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sábado, 2 de fevereiro de 2019

Crônica Diária (02/02/2019). A minha mãe dorme a tranquilidade da morte



A minha mãe dorme a tranquilidade da  morte
Luiz Sávio de Almeida




Ontem foi o aniversário de Maria José de Almeida, minha mãe. Não sei o dia do seu falecimento, pois estas coisas ruins para mim não têm data. Contudo, jamais esquecerei seu rosto queimando de febre e ela sumindo: seu olhar e seu sorriso, naquela hora, marcaram o quadro da despedida. Ela me olhou e sorriu o que era possível sorrir. Depois fechou os olhos e então saí do quarto, desci para o saguão do hospital e fique esperando a notícia; não aguentaria vê-la partir, nunca mais vê-la e nem rirmos juntos da vida e do mundo.  Eu estava sentado e vem uma prima minha: Luiz Sávio, a tia faleceu!
Fechei os olhos e não chorei; eu tinha que comprar o seu caixão e Bruno Cesar Cavalcanti foi comigo e Myrian. Bruno ajudou, escolhemos o caixão, paguei. Voltamos e a grande realidade era o enterro. Eu não tinha tempo para chorar: estava cheio de tristeza, daquela de cortar a alma em seis pedaços iguais, mas aliviado, muito aliviado, pois acabava seu sofrimento. Fazia pouco tempo que subimos de madrugada, de carro, com ela gemendo. Agora estava morta uma das pessoas a quem mais dediquei amor em toda minha vida, mas eu estava agradecido a Deus.
O corpo chega no cemitério e tudo se arruma; mais ou menos de três para as quatro da manhã, Myrian voltou para casa a ver os meninos. E aí veio um dos piores momentos de minha vida. O cemitério vazio, que não se via uma viva alma. Nem outros velórios estavam acontecendo e eu fique ali, sozinho, com o corpo da minha mãe e as velas. Eu nem sabia em que pensar; sabia apenas que não era o tempo de arrancar o resto de meus poucos cabelos. Eu tinha que cuidar da minha mãe. Era a última coisa que eu poderia fazer por ela.  E fiquei.  O vento se fez frio e senti bem perto que estávamos vivendo, minha mãe e eu, o espetáculo da  morte acompanhada e foram muitos os cigarros de consolo errado.
Apesar das propostas, jamais aceitei sair de Maceió para poder acompanhar meus pais na velhice. Não foi brinquedo o que fizeram por mim e qual a razão para deixa-los quando estariam frágeis?  Fiquei e enterrei meu pai; fiquei e agora enterrava minha mãe. Depois de umas três horas, Myrian voltou e tendo acertado a vida dos meninos naquele dia; e os povos foram chegando também. Na hora da partida, não permiti que os coveiros empurrassem o carrinho fúnebre e, também, funesto. Eu mesmo saí empurrando lentamente e quando os coveiros foram cimentar a cova, em entrei nela, peguei a colher e eu mesmo fiz o serviço.  Minha mãe estava morta e bem enterrada com todos os cuidados de seu filho.
Voltei sabendo que jamais a poderia esquecer, do mesmo modo como jamais esqueci a meu pai. Dia 31 de janeiro e 24 de abril são dois dias santos de guarda na minha vida: aniversário dela e dele, duas pessoas que foram profundamente amadas por mim enquanto estavam vivos e enquanto estão mortos. O amor não se perde com a morte: é o que aprendi.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Crônica diária (27/01/2019). O comício, o papoco e o custo da fome



O comício, o papoco e o custo da fome

Luiz Sávio de Almeida

Quem se meteu em campanha política, sabe que é um treco cansativo  e de muita chateação. Dilton Simões foi candidato a Prefeito e como éramos amigos, chamou e fui para ajudar. Dilton sempre foi uma pessoa honesta e para mim isto era suficiente: honestidade e capacidade. Acho que o adversário principal era o Guilherme Palmeira, não lembro mais. Tudo da campanha funcionava em uma casa que acho tinha a ver com o Jurandir Boia e ficava ali na Fernandes Lima. A seu lado, um restaurante chamado Seandro, onde o Dilton, sem dinheiro, dava nosso jantar em galeto. Nunca jantei tanto galeto na minha vida.
Quando ele me convidou,  eu disse que tinha um preço e que jamais iria trabalhar de graça. Depois dele regatear, combinamos o valor a ser pago a mim: quatro carapebas. Faz é tempo e nunca comi uma carapeba; deve um cardume imenso. Brincadeirinha com o Dilton, pois por várias vezes me chamou para comer as carapebas e eu não fui.
Pois, pelas quatro carapebas enfrentei a parada junto com o primo Luiz Gonzaga, Márcio Pinto e mais alguns de quem não me recordo agora. Era um trabalho intenso e sem dinheiro, mas valia a pena. Para mim, pessoalmente, foi notável a experiência com o cassimicoco na campanha.  Cassimicoco ou mamulengo... Devo confessar que sou apaixonado e lamento ver que vai sumindo.  Pois ele juntava gente e naquele tempo, traficante não mandava.  Lembro-me de que o Zé Costa apoiava a campanha. Apois bem, etc. e tal!
Campanha vai acumulando problemas de toda a ordem, chateação por cima de chateação.  Havia a esperança de ganhar e tome galeto que eu já não aguentava mais. Sustentar uma campanha não é brinquedo e o custo galeto não é nada no orçamento. Jamais foi dado um tostão a quem quer que seja e digo que a nossa briga foi honesta: nada de dinheiro ao eleitor (o que seria crime) e nem a gente que apoiava. Como se costumava dizer, era uma campanha franciscana,  mas aguerrida e o Dilton era um lutador. E fomos andando. Lembrei do Jurandir Boia, grande companheiro nesta jornada.
O Seandro acabou;  era simples,  mas decente e também não era todo dia que a gente comia galeto. Não era uma campanha de raposa,  nem política e nem de frango assado.  Um dia, lá pelo fim da campanha apareceram  uns assuntos para resolver. Dilton me chamou e fomos ao TER. Na entrada eu disse a ele: Cara, o candidato é você. Eu vou me deitar ali naquele banco da praça e dormir. Veja se não me esquece. Le riu e entrou e eu atravessei a rua e no primeiro banco mais ou menos limpo que encontrei, deitei e fui garrar no sono, como dizia a musiquinha.
Assim que deitei, vi uma senhora vindo em minha direção; a roupa era pobre e o andar era cansado. Pendurada no braço,  estava uma bolsa rota, daquelas que antigamente se levava para o mercado. Era de palha. Eu fiquei com pena dela, lembrando-me das milhares que existiam em situação pior. Ela sentou na outra ponta do banco e por sinal de respeito, levantei-me. Ficamos calados: ela com seus problemas e eu com o meu sono. Foi quando algo fantástico aconteceu.
Lá pelos lados da praia estava havendo um comício e era pou-pou e os foguetes não paravam. Ela olhou para mim e defendeu uma das mais brilhantes teses  que vi: Meu filho, com um papoco desses eu comia uma semana!. Olhei para ela, sorri e  entendi.
Posso esquecer esta senhora?

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Crônica diária. (23/01/2019). Educação: lembranças de uma escola em Penedo


O menino desasnado e a escola


Luiz Sávio de Almeida


Comecei a estudar em casa; minha mãe desejava que eu fosse desasnado para  a escola, não fosse cru; deveria saber alguma coisa, para não chegar inteiramente asno. O verbo desasarnar é pesado e vem d’atanho. Então, para a tarefa de me dar um pouco de letras e de tabuada, minha mãe escolheu uma professora gentil que morava a bem dizer vizinha, no Cajueiro Grande, em frente ao Hospital. Chamava-se Maria José e lembro-me perfeitamente do dia em que fui à sua casa pela primeira vez. Era uma calça azul marinho com espécie de suspensório do mesmo pano andando e o dono dela levava uma folha de papel almaço, um tinteiro e uma caneta de pena. Tinha que começar a fazer as coisas sozinho e fui sozinho.
Fui muito bem recebido e ela me ajeitou num canto de uma pequena sala, onde estava a mesa em que deitei tinteiro, caneta e papel almaço. Ela disse que iria fazer um ditado, para ver como eu estava e foi falando e eu escrevendo. Jamais esqueci... Ela leu, sorriu e disse que eu não precisava escrever a palavra vírgula, mas colocar um rabinho. Não sei se foi vergonha ou qualquer coisa que passe por aí. Sei apenas que jamais me esqueci do fato e foi o grande começo de uma dificuldade que carrego comido: a vírgula. Vírgula é muito chata, mas se não fosse ela, a gente desembestava na leitura até chegar no ponto e depois no ponto dos pontos que é o final. Não é fácil colocar a vírgula.
De lá é que a dúvida: para onde levar o menino? Para o Ginásio Diocesano ou para o Gabino Besouro? E terminei indo para o Jegue Doido, segundo Francisco Salles dizia que chamavam o Ginásio à época dirigido pelo Padre Jefferson, que depois, não sei o motivo foi transferido para Arapiraca. Onde acho que tive duas professoras, sendo que lembro o nome de uma delas: Lurdes Cruz.  Era o ritual; vestia a farda, saia de casa sozinho, andava com uma pequena pasta e uma lancheira e nela um copo de refresco e um sanduíche de queijo ou com um pedaço de goiabada cascão ou os dois misturados. Jamais eu soube o que era presunto, mortadela, salame... Talvez até existisse em Penedo.
O sanduíche era comido no recreio que, na verdade, era a correria no campo e o cuidado para não levar uma cama de gato; um ficava de quatro atrás da pessoa e outro vinha pela frente e empurrava, dando-se uma perigosa queda. A gente entrava pela lateral, entregava a caderneta, carimbavam e na saída carimbavam também. A caderneta era a comunicação do Ginásio com as famílias.  Os pais veriam se o filho comparecia e as partes também eram escritas.  Claro que fiquei muitas vezes de castigo e foi ali que começou a minha encrenca com as escolas que frequentei. Não me lembro do nome de qualquer colega da época, mas uns poucos respingos de tempo ficaram.
Lembro-me das aulas de catecismo para a primeira comunhão que eram dadas pelo Padre e de meu entrevero com ele. Dizia que Deus era bom, magnífico e eu perguntei então a razão de nos deixar pecar. Isto ficou na minha cabeça, como as redações que nos mandavam fazer. Colocavam uma figura pendurada perto do quadro negro e a gente descrevia. Houve um problema. Uma das redações era um sapateiro e uma menina e escrevi que o sapateiro estava segurando o sapato daquela forma,  pelo fato da menina ter chulé. O negócio foi reclamado a meu pai mas venci o velho Manoel de Almeida. Como foi uma reclamação também, por conta do exagero de uma professora: ela  começou a dar exemplos de transportes e dizia: como o navio, como o caminhão, como o trem. Eu não me aguentei e perguntei se ela comendo tudo aquilo não iria ter dor de barriga. Foi outra e sempre existiram, outras. A professora inesquecível foi a Lurdes Cruz. Não me parece que era de Penedo; sei apenas que guardo seu nome com carinho e depois perdi todas as notícias.
Era bom voltar para casa e esta volta eu não gostava de fazer pela Rua da Penha; não sei o nome da outra; era a primeira depois da Penha, sem calçamento, e um caminho a bem dizer direto, menos rampa ou quase nenhuma conforme me recordo.  Saía no oitão da bodega do Seu Cazuza, passava pela frente da casa do Dr. Agnelo e entrava em casa.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Crônica Diária (24/001/2019).A Rua da Penha, costureiras, modistas e a leitura M. Deli




A Rua da Penha, costureiras, modistas e a leitura M. Deli

Luiz Sávio de Almeida


              Naquele meu tempo,  a costura era algo importante, pois não existia esta facilidade de hoje com as confecções. Então costurar era um verbo obrigatoriamente conjugado em quase todas as casas e aquelas que podiam tinham o quarto de costura. Muita casadas eram prendadas e se entretiam na costura, mas o seu forte era bordar e, realmente, fazia coisas maravilhosas. Primeiro ela fazia o risco e o transferia para o pano, a partir de um papel carbono que ela comprava na própria  Penedo. Depois era bordar toalhas maravilhosas, com os pés ritmando o pedal da velha máquina Singer, que ainda hoje guardo com cuidado. Foi comprada quando ela morava em Quebrangulo, lá pelos anos trinta. Ela colocava o vestido preso no bastidor, pedalava e cantava. Tenho uma toalha que ela bordou para a mesa do dia de Natal. É um verdadeiro encantamento.
               Costureira ruim era a que fazia cu de pinto; costureira de primeira chegava a ser chamada de modista, era fina e somente fazia roupas importantes e de quem podia pagar mais. Era a roupa de formatura, a roupa do casamento, a das festas. Esqueço o nome dela, mas na própria Rua da Penha, no correr de cima, havia uma costureira ou modista de fama. Foi quem fez a roupa da minha irmã na formatura de ginásio de minha irmã, roupa falada lá em casa, pois era solenidade de primeira. Isso no Colégio das freiras, na entrada do Cajueiro Grande.  O tecido se comprava mesmo em Penedo e um deles, gente de família não gostava de usar pois,  curiosamente, era chamado de puta ligeira, cheio de bolinhas. A razão eu não sei, mas o puta ligeira chamava atenção.
               Minha avô Dondon na Capela, sustentou as filhas com a máquina de costura e a arte deve ter passado para as filhas, dentre ela a minha mãe que mantinha uma coleção de Jornal das Moças, onde tirava ideias para  vestidos e bordados.  Ele existiu de 1914 as 1868, mas somente lembro dele em nossa casa de Penedo. Mamãe colecionava e encadernava na casa do Seu Joãozinho, quase vizinho e que trabalhava, também em uma farmácia no comércio. Uma outra leitura de minha mãe, era uma coleção de capa verde e publicada pela Editora Nacional. Eu pegava e devolvia livros para ela, na Biblioteca que existia – se não me engano – na Ordem Terceira.  De tanto ver lá em casa, decorei o nome de um escritor chamado M. Dely, onde vidas de lords e o meloso europeu chegava ao Brasil através de Monteiro Lobato e em Penedo através de não-sei-quem.
M. Dely ficou em minha cabeça sempre em capa verde. Era o pseudônimo de dois irmãos franceses; Monteiro Lobato criou a Biblioteca das Moças e tome de M. Deli com seus amores, sofrimentos, o tipo do que poderia ser considerado um folhetim fácil. Deveria vender bem e a Biblioteca das Moças existiu por uns trinta anos. Veja-se a recorrência da palavra Moça. Jornal das Moças, Bibliotecas das ditas cujas... E era assim que seguia a vida de minha mãe: costurava, lia M. Dely, não perdia a soirée dos domingos e me dava purgante de óleo de rícino.

Crônica diária (23/01/2019). O Beco da Preguiça na vetusta cidade de Penedo: brincadeiras e outros borogodos

 O Beco da Preguiça na vetusta cidade de Penedo: brincadeiras e outros borogodos

Luiz Sávio de Almeida

O Beco da Preguiça é tão grande quanto pode ser para quem tinha sete anos de idade: uma ladeira imensa e a mais importante de minha vida; a segunda, e por razão diferente, era a que vai do Ginásio Diocesano ao Gabino Besouro, obrigando à curva para entrar na vetusta Rua da Penha.  Quem – acho que deveria ser quens –não devia gostar muito, eram as senhoras que moravam em um sobrado muito bonito, acompanhado pela calçada do Beco em todo seu oitão, justamente o ponto das brincadeiras.  Finissimamente educadas, elas não reclamavam, pelo que eu me lembre.  Aquela calçada como tantas outras era extensão da infância em Penedo: existiam os meninos de calçada.

Na calçada se conversava de tudo e uma das brincadeiras era a da coleção e troca de notas de cigarro, catadas na rua. Cada embalagem de cigarro tinha um determinado valor  e sinceramente, não sei o que verdadeiramente determinava esta espécie de câmbio inusitado. Sei que as de menor valor correspondia aos cigarros mais baratos e mais fumados; quanto mais rara a nota nas redondezas, mais alto o seu valor e é por isto que me lembro do que se fumava: Astória com ponteira ou não, Continental, Rodeio e o mais comum era tudo o que vinha da Souza Cruz. Algumas fábricas do sul, traziam cigarros como o Lincoln e eram caros, mas o mais caro mesmo era cigarro americano, sempre aparecendo em um vez em quando, Camel e Chesterfield. Foi tão grande a minha intimidade com o Camel e Chesterfield que terminei por começar fumando, nos Estados Unidos o Chester e depois me fixei no Camelo. Eu guardava as notas em carteiras que fazia de papelão e grude; na calçada era a troca pois quem tinha muitas de uma marca procurava passar para a frente. Fico em dúvida se ainda existia o Iolanda: aposto que sim. O Astória do meu tempo, vinha em embalagem amarela e do Continental era azulzinha, com um mapa.

E era assim que a Bolsa Valores da Rua da Penha funcionava, com muitos pregões feitos no Beco da Preguiça. Guardei, por muito tempo, as embalagens até que nas mudanças da família, perdi. Lamento mesmo; seria bom e bonito ficar vendo e recordando.  Tentei recuperar, falando com a Souza Cruz, mas ela não me deu a mínima bola.  Jamais a Souza Cruz iria se incomodar com um tempo de uma criança. Isto não cabe em carteira de cigarro; cabia o meu pulmão que fui muito fumado.
Posso esquecer a Souza Cruz?

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O maravilhoso das ruas que se encantam na memória. Rua da Penha em Penedo, Alagoas


O maravilhoso das ruas que se encantam na memória. Rua da Penha em Penedo, Alagoas



Luiz Sávio de Almeida




A minha geografia pessoal de Penedo tem de ser absolutamente diferente da geografia de outras pessoas, na medida em que ela existe recordando e atribuindo sentimentos e significados. Os lugares são marcos de vida e busca-los no passado, além de ser um exercício maravilhoso, é uma procura de sentido de vida. Neste entendimento desta geografia que atribui significações pessoais a lugares, a gente toma posse de um pedaço da cidade. Assim, a Rua da Penha é uma multiplicidade de situações  e de circunstâncias que somente a consegue inventar e reinventar quem a viveu de uma determinada forma e modo. Eu a vivi ainda usando tamanco de madeira, uma indicação mais distante de tempo que consigo para ela e sua intensidade localiza-se em um pequeno pedaço que vai do Gabino Besouro até o Beco da Preguiça; para cima, em direção à Praça, ela não é propriamente a minha rua, sendo rarefeita e apenas lembrada em situações particulares como almas e passarinhos. Seu limite para quem sobe    – e à direita  – é a bodega do Seu Cazuza e, pela esquerda, a imponência do Beco da Preguiça, aquela ligação com a Rosário Estreita, conforme se dizia por existir a Rosário Larga.
Este é o universo privilegiado de minha Cidade de Penedo, um quase nada dentro daquele território urbano cheio de sobrados e belissimamente repassado por Caroatá, pelo idos do último quarto do século XIX.  Por ali, existe um tempo enganchado e que é o tempo de minha infância e talvez por isto, eu jamais consiga esquece-la  e a carrego em mim; vezes ela está quieta e vezes algo a futuca e então ela volta de alguma forma. E o interessante é que as pessoas das quais me recordo, não aparecem destacadas das relações que tiveram comigo, talvez querendo indicar que são mais eu-mesmo do que elas. É como se eu as utilizasse para lembrar-me de mim e como se fosse impossível ao tempo fugir da marcação das individualidades.  Daí, a mesma rua serem muitas.
Nela, eu tenho o meu próprio patrimônio histórico e recheado, inclusive, de monumentos.  Posso dizê-los: são poucos e basta descer a rua e eles aparecem; subindo, eles não existem, salvo no que vou chamar de minha primeira Penedo.  A minha primeira Penedo foi demarcada pelo Cajueiro Grande; a Rua da Penha é a minha segunda Penedo.  Apois, o primeiro monumento histórico era a Bodega do Seu Cazuza, depois a casa da Dona América, onde morou, também, depois que Dona América ficou viúva,  Dona Virgínia e Seu Pontes, e vai que aparece a casa de Seu Joãozinho; em seguida a de uma menina  de quem não lembro o nome e a quem jamais esqueci, parecendo que a mãe era costureira e vinda da Ilha das Flores. Finalmente, a casa do pai da Dona América e a majestosa Igreja da Penha. Depois – e muito depois, depois mesmo – vinha a casa onde vi o defunto e já estamos vizinhos ao Grupo Escolar Gabino Besouro, ponto de entrada em minha Penha e menos importante do que os pontos de saída que eram a  bodega de seu Cazuza e o Beco da Preguiça.
Era uma rua poética? Posso dizer que sim; jamais a recordo sentindo algum pesar, algum peso puxando de banda e quem sabe se é exatamente por isto, que a seguro em mim como se fosse um saboroso sapoti?  Ela virou poesia e tenho a clara sensação, agora, de que as ruas são escritas, textos e como tal devem ser lidas.  Eu sempre aprendi muito com meu pai e com minha mãe; eram dois aprendizados distintos; com minha mãe eram mais dicas humanas. Uma vez eu estava com um problema sério e fui conversar com ela. Depois de me ouvir, veio a sugestão: “Meu filho, talvez você precise ser feliz com o que é possível!”. Acho que a minha Rua da Penha foi uma das minhas possibilidades.


domingo, 20 de janeiro de 2019

Crônica cotidiana (21/01/2019). As ruas e seus significados


Ao estilo das velhas cadernetas de lembranças: a molecoreba da Rua da Penha no Penedo

Luiz Sávio de Almeida


               E o que posso fazer com a Rua da Penha se ela não me larga, como se tivesse grudado na alma e eu consigo ver de onde e por onde venho a partir dela? Um amigo irmão camarada, como  o do Roberto Carlos e o de Suruagy/Guilherme,  para me fustigar e dizer que eu era um ser paroquial, gritava que eu via o mundo a partir da Capela das Alagoas e portanto eu seria mais um bestão provinciano. Era realmente um irmão que faleceu, de quem sinto saudade até do direitismo dele; suas cinzas foram espalhadas na barra de São Miguel e ainda navegam pelos oceanos, dando a ele multiplicidade e uma invulgar capacidade de tri-ubiquidade. Trata-se de Gildo Marçal Brandão de quem sinto imensa falta.
               Eu fui criado a  bem dizer solto, no meio da rua, correndo desembestado, jogando pelada, jogando barra-bandeira, brincando de mocinho e bandido, embora tivesse em casa um horário rígido. Acordar cedo, tomar o café, fazer o dever da escola, lanchar e brincar. Almoçar, vestir a farda, descer para o Colégio Diocesano, estar nas aulas, voltar e brincar. Depois do jantar podia estar na rua, mas nove horas já estava deitando na cama Patente  no meu quarto, mas, como eu gostava, vez em quando era na cama de vento que eu achava o máximo: aquela espécie de cavalete, a lona pregada. A cama de vento sempre estava ali à disposição e era para onde eu ia quando algum parente chegava lá em casa e ficava no meu quarto.
               Nunca vi acidente, nunca vi grandes encrencas e nem atentado, embora que, vez em quando, saindo do meio do nada, poderia dar umas porradas, especialmente quando era matéria de algum provocador que cuspia no chão e dizia: aqui é sua mãe, ali é a sua: quero ver quem pisa na mãe do outro.  Aí, pegava fogo, mas fora isto, somente as brigas virtuais de bandido contra mocinho. Na verdade e para este traço que escrevo, o que estou chamando de Rua da Penha era um pedaço que ia do Beco da Preguiça, no confronto com a bodega do seu Cazuza, até a Igreja da Penha, bem, abaixo, e na frente de um imenso casarão que foi ao chão, faz muito tempo.  No fundo, são dali que saem as minhas mais fortes recordações e elas deixam claras as peladas, a barra-bandeira, como ficam, também, os olhos de Nossa Senhora da Penha, pintada no teto da Igreja e que ficava nos olhando, fôssemos para onde fôssemos dentro da pequena Igreja.
               A gente seleciona pedaços do mundo para guardar e este pedaço que falei ainda se movimenta em mim, como se eu buscasse minha infância por ter gostado, imensamente do que vivi. Era uma rua estreita, mas tinha um quê de vida àquela época e de maravilha atualmente. Por isto, eu sempre me recordo,  quando penso na Rua da Penha, de uma música de Caetano que se espanta e vê uma coisa tão maravilhosa como a pena do pavão de Christina e tem de dizer: Vixe, Maria Mãe de Deus!
               Talvez eu esteja exagerando, mas nem tanto. A rua tinha menino e muitos chegavam da redondeza; chato era quando minha mãe botava a cabeça na porta; nem precisava dizer nada. Quando a brincadeira era longe, lá para perto da Igreja, ela chegava discreta e de mansinho; eu via e ela voltava abraçada a mim. Aí, era para a cama de vento ou a cama Patente, depois de lavar os pés,  escovar os dentes e pedir a benção. Era deitar e rezar a oração do Anjo da Guarda a quem Deus me confiou e que minha mãe fazia questão que eu rezasse depois de uma Ave Maria e um Pai Nosso.
Meu Anjo da Guarda, meu zeloso protetor que a ti me confiou a Piedade Divina...