da Prefeitura nada que justificasse a remoção dos moradores.
É desta forma que o conflito entre Prefeitura e comunidade vai ficando cada vez mais acirrado. Numa publicação de 12 de novembro de 2006, no jornal Gazeta de Alagoas, arquitetas da secretaria municipal de Planejamento afirmavam a impossibilidade de construir as casas por causa do Plano Diretor, argumento já refutado na audiência do Ministério Público. Principalmente, porque estava subscrito Art. 53 desse Plano, que constituem diretrizes específicas para a ZEP[18] Jaraguá, em seu item II – “incentivo ao uso residencial e de comércio e serviços compatíveis”. Já o Art. 92, §2o, II diz que “reassentamento da população apenas em situação de risco à vida ou ambientais”. O Art. 96, §2o, IV define os critérios dessa classificação de risco, todavia nenhum dos itens procede em relação à realidade geográfica da vila. Ainda que se argumente o fato de a vila estar também localizada numa ZAIP[19], os fatos contradizem o discurso da Prefeitura, na medida em que a vila se enquadrava em todos os critérios de interesse paisagístico, conforme está posto no nono subprojeto do Projeto de Revitalização de Jaraguá (elaborado por esta mesma Secretaria), e no Decreto Municipal 5.569, de 22 de novembro de 1996.
O conflito tomou mais corpo quando, em outubro de 2006, o Ministro da Aquicultura e Pesca, Altemir Gregolin, visitou a comunidade. O jornal Gazeta de Alagoas, de 12 de novembro, registrou o fato da seguinte forma:
A atitude, tomada depois que o Ministro recebeu um documento reivindicatório da comunidade, não foi bem apreciada pela administração municipal. A insatisfação ocorre não somente porque o Ministro não teve acompanhamento do prefeito Cícero Almeida, ou de técnicos do município, mas por ser considerada inferência em questões internas.”
A presidente da Associação dos Moradores, Maria Enaura Alves do Nascimento (Enaura), junto com professores que apoiavam a causa da Vila, tiveram uma audiência com esse mesmo Ministro em Brasília, durante a Conferência Nacional da Pesca. Ele se comprometeu em abrir os cofres do Ministério para a construção das moradias e urbanização da Vila, assim que se resolvesse a questão fundiária. Mas não havia interesse da prefeitura de Maceió nessa permanência.
Em relação à organização da resistência, é importante remeter às questões internas. Em dezembro de 2008, houve eleição para a diretoria da Associação de Moradores. A necessidade de mudança na entidade, segundo a professora Marluce Cavalcante, teve um desdobramento mais técnico que político, porque surge da necessidade de organização da comunidade para se adequar às exigências dos projetos que surgiam, sobretudo o PELC (Programa Esporte e Lazer da Cidade)  do Ministério do Esporte. Havia um esfacelamento da diretoria, que não se encontrava, reduzindo-se a dona Mariluze. Já passava do tempo de mandato e não tinha ninguém que quisesse assumir a entidade. As coisas eram levadas de forma desorganizada: não havia atas, organização da documentação, apesar de se reconhecer o grande esforço e a representatividade da gestão de dona Mariluze.
Deste modo, surgiu a iniciativa das pessoas que organizavam o PELC de assumir a Associação, sob pena de o próprio projeto não ter condições de continuidade. O entendimento era que o PELC não se sustentaria mais sem a parceria da Associação. E foi em nome dessa sustentabilidade que um grupo se mobilizou no processo eleitoral, no sentido de resgatar a entidade. É desse contexto que surge o nome da Enaura, indicada pelos colegas. De início, ela encarou com receio, mas aos poucos foi se montando a equipe, que tinha em sua maioria pessoas simples, que não exerciam liderança no dia a dia da comunidade, com exceção de Lúcia, que já fazia parte da resistência com os demais.
Então, Enaura assume a Associação, dando a ela outra cara e outra concepção, com muita informação e formação política. Ao mesmo tempo, a renovação já começa num clima de divisão da comunidade, em meio a rixas com as velhas lideranças. A renovação contemplava os pescadores mais resistentes, aqueles que insistiam na permanência e se encontravam insatisfeitos com a mudança de comportamento das velhas lideranças, sobretudo, Neno e seu Anselmo, que nessa época estavam prestes a abandonar a resistência. Assim, com um estilo de trabalho mais  pautado pela busca de apoio nas instituições e de instrumentos jurídicos, articulação com a Universidade, com o Ministério Público, com a Defensoria, com o SESC, com o IPHAN, os Ministérios, surge a nova Associação como elemento de retomada da resistência, reorganizando os moradores que eram contrários à remoção, em detrimento do movimento de desistência das velhas lideranças, coordenadas por Neno e seu Anselmo.
Com a renovação da Associação, as coisas passaram a funcionar, com os projetos de alfabetização de jovens e adultos, e, sobretudo, com a conquista de um Ponto de Cultura. Isso foi decisivo para dar continuidade a esse processo de motivação, de trabalho com as crianças e os jovens da comunidade. O Ponto de Cultura Enseada das Canoas foi um peso grande, deu sustentação e referencial para o público infantil. Todavia, esse aspecto mais pedagógico, de grande cunho organizacional, que a Associação toma com a chegada do grupo liderado por Enaura, não impediu que a entidade também se projetasse com força na luta política. Como afirma a pesquisadora Marluce Cavalcante, a luta política sempre foi mais forte, quando exigia esforços, todas as outras atividades, todos os outros direcionamentos ficavam em segundo plano. E não podia ser diferente, uma vez que se tratava do período de auge dos ataques da prefeitura contra a comunidade, não só nas visitas tumultuadas e conflituosas, como também na atuação midiática contra a “favela dos perigosos”, momento de extrema violência simbólica e campanha de estigmatização que influenciava a opinião pública.
Se por um lado, os interesses iniciais eram burocráticos – assumir a Associação em nome da sustentabilidade dos projetos culturais – o contexto empurrou as novas lideranças para a necessidade de preservação do próprio território. E, por conseguinte, acabou por projetar Enaura como liderança, em virtude da necessidade de organizar reuniões, de articulações com as instituições, o trato com a imprensa, o enfrentamento com as autoridades municipais, os embates com a SPU, tudo contribuiu para a formação política dela e do grupo, munindo-os de informações e desenvolvendo a habilidade política pela necessidade, pelo contexto conflituoso em que acabaram encontrando ao assumir a Associação. Como afirmou Enaura, no momento em que um grupo se entregava para a prefeitura, outro grupo de pessoas tinha instrução, participava dos projetos de alfabetização de jovens e adultos e, por isso, tinha contato com outros pensamentos, com as ideias de Paulo Freire, com a descoberta de que tinham direitos e poderiam lutar por esses direitos. Foi nesse momento que a resistência começou a retomar o fôlego.
 Além da diferença de formação educacional e política entre os membros da velha e da nova Associação, que fortaleceu os vínculos da comunidade com as instituições, o resgate de uma Associação esfacelada, dividida, abandonada pelas principais lideranças, não apenas garantiu legitimidade à luta, como também ajudou a construir uma nova concepção, a potencializar na comunidade uma leitura de mundo, uma capacidade de ler e entender seu processo político. Por ser alfabetizadora e ter saído dos projetos de alfabetização da CUT e do Instituto Paulo Freire, Enaura reuniu uma capacidade de pensar, de organizar, de agir, conseguindo repassar isso para as pessoas, funcionando como agente multiplicadora na comunidade.
E nos dois sentidos apresentados, a organização de projetos culturais voltados para o resgate da cidadania, a recuperação de crianças e adolescentes da comunidade e a resistência política, pode-se afirmar que a Associação de Moradores e Amigos de Jaraguá (AMAJAR), sob a liderança de Enaura, engendrou um dos maiores processos de mobilização e resistência da cidade de Maceió, sensibilizando e conquistando apoio em todos os segmentos sociais. Ao mesmo tempo, promoveu-se para fora da comunidade uma nova concepção, um modelo de organização social que reapresentava a comunidade, que ocupava os espaços sociais com as produções das crianças, os museus, as praças, os eventos, com suas exposições de pintura, fotografia, apresentação do maracatu, venda de instrumentos de percussão fabricados pelas próprias crianças, extraindo elogios de pessoas e instituições ligadas à cultura. Igualmente no campo político, a resistência vai atrair aliados, além da comunidade acadêmica que adentra na comunidade produzindo vários artigos científicos, monografias e dissertações. Para o historiador Golbery Lessa, se tratou de um dos maiores processos de resistência urbana da história de Maceió.
Em junho de 2009, o então Presidente Lula visitou Maceió para a inauguração de obras de reestruturação da orla, e se demonstrou perplexo e indignado ao sobrevoar a Vila de helicóptero. Ao que denominou “ilhota de miséria”, o presidente chamou a atenção do então Prefeito Cícero Almeida e do governador do Estado, afirmando que não poderia recuperar a orla e deixar aquilo pra todo mundo ver, colocando o Ministério das Cidades e o Programa “Minha Casa, Minha Vida” à disposição para resolver o problema. Todavia, a exposição do presidente, apesar de ter sido pública, e de seu discurso ser de fácil acesso, gerou uma polêmica na cidade. O Prefeito Cícero Almeida distorceu sua fala, afirmando que o presidente Lula defendeu a retirada dos moradores, versão esta corroborada por quase todos os jornais locais. A degravação do vídeo, por sua vez, deixa claro que não foi essa a fala do presidente:
Não é tirar como antigamente não. É preciso tratar as pessoas com respeito e colocar no lugar daqueles barracos uma casa digna, de alvenaria para as pessoas morarem. [...] E o que é importante notar, e o Cícero sabe disso, deve saber muito mais do que eu que aquele povo que mora ali deve trabalhar naqueles barquinhos que ficam lá na frente. Então ali é o local de moradia e o local de trabalho deles.”
Em nenhum momento de sua fala, Lula se refere à remoção dos moradores, mas a distorção deste pronunciamento, propagada pela imprensa, ajudou a reforçar na população o sentimento da necessidade de retirar dali as residências. No dia 04 de outubro de 2009, a jornalista Wanessa Oliveira publicou no periódico Gazetaweb.com, na íntegra, uma entrevista com o prefeito, em que este entra em contradição e distorce a fala do presidente Lula. Mesmo a jornalista insistindo que o vídeo com a fala do presidente desmente sua posição, ele insiste, e também se demonstra vazio ao justificar a remoção, afirmando que o motivo era o fato de ser área da União, que seria  uma exigência da União. Porém, a jornalista havia, anteriormente, entrevistado o Gerente de Patrimônio da União, que negou tal interesse, enfatizando que se tratava de interesse da Prefeitura. Na matéria, o prefeito ratifica a necessidade de substituição da Vila dos Pescadores pela marina, ressaltado que o presidente Lula sabia deste projeto. Todavia, mais uma vez ele se contradiz, ao afirmar que a União recebeu esse projeto, informação negada na mesma matéria pelo gerente regional José Roberto. Então, o prefeito desconversa:

Jornalista - A marina vai, então, substituir a Vila dos Pescadores. A ideia da construção da marina está inclusa dentro desse último projeto que foi entregue e aceito pela Superintendência de Patrimônio?
Prefeito- Está inclusa.
Jornalista - Em uma conversa com o superintendente, ele afirmou que o projeto de reurbanização encaminhado ao órgão não contemplava a criação de uma marina.
Prefeito - Ele recebeu o projeto dos pescadores. E o projeto da marina está todo pronto conosco. Já foi feita a demonstração.
Jornalista - Mas então não foi entregue?
Prefeito - Não, porque ainda temos um ano que é o prazo para conclusão das obras da Vila. Mas acredito que a assessoria do doutor José Roberto já deve estar informada sobre como vamos utilizar esse espaço, extraoficialmente.

Vila de Pescadores de Jaraguá: tradicionalidade e resistência urbana (I)







Parmênides Justino Pereira. Natural de Recife-PE, vivente das Alagoas dedes 1978.  Graduado em Psicologia e Mestre em Sociologia pela UFAL. Doutor em Educação pela UNICAMP. Professor da UFAL/Palmeira dos Índios, leciona as cadeiras de Introdução à Sociologia, Pesquisa em Ciências Sociais, e Psicologia Política. Coordenador do Grupo de Pesquisa (CNPq) Psicologia Política, Movimentos Sociais e Políticas Públicas. Defendeu pesquisa sobre remoção forçada de populações vulneráveis, onde acompanhou o caso da Vila de Jaraguá desde 2005, e atualmente estuda diversas comunidades em Arapiraca, como os pescadores do Lago da Perucaba, os removidos da comunidade Caboge (atual Bosque), e conjunto Frei Damião (ameaçado de remoção). Também desenvolve pesquisa sobre a visibilidade da Jurema Sagrada em Alagoas, com ênfase na autoafirmação indenitária da religiosidade afroindígena, momentaneamente concentrada nos desdobramentos da Jurema no agreste alagoano. 





Vila de Pescadores de   Jaraguá: tradicionalidade e resistência urbana (I)

Parmênides Justino Pereira


Quando, em meados de 2015, a sociedade alagoana se deparou com os desdobramentos finais relativos à expulsão dos moradores da Vila de Pescadores do Jaraguá pela Prefeitura de Maceió, a partir da prolatação da sentença de despejo, a maioria dos seus habitantes não entendia o que levava moradores de uma favela suja e degradada a recusar a benevolência da gestão municipal, que oferecia apartamentos na praia do Sobral e um parque público, chamado centro pesqueiro. Outros maceioenses, que conheciam superficialmente a história, estranhavam a reação da sociedade civil organizada (Movimento Abrace a Vila), e criticavam profissionais e estudantes que perdiam seu tempo defendendo uma favela. O que as pessoas - mal informadas pela imprensa local[1] - não sabiam, era que se tratava de um fenômeno que Paulo Freire conceituou como “falsa generosidade”, mediante um processo de expropriação urbana que vinha se desenrolando muito antes da proposta de substituir a Vila por um centro pesqueiro. Vinha, na verdade, desde meados dos anos 90, através de atos administrativos questionáveis, contraditórios e omissos em relação à melhoria da qualidade de vida da população, além de um conjunto de agressões e violência simbólica pautada pela desqualificação social da comunidade e o desejo quase compulsivo de expulsar os pescadores e marisqueiras de seu território tradicional.
Durante o processo de remoção, houve uma polêmica, desnecessária, sobre a real historicidade da vila. A Prefeitura de Maceió não concordava com a tese de que a história da cidade teria surgido de uma vila de pescadores, sustentando sua tese em um mapa de 1973, em que esta não aparecia. Achar que um mapa seria capaz de dar conta dos aspectos  dinâmicos da geografia foi mais uma estratégia política de desqualificação da comunidade do que propriamente um interesse lógico pelo conhecimento real da história da cidade. A importância de Maceió no cenário regional decorre bastante do ancoradouro, e todo o litoral era cheio de pescadores, desde a época colonial. As evidências culturais da importância dos pescadores na formação social de Maceió são antigas. [...] Todavia, é em Craveiro Costa (1981) que se encontra uma referência mais próxima, fazendo alusão ao povoamento a partir do riacho Salgadinho e estabelecendo relações com o início do bairro.
   
  Assim, considera-se que a importância social dos pescadores na formação da cidade é um fato inconteste, baseado em referências historicamente consistentes, embora o mapa de 1957, apresentado pela Prefeitura como argumento para afirmar a não importância da Vila para a história da cidade de Maceió, não dê conta dessa realidade, possivelmente devido a limitações cartográficas. Para compreender a importância da Vila é preciso, antes, entender como sua trajetória se funde à do próprio bairro. No início do século XIX, o bairro de Jaraguá começa a se destacar como zona portuária que movimentava o comércio, a cultura e a vida de Maceió, que chamava a atenção por ser uma aldeia de pescadores. Em 1818, com a chegada do primeiro governador de Alagoas, Sebastião Francisco de Melo e Póvoas, o lugar passou a viver um crescimento vertiginoso, com a instalação de pontos comerciais, belos sobrados, ponto de encontro de empresários, intelectuais e políticos. Tudo isso levou o governador a trocar a capital de Alagoas do Sul (povoado do Francês) por Maceió, devido, sobretudo, ao movimento do porto de Jaraguá.
[...] A geografia presenteara o local com a capacidade de servir como barreira de proteção das embarcações contra as correntes marinhas. É esta característica que faz do lugar a passagem e estada de variados visitantes. E é quando o Porto de Jaraguá supera o Porto do Francês, que se desenvolve o comércio no povoado, atraindo cada vez mais pessoas.
Outra questão que alimentou os debates entre comunidade e Prefeitura foi a tese de que pescador não precisa viver em frente ao mar, porque em outros pontos da cidade existem
pescadores que não moram na praia, a exemplo dos bairros de Pajuçara, Jatiúca e Ponta Verde. Esse argumento esbarra não apenas na impossibilidade de compreender uma comunidade tradicional importando o contexto de outras realidades históricas, como também na omissão de fatos históricos que explicam como tais pescadores foram afastados da praia, por meio de reestruturações urbanas higienistas e avanços do mercado imobiliário voltado para o consumo da elite. É neste sentido que se explica, por exemplo, o surgimento dos bairros de Pajuçara e Ponta Verde, atual área nobre da cidade, mas que já foi reduto de muitos dos pescadores, e que, como relata Sarmento (2002), recebeu grande parte de seu povoamento de pescadores que foram expulsos de seu lugar de origem para dar lugar às moradias das classes privilegiadas.
A Vila de Jaraguá, neste sentido, é apenas mais um exemplo de continuidade dessa higienização da orla maceioense. Desde a sua localização até sua expulsão, tudo é um reflexo deste movimento geopolítico de empurra daqui, tira dali, de submissão das populações pobres aos ditames do poder público e sua política de remoção, e inclusive de certos processos de grilagem  relatados pelos moradores antigos, quando a área era abandonada e utilizada por criadores de gado [...] Eles descrevem como as cercas foram se fincando e redefinindo o esquema de propriedade do local. [...] A despeito de ter aglomerado no seu interior pescadores oriundos de diversos estados, como Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte, e de toda a costa do Estado de Alagoas, de Maragogi a Piaçabuçu, muitas famílias pesqueiras eram oriundas das ondas migratórias dentro da própria cidade ao longo de anos. Assim, vinham de bairros como Ponta da Terra, Levada, Trapiche, dentre outros. Há relatos de que a antiga balança teria sido onde hoje se encontra as Lojas Americanas, embora se observe que a aglomeração mais recente - remontando aos anos oitenta - inicia-se onde hoje se encontra o Memorial da República, em frente ao coreto, de onde se podia atravessar, no tempo dos banhos dominicais na praia da Avenida em direção à Pajuçara.
Essa configuração da comunidade de pescadores começa a sofrer investidas da Prefeitura, por meio de várias remoções, na gestão do então prefeito Fernando Collor (1979–1982), que retira grande quantidade de moradores e os realoca na zona de expansão da cidade, próximo ao posto da  Polícia Federal, cruzamento da BR 104 com 316, aglomeração que ficou conhecida como favela do DER. Outra grande remoção é feita pelo prefeito Ronaldo Lessa, para a construção do memorial acima citado e do estacionamento de Jaraguá, espaço urbano só utilizado em períodos de festas.
           Após estas remoções forçadas, a comunidade do Jaraguá se caracterizava como assentamento urbano subnormal, onde se acomodavam, em condições subumanas, cerca de 700 famílias, das quais de trezentas a quatrocentas eram de pescadores. A pesca era atividade mais antiga do bairro. A vila proliferou na medida em que as pessoas foram tendo filhos, os filhos foram crescendo, casando, tendo filhos, os filhos cresceram, casaram, os netos foram aparecendo,  a família crescendo, e os pais tiveram que construir novos barcos e novas casas para alojar os filhos crescidos e casados que se multiplicavam.
             Em 2001, época da remoção das 350 famílias para o Conjunto Carminha pela então prefeita Kátia Born, a  comunidade de Jaraguá era uma comunidade heterogênea. Lá  habitavam diferentes grupos populacionais, que ao longo do tempo foram ali se fixando, através dos processos de migração natural da atividade pesqueira e do processo social que impulsiona o  crescimento urbano. A favelização começara a partir dos anos oitenta, quando além dos atrativos  naturais do lugar e sua localização privilegiada no tecido urbano, alguns eventos de natureza política contribuíram para o crescimento desordenado e densidade populacional. O mais crítico deles foi a remoção de famílias sem-teto que viviam dispersas pela cidade, associado a famílias de desabrigados das chuvas torrenciais. Todos eles foram colocados na comunidade do Jaraguá pela  então secretária Lucíola Toledo, amontoados no armazém da antiga Cibrazen. Essas famílias  viviam de outros empregos e subempregos na região, como catadores de lixo, empregadas domésticas, guardadores de carro, ambulantes, atividades portuárias, atividades auxiliares da pesca, dentre outras.
No entanto, o armazém estourou, pois os barracos foram aparecendo em seu entorno, crescendo exponencialmente e adentrando a Vila de Pescadores. A comunidade passa então a
conviver com uma heterogeneidade cultural oriunda dessa migração forçada. Após a fixação dessas famílias, outros barracos com famílias estranhas à cultura da pesca foram se aglomerando próximo ao galpão da antiga fábrica.
A comunidade possuía arquitetura marcada por espaços de múltiplas funções, que ao mesmo  tempo serviam de oficina de trabalho (tratamento do peixe), lazer, varal para estender roupas, e ponto de encontro (bate-papo com as amigas e presença das crianças). O terraço poderia ser a  própria rua, e a frente da casa geralmente tinha várias utilidades e muitos jovens reunidos. Ali trabalhavam, se divertiam, conversavam, perambulavam, havia toda uma sociabilidade que  engendrava diversas atividades, muito embora a principal delas fosse a pesca.
               Essa, no entanto, era uma realidade desconhecida da maioria dos maceioenses, pois o bairro estava quase abandonado, e só voltou a ser o foco das atenções quando a prefeitura o incluiu no projeto de revitalização de centros históricos. Tal iniciativa começou a surgir nas principais capitais brasileiras, no sentido de resgate das atividades locais, mas também atividades artísticas, como foram os casos de empreendimentos na mesma ordem em centros históricos como  Recife, João Pessoa, Salvador, Porto Seguro, e São Luiz.
Então, nos arredores do cais do porto de Maceió, a cidade efervesceu como espaço de construção de bens materiais e vida comunitária. Mas até meados dos anos 1990, o que restava do bairro era velhos armazéns de exportação abandonados, ferrovias desativadas, praças depredadas e descaracterizadas, a vila dos pescadores favelizada, e apenas lembranças de um lugar que deu vida à cidade.
Como alternativa ao turismo de sol e mar, que cai na baixa temporada, a Prefeitura Municipal se empenhou no planejamento e execução do projeto de revitalização, como tentativa de diversificação da oferta turística, através do turismo cultural centrado no lazer, entretenimento e conservação do patrimônio histórico. Este projeto é lançado em 11/08/1995, no coreto da Avenida da Paz, pelo então prefeito Ronaldo Lessa, que será sucedido pela prefeita Kátia Born, esta última dando total impulso à continuidade do projeto no percurso de dois mandatos.
Antes disso, o jornal Gazeta de Alagoas de 08/06/1997 lançara um caderno especial em conjunto com a Prefeitura, no qual se anunciava o empreendimento como o mais importante  investimento público da época, que transformaria o bairro em um belo atrativo para a cultura, o lazer, o turismo, o comércio de serviços. Nessa publicação, a prefeitura destaca que o projeto acarretará uma grande demanda turística, atraindo o visitante de “renda mais elevada” e promovendo o aumento de sua permanência na cidade. Coincidentemente, trata-se de uma época de grande crise econômica no Estado e no setor sucroalcooleiro, e os usineiros são proprietários de grande parte dos armazéns e casarões de Jaraguá, além de investidores locais no setor turístico.
Consequentemente, são os principais beneficiados com a revitalização. Um dos primeiros passos do projeto foi a elaboração de leis que dividiram a cidade em Zonas Especiais de Preservação (ZEP), mais especificamente a Lei Municipal 4.545 de 22/11/1996. Com ela, Jaraguá ficou definida como ZEP-1. O Decreto Municipal 5.569, por sua vez, estabeleceu normas que garantiram a caracterização do bairro dentro dos padrões esperados, como a manutenção da tipologia construtiva e a volta do alinhamento das fachadas. Esse mesmo Decreto estabelece a Vila de Pescadores como Zona Especial de Preservação [...]
A linguagem do decreto não deixa dúvidas quanto à importância da Vila tanto do ponto vista  turístico, quanto do ponto de vista ambiental. Para gerenciar o projeto, é criada a Unidade  Executora Municipal/PRODETUR (UEM), através da Lei Municipal 4.487 de 27/03/1996. No relatório de atividades de março a dezembro/96, a UEM destaca o que chamou de “problema ambiental”, na antiga Vila dos Pescadores, localizada às margens do Jaraguá e caracterizada como favela.
Os objetivos básicos do PRODETUR/NE[10] eram: a criação de áreas turísticas, promovendo o incremento desta atividade no município; resgatar o patrimônio histórico/arquitetônico local, através de sua correta recuperação e revitalização; melhorar as condições de vida da população, através da provisão de serviços de saneamento; preservar os ecossistemas terrestres e marinhos do bairro; e melhorar as condições de acessibilidade à área de intervenção. Para tanto, a Prefeitura promoveu um amplo investimento de infraestrutura básica e serviços públicos (abastecimento d’água, esgoto sanitário, tratamento e controle de resíduos sólidos, vias de acesso) que potencializaram as atividades turísticas, com recursos da ordem de US$ 80 milhões, sendo metade financiada pelo BID, por meio do BNB. A outra metade seria a contrapartida dos poderes público federal, estadual ou municipal. Com novos investimentos e aumento da permanência dos turistas, a consequência esperada seria o aumento na geração de emprego e renda. Com isso, os poderes locais integravam a cidade na reprodução do capital através da atividade turística, como afirmou Vasconcelos [...]
O projeto de revitalização foi fragmentado em subprojetos, quais sejam: a revitalização de obras  físico-arquitetônicas, que incluíam a restauração do prédio da Associação Comercial de Maceió e  o Museu da Imagem e do Som; a despoluição do tradicionalmente poluído Riacho Salgadinho.  Acrescenta-se também a reestruturação do sistema viário da área interna do bairro, como o alargamento de pontes na Avenida da Paz, drenagem e pavimentação para evitar as tradicionais inundações na Avenida Cícero Toledo, parte da Rua Comendador Leão, Avenida Maceió, e as ruas Graciliano Ramos e Mato Grosso, além das margens do riacho Salgadinho. A Rua Sá e Albuquerque, via arterial do bairro, teve o asfalto negro quebrado até aparecerem as antigas pedras (os trilhos do antigo bonde que circulava não estavam no local). Postes de cimento foram retirados e substituídos; as fiações da luz elétrica e da telefonia ficaram subterrâneas. Houve a construção de um grande estacionamento na Avenida Cícero Toledo e a construção do Centro de Convenções, além da promessa da construção de uma marina e incentivo ao esporte e comércio náutico. O nono subprojeto desta mega intervenção seria a urbanização da Vila de Pescadores, conhecida como favela de Jaraguá.
O direcionamento do programa de desenvolvimento do turismo acabaria por não atingir as metas a que se propôs, mas não sem deixar as sequelas tradicionais do caráter excludente deste  tipo de intervenção gentrificadora, que, onde ocorre, ocasiona conflitos e exclusão das comunidades locais. [...] A revitalização do bairro de Jaraguá se deu no contexto da globalização do turismo, caracterizado por capitais transnacionais, projetos de grande porte e exclusão social da comunidade local. Assim, um dos principais problemas da revitalização do bairro de Jaraguá como potencialidade turística pode estar associado a um dado importante citado por Vasconcelos (2004) que é a capacidade de reordenamento do território para sua realização. Este autor explica que este reordenamento apresentou uma falha crucial, qual seja o esquecimento da potencialização de uma melhoria de vida para a comunidade local, fato observado não apenas pela remoção de 350 famílias da comunidade de Jaraguá em 2002, mas também no descaso frente às condições suburbanas da Vila dos Pescadores, até sua total remoção.
A condição de pobreza conviveu simultaneamente com a área revitalizada, em um flagrante contraste social, apesar de a Vila dos Pescadores ter sido considerada como Setor de Preservação  Ambiental (SPA) pelo Decreto Municipal no 5.569, de 22 de novembro de 1996. Com que ética se pode falar em leis, no âmbito do posterior processo jurídico da remoção, se o próprio abandono da  Vila, em condições degradantes, foi uma clara violação da própria lei municipal criada para fins da referida revitalização?

Na verdade, o próprio projeto de revitalização já focalizava em seu conteúdo as ações que deveriam ser executadas como parte do processo de turistificação do lugar. No projeto apresentado para aquisição das verbas do PRODETUR, estava incluída a urbanização da vila (no mesmo espaço onde as famílias viviam), que era o nono subprojeto, através da implantação do sistema de saneamento básico, coleta seletiva do lixo, energia elétrica, abastecimento d’água, pavimentação, drenagem, construção de residências térreas de sobrados, orçadas em R$ 7.919.000,00.  O projeto arquitetônico elaborado para isso em 1996/1997 incluía também a construção de um mercado modelo, estacionamentos, centro de convivência, cais, seca de pescado, escola de pesca, estaleiro, cooperativa de pesca, correios/telefone, praça, primeiros socorros, pontos comerciais, área de lazer e esporte, casa cercada por área verde, como coqueiros e árvores frutíferas, afirmando o princípio de autossustentação da comunidade.